Eu no seu lugar

29 Para toda regra, meu mais sincero "dane-se" - Parte I


— Ah, bom dia, heróis! Sentem aí que eu já falo com vocês!

Katsuki procura o tal lugar pra sentar. Olhando ao redor, ele só consegue ver uma zona: mesas de trabalho, maquinários, ferramentas pra todo lado.

— Caralho, Deku, em que merda você foi me enfiar? — ele resmunga, cruzando os braços.

— Eu tenho certeza que vi na última vez em que estive aqui, Kacchan, a Hatsume-san não costuma se livrar de nenhuma invenção dela.

— Percebi mesmo.

— Oi oi! O que posso fazer por vocês hoje? Midoriya-kun, tá precisando de uma calibragem nas botas? Nas luvas? Já sei! Algo como um suporte nos ombros! — a menina esquisitona pula no Deku — Seus ombros são tão largos!

— H-Hatsume-san! Não é pra mim! Hoje é pra Uraraka-san! — ele se contorce todo sob o toque da menina, mais vermelho que um tomate. Tsk, que imbecil!

— O Deku falou que você tem um negócio pra mim.

— Eu… não disse bem isso! Hatsume-san, aquele par de botas que você criou, que parecem patins, eu… lembro de ter visto naquela mesa ali, você… você ainda tem?

— Opa! Aguenta aí que eu já pego. — os dois ficam observando a menina jogar coisas pro ar, eles até desviam de alguns aparelhos. Caralho, Deku! Ele deve ter merda na cabeça pra achar que uma doida dessas pode ajudar em alguma coisa.

Mas quem deve ter mais merda na cabeça é o próprio Katsuki, porque não só ele foi até o quarto do nerd maldito ontem pra pedir ajuda em um plano doente de louco e fazer justiça vigilante porque um pivete esquisito pediu, como ainda concordou que, pra essa merda dar certo, a Gravidade Zero da Ochako tem que estar tinindo, o controle ele até tem, mas falta alguma coisa, e, pro ódio dele, o Deku matou a charada do que falta: poderio ofensivo que não seja caótico como levitar coisas pesadas pra porra e derrubá-las em cima dos outros. Não que não funcione, mas nessa missão, eles têm que ser discretos ao máximo.

Aí o nerd lembrou que tem uma conhecida no Departamento de Suporte que fez umas botas propulsoras e, segundo ele, são perfeitas pra Ochako. E é por isso que ele tá aqui, ele queria ter vindo era com ela, mas ela achou melhor ir treinar com o Cabelo de Ouriço pra ter certeza que manja bem das Explosões. No fim, foi melhor, ele não consegue focar direito quando ela tá por perto. Com o Deku aqui, Katsuki fica com sangue nos olhos, exatamente como precisa estar hoje à noite.

— Servem essas? — a loucona surge com um par de alguma coisa parecida com patins, só que no lugar das rodas, há pequenas almofadas. Na parte de trás, há duas bolas transparentes que parecem tanques. Katsuki ainda não sabe como funciona, mas só consegue pensar uma coisa: que foda! — As almofadas amortecem a queda e enchem de ar pra garantir o equilíbrio quando você tá subindo.

— E os tanques? — ele pergunta, inclinando a cabeça pra olhar melhor.

— São acionados por esse botão aqui. Você pode prender no cinto assim pela lateral, ó. — a louca demonstra, esticando o que parece ser o “cano” que liga os tanques ao botão — O escape é aqui. — É, ele já imaginava que as esferas prateadas embaixo fossem o escapamento — Qualquer combustível funciona: etanol, álcool…

— Nitroglicerina? — ele ergue uma sobrancelha e sorri.

— Opa! Aí sim, hein? Tá pensando grande, Ura-chan! — ela dá um joinha pra ele.

— Hatsume-san, estão finalizadas? Ou é só um protótipo? — o nerd pergunta.

