Eu Não Quero Ser Só Uma Memória
8 Nós não sabemos rimar mas, caramba, tentamos
Notas iniciais
Dois dias após sua partida do apartamento de Deku, e com a confirmação médica de que sua memória estava completamente recuperada, a rotina de herói de Bakugou foi restabelecida com o vigor habitual.
Mas a sensação de que havia deixado algo para trás o importunava constantemente.
Tentava se convencer de que provavelmente era vestígio de uma ou outra lembrança ainda perdida — e sentia-se estúpido, afinal sabia que não era esse o caso. Apenas não queria dar o braço a torcer sobre a verdadeira fonte dos sentimentos que agora habitavam seu peito: Deku.
O tanto que vinha pensando nele estava começando a afetá-lo.
Sentia-se deslocado desde que o havia deixado. Sabia que ambos refletirem individualmente era a melhor alternativa para organizar os pensamentos, e até mesmo chegou a acreditar que apenas precisavam de algum tempo para assimilar que a mudança na relação foi causada por um ciclo que se encerrou, e que tudo voltaria ao normal gradualmente.
Um equívoco e tanto.
Até se readaptar ao próprio apartamento — astronomicamente melhor que o de Midoriya — estava se revelando um grande desafio.
Sempre tinha pensado que aquele lugar era tudo que visionava no que tangia uma residência: silêncio e isolamento, inclusive ao não dar seu endereço a ninguém. Jamais era perturbado.
Entretanto, quando deitava em seu moderno e sofisticado sofá de couro, lembrava que o sofá de Deku era muito mais confortável. Ao abraçar as almofadas com franjas, — presentes de seus pais, ele odiava — seu rosto era cutucado de forma que o remetia à textura do cabelo de Izuku, quando ele dormia sobre seu peito.
Se precisava de um momento de relaxamento, para se desligar de tanta tensão, caía em uma armadilha. A fragrância agradável de seu sabonete contrastava gritantemente com a odiosa do sabonete de Deku.
E lembrava claramente do perfume incômodo que se desprendia de cada centímetro da pele sardenta daquele corpo que agora conhecia tão bem, em que havia afundado o nariz tantas vezes, sem se importar com o quanto seu olfato era judiado no processo. Tinha gostado até demais de mergulhar no aconchego do pescoço, do peito, das pernas...
E também era árduo dormir. O quarto parecia vazio demais, assim como a cama fria e exageradamente grande. Tudo só para ele, que em uma avidez inconsciente em preenchê-la, rolava de um lado para o outro ao longo das noites passadas majoritariamente em claro.
Não havia um calor gostoso a seu lado quando acordava, ou o trabalho de se apartar de braços irritantemente carinhosos pela manhã. Tampouco a silhueta alheia iluminada pela luz dourada dos primeiros raios de sol que entravam pela janela.
Apenas as ligações dele permanecerem, que conforme os dias foram passando sem serem atendidas, tornaram-se escassas, até por fim cessarem completamente.
A última notícia que teve de Deku foi que ele também estava de volta ao trabalho, e focando em missões complexas para compensar seus dias de ausência no heroísmo.
Tinha vontade de explodir algo apenas por imaginar que o outro superaria rapidamente a separação dos dois, como era da atitude resiliente dele fazer. Quando se reencontrassem, ele estaria otimista e inabalável, pronto para salvar a todos e o olhando de cima — do pódio de número um.
Quando recebeu a programação de missões do dia, um sentimento agridoce o acometeu. O lado doce porque a agência tinha marcado uma operação de vigilância em conjunto com Kirishima, e sempre se sentia melhor na companhia do amigo. O lado amargo porque mesmo que fosse do lado inferior do pedestal, queria pelo menos poder ver Deku.
*-*-*
No vestiário, Kirishima e Bakugou colocavam seus trajes de herói para a patrulha à tarde. Foram escalados para rondar uma região da cidade suspeita de ter vilões fazendo negócios nos becos.
Percebeu o amigo observá-lo, enquanto se paramentava com as versões miniatura de seus reservatórios de suor em forma de granada.
— Está olhando o que, cabelo de merda?
— Arranhões... — Ele replicou, abrindo um sorrisinho debochado com seus dentes pontiagudos em zigue-zague.
Katsuki teve o rosto tingido de um tom de vermelho tão intenso quanto o do cabelo do outro homem.
