Eu não sou um brinquedo quebrado
2 Capítulo 2 - Ninguém se importa
Notas iniciais

Demorou mais uns dois dias até que Ikki voltasse para a escola. Ele não tivera coragem de sair de casa com medo de encontrar o seu antigo mestre.
Não que ele fosse admitir isso para alguém, é claro. Não admitia nem para si mesmo.
Para todos os efeitos, ele estava doente.
Quando ligaram para Saori avisando das suas faltas, ele só disse que não se sentia bem, e que não iria a um hospital porque tinha muita gente. Ela não estranhou. Não era a primeira vez que fazia isso.
Tinha encontrado os lençóis ensanguentados na máquina de lavar, juntamente com uma toalha e seu outro pijama. Tinha certeza que ele o tinha deixado lá para tortura-lo, para deixar claro que poderia voltar sempre que quisesse.
Ou talvez ele só estivesse ficando louco de vez.
Mas Ikki estava decidido a não se deixar controlar. Ele não era mais uma criança indefesa numa ilha isolada com um doido.
— Segurança em números – pensou ao ir para a escola.
Quando chegou à escola, foi surpreendido por Sendoh que o abraçou assim que o viu.
Ele ficou sem reação e sentiu seu rosto corando.
A única pessoa que o abraçara, fora o irmão, tinha sido a Esmeralda, e ela só o tinha feito porque gostava dele. Mas o Sendoh era só um quase amigo, não é?
— Eu fiquei preocupado – Sendoh disse quando se afastou e segurou o rosto do menor entre suas mãos – Como você está? – perguntou aflito – Está melhor?
Ele parecia tão preocupado. Ikki sentiu seu coração bater mais rápido. Estava sem graça. Tinha certeza de que seu rosto estava pegando fogo.
Queria dizer que na verdade estava morrendo de medo que o fantasma do seu finado mestre voltasse e abusasse outra vez de sua pessoa, deixando seu traseiro latejando juntamente com as evidências de toda violência em sua máquina de lavar. Mas ele sabia que qualquer comentário desse tipo só resultaria numa passagem só de ida para o manicômio mais próximo.
— Estou ótimo – ele se limitou a responder.
— Tem certeza? Você está meio quente – Sendoh comentou ao encostar a mão em sua testa.
— Já disse que estou bem – ele ralhou sem paciência e afastou as mãos do outro de si e continuou o caminho para a sala de aula.
Sendoh só o olhou de longe e sorriu. Tinha percebido como o outro ficou vermelho quando encostou sua mão em sua testa.
Ele era tão tímido, e isso era muito fofo. Nem todo o mau humor do mundo poderia esconder tanta fofura. Ele só não conseguia entender como só ele via aquilo.
Ele colocou as mãos nos bolsos e foi assoviando até a sala de aula. Estava um lindo dia.
Ele passou o restante do dia perturbando Ikki na sala de aula. Ora ele jogava bolinhas de papel, ora simplesmente assoprava sua orelha. Fez isso durante horas.
Até que e o outro não aguentou mais.
— Será que dá pra parar?! – Ikki gritou ao se esquecer momentaneamente que não estava sozinhos.
— Sr. Amamiya – o professor chamou-lhe atenção – Já para o corredor.
— Mas foi ele que começou – Ikki ainda tentou se defender.
— Não vou me repetir, Sr. Amamiya – o professor falou resoluto.
Sendoh começou a rir escandalosamente. A expressão indignada de Ikki era a melhor.
— O senhor também, Sr. Sendoh – o professor resmungou e ao contrário do outro que saiu contrariado, Sendoh estava mais do que feliz em sair da sala, mesmo que isso significasse segurar um balde cheio de água do lado de fora da sala.
— Odeio você – Ikki resmungou. Boa parte do seu corpo doía ainda e tudo que ele menos precisava era ficar com os braços doendo também, fora que estava perdendo aula.
— Que chato – Sendoh fez um beicinho – Eu te amo – fez cara de cachorro sem dono.
Ikki só o olhou estranho e depois revirou os olhos.
— Cala a boca – resmungou.
Não adiantava. Mesmo falando na cara, era como se o outro não o visse. Ele simplesmente não acreditava em suas intenções. Sequer as percebia.
— Quer sair comigo? – ele perguntou do nada. Quem sabe fora dali, o outro conseguisse levá-lo à sério.
