Eu não sou um brinquedo quebrado

3 Capítulo 3 - Eu gosto de abraços quentinhos


Alguns dias tinham se passado desde que Ikki tinha saído da Mansão e desde então nenhum deles o tinha procurado.

Nem mesmo Shun ligara para saber se ele estava bem ou não.

E isso o deixava deprimido.

Shun e os outros eram a única família que ele tinha, e ter a certeza de que nenhum deles se importava era extremamente desanimador.

Ele parou de ir à terapia. Não tinha nada que ela pudesse falar para fazê-lo se sentir melhor.

Ele suspirou, pegou a mochila no sofá e saiu porta afora.

Quando estava descendo, deu de cara com a senhorinha que morava no pavimento de baixo e que sempre o cumprimentava, mas ela o olhava com asco.

– Garoto depravado – ela lhe ofendeu e entrou em casa fazendo questão de bater a porta em sua cara.

Ele só balançou a cabeça e continuou a andar.

Não estava surpreso de que até ela soubesse. Todo mundo parecia ter assistido o maldito filme.

Não demorou muito para que chegasse à escola. E para variar, foi recebido por seus ávidos fãs.

Com o passar dos dias, a situação na escola só piorou. Os poucos que não tinham visto o filme tiveram tempo de sobra de ver e se atualizar sobre a sua situação.

E sempre que ele andava, cochichos e comentários maldosos o seguiam.

Ninguém se importava se ele podia ouvi-los e se ofenderia.

Ele não era importante.

Era só uma pessoa promíscua e de vida fácil com a qual podiam fazer o que bem entendessem.

Um rapaz certamente pensara assim quando achou que poderia tomar liberdades com a sua pessoa.

A expressão de surpresa dele quando Ikki respondeu com violência na frente de boa parte da escola foi demais.

Ikki ganhou uma suspensão de um dia enquanto o garoto saiu livre. Aparentemente o vídeo tinha chegado às mãos do diretor também.

A escola, que era o seu único refúgio, acabou se tornando uma tortura.

Ele passava o tempo todo mudo e sozinho.

Naquele dia, ele foi incumbido de limpar a sala depois da aula com outro aluno.

O restante da sala protestou alegando que teriam que limpar de novo no dia seguinte.

Ele não retrucou. Nem poderia.

Ele concordava com eles.

Ficou olhando pela janela até que todos fossem embora.

– Se está achando que vou limpar tudo sozinho, está muito enganado – Sendoh reclamou, batendo o balde com água na mesa de Ikki com certa violência.

Um pouco do líquido espirrou no cavaleiro que se levantou.

– Vá embora. Eu faço sozinho – ele disse. Sua voz saiu rouca. Era a primeira vez que falava naquela semana.

E começou a limpar a sala, ignorando a presença do outro.

– Por quê? Marcou algum encontro aqui na sala? – Sendoh alfinetou esperando que o outro se irritasse ou ofendesse.

Ikki nem se deu ao trabalho de responder. Sabia que o outro estava provocando. Respirou fundo e continuou passando o pano na carteira. Mas ouvir tal coisa de quem ele chegou a considerar um amigo doía demais.

– Eu quase acreditei no seu jeito tímido, sabia? – ele continuou e Ikki tentou se focar no que estava fazendo – Mas você é só um vadio que não vale nada – ele constatou e Ikki sentiu os seus olhos queimando.

Ele não era um vadio. Era tudo, menos isso.

Piscou várias vezes e a sensação passou. Respirou fundo e não respondeu nada.

Queria gritar, discutir, ofender e fazer com que o outro se sentisse tão mal quanto ele, mas era melhor não se envolver em outra briga dentro da escola. O diretor deixara claro que não aturaria nenhum problema vindo dele, e ele acabaria sendo expulso.

– E eu ainda caí na sua. Achei que era inocente e que por isso não se tocava de que eu gostava de você – o mais alto riu e Ikki o olhou chocado.