Aquele era o tipo de coisa para a qual não se pode inventar uma desculpa.
— Em todos esses anos, é a primeira vez que te vejo assim, Bakugou. — Com um tom travesso, Kirishima salientou. — Quem foi a vítima?
— Não te interessa! Cuida da sua vida, caralho!
— Fala sério, bro! Olha essas costas, você deve ter parecido um animal!
Fechou o armário com força, decidido a sair de lá o mais rápido possível e deixar Kirishima — com o traje de Red Riot parcialmente montado — falando sozinho. Não foi muito feliz na tentativa, porque antes de deixar o vestiário, escutou algo pesado recair sobre o banco de madeira no centro do vestiário.
— Ah, e o Midoriya me pediu para te entregar umas coisas. Parece que você esqueceu na casa dele. Que coincidência...ou será que não?
"Umas coisas." O maldito sabia que curiosidade era um de seus pontos fracos.
— O que está insinuando, filho da puta?! — Seu tom ríspido calou o amigo.
Deku havia mandado alguma coisa. Então continuava nos pensamentos dele, apesar do término das ligações?
Sentiu uma forma peculiar de alívio.
Foi a passos largos para ver do que se tratava.
Era a coleção de livros que tinha lido durante a amnésia. Estava inteira ali, em seus gloriosos quatro volumes.
Os lábios franziram sem que percebesse.
Kirishima terminava de se adereçar, observando tudo com um sorriso ladino. Estava com os livros desde o dia anterior, somente esperando o momento certo para entregar.
E a julgar pela forma bruta que Katsuki os jogou dentro do armário e saiu com a respiração pesada, completamente afetado, tinha acertado em cheio sobre algumas suspeitas.
*-*-*
Dias se passaram.
E quanto mais tempo transcorria desde sua partida do apartamento de Midoriya, mais Katsuki se convencia de que estava sendo evitado por ele.
E mesmo que também o evitasse a todo custo, por não saber como lidar com seus sentimentos sobre ele e ser orgulhoso demais para tentar descobrir, uma hora ou outra acabariam se encontrando na agência — foi naquela tarde.
Assim que recebeu o cronograma de missões do dia, sentiu o ar do ambiente ser subtraído. Era uma missão para o Wonder Duo, e para os dois somente.
Normalmente se animaria com aquela previsão, já que com menos heróis envolvidos, sobrava mais pancadaria. Entretanto, não conseguiu se livrar do nó formado na boca do estômago por estar com ele novamente.
Quando chegou ao vestiário, Deku já estava lá. Olhou-o de relance por uma breve fração de segundos e sentiu o desconforto que vinha lhe perseguindo triplicar, por um motivo inesperado.
Ele não estava pleno como vinha o imaginando. A postura curvada e a face entristecida — em especial as olheiras profundas na base do olhar — não passaram despercebidas. Estava abatido.
Novamente, agridoce. Grato por não ser o único a estar no fundo do poço, e do lado oposto da balança, culpado por vê-lo daquela maneira.
Apesar da consciência pesada, avançou no recinto sem dizer uma única palavra.
Assim como ignorou Izuku, ele também fingiu não notar sua chegada, e continuou tirando acessórios de mãos e pernas do armário, como se nada tivesse acontecido — por mais que alguns murmúrios exaltados o entregassem.
Os dois nunca agradeceram tanto por seus armários serem de lados opostos do vestiário.
Katsuki se despiu com uma pressa exagerada, com receio de Midoriya olha-lo e encontrar, assim como Kirishima, alguma marca remanescente em seu corpo.
"Será que ele ainda tem alguma?"
Antes que se refreasse, virou o rosto na direção do herói de costas. Encontrou a anatomia familiar vestida apenas de cueca. Ele abria com dificuldades o pequeno zíper, um pouco emperrado, do traje verde, com mãos trêmulas e afobadas demais pela presença de Katsuki – cujo coração falhou uma batida. Inicialmente, pela mera possibilidade de vislumbrar a nudez quase completa de Izuku novamente, depois, pelas evidências gritantes de sua passagem por ali.
Incomodou-se pelas marcas claramente não serem das mais recentes, porém estavam todas lá. Além de alguns chupões, hematomas e mordidas, as mais proeminentes, distribuídas pela cintura, quadril e pernas, tinham o formato perfeito de mãos, pintadas em tom rosado. Sabia bem como foram feitas: suas explosões.