— Por que eu sairia com você? – Ikki pensou em voz alta – E por que você quer sair comigo? — ele disse em voz baixa, mas o outro o escutou. E ver o quão baixa a autoestima do outro era o deixou triste.
— Vai ser divertido – ele prometeu e o outro pareceu não acreditar muito – Fora que você me deve. Perdeu o desafio hoje – ele falou e o outro levantou as sobrancelhas surpreso – Por W.O. – ele explicou e o outro revirou os olhos irritado – Você nem apareceu, cara. Isso foi rude.
E assim Akira Sendoh conseguiu o seu primeiro encontro com Ikki Amamiya.
— Por que está me seguindo? Não tem nada melhor para fazer? – Ikki reclamou quando viu o mais alto o seguindo.
— Temos um encontro – Sendoh comentou o óbvio.
— Não hoje. Eu tenho um compromisso agora – Ikki falou e o outro o ignorou e continuou seguindo-o.
Ele resmungou e continuou andando até que chegaram a sua casa.
— Boa tarde, Ikki-chan – uma velhinha que morava no andar debaixo, e estava saindo quando eles entraram, cumprimentou.
Ikki só sorriu e segurou a porta para ela.
— Como você é educado, Ikki-chan – Sendoh falou e apertou as bochechas do outro.
— Sai fora – Ikki reclamou e bateu nas mãos do outro.
Ele abriu a porta do seu apartamento e o outro nem esperou convite e já foi entrando.
— Espera aqui – o mais baixo falou, colocando sua mochila no sofá – Eu vou me arrumar.
Ele pegou a roupa que usaria, uma toalha limpa e foi para o banheiro.
Não demorou muito. Quinze minutos depois já estava fora do banheiro.
Andou até o seu quarto ainda vestindo sua camiseta quando deu de cara com Sendoh. Sendoh, que estava fuçando as fotos do seu mural.
— Quem são? – ele perguntou, ignorando totalmente o fato de que estava invadindo o espaço do outro. Parecia contrariado por alguma coisa – E por que estão te abraçando? – ele fez uma careta.
— Eu me faço a mesma pergunta todos os dias – ele respondeu sinceramente e suspirou – Esse é o Shun, meu irmão caçula – ele disse apontando para um garoto clarinho que estava abraçado com ele.
— Nossa, podia jurar que é uma menina – o jogador de basquete comentou sem pensar, fazendo o outro rir.
— Não fale isso pra ele se o vir algum dia. Quando comentei que ele parecia minha ex-namorada, ele ficou dois meses sem falar comigo – ele riu e o outro fechou o cenho.
Ikki suspirou. Sem o Shun falando com ele logo que ele voltou, ele passou dois meses em total silêncio. Ninguém mais se dava ao trabalho na época.
— Temos que ir. Não posso chegar atrasado.
E então eles saíram.
Andaram uma, duas, três quadras e nem sinal de irem para o metrô, trem ou até mesmo para um ponto de ônibus.
Mas não era longe e logo eles chegaram lá.
— Você sempre faz tudo a pé? – Sendoh estranhou.
— Sim – o mais baixo respondeu surpreendendo o outro.
— Você realmente deveria entrar no time de basquete.
Ikki se limitou a revirar os olhos.
Assim que chegaram, deram de cara com a terapeuta batendo papo com a recepcionista.
— Chegou cedo – ela disse com um sorriso no rosto – E quem é o seu amigo?
— Não é meu amigo – ele respondeu como de hábito – É só um louco que vive me seguindo.
— Não fale assim, Ikki-chan. Isso dói – Sendoh comentou fazendo cara de coitado e colocando a mão no peito. Ikki revirou os olhos e a terapeuta riu – Akira Sendoh. Prazer em conhecê-la – ele disse com um sorriso sedutor dando um beijo em sua mão.
— Tão educado – a terapeuta deu um risinho – Vamos indo, Ikki-chan – ela imitou o outro.
— Não me chame assim – ele reclamou e entrou na sala.
Ele entrou e se jogou na poltrona que sempre usava.
Ela estranhou porque ele tinha a mesma expressão fechada de sempre.
— Então fez um amigo – ela decidiu dar um ponto de partida.
Ele deu de ombros.
— E como foi?
— Ele apareceu – falou sem enrolação – E cresceu como um fungo – tentou explicar.
Ela riu e ele não entendeu o porquê. Sendoh era como um fungo irritante que quando você menos esperava tinha dominado tudo.
