Não foi difícil encontrar a mala correta. Era a mais velha e surrada para não criar suspeitas. Quando abriu o primeiro zíper, Miriam deu de cara com uma enorme quantidade de notas, mas não precisava de todas. Pegou apenas três bolos de cinquenta e saiu de dentro do closet do quarto dos pais.

Guardou a quantia dentro de sua blusa e foi para o corredor tranquilamente. No caminho para o andar debaixo, passou pelo seu quarto e escondeu as notas no fundo da sua bolsa. Depois, sentou-se na mesa para almoçar com a sua mãe como se não tivesse feito nada de errado.

Naquele dia mais cedo, chegou na escola e já ficou caçando Dário pelo pátio. Notou que ele ainda não estava por lá, então voltou ao portão da entrada para esperar o garoto chegar.

— Fiquei esperando você ligar a noite toda! — Ela disse imediatamente ao vê-lo, pulando até mesmo os cumprimentos.

Ao ser abordado, o garoto não respondeu na hora. Apenas puxou-a para o canto do jardim do lado do portão para que pudessem ter mais privacidade e ficar longe da muvuca.

— Desculpa — ele pediu -, é que cheguei muito tarde em casa e não quis te mandar mensagem naquela hora.

— Tudo bem. — Miriam aceitou e já foi logo querendo saber: — Achou o cara?

— Não — Dário já esboçou certa decepção no rosto. — Pedi ajuda pro meu primo e a gente deu muita volta pela cidade. Passamos nos lugares que disse, mas não achei ele.

— Poxa — Miriam resmungou. — Mas será que não é bom continuar procurando? Tipo, hoje, amanhã... Talvez uma hora ele apareça.

— Então. A gente achou uma outra andante que costumava ficar com ele pela rua. Perguntei dele e ela disse que ele tá sumido faz dias. Tipo, semanas. E, pelo que vi, bate com a data da compra. Ele comprou e depois sumiu.

— Deve ter recebido uma grana e vazado — Miriam concluiu. — Mas que merda. E agora? O que a gente faz?

— Não sei — respondeu. — É isso. Torcer pra esse escroto não encher mais nosso saco.

— Mas não pode ficar assim... — Miriam ficou indignada. — Esse maluco é perigoso.

— E o que ele pode fazer? Mandar outra carta no ano que vem? — Dário perguntou.

Miriam pensava apenas na garota morta, então desabafou:

— Mas e a Paloma?

— O que tem ela? — o garoto perguntou sem entender muito bem. Na cabeça dele, a narrativa que fazia sentido era a de latrocínio.

Miriam ia explicar, mas o sinal soou bem na hora. E veio a calhar: ela precisaria de mais informações e mais gente. Então pediu:

— Me encontra no intervalo. Sem falta.

Cumprindo o pedido, lá estava Dário se juntando à Miriam e Larissa, que esperavam sentadas no último degrau da arquibancada da quadra. Alguns garotos usavam o horário do intervalo para jogar e outras pessoas assistiam e conversavam por perto. Miriam arrastou eles para o topo para não serem incomodados e nem ouvidos.

— Tá... — ela começou organizando as ideias na sua cabeça. — Vocês não acham coincidência demais que um segredo sobre a família da Paloma veio à tona depois dela ser assassinada?

— Sobre o pai dela? — Dário perguntou e a garota respondeu que sim.

— Ah — Larissa refletiu. Miriam tinha a chamado por causa do seu conhecimento profundo nas fofocas do caso. E também por um outro motivo que revelaria logo mais. — Acho normal, ué. Começaram uma investigação e depois descobriram mais coisas.

— Surpresa! O pai dela era um pedófilo filho da puta — Dário ironizou.

— Tá, beleza — Miriam tentou mudar a linha de explicação. — Eu concordo. Mas tem uma parada que rolou e mudou minha visão sobre isso.