— Finalizadíssima! Só botar no pé e partir pro abraço, tem selo de garantia Hatsume Mei! — ela entrega pra Katsuki, e ele senta no chão pra experimentá-las. Que bizarro, é do tamanho certinho do pé da Ochako. Não só isso, essa porra é rosa e preta como o uniforme horroroso dela.

— Você fez isso aqui pra mim mesmo, não foi? — ele pergunta, levantando-se e ajustando-as nos pés.

— Você não controlar sua trajetória quando tá no ar é super broxante! Aí eu criei esse bebê, nunca te mostrei porque… sei lá, você não vai muito com a minha cara, né? — Ah é? A Ochako nunca falou dessa menina pra ele. Ela é doida e fica olhando com cara de tarada, mas é útil, pelo menos — Uma pena, porque eu acho sua individualidade uma doidêra, e você é uma gracinha, então…

— H-Hatsume-san! — a voz do nerd soa uma oitava mais alta, mas isso não o irrita tanto quanto essas bochechas redondas pegando fogo de vergonha.

— Enfim… quer levar? Pode levar! É seu, flor! — Ela dá uma piscadinha enquanto põe as mãos nos quadris.

— Valeu.

— Obrigado, Hatsume-san! — ele sorri — Vamos indo, K- Uraraka-san, a gente ainda tem aula!

— Ok! Voltem sempre, heróis! Midoriya, qualquer coisa é só chamar! — ela acena animadamente pra ele, que só desvia o olhar e ruboriza.

— Tsk, garota esquisita da porra. — ele resmunga, olhando as botas de todos os ângulos — Acho bom essas botas funcionarem, senão ela é só uma maluca irritante que tava te comendo com os olhos, seu bosta!

— A… A Hatsume-san pode ser um pouco… hã, invasiva às vezes, mas não acho que ela faça por querer, acho que ela nem percebe.

— Tá defendendo ela ainda? Tsk, já entendi porque a Ochako não vai com a cara dela. — Deku maldito, fazendo-o perceber o quanto ela é ciumenta. Por que caralhos ele ainda se importa? Ele e a Ochako já tão praticamente juntos mesmo, que caralhos Katsuki ganha falando essas coisas?

— Kacchan, você… a chama pelo primeiro nome… — ele diz, aparentemente impressionado.

— E o que você tem com isso, seu merda?

— Não, nada, nada! É só que… vocês estão mesmo bem próximos.

— Não tanto quanto você e ela, pode ficar pianinho aí. — o Deku faz um daqueles barulhos estranhos dele de quando toma um susto — É, não vai achando que eu não vi vocês atrás dos dormitórios ontem, eu tô sabendo que ela descobriu. Tsk, me agarrando daquele jeito, você é um cretino, Deku!

— K-Kacchan, não é o que você tá pensando! Eu não… eu jamais faria qualquer coisa assim… com ela no seu corpo! Ou… ou com ela no corpo dela, eu não… eu e a Uraraka-san não… nós não estamos juntos.

— Tsk, por enquanto. — ele revira os olhos. Que caralho, por que ele não consegue calar a boca?

— Eu… eu não sei, nós não conversamos sobre isso a fundo, nós dois estávamos bem… chocados com tudo, mas… cada vez mais tenho certeza que, se eu a aceitar, só trarei problemas pra ela. É complicado, Kacchan, muitos herdeiros do One for All optaram por não se relacionar com ninguém e… aqueles que constituíram família, bem… não terminou muito bem, eu… eu sinto que vou pô-la em perigos que ela não precisa ter que enfrentar, sabe? Eu… eu não sei… O que você faria no meu lugar, Kacchan?

— Porra, se a Ochako se confessasse pra mim?

— N-não ela especificamente. — ele franze o cenho e inclina a cabeça levemente — É só que...eu já sei o que tenho que fazer, mas… não consigo, eu não conseguiria me perdoar se a magoasse, eu…

— Blá blá blá, Deku, eu só escuto você falando o que precisa fazer ou o que deveria acontecer, mas o que caralhos você QUER, seu merda?