Sendoh gostava dele, como Esmeralda.

Não como um amigo, mas como algo mais.

Ele não entendia como alguém poderia gostar dele. Não havia nada para se gostar ali.

E ele retribuía o sentimento?

Gostava da companhia do outro, por mais que negasse. Sentiu falta nos últimos dias das provocações do outro, e gostou de ir pescar no outro dia.

– E eu fiquei todo feliz quando finalmente consegui te levar para sair – ele falou ainda rindo e se aproximou do outro, invadindo sua bolha pessoal – E mais feliz ainda quando te dei um beijo – ele disse ao abraçar o outro.

Ikki podia sentir a respiração quente do outro no seu pescoço, mas não o afastou nem quando sentiu os braços do outro em volta do seu corpo. Estava carente e ter alguém que se importava perto era bom.

– Tão quente – pensou consigo mesmo ao fechar os olhos e aproveitar a sensação. Era uma boa mudança para quem sempre sentia frio.

– Mas você não liga para isso, não é? – ele ouviu a voz de Sendoh perto de seu ouvido e se arrepiou inteiro. O calor se dissipara.

Queria responder. Precisava responder. Mas não era bom com palavras ou pessoas.

– Você gosta que te usem – Sendoh falou com uma voz rouca.

Fechou os olhos com força. Não era bom com nada.

Sendoh realmente gostava de Ikki. Mas toda aquela história o deixou transtornado.

Ele se sentiu traído, enganado. E todo o seu bem querer se tornou rancor num piscar de olhos.

Apertou o corpo do outro de encontro ao seu.

Sentiu a relutância do outro quando suas mãos começaram a passear livremente por seu corpo, mas ignorou.

Ele finalmente o tinha e isso era tudo que importava.

– Oe, Sendoh! Não vai aparecer no treino de novo? – Uozumi falou assim que entrou na sala, chamando atenção do colega de time – O que está fazendo?! – ele perguntou horrorizado.

Só aí Sendoh do que estava fazendo e se deu conta do estado do outro.

Ele tinha as roupas tortas e marcas pelo pescoço. Marcas que o jogador tinha feito. Ele tremia e não o encarava.

Sendoh deu um passo para trás e Ikki aproveitou para pegar a mochila e sair da sala o mais rápido que pôde.

– Cara, se você trata os seus amigos assim eu não sei se quero ser seu amigo – o gigante comentou olhando-o com reprovação – Não enrole demais. Temos treino – ele falou e saiu.

Sendoh se sentiu péssimo por ter perdido o controle.

– Eu não tinha o direito de ter me aproveitado dele – ele pensou – Pedirei desculpas amanhã.

E voltou a limpar a sala. Era só o que lhe restava a fazer.

No dia seguinte, a carteira de Ikki ficou vazia o dia todo.

– Ele deve ter faltado – pensou consigo mesmo – Será que está doente? – ele se preocupou. Ikki não era de faltar à aula.

Mas isso se repetiu por vários dias.

Decidiu chegar cedo e esperar pelo outro, como costumava fazer quando o desafiava. E no horário habitual, o outro chegou.

Sorriu quando o viu chegando com inúmeros livros nos braços. Era um verdadeiro nerd.

Mas o sorriso sumiu quando ele viu a cor sumir do rosto do outro. Ele parecia assustado.

– Estava esperando por você – o mais alto falou ao se aproximar do cavaleiro.

Reparou que o outro estava péssimo. As olheiras estavam bem mais profundas que o de costume e ele parecia cansado.

– Não tenho te visto ultimamente – tentou puxar conversa e viu o outro estreitando os olhos.

Toda a fragilidade que notou num primeiro instante evaporara. E ali na sua frente estava somente um garoto cínico que lhe encarava com raiva.

– Essa era a ideia – ele rosnou e voltou a andar.

Sendoh o seguiu, achando que estava indo para o mesmo destino e ficou surpreso quando Ikki passou direto pela sala deles e entrou em outra turma no final do corredor.