Larissa se ajeitou sobre o concreto gelado para prestar mais atenção em alerta para a novidade. Assistiu atentamente a amiga tirar um cartão do bolso e entregar para ela. No mesmo momento, Felipe chegou com seu salgado em mãos e sentou ao lado de Miriam, mas ela não se incomodou com a presença do garoto para o que ia mostrar.

— "Vamos brincar de filhinha e papai?" — Larissa leu e desenhou uma cara de dúvida. — "De: Anônimo. Para: Paloma".

— Onde achou isso? — Dário perguntou intrigado. Pegou o cartão da mão de Larissa e começou a analisar minuciosamente.

Miriam pensou em mentir. Não queria ter essa ligação direta com o crime, mas decidiu falar:

— Alguém invadiu a minha casa e deixou em cima da minha cama.

Os três olharam com dúvida para a garota e ficaram em silêncio.

— Isso depois de eu receber o meu próprio cartão — Miriam puxou da bolsa um segundo papel, mas, desta vez, não entregou para ser lido. — E eu senti, não sei explicar direito, como se os dois fossem um recado bem específico: o que aconteceu com a Paloma pode acontecer comigo.

— Então tem alguém querendo brincar de Anônimo de novo, isso? — Felipe perguntou de boca cheia. — Babado.

— Ou pode ser o mesmo Anônimo — Larissa confabulou, brincando — que voltou anos depois pra matar de novo!

— Posso escrever um filme sobre isso — Felipe entrou na piada.

— Gente — Felipe voltou a falar sério -, se for isso mesmo... eu também estou nessa lista.

E foi mais um a retirar um papel preto do bolso, com cautela para não revelar o conteúdo. Então somos cinco, pensou Miriam.

— Mas, peraí, quem pode garantir que a Paloma recebeu mesmo esse bilhete antes de morrer? — Dário questionou. — Pode ser só alguém querendo te assustar. E conseguiu.

— É aí que quero chegar! — Miriam disse com empolgação e virou-se para Larissa — Lari, você disse que conhecia o legista que vazou as informações do corpo da Paloma. Ele pode ajudar a gente.

— Pra saber se tinha algum cartão como esse nas coisas da Paloma? — Dário perguntou tentando completar o raciocínio.

— Isso! Pra ver se o meu cartão é uma réplica do que ela recebeu — Miriam completou.

— Calma, gente — Larissa estava reflexiva. — Pode ser só um babaca querendo assustar vocês! Não quer dizer nada. E outra: conheço o legista sim, posso falar com ele, mas não somos nem colegas direito.

— Molha a mão dele — Felipe deu a ideia descontraidamente, quase como piada, mas os outros três se entreolharam, considerando a possibilidade.

— Se ele pedir — Miriam assumiu -, eu posso arranjar dinheiro.

— Gente — Larissa achou engraçado. — O que é isso? Um filme?

— Pode ter alguém perigoso querendo machucar ou assustar a gente por aí — Dário pediu para ela, sério. — É o único jeito da gente descobrir.

— Tá, tá — ela cedeu. — Posso falar com ele depois da escola.

— Não quero ser morto pelo Anônimo e depois descobrirem o que têm nessa cartinha aqui não, queridos — Felipe pediu. — Não quero ser a nova Valéria.

A chuva torrencial que substituiu o sol quente da manhã já avisou que o clima mudaria durante a tarde até os próximos dias. Aquela água toda acabou atrapalhando Miriam de passar na banca no caminho de volta para casa e garantir a edição do mês da sua revista favorita. Preferiu sair do ônibus e ir direto para o destino final porque já havia se molhado o suficiente no percurso até ali.

No meio da tarde, a queda d'água foi substituída por um vento úmido e gelado que forçou a garota a fechar a sacada enquanto estava concentrada estudando para a prova de biologia. Quando chegou na beirada, ficou olhando lá de cima o portãozinho. Tinha pego mania de conferir, a cada uma hora, se ele realmente estava trancado de verdade.