— Mas deve ser um bom amigo. Você o trouxe até aqui.
— Ele me seguiu – ele disse sério e ela pareceu preocupada – Disse que queria sair comigo.
E então a terapeuta entendeu tudo. O garoto gostava de Ikki e queria se aproximar, mas Ikki era tão fechado e já tinha, ao que tudo indicava, passado por tanta coisa que nem se dava conta das intenções do outro.
— Ele deve gostar bastante de você – ela comentou para ver a reação dele. E como esperava, foi de total descrença – Não tem como não querer ficar perto de você – ela disse e ele pareceu desconfortável.
Ela viu ele se remexendo na poltrona. Parecia que queria dizer algo, mas não sabia como.
— Você acredita em fantasmas? – ele por fim perguntou.
Ela ficou sem reação. Ele parecia sério.
Sendoh já estava lendo a quarta revista quando Ikki saiu e passou direto por ele. Ele se despediu da recepcionista e foi atrás dele.
— Você é todo meu agora? – ele perguntou quando alcançou o outro.
Ikki parou de andar e o olhou feio. Ele sabia que viria uma resposta grosseira.
— Para sairmos – ele achou melhor explicar, e o outro pareceu se acalmar e consentiu com a cabeça – O que acha de pescar? – ele sugeriu e ficou surpreso quando Ikki aceitou.
Eles foram até sua casa e pegaram tudo que precisavam e passaram o restante do dia lá pescando. Só foram embora quando já estava escuro.
E pela primeira vez, Ikki se sentiu bem ao lado de alguém. Era bom fazer algo que não precisasse falar o tempo todo e ele apreciava toda a calmaria.
No final do dia, Sendoh fez questão de levá-lo até a porta de casa por mais que ele dissesse que não havia a menor necessidade.
— Não seja bobo, é o que se faz depois de um encontro – ele disse.
Mas Ikki não sabia disso. Nunca tivera um encontro.
— Vejo você amanhã – Sendoh disse e deu um beijo em seu rosto antes que ele pudesse se afastar e saiu andando.
Da porta do seu prédio ele podia ver o jogador de basquete andando com as mãos nos bolso da bermuda e assoviando sem nenhuma preocupação.
Ele o invejava. Queria ser assim também.
Suspirou desanimado e começou a subida das escadas. Morava no segundo pavimento.
Abriu a porta e deu de cara com o apartamento escuro e vazio.
— Lar doce lar – murmurou e se jogou no sofá. Nem se deu ao trabalho de acender a luz.
Acordou com o despertador. Seu pescoço estava dolorido. Tinha dormido na sala.
Tomou um banho e se arrumou rapidamente para a escola.
Como sempre ele foi andando, mas estranhou que alguns rapazes pareciam olhá-lo de cima a baixo. Estava acostumado a nunca ser sequer notado.
— Você é o cavaleiro de Fênix? – o mais corajoso deles perguntou ao se aproximar quando ele não pôde atravessar por conta do sinal fechado para pedestres.
— Sim – ele respondeu a contragosto. Odiava ser lembrado por isso.
— Eu falei que era ele – o cara gritou para os amigos que se aproximaram – Me dá um autógrafo – ele o intimou.
— Não – ele negou e atravessou a rua quando o sinal abriu.
— Não fica se achando – o cara reclamou – Deveria tratar melhor os seus fãs – ele estava praticamente gritando no meio da rua.
Ikki o ignorou e o garoto não gostou e o puxou pelo braço.
Tetsuo estava acompanhando Ikki de longe para ver como seria a reação dele quando as pessoas começassem a reconhecê-lo. Estava um pouco inseguro porque verificou alguns dados e viu que Brian tinha mentido, e eles tinham usado um garoto de quinze anos no filme que mais tinha vendido.
O filme “Fênix: a ave mais vadia do Zodíaco” tinha vendido horrores, apesar do nome esdrúxulo, e pelo que tudo indicava o grande público era o de jovens que sequer deveriam ter acesso a esse tipo de material.
Enfim, toda aquela situação era uma bomba relógio prestes a explodir.
Mas o bom era que Ikki parecia ser um garoto calmo e simplesmente ignorou o garoto irritante que o seguia. Ele mudou de ideia quando viu Ikki torcendo o braço do garoto num piscar de olhos quando este o tocou. Ele era violento.
— Merda – ele praguejou e ligou para o sócio.