— O que… o que eu quero? — ele arregala os olhos — Eu quero… que a Uraraka-san seja feliz, só isso.

Que merda, nisso eles concordam.

— Tá, se é o que você quer, vai atrás disso, porra! Essa sua enrolação é irritante, e adivinha só? Não faz ela feliz! Porra, até o merdinha da turma B tem mais colhões que você, vai se foder, Deku!

Katsuki aperta o passo pra se afastar desse idiota. Que porra, não só eles não tão juntos, como esse maldito continua a enrolando, como caralhos Katsuki vai seguir em frente e esquecer essa… coisa que ele sente por ela se o único cara de quem ela gosta não se apruma e não a aceita de uma vez? Ele tava tão certo de que não tem chance enquanto o Deku estiver na parada, mas porra, não dá nem pra saber se esse desgraçado tá ou não na parada direito, então como Katsuki pode mandar tudo à merda? Como ele pode esquecer tudo isso?

Como ele pode… esquecê-la?

***

— Você tem certeza?

— Lógico! Vocês são loucos de fazerem isso só os dois? Eu posso lutar, posso ajudar a resgatar as crianças, eu sou pau pra toda obra, Uraraka!

— É, eu sei. — ela sorri carinhosamente — Mas Kirishima-kun, você entende as consequências disso, não? É justiça vigilante, é uma violação da nossa licença provisória, você já tem uma advertência por causa daquela vez que foram salvar o Bakugou-kun. A gente sabe que isso vai terminar mal pra gente, mas se pelo menos as crianças estiverem salvas, a gente fica mais tranquilo, eu só… quero ter certeza que você entende o que pode perder se decidir vir com a gente, pode afetar sua permanência na escola, sua carreira de herói, seu namoro com o Kaminari-kun... eu não quero te prejudicar, e tenho certeza que o Bakugou muito menos.

— Vocês são meus amigos e precisam de ajuda, o Denki não ia deixar eu não ajudar vocês, ele… ele mudou muito desde o primeiro ano. Eu não posso deixar vocês dois irem sozinhos, Uraraka, eu não vou ficar parado sabendo que posso ajudar. Não é másculo, entendeu?

Ochako suspira, essa necessidade dela de sempre ser honesta acaba sendo mais um problema do que uma qualidade. Quando ela pediu pra treinar com o Kirishima depois do almoço, ele perguntou porque ela parecia mais agressiva em combate e ela acabou contando que hoje é o dia da ação, não parecia certo esconder isso dele já que ele já sabe de muita coisa, mas talvez fosse o certo, porque agora o ruivo cismou que vai junto. Não que Ochako não aprecie a ajuda, desde quando o Bakugou mostrou a estratégia dele pra hoje, ela sabia que seria muito difícil de funcionar sem reforços de outros heróis, mas também seria bem errado envolver outras pessoas que nada têm a ver com isso e que podem acabar com problemas com a U.A. e com a lei.

E adianta falar tudo isso pro Kirishima? Não adianta.

— Entendi. Obrigada pela ajuda. — ela se curva em agradecimento.

— Tranquilo! — ele dá um joinha pra ela — Então, qual é o plano?

— Ah, acho melhor entrar em detalhes quando o Bakugou-kun chegar, ele disse que ia fazer uma coisa antes, mas que ia me encontrar aqui na academia.

— Entendi. Ele te avisou que vinha acompanhado?

— Hã? — ela olha pra onde o ruivo aponta. Entrando na academia, não estão vindo só a suposta Uraraka, mas também o verdadeiro e único Deku.