De volta aos estudos, conseguiu se concentrar por uns quinze minutos até ser interrompida pela mãe, que estava parada e encostada no batente da porta do seu quarto. A mulher encarava a garota com os olhos trêmulos.

— Tá tudo bem? — Miriam quis garantir. Aquele olhar, normalmente, significava momentos de mais instabilidade. Demorou para ser respondida:

— Tá sim.

E sumiu no corredor afundo.

Precisava de pelo menos mais umas três horas de foco para absorver aquele conteúdo todo e ir bem na prova — a matéria não era o seu grande forte. Mas, pelo jeito, o universo conspirava contra a sua atenção no conteúdo. Seu celular vibrou por duas vezes para anunciar novas SMS.

A primeira mensagem era de Larissa, confirmando que o papo como legista tinha dado certo. E que iria precisar do dinheiro. Já a segunda deixou a garota um pouco assustada, mas extremamente curiosa.

"Também recebeu a mensagem?" enviou para Dário e Felipe.

"Recebi. Te vejo lá" Felipe respondeu.

"Sim. Estou indo. Quer me encontrar antes?" Dário pediu.

Miriam pegou a mochila com o dinheiro, vestiu um moletom às pressas e saiu para o ponto de ônibus mais perto.

O local de encontro era uma praça ampla e mais afastada do centro. Parecia ser antiga a julgar pelo tamanho das árvores — extremamente altas, com copas firmes e troncos grossos e com marcas de tempo. Em seu centro, havia um pequeno anfiteatro a céu aberto. De um lado, uma arquibancada em pedra com sete degraus largos em forma elíptica. Do outro, havia uma grande cúpula de concreto branco e muito manchado com a terra vermelha. Tinha um formato esférico cortado ao meio para servir de concha acústica, com um pequeno palco também de concreto no centro.

Miriam encontrou Dário na esquina da quadra anterior da praça e juntos caminharam devagar até lá.

— Quem é essa Windera? — perguntou para ele. — Conhece?

— Já vi por aí — explicou. — É uma aluna de intercâmbio.

— Veio de onde?

— Estados Unidos, acho.

— Isso explica o nome. Quando recebi a mensagem, achei que fosse um nome falso.

— Ela não parece bater muito bem da cabeça — o garoto continuou explicando. — E estuda na mesma escola da Paloma. Acho que eram amigas.

— Amigas o suficiente pra chamar todos nós aqui? — Mirian ficou intrigada.

— Não sei, mas, pelo menos, esperta o suficiente pra perceber essa história toda das cartas, igual a gente.

— Isso sim — Miriam deu o braço a torcer.

— Viu — Dário mudou um pouco sua postura. — Aproveitando que a gente tá aqui e tal... Queria pedir desculpa por aquele dia. Acho que fui babaca por ter te chamado por outro nome.

Miriam até ia responder que estava tudo bem, mas uma movimentação do outro lado da rua chamou sua atenção. Apontou para lá para que Dário também olhasse e disse:

— Falando nela...

Dário ficou sem reação. Até se assustou com a descontração de Miriam pela situação. Os dois olharam Sabrina e seu namorado caminharem em direção ao mesmo destino que eles.

— O que ela tá fazendo aqui? — o garoto emo perguntou preocupado e com receio da resposta.

— Ela recebeu uma carta — Miriam explicou. — Foi a primeira que descobri. Será que o Hélio também?

— Talvez ele só esteja acompanhando ela. Cão de guarda — tinha certo rancor em sua voz.

— Então vamos descobrir.

Apressaram mais os passos e entraram na praça. Viram de longe a arquibancada da concha acústica e encontraram Felipe sentado sozinho no centro do último degrau. Sabrina e Hélio chegaram antes e sentaram na mesma direção, mas mais distantes. Só a garota cumprimentou Felipe enquanto Hélio o ignorou.