Ikki chegou à escola de extremo mau humor. Mais pessoas o tinham parado na rua, e ele podia jurar que ouvira uns comentários sacanas sobre sua pessoa.
Suspirou fundo quando chegou ao pátio. Era hora de focar nos estudos.
O pátio como sempre estava cheio, mas dessa vez boa parte das pessoas pareciam olhá-lo.
Ele se sentiu péssimo diante de tantos olhares recriminadores. Ele nem tinha feito nada.
Começou a andar na direção da sua sala, passando pela pequena multidão de alunos fora da aula quando sentiu uma mão apalpando sua bunda. E não foi uma passadinha de mão, a pessoa apertou a sua bunda com gosto.
— Ei! – ele se virou para brigar com a pessoa, mas não tinha como saber quem tinha sido. Muitas pessoas o olhavam rindo.
E ele sentiu outra mão, e depois outra.
Elas só se afastaram quando Sendoh se aproximou e mandou que se afastassem e o deixassem em paz.
Ele ficou feliz pelo cuidado do outro, mas ficou confuso quando o outro simplesmente lhe virou as costas e lhe ignorou o resto do dia.
Não fez nenhum desafio, nem o pentelhou durante a aula. Sequer mencionou o encontro que tiveram no dia anterior. Era como se Ikki simplesmente não existisse mais.
E isso doeu.
— Ganhei e perdi um amigo em um dia. Isso deve ser algum tipo de recorde – Ikki pensou antes de cruzar os braços e deitar a cabeça sobre eles. Quem diria que a aula pudesse ser tão chata sem as interrupções do outro?
As aulas se arrastaram e por mais que não quisesse admitir, Ikki sentia a falta do outro.
— Olha, se eu te fiz alguma coisa é só falar – ele ainda tentou falar com o outro quando os outros alunos se afastaram.
— E por que eu perderia tempo falando com alguém como você? – Sendoh respondeu com um tom ácido.
Ele falou como se Ikki fosse a mais vil das criaturas, e era exatamente assim que o cavaleiro se sentia.
Tinha sido um erro abaixar a guarda e deixar o outro se aproximar. Ele não tinha nada de bom para oferecer, e era só questão de tempo para que o outro tomasse conhecimento desse fato.
Ele abaixou o olhar, não queria que o jogador visse o quão ferido estava. Pegou o seu material e foi embora.
Só queria sair dali e dormir para que as coisas voltassem para o seu lugar.
Mas aquele realmente não era o seu dia, pois assim que saiu da escola deu de cara com Tatsumi, o mordomo de Saori que o odiava desde pequeno.
— Para dentro – ele rosnou assim que o viu e indicou a limusine estacionada na frente da escola.
— Não quero carona, gosto de andar – ele falou. Não gostava daquele careca.
A única resposta que teve foi um tabefe violento que o atingiu em cheio, desequilibrando-o.
O mordomo não demorou a se aproveitar da sua confusão para jogá-lo dentro do carro.
Sentado sozinho no banco de trás, ele colocou a mão no rosto. Ardia. Ele tinha certeza de que deixaria uma marca.
A viagem para a mansão foi rápida.
E vê-la mais de uma vez além da que era obrigado foi uma tortura sem igual. Tinha um mau pressentimento. Nada de bom vinha daquela casa. Só dor.
Assim que o carro parou, ele não deu tempo do mordomo vir arrancá-lo do carro à força, preferiu correr antes e deixa-lo para trás. Ele podia ser grande e musculoso, mas ele era mais ágil.
Correu para a mansão e trancou a porta quando passou. Olhou pelo vidro da porta. O mordomo estava gritando irritado e trancado do lado de fora.
Foi a primeira vez no dia que ele sorriu.
— Espero que esteja se divertindo – Saori comentou fazendo Ikki se virar.
Ela estava séria. Alguma coisa tinha acontecido.
— Shun está bem? – ele quis se certificar e a seguiu para o escritório.
Quando passou viu alguns dos seus meios-irmãos que o olhavam com nojo.
— Seu moleque maldito! – Tatsumi veio vociferando depois de ter que dar a volta e entrar pelos fundos.
— Está ficando velho – ele comentou provocando ainda mais a ira do outro.
— Quero ver se ainda vai ficar com esse sorrisinho convencido depois que a senhorita falar com você – ele disse com uma voz maldosa, fazendo Ikki franzir o cenho. Não tinha ideia a que ele se referia.