O ambiente subitamente tornou-se muito quente, e a parte inferior de suas roupas, apertada. Estalou a língua no céu da boca, profundamente irritado por aquilo estar o excitando. E não apenas isso — era impossível não pensar em todas as vezes que tocou aquela mesma pele exposta, antes ao alcance de seu deleite.
Cada beijo, cada carícia e cada toque.
Por um instante, preferiu que a pele estivesse completamente imaculada, e assim não precisaria ser estapeado com um choque de realidade tão grande sobre tudo que fizeram.
Encarou por mais alguns instantes, na esperança de que Deku tivesse a mesma audácia de espia-lo. Não aconteceu, e o sentimento detestável da indiferença alheia o arrebatou.
Xingou baixo um número indizível de vezes, enquanto seu próprio traje recaía sobre o corpo — conforme Midoriya também o observava discretamente, agora que ele não estava mais olhando.
Para Izuku, aqueles dias desde a partida de Bakugou foram um tormento, enquanto que a saudade de tê-lo por perto só fazia crescer. Mesmo que soubesse que precisava ignora-lo, estava um pouco aliviado por finalmente revê-lo. Era uma pequena alegria em meio a todo caos que seus sentimentos por Kacchan vinham se resumindo.
Tornou a se concentrar em seu traje, sabendo que alguns olhares curiosos — e desaprovadores, em sua mente – ainda lhe eram direcionados. Teve a certeza que apreciar a presença de Bakugou seria tudo que conseguiria.
*-*-*
Deixaram a agência e foram ao local descrito no roteiro da missão, ainda sem a troca de uma única palavra. Somente quando chegaram no prédio mais alto da região, de onde observaram na surdina a movimentação do quartel general de uma organização criminosa, que o silêncio foi quebrado.
— O chefão com certeza está no andar com vidros à prova de balas. Vou atrás dele e depois subo para dar um jeito nos extras dos andares superiores. — Katsuki inqueriu, com a voz descomunalmente séria. — Vê se pega os do térreo e do subsolo, Deku.
Não houve resposta.
Antes que Bakugou tivesse tempo de pensar no que aquilo significava, já estavam invadindo o prédio e atacando vilões sorrateiramente.
Descontou suas frustrações nas explosões.
*-*-*
A polícia estava isolando o perímetro do prédio e prendendo os vilões, que foram facilmente derrotados por Deku e Ground Zero. Agora com as autoridades tomando a frente do caso, restava aos heróis somente a parte burocrática do trabalho: o relatório de missão da agência.
Tinham o hábito de retornar ao local de partida após uma missão, para um reencontro no qual discutiam detalhes que deveriam ser incluídos. Bakugou sabia disso, entretanto não deixou de se ressentir pela possibilidade de chegar no topo do prédio com visão panorâmica e não encontrar Izuku ali.
Contrariando suas expectativas, ele estava.
Apesar das explosões ruidosas que guiaram Katsuki até ali, o outro herói contemplava os arredores com um semblante visivelmente pensativo, sem desviar a atenção da paisagem — era de se deduzir que continuasse o ignorando.
— O que caralhos você está olhando, nerd? – Bakugou refreou a língua no mesmo instante em que a pergunta deixou sua boca.
Midoriya sentiu-se profundamente balançado pela voz que, apesar do tom rude, foi música para seus ouvidos.
— Nada. – Respondeu, encolhido, com a calmaria que tentava aparentar anteriormente desaparecendo.
Como seus sentimentos ficaram perturbados naquela magnitude apenas pela voz dele, não poderia nem cogitar de se virar para olhar Katsuki, ou tinha certeza que protagonizaria uma cena humilhante, chorando e pedindo desculpas por coisas que nem eram sua culpa.
— Conseguiu pegar todos os extras? – Katsuki interrompeu o silêncio indesejável trazendo à tona o teor da missão.
— Sim. A-Acho importante mencionarmos no relatório que só causamos danos às janelas.
— Que seja. E por que demorou tanto?
— M-Mas eu cheguei aqui primeiro... — Rebateu, ainda que um pouco acanhado.
— Lógico que chegou, ficou com a parte mais fácil da missão!
— Foi você quem dividiu nossas tarefas. — Enfrentou, incomodado com as acusações. — Nem me deixou opinar em nada!
— Cala a boca, Deku!