Miriam e Dário sentaram ao lado do magricela e a garota pôde sentir uma tensão entre as trocas de olhares entre Dário e Sabrina. Pelo jeito, a questão entre eles era mútua, e não só algo platônico de Dário como ela imaginava.

O concreto ainda estava úmido e o vento gelado. As copas das árvores roçavam incessantemente, fazendo barulho do farfalhar das folhas e galhos sobre todos eles. A praça estava vazia e eles eram os únicos pelas ruas da região.

— Não gosto dessa garota — Felipe comentou baixinho para Miriam enquanto viam Windera se aproximar pelo lado do palco. Era alta, um pouco gorda e tinha cabelos ruivos bem compridos. Com um andar decidido, aproximou-se de todos. Mais de perto deu para perceber os olhos verdes rodeados por sardas.

— Oi, gente — ela disse da parte de baixo da arquibancada. — Valeu por terem vindo, de verdade.

Sua pronúncia do português era surpreendentemente boa, mas ainda dava para perceber certo sotaque, principalmente para pronunciar as palavras com R e L.

— Acho que ainda faltam umas pessoas — refletiu olhando um a um dos presentes. — Vamos esperar, então.

Ela sentou-se de lado no primeiro degrau e ficou quieta. Um silêncio um pouco perturbador dominou o espaço. Miriam olhou para Sabrina e Hélio. Ele estava sério e carrancudo. Já a menina loira parecia nervosa. Sua perna direita não parava de balançar em ansiedade.

Um garoto alto e pardo apareceu de repente na direção atrás do casal. Quando Windera notou sua aproximação e olhou em sua direção, todos os presentes a acompanharam, então ele abaixou um pouco a cabeça em sinal de desconforto com a atenção.

Miriam nunca tinha o visto pela cidade. Mas era realmente bonito: olhos castanhos puxando pro mel, ombros levemente largos e peitos musculosos preenchiam quase todo o espaço da camiseta xadrez. Os cabelos eram cacheados, volumosos e brilhantes.

— Marcos chegou — a estrangeira comentou. — Falta só mais uma.

O recém-chegado se acomodou na mesma altura que os demais, mas mais perto da ponta, próximo do caminho de pedras por onde veio. Enquanto ele se sentava, Miriam se perguntou quem poderia ser a última pessoa para formar os oito.

Outra movimentação rolou, desta vez mais próxima dela, e, quando se deu conta, viu Larissa se reunindo ao lado de Dário. Miriam se esticou para fazerem contato visual e então perguntou aos sussurros:

— O que você tá fazendo aqui?

Pela reação de Larissa já deu para perceber que não estava muito confortável com a situação. Estava acuada, com ombros tensos e o pescoço afundando dentro da pelugem alta do gorro de seu moletom como se quisesse não ser vista por ali.

— Depois a gente se fala — ela pediu no mesmo nível de voz.

— Ok. Aqui têm presente todas as pessoas que receberam a carta preta, até onde sei — Windera disse vindo para mais perto do seu pequeno público da arquibancada. Instantaneamente, todos se entreolharam um pouco confusos. A interlocutora esperou por algum tempo que alguém falasse, mas, depois de alguns segundos de silêncio, continuou: — Chamei todo mundo aqui pra gente, sei lá, compartilhar informações, suspeitas, qualquer coisa que ajude a descobrir quem foi que mandou.

Mais silêncio.

— Ah, qual é! — A garota ruiva reclamou em voz alta — Não vão me dizer que não tão curiosos pra saber quem tá ameaçando vocês?

— Mas que ameaça? — Hélio foi o primeiro da plateia a se manifestar. — Eu recebi uma carta preta, sim. Mas é só uma brincadeira idiota.

— Idiota? — Windera questionou. — Paloma foi assassinada.

— E o que uma coisa tem a ver com a outra? — Sabrina saiu em defesa da mesma ideia do namorado.

— Têm a ver, sim — Larissa se manifestou. Miriam não imaginou que ela fosse entrar naquele ponto da discussão. — A Paloma recebeu uma carta igualzinha à nossa antes de morrer. Um colega meu da polícia confirmou.