Ah não, o Bakugou sabe que ela sabe que o Deku sabe… espera, como é? Não, é isso mesmo. Ele sabe que ela descobriu, mas o estranho mesmo é o Bakugou ter escondido isso, o Deku disse que foi pra “proteger os sentimentos dela”, e vindo dele, isso faz todo sentido, mas do Bakugou? O Bakugou se importando com os sentimentos dela… não é algo tão impensável quanto seria há um mês, mas ainda é estranho, e faz Ochako se sentir estranha, estranha de um jeito bom. Como na hora em que ele a abraçou ontem. Ela ficou tão perdida que não conseguiu falar nada do que tinha planejado dizer pra ele.

— Ah, Kirishima-kun! O que você…? Você ainda tá aqui, achei que a essa hora você estaria ocupado com o Kaminari-kun. — o Bakugou parece surpreso em ver o Kirishima e finge da melhor maneira que consegue.

— Bakugou-kun, ele sabe. — ela diz no tom mais sério possível, tentando não rir da carinha envergonhada dele, até que ele solta um longo e exasperado suspiro.

— Eu devia ter imaginado quando você grudou em mim depois da prova, não sei como não abriu essa boca enorme pra aquele outro idiota do Pikachu.

— Awww, eu também tava com saudade de você, bro! — ele sorri e coça a cabeça — Você nunca esteve mais fofinho, Bakugou-chan, acho assim, que esse visual combina muito com você!

— Vai se foder! Como caralhos você descobriu, seu Cabelo de Merda?

— Eu contei pra ele, Bakugou-kun. — ela diz mecanicamente.

— Você o quê?! Ficou maluca?! Tava nas nossas regras que não era pra contar! Eu sabia que você não ia conseguir ficar de boca fechada, Cara de Lua, eu sabia!!! — ele praticamente voa pra ficar frente a frente com ela, azar o dele que Ochako já tem resposta pronta.

— Você perdeu o direito de me criticar depois que contou pro Deku-kun!

— Não é a mesma coisa! Eu contei porque o idiota aí tava achando que tinha um invasor de mentes usando seu corpo pra me seduzir!

— Pra te… pra te seduzir?! — ela arregala os olhos e recua — Mas isso… não tem nada a ver! Que plano horrível!

— Fala isso pro Deku ao invés de ficar brigando comigo!

— Você que começou a brigar! E eu não tô brigando!

— Tá sim, porra! — eles se encaram com dentes cerrados, crescendo um pra cima do outro. Faz tempo que eles não brigam de verdade, e Ochako não gosta de como ele consegue tirá-la do sério de um jeito que mais ninguém consegue, mas… de certa forma, um Bakugou que grita e dá piti é um Bakugou muito mais familiar que um que a abraça pra confortá-la e faz o coração dela falhar uma batida.

— Aí Midoriya, tu trouxe pipoca? Isso aqui é a coisa mais engraçada e assustadora que eu já vi! — o Kirishima assobia.

— Só você mesmo, Kirishima-kun… — o Deku dá uma risadinha sem-graça, e só aí ela se toca que tá berrando na academia quando eles deveriam estar discutindo o que vão fazer sobre hoje à noite, o que a leva a…

— Deku-kun, você… também vai ajudar?

— Ah, sim, eu… eu estou ciente dos riscos, Uraraka-san, por isso não posso deixar vocês se arriscarem tanto sozinhos. O plano de vocês é bom-

— Lógico que é, porra! Fui eu quem montei. — o Bakugou intervém.

— ... mas vocês precisam de apoio, e eu tô aqui pra isso… e acredito que o Kirishima-kun também?

— Opa! Pode crer! — ele dá um joinha e a puxa pelo ombro, fazendo-a corar — Epa, foi mal, Uraraka… força do hábito!

— Você é um idiota, Kirishima. — o Bakugou resmunga — Então tá, crianças, chega de perder tempo, vamo falar do que interessa!

Depois do fim das aulas da tarde, Ochako caminha rumo aos dormitórios, ela precisa começar a se organizar pra hoje à noite. O uniforme do Bakugou já foi separado, facilita muito que eles têm autorização em ter os uniformes de heróis em mãos ao invés de terem que solicitar sempre que precisem usá-lo, uma das vantagens de estar no segundo ano, mas ela sente que esse privilégio pode ser removido depois de hoje à noite.