— Chega, Tatsumi- ela ordenou e o mordomo se calou – Sente-se, Ikki – ela disse com sua voz imponente.
Ele entrou e viu que Shun estava lá com os olhos marejados. Seiya, Shiryu e Hyoga estavam ao lado dele e também lhe davam olhares estranhos.
Ela começou a falar quando viu que ele continuava em pé e não tinha intenção nenhuma de se sentar.
— Hoje chegou às minhas mãos esse vídeo – ela disse, colocando um DVD em cima da mesa – E gostaria de saber do que se trata.
Ikki a olhou confuso e ficou na dúvida se ela estava falando sério.
— Já tentou assistir? – ele sugeriu e ganhou um cascudo do mordomo.
— Deixe de ser engraçadinho, seu promíscuo – o velho careca ralhou depois de agredi-lo.
E aquilo o deixou irritado. Ninguém na sala levantou um dedo para impedir a agressão. Era como se do dia para noite, ele merecesse esse tipo de tratamento.
O que era totalmente contraditório, já que nos últimos meses, Saori vinha tentando aproximá-los para que pudessem ser realmente uma família.
— Infelizmente eu já assisti a esse vídeo, Ikki. Eu queria só entender o que o levou a participar dele – ela disse parecendo cansada.
— Eu não participei de vídeo algum, sua maluca – ele deixou escapar antes que pudesse escolher melhor as palavras.
— Olha como fala com a Saori, Ikki – Seiya ralhou com ele.
— Só diga a verdade, Ikki. Nós sabemos que você passou por muita coisa já e que tem problemas. Nós podemos te ajudar, é só falar – Shiryu tentou acalmar os ânimos.
— Eu não tenho problemas – Ikki negou avidamente. Não estava gostando do rumo daquela conversa.
— É claro que tem e você sabe disso! Não gosta de muita gente, não sabe se relacionar com ninguém, sequer gosta da sua família – Hyoga disse friamente e como sempre foi direto ao ponto – Você tem um comportamento destrutivo.
— Cala a boca, Pato – ele retrucou ofendendo o outro.
Hyoga sorriu vitorioso quando viu que ele tentava atingi-lo com o nome pejorativo de sua constelação.
— Tatsumi, coloque o vídeo, por favor – Saori pediu quando viu que a discussão só pioraria dali em diante.
Ele colocou o vídeo e Ikki parou o bate-boca com Hyoga quando se viu na enorme tela do escritório.
Era sem dúvida ele mesmo.
Já tinha visto inúmeras vezes todas as cicatrizes que apareciam em suas costas e lembrava como cada uma delas tinha parado ali.
Aquele era o seu quarto. Sua cama. Seus lençóis manchados de sangue.
Lençóis que ele teve que lavar à mão para tirar as manchas.
— Quem são essas pessoas, Ikki? – ela perguntou quando viu que ele tinha se reconhecido na tela.
— Não faço ideia – ele respondeu sinceramente.
— Mas é um vadio que vai para cama com qualquer um mesmo – Tatsumi resmungou alto o suficiente para que todos ouvissem.
— Tem alguma coisa a dizer sobre o vídeo, Ikki? – Saori perguntou em seguida.
Não adiantaria falar nada, exceto de que agora tudo fazia sentido.
Todos tinham visto aquela porcaria de vídeo.
Todos tinham visto o quão podre ele era.
Ele não estava sendo julgado.
Todos já tinham o condenado.
— Acho que preciso malhar mais – ele disse com um sorrisinho no rosto.
Estava enojado com o vídeo e assustado por ter acontecido em sua casa sem o seu consentimento, mas não deixaria que eles percebessem isso.
— Ora seu – Tatsumi tentou atingir-lhe novamente, mas Seiya e os outros o impediram.
— Esse seu comportamento é inadmissível, Ikki – Saori ralhou com ele. Era duro ter com guardiã uma fedelha emancipada mais nova que ele próprio.
— Para o inferno com todos vocês – Ikki disse ao virar as costas e andar despreocupadamente para fora do escritório.
— Você deveria ser mais grato por tudo que lhe dão e por se importarem – Jabu falou quando o viu saindo do escritório e barrou sua passagem.
Aparentemente, ele e os outros tinham ouvido toda a discussão.
— Você está errado – Ikki retrucou com certa violência, que fez Jabu se afastar – Ninguém se importa – ele pensou para si mesmo enquanto se afastava da mansão com passos largos e decididos.
Fim do cap. 2
Fale com o autor