Então, no final das contas, a garota tinha conseguido a informação com o legista. Hélio e Sabrina não pareciam se dar por satisfeitos.

— Então acham que só por causa disso a gente vai morrer também? — foi a vez da garota loira reclamar.

— Qual é, o pai dela já foi preso! — seu namorado completou.

— Foi preso por mexer nas provas do crime — Windera conspirou.

— Ele tem álibi pra hora que ela morreu — Marcos completou, cabisbaixo. Parecia não querer encarar os outros com o olhar.

— Gente, calma. Têm um ponto muito importante que tamo deixando passar — Miriam finalmente se manifestou e chamou a atenção de todos, que aguardaram ansiosos pela sua conclusão: — Como esse cara sabe um segredo de todo mundo aqui?

Mesmo o meu segredo não sendo um segredo, Miriam pensou consigo mesma.

— Ou essa mina — Marcos corrigiu.

— Boa pergunta — Windera cedeu e olhou diretamente pro casal que a contestava. — Essa história é muito mal contada pra ser simples. Alguém se empenhou pra saber tudo isso e mandar as cartas pra gente.

— Se sabe quem é todo mundo que recebeu a carta e chamou a gente aqui, deve ter sido você mesma, ué — Dário apontou.

Todos esperavam uma reação defensiva da moça, mas ela arqueou as sobrancelhas ruivas e jogou para a plateia:

— Isso já aconteceu antes. Não tá claro que têm alguém repetindo o que o Anônimo fez anos atrás? O assassinato de Valéria, as cartas com ameaças e tudo mais?

Windera parecia conhecer bem a história para alguém que provavelmente chegou na cidade há pouco tempo. Miriam comparou consigo mesma, pois ela, também recém-chegada, não sabia muito bem dos detalhes.

— Mas agora são mais cartas — Larissa ficou do lado de Windera novamente. — Também não acho que seja uma brincadeira.

Miriam não conseguia entender o comportamento da amiga. Até horas atrás, não sabia que ela também tinha uma carta. Ou havia recebido há pouco tempo, ou estava disfarçando muito bem. De qualquer maneira, naquele momento, parecia estar muito convencida da seriedade do problema. Isso era bom para Miriam porque sua opinião era parecida, mas adotou a estratégia de ficar mais quieta. Até onde sabia, ela era a única que tinha recebido duas cartas. Não queria levantar suspeitas sobre si mesma. Então era bom que Larissa endossasse Windera.

— Então o Anônimo levantou da tumba — Hélio ironizou — vinte anos depois e decidiu matar uma vadia qualquer pra assustar a gente?

— Olha como fala dela, seu filho da puta! — Marcos levantou-se imediatamente e avançou para cima de Hélio. Sabrina, que ficou entre os dois, se abaixou, protegeu com os braços a sua cabeça e logo escorregou para o degrau debaixo para se afastar dos dois garotos que se atracavam desajeitadamente.

Dário levantou rápido, foi até os dois e com certa facilidade conseguiu afastá-los. A briga já estava morna naquele ponto. Hélio apenas se defendia dos tapas desengonçados do outro rapaz. Marcos estava com o rosto encharcado de lágrimas e batia cada vez com menos força. Tropeçou para trás e caiu de bunda no degrau. Enxugou rápido o rosto porque parecia estar com vergonha.

— Não precisa disso, caralho — Dário retrucou encarando os dois enquanto se afastava para voltar ao seu lugar.

Windera revirou os olhos.

— Nem parece que já foram melhores amigos — Felipe cochichou para Miriam e Larissa.

No final, Hélio pareceu entender. Também avançaria no cara que falasse aquilo da sua namorada, principalmente se ela já estivesse morta. Mas também não se desculpou. Apenas ficou olhando para Marcos se afastar até a beirada da arquibancada e ficar lá.