Ele viu o outro se acomodando numa carteira no fundo da sala e tudo fez sentido. Ikki não estava faltando às aulas. Ele tinha mudado de turma. Mudado de turma para evita-lo.

Suspirou desanimado. Tinha pisado na bola.

Passara os últimos dias pensando no que tinha feito e como tinha agido.

Ficara com ciúmes. Com ciúmes de toda uma vida sem ele.

Roía-se de ciúmes só de pensar em Ikki com outras pessoas.

Mas o fato é, sempre que se lembrava daquele fatídico dia, o que lhe vinha à mente era o como Ikki não correu dele num primeiro instante. E como retribuiu seu abraço antes que ele falasse todas aquelas atrocidades.

Ikki gostava dele.

Se não na mesma intensidade, pelo menos como um amigo.

E apesar de tudo, ele gostava de Ikki. O que ele fez no vídeo não mudava isso.

E ele precisava deixar isso claro para o outro.

Precisava se desculpar. E faria isso.

Ikki podia ter mudado de sala, mas ainda estavam no mesmo colégio.

Quando deu o sinal que indicava o término das aulas, o cavaleiro arrumou vagarosamente o material na mochila.

Não havia motivo para correr e ser empurrado pelos outros na saída. Era melhor esperar todo mundo sair.

Quando terminou, ele se levantou e foi andando em direção à porta.

Barrando o seu caminho, estavam seis garotos.

Eles o olhavam com cobiça.

– É o seguinte: nós não queremos confusão – um deles falou sorrindo de canto.

– Eu duvido muito disso – comentou debochado seguindo os movimentos de todos que agora o rodeavam. Estava cercado – Merda! – pensou.

– É só chupar a gente que deixamos você ir, veadinho – um grandão falou magnânimo e já começou a abrir a braguilha da calça.

– Você que está propondo sexo oral com um cara e eu que sou o veadinho?! – não pôde deixar de comentar surpreso.

– Ora seu – o grandão partiu para cima do cavaleiro e em segundos estava no chão.

– Que tal eu sair daqui agora sem esfregar a cara de vocês no chão antes? – propôs ao pisar na cabeça do grandão.

Em menos de cinco minutos ele estava saindo da sala de aula assoviando. No chão da sala jaziam os seis garotos, todos com o rosto grudado no chão.

– Demorou – Sendoh comentou quando Ikki chegou ao pátio principal que dava para a saída do colégio.

– O que você quer, encosto? –Ikki perguntou rudemente quando chegaram ao portão.

Antes que Sendoh pudesse responder, foram interrompidos por um garoto de cabelos verdes que corria na direção deles.

– Ikki!- Shun falou quando viu o irmão – Estava te esperando – ele sorriu.

Mas o sorriso murchou quando Ikki o encarou sério.

Quando Shun finalmente chegou à sua frente ele suspirou, virou e saiu andando na direção oposta, largando os dois sozinhos na frente da escola.

Shun abaixou a cabeça, desanimado.

– Cadê o Ikki? Falou com ele? – um garoto baixinho e de cabelos curtos e castanhos bem escuros perguntou quando se aproximou de Shun – E quem é esse aí? – ele estranhou ver o rapaz alto ao lado do outro.

E só aí Shun se deu conta do garoto. Parecia envergonhado por não ter notado o rapaz antes.

– Deve ser o amigo que o Ikki falou – Shiryu comentou quando se aproximou deles.

Ele sorria para Sendoh que concordou sem graça, mas feliz por agora ter a certeza de que o outro o considerava pelo menos como um amigo, ou considerava.

– Eu me chamo Sendoh. Akira Sendoh – ele se apresentou e fez uma pequena reverência para eles – E você é o irmão mais novo que se parece com a ex-namorada – ele comentou sem pensar – E eu não devia ter comentado isso – ele riu sem graça e passou a mão na nuca ao ver o garoto estreitar os olhos, claramente irritado.