Izuku desviou o olhar para os próprios pés, realmente saturado daquela discussão. Lidar com Katsuki já não era algo muito simples por natureza, e o senso terrivelmente familiar de estar mal resolvido com ele apenas alimentava a dificuldade na interação. Não gostava daquela animosidade entre os dois.
Ousou olhar para ele, e seu interior devastado de saudades palpitou. Bakugou já estava o encarando, visivelmente furioso por não ter vencido a argumentação.
Com aqueles olhos escarlate focados nele, Izuku sentiu-se em chamas, atordoado por um desejo intenso de se render ao calor que sabia que encontraria naqueles braços .
Deu um passo vacilante na direção dele, em um rompante de iniciativa, como se tivesse recebido um chamado. Estancou no meio do caminho, receoso. Não sabia como era pertinente agir, por mais que algo ainda exigisse ser dito.
— V-Você ficou bem? Naquela noite, depois de ir embora? — Deixou que a pergunta que o atormentava fosse feita.
A postura de Katsuki suavizou.
Ele tentou extrair segundas intenções do questionamento de Deku — como uma possível tentativa de lhe arrancar um agradecimento — porém concluiu que o herói só estava preocupado, como sempre.
Teve a mínima delicadeza de compreender que ser ríspido apenas pioraria a situação. Daria o que o outro queria, a fim de se livrar logo do remorso pela expressão acuada de Izuku – que pelo silêncio após sua questão, concluiu que não seria respondido.
— Consegui chegar no meu apartamento. — Bakugou contou, por fim. — No decorrer da noite, fui lembrando de tudo. Tipo quando nos tornamos heróis profissionais. Fiquei até puto pela vez que o All Might saiu viralizando por aí com o nome de dupla idiota...
— Wonder Duo.
Midoriya abriu um sorriso caloroso, por mais que seu olhar se desviasse involuntariamente sempre que era direcionado ao outro herói. Sentiu o clima menos pesado, e uma onda de positividade nostálgica o tomou.
— Isso é ótimo, Kacchan! Era a porção que faltava da sua memória, não era?
— Era. O foda foi a parte nova.
— Parte...nova?
— Eu te disse que os malditos dias com você fizeram alguma coisa comigo! É como se tudo estivesse diferente, sei lá...
O rumo da conversa deixou os dois apreensivos. Havia uma tensão latente que sempre estava no limiar de se instalar, e bastava o mínimo descuido com as palavras para que o clima escorregasse naquela direção.
Para o bem ou para o mal, o policial que conduzia a investigação da missão chegou, a fim de interrogá-los.
Izuku respondeu todas as perguntas com precisão, enquanto a atitude irritadiça de Katsuki dificultava o processo, por mais que soubesse que era simplesmente o procedimento padrão.
Em dado momento, fartou-se de ter que responder tantas perguntas inúteis. Decidiu que se não poderia ter a atenção de Midoriya, deixaria o restante do depoimento para ele. Seria melhor se simplesmente fosse embora.
E Deku percebeu assim que ele se afastou do grupo e deixou os agentes falando sozinhos. Observou o andar emblemático do herói explosivo, que balanceava o peso das manoplas a cada passo – da forma que sempre achou terrivelmente sensual.
— Kacchan, espera! — Exclamou, esticando o braço para reforçar suas palavras.
Ele não mudou de ideia sobre retirar-se, e ao se arremessar em uma trajetória de voo com suas explosões, a distância figurativa repentinamente pareceu muito maior que a física.
Izuku recolheu a mão que tentava tolamente alcançá-lo, assistindo Katsuki cruzar o céu. A falta de sequer um mísero olhar em sua direção trouxe um terrível amargor ao peito.
Mesmo cercado de pessoas, se viu sozinho.
*-*-*
Bakugou preencheu o relatório no refeitório da agência. Sua sala particular era no mesmo corredor que a de Deku, e como não sabia nem como lidar consigo mesmo, muito menos com ele, preferiu evitá-lo.
Assim que terminou, caminhou rumo ao escritório principal, onde Todoroki passava a maior parte do tempo. Teve a sorte de nem precisar chegar para encontrá-lo – estava no corredor, indo na direção oposta.
Esbarrou propositalmente com ele, quase derrubando a pasta que o chefe carregava sob o braço.
— Toma. — Pressionou a papelada do relatório contra o peito de Todoroki, sem interromper a própria caminhada.
— Obrigado. — Apanhou os documentos ainda no ar, pouco antes que caíssem. — E Bakugou...