Sozinha no elevador, ela pensa o quê de pior pode acontecer. Expulsão? O lado mais pessimista dela quer acreditar que sim, mas sua intuição diz que não, pelo menos não o Bakugou, ele é um aluno valioso demais e a U.A. só tem a perder sem ele. Ela acredita que o pior mesmo é perder a Licença Provisória, o que atrapalharia bastante pra eles conseguirem estágios depois das férias de verão, fora a mancha que fica no currículo escolar. Não, o pior mesmo é algo ruim acontecer a eles, é um plano arriscado demais, mesmo com apoio do Deku e do Kirishima. Um pensamento sombrio passa por sua cabeça: se um deles se machucar gravemente ou… coisa pior, o outro está condenado a ficar em um corpo que não é seu até o fim de sua vida.

— Boa noite, Bakugou-kun. — ela é trazida de volta por uma voz bem familiar e nesse momento, absolutamente reconfortante, e Ochako quer responder com entusiasmo, perguntar como tão as coisas, pedir desculpas por ser uma amiga tão ruim, mas tudo que ela pode dizer é:

— Tsk, não enche, Quatro-Olhos.

— Com o mesmo humor de sempre, percebo. — ele ajusta os óculos enquanto as portas do elevador se fecham — Bakugou-kun, apenas para constar, eu… gostaria de informá-lo que tenho mantido contato com a Utsushimi-san.

— É? — Ochako segura um sorriso — E daí?

— Bom, só quero garantir que não haja ressentimentos entre nós nesse sentido, uma vez que ela o acompanhou no aniversário do Midoriya-kun. Nós dois somos jovens senhores maduros o bastante para não criar conflitos em âmbito pessoal, embora eu esteja ciente de que você não esteja interessado na Utsushimi-san.

— Tá bom. Faz o que você quiser, Quatro-Olhos. — Ochako quase morde a língua pra segurar a vontade de perguntar se eles tão se dando bem.

— Também… é de meu conhecimento que você está interessado na Uraraka-kun. — Ah, tava demorando!

— Tsk, todo mundo fala nessa merda, vocês… vocês tão vendo o que querem ver.

— Receio em discordar, mas a aproximação de vocês é notável e cada vez mais crescente. Não deixarei minha maior afinidade com o Midoriya-kun tornar-me arbitrário, Bakugou-kun, confio na Uraraka-kun para manejar a situação com a maturidade e gentileza que lhe são características, só peço que você apresente o mesmo nível de maturidade e seja respeitoso independente de qual seja a decisão dela no final. Dito isso, se a Uraraka-kun optar por você, saiba que voto para que sejam felizes, acima de tudo. Ela é… uma pessoa que estimo muito.

— Você confia mesmo nela, né? — Ochako pisca sem parar pra afastar as lágrimas.

— De maneira absoluta. — ele confirma, e a porta do elevador se abre — Se me dá licença.

— Quatro-Olhos, espera aí um pouquinho!

— Sim? — ele praticamente congela quando Ochako se lança e o abraça, ela sabe que é errado e o Bakugou surtaria se visse isso, mas… honestamente, que se dane, ela precisa de um abraço do melhor amigo pra juntar forças e fazer uma loucura que ele nunca aprovaria, e uma pena que o Bakugou não tenha o hábito de abraçar pessoas, com a altura e a envergadura dos braços dele, é tão mais fácil! Ochako nunca conseguiu alcançar os ombros do Iida assim. — B-Bakugou-kun? O que significa isso…?

— Tsk, bem que a Uraraka tinha razão, seu abraço é bom pra porra.

— Ela… perdão, eu não… hã… — ela o solta, percebendo que o sistema operacional que roda na cabeça dele parou de funcionar, e é tão difícil não rir.

— Boa sorte com a Camie. Agora some daqui! — ela o empurra pra fora do elevador, ainda sorrindo quando as portas se fecham.