– Eu sou o Shiryu. Esse é o Seiya – ele disse ao colocar a mão no ombro do mais novo – Aquele é Shun, que você já conhece, e este é o Hyoga. Somos irmãos dele – ele falou e Sendoh arregalou os olhos surpreso.

– Você falou ou não com ele? – Seiya voltou à sua indagação inicial.

– Não tive tempo. Ele saiu andando – Shun se defendeu.

– Rude como sempre – Hyoga resmungou e revirou os olhos.

Sendoh teve a impressão que eles nãos e davam bem.

Shun parecia triste ao olhar na direção que o irmão tinha ido embora.

– Melhor o encontrarmos antes que ele veja por si só – Shiryu comentou e eles começaram a andar na direção da casa de Ikki.

Hyoga o olhou feio quando viu que ele os acompanhava. Sendoh sustentou o olhar.

– Garotinho folgado – pensou e torceu o nariz.

– Obrigado – Shun disse num tom baixo para ele.

– Pelo quê? – sendo perguntou confuso.

– Obrigado por ficar do lado do meu irmão quando mais ninguém ficou– ele agradeceu e voltou a andar.

E Sendoh se sentiu péssimo.

Ele tinha feito tudo, menos isso.

Não demorou muito para que chegassem à casa de Ikki. Ou o que restou dela.

O pequeno apartamento tinha sido invadido.

Todas as fotos, todos os pertences de Ikki tinham sido destruídos. Paredes tinham sido pichadas com ofensas do mesmo teor que ouvia frequentemente por onde passava.

A única coisa que restou foi a armadura de fênix, intacta.

Quando eles chegaram, Ikki ainda estava parado no meio da sala olhando o estrago.

E era justamente isso que tentaram evitar. Tinham ido busca-lo no colégio para levá-lo diretamente para a Mansão. Não tinha a mínima necessidade de ele ver aquilo.

E agora ninguém sabia como agir e o que falar.

E ficaram surpresos quando, dentre todos, Sendoh foi o que tomou a iniciativa.

Viram-no se aproximando de Ikki e o abraçando.

Não puderam deixar de arregalar os olhos. Ninguém abraçava o cavaleiro de fênix.

– Sinto muito – ele disse quando apertou o outro contra si – Eu realmente sinto muito por tudo – ele falou e Ikki sentiu seus olhos queimando novamente. Mas dessa vez não estavam no colégio.

Quando o outro encostou a mão ao seu rosto foi a gota d’água, e ele simplesmente explodiu.

Afastou a mão do outro com um tabefe violento e o socou uma, duas, três vezes até que os irmãos conseguissem tirá-lo de cima do outro.

– Acalme-se, irmão – Shun pediu ao enxugar o seu rosto. Só aí Ikki percebeu que seu rosto estava banhado em lágrimas.

– É melhor você ir – Hyoga dispensou o jogador que se levantava do chão.

À contragosto Sendoh acatou o pedido.

Ikki não teve outra opção senão ir para a Mansão.

E apesar de toda a situação horrível que passava e de parte dos irmãos terem ido busca-lo, sua recepção estava longe de ser calorosa.

Todos os outros ainda o olhavam com um misto de asco e reprovação. E mesmo rodeado de pessoas, ele ainda se sentia extremamente solitário e era raro ouvir sua voz.

Ele passava os dias no automático. Comia, dormia e estudava.

O psiquiatra designado a atendê-lo o diagnosticou com depressão profunda.

E mesmo depois que passou a tomar a medicação indicada, seu estado não mudou muito.

Talvez tenha sido por isso que não se opuseram quando Sendoh apareceu sem ser convidado.

– Vai para o inferno – foi a primeira coisa que Ikki falou quando o viu. A primeira vez que ele reagiu.

– Ele fala! – Sendoh comemorou jogando os braços para cima.

Ele ignorou totalmente a cara feia do outro e se sentou à sua frente na mesa onde o outro estudava e puxou um dos cadernos.