— Não acho que seja isso — Windera explicou subindo no primeiro degrau da arquibancada para tentar recobrar a atenção sobre ela e seu assunto. — O Anônimo atual sabe segredo de nós oito. Nove, com a Paloma. Somos estudantes do mesmo ano, mesmo que de salas e escolas diferentes. É óbvio que quem coletou, guardou e usou nossos segredos é alguém em comum do nosso círculo social. Não é o mesmo Anônimo. É um copiador.

Sabrina voltou para o lado de Hélio e verificou se ele estava bem. Depois, lançou um olhar fulminante para Marcos.

— Se for isso mesmo — Dário refletiu -, pode ser qualquer adolescente da cidade.

— É esse o ponto. Eu acho que pode ser um de nós — Windera concluiu.

Os outros sete jovens reagiram quase em uníssono, insatisfeitos. Felipe foi o primeiro a repensar e partir para o seu lado:

— Ela tá certa. Tipo, se eu fosse um assassino com identidade secreta, ia querer tirar todas as suspeitas de mim. Então, se eu fosse ele, eu fingiria ser uma das vítimas.

— E quem garante que você não é? — Sabrina provocou.

— Assassinato não é coisa de bicha — Hélio comentou e riu. Felipe revirou os olhos e continuou:

— Eu me garanto por mim. Mas, se eu tiver certo, você tem a mesma chance e probabilidade de ser ele, igual eu, querida.

— Então tá acusando que o Anônimo é um de nós? — Marcos se manifestou depois de estar mais estruturado. — Wind, cê me fez vir aqui prometendo descobrir sobre quem matou a Paloma, não pra ser acusado disso.

— Se a gente for pensar nela — Sabrina fuzilou Marcos com o olhar novamente -, é você que tem mais chance de ser o assassino.

Ele ia reagir. Seu corpo se contraiu todo, mas hesitou e ficou no mesmo lugar. Só não conseguiu desfazer a expressão de raiva no rosto.

— Cala a boca — foi tudo que ele conseguiu expressar.

— Dãr. Todo mundo via como você era ciumento e possessivo com ela — Sabrina conclui. Virou-se para frente e continuou falando sobre Marcos, mas esnobando-o e sem olhá-lo nos olhos. — É óbvio que foi ele.

— Era você que odiava ela, Sabrina — Larissa resmungou.

— Ei, parem! — Windera pediu a atenção de todos novamente. — Não é pra gente se culpar assim. Não é desse jeito que vamos solucionar.

— Você chamou a gente aqui — Felipe resmungou diretamente para a estrangeira — pra acusar cada um de assassinato e não quer que a gente fique puto e paranoico? Se liga!

O garoto juntou sua mochila, levantou-se e já ia se preparando para sair dali descendo os degraus. Sabrina também se aprontava e puxava Hélio. Marcos e Larissa já estavam no caminho para a calçada.

— Depois que mais um de nós morrer, não digam que não avisei! — Windera ficou para trás, no centro da concha, e gritou para ser ouvida em todos os cantos da praça.

Miriam alcançou Larissa, puxou-a pelo braço de leve e pediu:

— Você tem muita coisa pra me explicar.

— Eu sei — ela confessou desapontada. — Mas, antes, vou precisar do dinheiro. O Samuel não para de me ligar cobrando.

— Tá ok. Tá aqui — Miriam enfiou a mão no fundo da sua mochila e entregou as notas para ela, que escondeu rapidamente na sua bolsa.

— Eu não tinha contado pra ninguém que eu recebi a merda desse cartão — Larissa voltou ao primeiro assunto. Parecia preocupada. — E aí a escrota da Windera simplesmente sabia? Tipo, ei? Como?

— Certeza que não falou pra ninguém, mesmo? — Miriam perguntou um pouco confusa.

— Certeza absoluta — Larissa respirou fundo. — Essa vadia da Windera sabe demais, Miriam.

Notas finais
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