Ochako sabe que em poucas horas, ela estará ferrada! Mas pelo menos esse arrependimento ela não tem! E sabe… o Iida não tem do que reclamar, o abraço dele é realmente excelente.

Mas o do Bakugou não deixa nada a desejar.

***

Escapar do prédio da U.A. e pegar o metrô até que foi tranquilo. Ela odeia ter que usar capuz e esconder a maleta com o uniforme de Dynamight na mochila porque só a faz se sentir ainda mais criminosa sobre tudo isso, mas não poderia ser diferente. Essas crianças precisam ser resgatadas, não há troca de corpos, omissão de autoridades e burocracia quanto à licença heroica que mudem isso.

Alguma coisa tem que ser feita, ela pode fazer algo junto do Bakugou e com o reforço mais que bem-vindo do Deku e do Kirishima, o garotinho tão grato com o salvamento a ponto de ajudá-los a destrocar é um bônus a essa altura.

Uma vez vestida com o uniforme chamativo e intimidador do Bakugou, os quatro se reúnem no alto de um contêiner. De acordo com as informações fornecidas pelo Shoji, a base da organização é bem próxima, a paisagem noturna do porto iluminado por nada mais que o luar é tão fascinante quanto macabra, e os óculos de visão noturna do Kirishima se mostram úteis para apontar uma movimentação suspeita próximo a um galpão em frente às docas. Minutos depois, faróis de um veículo iluminam parte do chão: a van que eles viram no vídeo.

— É com você, Kirishima. — o Bakugou anuncia, não que fosse necessário, porque o ruivo nem deve tê-lo ouvido ao saltar do alto do contêiner, em direção ao teto da van — Se liga, Deku, o galpão deles é umas três vezes maior que os outros, os pivetes devem estar escondidos na parte mais alta, mas não tem como ter certeza, então você vai ter que olhar na porra toda.

— Certo. Baseado na configuração do galpão e em como a organização havia estruturado o esquema na sede anterior, eu acho seguro presumir que as crianças estejam escondidas, mas de modo que tenham fácil acesso para lutar contra invasores. De todo jeito, a maneira mais certa para eu invadir é por cima. — o Deku leva a mão ao queixo, pensativo.

— Isso é óbvio, você vai por cima enquanto eu e a Ochako entramos pela frente. — o Bakugou revira os olhos — Posso confiar que você vai salvar os pivetes ou preciso ir atrás de você?

— Pode confiar em mim, Kacchan! Aaargh, quer dizer… Dynamight! Ou… tecnicamente, hã… Uravity! Conto com vocês!

— Contamos com você, Deku! Obrigada por nos ajudar.

— Não tem nada que agradecer, espero que a gente possa resolver tudo sem muitos danos. Boa sorte!

— Pra você também! — ela sorri e acena quando ele parte, pulando por entre os contêineres rumo ao alvo — E o resto é com a gente! Tá pronto?

— Quando é que eu não tô pronto? — ele sorri enquanto estala os dedos.

— Vamo nessa, porra! — os dois arregalam os olhos quando dizem isso ao mesmo tempo.

Essa parte do plano é uma das mais simples. Vasicamente, é esperar que alguém saia, seguindo ordens de verificar o que aconteceu com a van — que, tomara, já tenha sido abatida pelo Kirishima — os encarregados, dois homens previsivelmente altos e parrudos saem com lanternas em mãos.

— Deixa esses aí comigo! — ele retira o capacete e empurra nas mãos dela.