– O que pensa que está fazendo? – Ikki perguntou irritado.

– Você está horrível – Sendoh comentou ao analisar a aparência do outro. Tinha olheiras enormes e fundas, estava pálido e parecia mais magro. Os olhos estavam meio opacos, parecia dopado – Eu queria conversar. Nem consigo falar com você na escola – ele falou quando o outro não respondeu.

– Não temos nada para conversar.

– Mas eu quero me explicar –Sendoh insistiu, chamando atenção do outro.

– Não tem nada para explicar – Ikki respondeu e puxou o caderno que o outro tinha pegado de volta – Vai embora.

– Não vou até que me escute – o outro resmungou e puxou o caderno de volta.

– Você me cansa – Ikki resmungou entediado e saiu andando, deixando o outro para trás.

– Eu sinto muito – Sendoh falou ao seguir o outro – Eu não devia ter feito o que eu fiz – Sendoh continuou quando o outro não parou – Eu fui um babaca, mas eu estava só com ciúmes – continuou, não reparando que estavam atraindo a atenção de toda a família de Ikki.

– Ok, você é uma babaca. Agora cai fora – Ikki revirou os olhos e continuou caminhando.

E aquilo só irritou o mais alto. Ele puxou o cavaleiro pelo braço e praticamente gritou o restante do que queria falar cara a cara.

– Será que dá para tentar prestar atenção? Eu estou dizendo que gosto de você! – Sendoh esbravejou fazendo Ikki arregalar os olhos – Não era bem isso que eu queria falar – ele emendou sem graça com a mão na nuca.

Ikki continuava sem reação e só o olhava.

– O que eu vim dizer é que sinto muito por ter agido daquele jeito horrível. Eu fiquei com ciúmes e isso não justifica nada. Explica, mas não justifica. Foi errado e eu sinto muito – ele falou sinceramente – Eu também pensei muito e não tenho nada com a sua vida. Não tenho o direito de achar ruim um vídeo seu ou o que for. Isso não muda quem você é pra mim – e realmente era assim que ele se sentia. Não gostava da ideia, mas não sentia mais raiva ou o que fosse a respeito – E eu queria realmente que você voltasse para a nossa sala, porque não tenho de quem colar mais e vão me chutar do time de basquete se ficar com notas ruins – ele completou com uma expressão patética que fez o outro esboçar um sorriso pequeno.

– Você não liga de me ver fazendo sexo com dois caras num vídeo? – Ikki perguntou curioso.

– Não – respondeu no ato.

– Não liga de que quase todo mundo que conhecemos e muitos outros estranhos viram esse vídeo? – ele perguntou com um sorrisinho, que dizia que ele estava tudo, menos feliz.

– Não? – ele respondeu meio incerto já. Não gostava da expressão do outro.

– Eu me importo – Ikki disse com a voz séria – E sabe por quê? – ele perguntou ao se aproximar do outro – Porque era eu naquela porcaria de vídeo. Eu com pessoas que nem tenho ideia de quem são e como chegaram ali. Mas alguém sequer cogitou que eu não tivesse sido consultado sobre aquela merda de vídeo? Não! – ele gritou, chocando o outro e os outros que escutavam escondido a conversa dos dois – Mas você se acha o magnânimo porque veio aqui dizer que não liga? Não me faça rir!

Sendoh estava mais do que chocado. Estava horrorizado.

– Eles te forçaram? – o jogador perguntou sem conseguir acreditar no que ouvia.

– É tão difícil de acreditar que eu não seja o vadio que você pensou? – foi a resposta torta que recebeu.

– Isso é horrível – ele falou fazendo uma careta. Estava enjoado.

Mas o outro levou por outro lado.

– Pelo menos esse se deu ao trabalho de colocar os lençóis ensanguentados para lavar. Os outros não foram tão atenciosos assim – Ikki comentou, e Sendoh teve que engolir o vômito que sentiu na garganta.