— O que é?
— Ainda preciso do seu endereço. — Estendeu uma ficha de informações para cadastro, tirada de dentro de sua pasta.
Katsuki praguejou, lançando um olhar ladeado e assassino para trás.
A última coisa que precisava naquele momento era da insistência de Todoroki em extrair suas informações. E o pior era que sabia que ele não desistiria até ter conseguido — os anos de amizade com Deku o ensinaram a ser persistente.
— Merda, eu te passo! Me arranja uma caneta ou eu te arrebento aqui mesmo, meio a meio!
Todoroki abriu um sorriso microscópico. Havia sido mais fácil dobrar o turrão explosivo do que ele imaginava.
*-*-*
O herói de poderes antagonistas abriu a porta da sala de multimídias da empresa, onde havia material de escritório. Estava normalmente vazia, usada para os heróis da agência pesquisarem dados relevantes para a inclusão nos relatórios.
Bakugou o acompanhou, resmungando baixo sobre a temperatura exageradamente baixa do ar condicionado.
— Cadê a merda da caneta? E por que é tão frio...
— Midoriya? — Todoroki o interrompeu.
Foram surpreendidos pela presença de Deku ali, praticamente escondido atrás de um dos monitores de computador da sala.
Estava desacompanhado, e se apressou em limpar os olhos assim que os viu. Para disfarçar, endireitou a postura e fingiu estar digitando, enquanto na verdade nem mesmo tinha iniciado sua pesquisa. Seus sentimentos abalados se sobressaírem antes que tivesse chance.
Apesar da tentativa de aparentar normalidade, era evidente que ele estava chorando até mesmo para Todoroki, que nem sempre era das pessoas mais perceptivas às emoções alheias.
Como os banheiros do prédio eram compostos por cabines adjacentes, seria inevitável ouvir claramente o que acontecia bem ao lado — já aquela sala era um dos lugares mais reclusos da agência. Podia-se deduzir facilmente que ele queria um pouco de privacidade, e usou o relatório como desculpa para estar lá.
— Midoriya, o que aconteceu?
A pergunta do amigo fez Izuku, que pretendia disfarçar por algum tempo e depois sair discretamente assim que tivesse chance, paralisar. Um bolo denso se formou na garganta pelo nervosismo de pensar em uma resposta coesa.
Abriu um sorriso muito pouco convincente, na esperança que fosse bom o bastante para convencer os dois heróis. Principalmente Katsuki, a quem ele não queria que o conhecimento do quão afetado seu emocional estava, chegasse.
— N-Nada, Todoroki-kun, e-eu só...
Não tinha nem sequer uma desculpa ensaiada para o caso de ser flagrado. Apenas quis ficar sozinho, tamanho foi o desespero depois de reencontrar Bakugou e não poder nem mesmo toca-lo.
A distância contraditoriamente infinita de quem estava tão perto o feria.
O olhar se voltou inconscientemente para ele. Sentiu o coração se agitar com um misto de empolgação e mágoa.
Não sabia como continuar lá depois do flagra.
— Eu já estava indo embora. — Levantou em sobressalto, e ao passar pelos outros computadores da sala, avistou um deles aberto em um site de notícias.
A maior novidade do momento era uma coletânea de imagens de fotógrafos amadores dos dois maiores heróis da nova geração juntos em uma loja de games aleatória: ele e Bakugou.
Os olhos se encheram de lágrimas novamente.
Conforme saía, lançou um sorriso resignado ao chefe, e passou por Katsuki sem olhar para trás — sabia que as atenções dele ainda estariam focadas no monitor com a matéria fatídica.
Todoroki, sem entender nada, assistiu o amigo partir.
— Então até outra hora.
— A-Até mais. – Izuku respondeu, fechando a porta atrás de si.
Assim que deixou a sala, Bakugou entrou em um frenesi para escrever logo seu endereço no formulário, evidentemente para sair dali e encontrá-lo.
Todoroki não percebeu essa intenção. Em silêncio, reparou na forma nervosa — mais que o normal — do herói. Ele parecia afetado pelo comportamento de Deku, e teve a intuição de que era o momento ideal para abordá-lo.
— O Midoriya está estranho.
A caneta que passeava apressada pelo papel parou, deixando um pingo excessivo na página. Aquele assunto era um território perigoso.