O Bakugou se lança pra cima de um deles na voadora, o outro homem não parece nem um pouco surpreso, já partindo para cima dele, mas o garoto explosivo preso em um corpo não tão explosivo já tá preparado, erguendo-se com agilidade para distribuir socos, o homem ativa sua individualidade, aparentemente semelhante à do Kirishima a julgar pelo modo como os punhos dele parecem se transformar em pedras, acertando o Bakugou com um nada agradável soco na barriga, mas ele não se abala, e não dá pra ter certeza nesse escuro, mas Ochako acha que ele está sorrindo, provavelmente está ao agarrar a mão do homem com os cinco dedos, fazendo-o levitar. O outro cara se levanta, recuperado do chute que tomou na cara, e surpreende o Bakugou ao agarrá-lo por trás, ativando sua individualidade, seus dedos se tornam cordas, prendendo e imobilizando-o.

— Não tá um pouco tarde pra você estar acordada, garotinha? — o homem debocha.

— É pra você que tá tarde, mas ugh, pode ficar pianinho aí que eu já te ponho pra dormir, seu porra! — agitando os ombros e se contorcendo, ele ergue o pescoço e acerta uma cabeçada no queixo do homem que, sentindo o golpe, vacila para trás, o que é o suficiente para o Bakugou pisar no pé dele, livrando um braço das amarras e levando esse braço a uma cotovelada no nariz do adversário. Ele se livra quase que completamente, acertando um chute no peito do homem e finalmente se separando das cordas — E eu não esqueci do seu amiguinho!

Bakugou o agarra pelas pernas, ativando a Gravidade Zero para deixar o homem tão leve quanto uma nuvem, jogando-o na direção do outro cara, os dois trombam no ar, espatifando-se no chão com um sonoro “Bam!” quando a gravidade é trazida de volta.

Com o primeiro obstáculo removido, Ochako explode a fechadura do grande portão principal do galpão e mete o pé nela, forçando a entrada. Os dois avançam pela instalação que se mostra ainda maior no lado de dentro.

— Pega o máximo de bandido que você conseguir! Eu vou por aqui pra encontrar o Deku, o Kirishima já deve tá chegando pra te dar cobertura! Pode ir com tudo, não tem mais nada pra você aprender com minha individualidade. Agora ou dá ou desce, Ochako!

— Certo! Vamos sair dessa do mesmo jeito que a gente entrou, Katsuki-kun! — ela sorri e dá um joinha, sentindo que deveria falar mais alguma coisa, mas… o quê?

“Eu acho que me apaixonei por você.”

Hã? De onde veio isso e por que agora? Ah não… não não não! Ochako sequer olha pro rosto dele pra ver qual foi a reação dele por ter sido chamado pelo primeiro nome. O que ela espera ver exatamente? Um rubor? Um sorriso? Para de ser boba, Ochako!

Ela investe por um corredor lateral, nem um pouco surpresa ao encontrar mais “seguranças”, já era esperado que a presença deles já houvesse sido notada devido à falta de discrição na entrada, mas ela não tem tempo pra nenhum desses brutamontes correndo em sua direção. Ochako usa as explosões para se projetar pra cima, pulando pra longe desses homens. Antes de cair, ela ainda lança uma granada para desnorteá-los.

Avançando pelo perímetro, ela entra em uma das salas de depósito, deparando-se com uma mulher trajando jaleco. Atrás dela, há computadores, telas pretas com letras verdes brilham freneticamente.

— Ah, se vocês heróis soubessem o quanto é cansativo transferir todos esses dados toda vez que vocês resolvem se meter onde não foram chamados…

— Vira pra mim, senhorita! — ela estica um braço em posição de explodir, recuando quando a mulher se vira para revelar estar segurando um menininho em um braço. No outro, uma seringa apontada para a garganta dele.

— Eu tomaria bastante cuidado se fosse você, herói, a gente não quer machucar uma criança inocente, certo? Tenha a gentileza de dar meia-volta e sair daqui. — Ochako recua, os olhos fixos no olhar apavorado da criança que não deve ter mais de quatro anos de idade.

Respirando fundo, ela estica os braços novamente, a mulher parece perplexa por um segundo, mas logo devolve a determinação no olhar, aproximando a seringa do garoto. Pro azar dela, Ochako passou muitos começos de tarde com o Bakugou ensinando-a a tornar as explosões em um raio cirúrgico de tão preciso.