– Isso já tinha acontecido antes? – ele não conseguiu conter sua curiosidade mórbida.

– Claro que não. Quem seria pego desse jeito mais de uma vez? – Ikki negou com um tom descrente, e Sendoh se sentiu bem idiota por cogitar algo assim – Eu estava bem acordado nas outras vezes – ele comentou num tom maldoso no ouvido do jogador que parecia extremamente nauseado – Acredito que saiba onde é a saída, não é? – ele disse e já ia se virando quando o mais alto o puxou de repente.

E num piscar de olhos, seu corpo era apertado por braços fortes que o seguravam num abraço colossal. Estava tão perto que podia ouvir o batimento cardíaco do outro.

Aqueles braços eram quentes e por um segundo ele quase se deixou levar. Sentiu-se protegido. Mas sabia que aquela sensação era momentânea, pois assim que abaixasse a guarda, seria ferido novamente.

Desvencilhou-se dos braços do outro com rispidez.

– Suma daqui – esbravejou e subiu as escadas, passando por seus irmãos que acompanhavam a discussão, não tão bem escondidos, do pé da escadaria.

Ele entrou no seu novo quarto, que não tinha nada de seu exceto seus materiais da escola, e foi até a janela. De lá pôde ver o jogador se afastando da casa com as mãos nos bolsos.

Suspirou desanimado. Conseguira repelir mais um com sua grossura.

Mas seria melhor que o outro ficasse longe. Ele não tinha nada de bom para oferecer.

Jogou-se no sofá, remanescente da decoração anterior, e dormiu. A cama jazia lá ao lado, vazia e sem uso. Ele ainda se sentia mal dormindo em camas.

Por um milagre, deixaram-no dormir o dia todo e levaram sua comida no quarto, não exigindo que ele participasse do jantar com o resto da família. Talvez tivessem finalmente respeitado sua privacidade, mas Ikki sabia que provavelmente eles só não sabiam como encará-lo depois do que ouviram.

Ele passara de vadio exibicionista e pervertido para adolescente abusado e cheio de traumas em questão de segundos.

– Agora é que nunca me livro dessa maldita terapia – pensou consigo mesmo.

Felizmente só viu brevemente os outros na manhã seguinte quando saíam para a escola.

Shun parecia ser o único que queria conversar, e ele sabia o porquê. Devia se sentir culpado porque sabia onde as outras vezes tinham acontecido. E era por isso que ele nunca tinha falado nada.

Tudo que aconteceu na Ilha da Rainha da Morte foi terrível, mas ele agradecia por ter acontecido com ele e não com o seu irmão querido. Shun não suportaria tudo que ele teve que passar lá.

Mas o que ele poderia falar para aquietar o coração do irmão? Era péssimo nisso. E por isso se limitou a dar um sorriso antes de colocar a mochila nas costas e ir para a porta.

E quando abriu deu de cara com Sendoh que riu da sua expressão desguardada de surpresa.

– Bom dia, Ikki-chan – o jogador cumprimentou e empurrou um saquinho na direção do outro, que pegou por reflexo – Café-da-manhã – ele explicou – Você tá muito magrinho – ele falou e saiu seguindo o outro quando este revirou os olhos, ignorou sua presença e começou a andar para a escola – Bom dia, pessoas que não lembro o nome – Sendoh cumprimentou todos que se espremiam na porta e nas janelas para ver os dois – Cara, seus irmãos são estranhos – ele comentou ao alcançar o outro e colocar as mãos atrás da cabeça. Ainda podia sentir os olhares seguindo-os.

– E eu não sei? – Ikki respondeu. Estava aliviado de que ele não era o único com essa opinião. Não reparou que sem pensar tinha aberto o saco e comia um bolinho.

– Ah, alguém estava com fome – o outro provocou, empurrando seu ombro.

– Vá se catar – ele reclamou e continuou comendo. Estava bom. Muito bom.

Fim do cap. 3