— E daí? — Bakugou bradou, como se sua mente não estivesse ainda cravada na cena de instantes antes e na foto da reportagem.
— Pode achar que não é problema meu, já que ele não me contou muito, mas estou preocupado. Ele está disperso e evasivo. Foge de perguntas e passa praticamente o tempo todo sozinho.
O aperto na caneta aumentou. O ponto do papel do qual não saía ficava com uma marca cada vez mais funda, conforme a pressão de seu braço aumentava. Estava tenso, e se recusava a fazer contato visual.
— Por que está me contando isso? Se você acha esse monte de coisas sobre o Deku, que realmente não são da sua conta, então manda a real para ele e não para mim!
— Não sou bom nesses assuntos. — Admitiu, sem desmanchar seu semblante sereno. — Ele parece estar em uma fase tumultuada, então achei que seria mais fácil descobrir por você.
— Descobrir por mim? Para de enrolar, desgraçado! Aonde quer chegar?
— Sei que você está envolvido de alguma forma nesse estado do Midoriya, por mais que insista em fingir o contrário.
— Ahn?! — Bradou, finalmente largando a caneta e estufando o peito na direção de Todoroki. — Está dizendo que essa putaria toda do Deku é culpa minha?
— Não diretamente. Mas se você colocar dessa forma...
— Quero mais é que você e suas suspeitas se...
— Ele foi ao meu apartamento outro dia. – Antes que fosse insultado, esclareceu. — Estava inconsolável. O Inasa teve que dar um saco para ele respirar dentro. Não entendemos uma única palavra do que ele disse enquanto chorava, além de uns soluços sobre “Kacchan”.
Ouvir seu apelido sendo dito em tom tão impessoal foi um dissabor. Sentiu uma pontada no torço, que torceu para não ter sido no coração.
— Você sabe que ele ama ser herói, e aceitou passar vários dias afastado só para cuidar de você. — Continuou. — Então se o magoou, peça logo desculpas, ainda que do seu jeito boçal. Está em dívida com ele, e é o mínimo que você pode fazer.
— Não preciso dos seus conselhos, infeliz bastardo! E não estou em dívida com ninguém! Eu sempre disse que não queria a ajuda dele!
— Não pode ser orgulhoso a esse ponto.
Fizeram um contato visual breve, que terminou com Bakugou sendo afogado em uma aceitação forçada, já que não tinha nem ofensas que pudessem atingir Todoroki naquele momento.
Terminou de anotar o endereço, sem se incomodar por pequenos pontos de tinta terem ficado marcados na mesa utilizada para apoio.
Por mais que reconhecesse o chefe com razão, salientou ao entregar seu endereço:
— Enfia no cu essa merda, meio a meio filho da puta!
Todoroki não se incomodou, e chegou a sentir um gostinho de vitória quando viu o papel escrito de muita má vontade.
— Obrigado. — Deixou outro pequeno sorriso escapar. — E bem-vindo de volta.
— Me deixa!
Largou tudo para trás ao deixar a sala ameaçadoramente, com as mãos nos bolsos e bufando.
Soube que não daria mais tempo de encontrar Deku.
*****
Mais dias passaram. E por vergonha, orgulho e confusão emocional, não fez progresso algum consigo mesmo ou com Izuku.
Ao invés disso, vinha fazendo turnos extras na agência para desviar os pensamentos de seu período de amnésia. E como Midoriya aparentemente tinha se tornado perito em evitá-lo, tanto que não se viam há dias, era mais fácil focar exclusivamente no trabalho e ignorar seus sentimentos.
Mas o cenário mudava quando ele precisava ir embora — para dormir, tomar um banho decente e se alimentar com algo diferente da comida do bandejão. Nesses momentos, percebia o quão distante de se sentir em casa estava em seu próprio apartamento.
Era teimoso demais para admitir o motivo por trás disso, mesmo assim sabia. E naquela manhã, em que cortinas fechadas não escondiam que estava um dia lindo, ele apenas encarava o teto da sala.
O telefone vibrou, e o coração se agitou tolamente com a expectativa que se recriminava por ter: que fosse Deku o procurando.
Não se animou ao ver que era Todoroki — o chefe normalmente só ligava em situações de emergência.
— O que é? — Atendeu.
— Bom dia, Bakugou.
— "Bom dia" só se for para você! O que você quer, meio a meio?
— Que você venha mais cedo. Se possível, agora.
— Agora? Por que?