— AP Shot! — ela anuncia, atirando a seringa pra longe e acertando as pontas dos dedos da mulher, que solta o garotinho.

— Aaaargh, seu… Takada, dê um jeito nesse moleque! — ela ordena, se encolhendo de dor.

— Você não tem que fazer isso, Takada-kun, eu não sou seu inimigo, eu tô aqui pra te ajudar. — Ochako ergue as mãos novamente, mas dessa vez não é pra detonar nada, apenas para acalmar o garoto de olhos enormes e assustados.

— AGORA! OU VOCÊ NUNCA MAIS VAI VER SEUS PAIS!

O garotinho treme, é possível ver o coração dele acelerado por debaixo de seu avental, ela sabe que ele não quer fazer isso, e tudo bem, ela também não quer lutar contra uma criança, mas ele não lhe dá opção a não ser se proteger com uma explosão após objetos cortantes parecidos com cacos de vidro serem atirados em sua direção, um deles chega a atingir alguns fios desses cabelos loiros e continuam vindo enquanto ela se defende com pequenas explosões e com as próprias granadas nos braços. Ochako se arremessa para cima com pequenos disparos, pegando impulso com as pernas para se jogar por sobre o garoto e pegá-lo pela cintura.

— Eu não vou te machucar, por favor, sai daqui, a gente vai salvar você e seus amigos, tá bom? Agora corre e se esconde, Takada-kun! — ela o empurra com um pouco mais de brutalidade do que gostaria, mas antes que Ochako possa pedir desculpas, é forçada a se virar e puxar a mulher pelo braço, já que ela planejava acertá-la com um teclado na cabeça.

Ela a imobiliza com um joelho contra suas costas, uma mão prensando a da mulher contra o chão, forçando-a a largar a seringa.

— Quantos de vocês trabalham aqui? Eu não vou perguntar outra vez!

— Claro que não vai, porque você vai estar morto! — Ochako é tomada por uma dor pungente na parte lateral da coxa: um dos cacos de vidro que o garotinho criou, fincado em sua perna. Ela urra de dor, perdendo o equilíbrio por um segundo, o que acaba sendo uma chance ótima para a mulher se soltar.

Erguendo-se com certa dificuldade, ela desvia de todos os ataques da mulher, armada de uma seringa novamente, deve ser a individualidade dela. Ochako pula contra ela em um gesto desesperado, a perna latejando de dor, e é difícil manter o peso desse corpo dessa maneira, o que permite que a mulher consiga virá-la, ficando por cima, o joelho forçando a perna mais para baixo, empurrando o caco de vidro mais fundo.

Mas esse se mostra um problema bem menor, pois agora a seringa que traz sabe-se lá qual líquido letal está apontada diretamente para sua garganta, ou melhor, a do Bakugou. O que ela faz? Explodir os braços dessa mulher? Ela não pode ficar inconsciente pois Ochako precisa interrogá-la, ela precisa…

O rosto da mulher de repente é coberto por um tipo de rede, o que a lança para trás, para longe dela. A seringa cai em algum lugar acima de sua cabeça, mas antes que Ochako possa pegar, uma mão feminina faz isso por ela.

— Você consegue se levantar? — e ela fica tão chocada ao ver essa figura armada de um tipo de arpão e uma expressão tão séria que nem consegue se lembrar de qual é o apelido que o Bakugou tem pra ela:

— Yaomomo?!

Notas finais
Meu headcanon é de que a Hatsume é uma bissexual completamente caótica. Agora o que não é hc, mas é muito canon, é que a Momo é uma deusa. Ah, e só pra vocês saberem, as botas da Ochako são inspiradas na capa do cap 169 do mangá. Olha: https://myheroacademia.fandom.com/wiki/Chapter_169 Estamos oficialmente no penúltimo arco! Espero que esteja curtindo a história, até mais!