— Vou precisar de alguém para cobrir o Midoriya hoje. — Foi objetivo. — Como você tem se mostrado muito disposto a fazer horas extras, pensei que aceitaria.
— Eu vou.
— Obrigado.
Pretendia desligar.
Não queria perguntar sobre ele. Se recusava a admitir que se importava.
— O que aconteceu com o Deku de merda? — Refreou a língua tarde demais, quando a pergunta já havia escapado.
Houve um silêncio incômodo na linha. Era como se o chefe estivesse surpreso pelo interesse. E com razão.
— Ontem eu o mandei em uma missão, para conter uma vilã com uma individualidade de ar comprimido muito perigosa. — Explicou, sem fazer sigilo sobre os detalhes sórdidos. — Parece que quando foi encurralada, ela explodiu um prédio inteiro, e um fragmento de vidro acertou o ombro do Midoriya.
— Merda...esse nerd bobeou em um cenário ridículo desses?!
Todoroki perceber que a voz dele tinha ficado mais tensa e a atitude mais incisiva, e que era um artifício para esconder a preocupação e não ferir o gigantesco orgulho.
— Não foi nada sério, porém o médico da agência pediu que o Midoriya ficasse em repouso para os pontos não abrirem, porque é uma região de muito estresse mecânico. Então aproveitei e dei algumas folgas atrasadas para ele. Talvez isso o ajude a colocar a cabeça no lugar.
Houve um silêncio descomunal na linha.
A indignação de Bakugou pela grande quantidade de informações era evidente — especialmente pela última frase, com uma alfinetada.
E Todoroki seguiu.
— Se você quiser visita-lo, eu soube que ele foi se recuperar no apartamento da mãe.
— O que esse idiota foi fazer lá? — Katsuki estranhou.
— Quando eu perguntei, ele disse que tinha se desacostumado a estar sozinho em casa, eu não sei ao certo. É bem conveniente para o momento, de qualquer forma.
E a mente de Bakugou foi invadida por um déjà vu. Se viu na cozinha de Deku, com ele sentado em seu colo, quando disse aquelas palavras:
“Quero que você não consiga olhar para nenhum pedaço desse apartamento sem lembrar de mim.”
E parece que tinha funcionado. Tanto que ele não estava mais nem aguentando ficar lá — provavelmente atormentado pelas lembranças do que tinha acontecido em cada cômodo.
Uma fúria se apossou do herói quando escutou a voz de Todoroki no telefone, estranhando seu súbito silêncio.
— Bakugou, você ainda está aí?
Sabia que explodir com o chefe não melhoraria nada sua situação. O que não o impediu, é claro.
— Por que você está me contando tudo isso? Não quero saber nada do Deku!
E como em raras vezes, Todoroki finalmente se irritou.
— Então da próxima vez não seja imbecil de ficar perguntando a respeito.
— Como se eu precisasse das suas informações! Vai se foder, Todoroki!
— Vai você. Não sei como o Midoriya te aguentou esses durante esses dias todos. — O tom de voz sempre impassível estava ácido. — Só venha logo para a agência e pare de me irritar.
— Estou indo, caralho!
O telefone foi desligado prontamente.
Se até Todoroki tinha se irritado com ele, devia estar mesmo insuportável — esbanjando todos os tipos possíveis de frustração e descontando nas pessoas.
E para piorar, aquela notícia — que desejava não ter o preocupado tanto.
Fez algumas pesquisas nos sites de tietes de Deku, e soube que realmente foi um ferimento leve. Considerando o quanto o infeliz já havia se machucado no passado, aquilo não significava nada.
Mas não deixava de sentir-se desconfortável com isso, por mais que se recriminasse. Afinal sabia que Deku estava tão avoado naqueles dias por conta de tudo que aconteceu entre os dois.
Talvez não fosse o único assombrado por aquelas lembranças. Apesar do tédio e inquietação que aparentou para Midoriya, foi muito feliz naqueles dias. Quando não se lembrava de nada, sentiu gratidão por ter alguém que se empenhasse tanto em fazê-lo recuperar a memória, por mais que a amnésia fosse temporária. Que lhe tratasse com tanto carinho e gentileza, morasse em um apartamento cheio de coisas legais e que não reclamasse de seu gosto apimentado na cozinha.
E quando suas memórias voltaram, trouxeram uma sensação de vazio. E ela se recusava a ir embora.
Quando percebeu que Deku não se achava superior, como sempre pensou — e que na verdade, ele realmente o queria e admirava — lhe doeu pensa que como retribuição, ele sempre foi magoado e afastado. E continuava sendo, porque Katsuki não sabia como interromper o ciclo vicioso de fazê-lo.
Agora lá estava: deixando o cara que estava sofrendo por sua causa fosse cuidado pela mãe. E não tinha nem coragem de ligar para ele, depois do tanto que o ignorou.
A não ser que...
Tinha uma linha de telefone fixo, que recebeu como agradecimento de uma companhia de comunicação após uma missão. Só usava para ligar aos pais.
Não se deu a chance de pensar duas vezes, ou sabia que reconsideraria e se sentiria patético. Pegou o número do celular de Deku nos contatos do celular, e discou.
O coração estremeceu um pouco a cada toque. Chamou três vezes.
— Alô? — Era a voz de Deku.
Bakugou jurou que infartaria só por tê-lo escutado. Seu número não foi reconhecido — exatamente como desejava. Não saberia lidar apropriadamente com o “oi Kacchan!” radiante que sempre recebia ao ligar para ele.
Estava parecendo um idiota.
— Hm...eu posso ouvir a sua respiração, sabia? — Izuku disse para a linha silenciosa, com um tom divertido.
Katsuki não conseguia sequer pensar em algo que pudesse dizer.
— Kacchan, é você? — O tom mudou drasticamente para um quase emocionado.
Aquilo não estava nos planos.
Desligou o telefone na cara dele, tamanho foi seu susto. Como Deku deduziu sua identidade, não fazia ideia. Ele era tão stalker que talvez conhecesse seu jeito de respirar — ou só estivesse passando por conflitos parecidos aos seus e se agarrasse a qualquer esperança.
Quase arrancou o cabelo de tanto que o puxou no instante seguinte. Sua cabeça estava uma confusão absurda de memórias, sentimentos e impulsos. Demorou uns bons minutos para metabolizar, perplexo e imóvel.
Tomou uma decisão completamente aleatória e ligou para a casa dos pais. Eles ainda eram vizinhos de bairro de Midoriya Inko — tia Inko, como ele chamava na infância.
Estavam mais perto de Deku do que ele.
Assim que a ligação foi atendida, um grito rasgado e familiar preencheu os ouvidos.
— Masaru, nosso moleque está no telefone!
— N-Nosso filho, Mitsuki. — O marido tentou a corrigir, tímido e inseguro. Foi ignorado.
— Fala, Katsuki! — A matriarca dos Bakugou exclamou ao telefone. — Aprendeu a ligar para seus pais mesmo quando não quer interromper nosso cruzeiro?
— Cala a boca, bruxa velha! Eu tinha um bom motivo! E ligo sempre que dá, porra! Sou ocupado!
— Ligou mais desde a sua amnésia do que no resto do ano, filho desnaturado de merda!
Era verdade. E foi irritante pensar que estava sendo mais atencioso com as pessoas depois de ter estado com Deku.
— Katsuki...podemos ajudar com alguma coisa, filho? — Masaru interviu, ou os dois trocariam farpas o resto do dia.
A pergunta do pai o atingiu como o raio. Ele queria realmente a ajuda deles — porém seu orgulho o cutucava com a perspectiva de ser ajudado por alguém.
Mas se não fizesse nada, sabia que a culpa posterior o devoraria.
— Aí...quero pedir uma coisa. — Admitiu.
A partir dali, não acreditou mais nas próprias palavras.
Ao menos eles concordaram — e os únicos efeitos colaterais foram alguns comentários irritantemente sabidos de sua mãe.
*-*-*
No penúltimo dia de descanso de Midoriya, Katsuki soube que ele estava de volta para falar com Todoroki sobre o retorno à ação.
Por isso, fez questão de ficar somente com tarefas de escritório naquele dia — e assim que viu Izuku passar pelo corredor, fingindo indiferença quando à sua porta aberta, saiu em disparada para alcançá-lo.
Seu plano era esperá-lo na volta, porém não pôde se conter.
— Oe, nerd! Quero falar com você! — Sentenciou ao outro, da porta de sua sala.
Ele encolheu os ombros, evidenciando estremecimento. O surpreendente foi que ao invés de parar para conversar, ele acelerou o passo.
— Aonde você vai? — Bakugou observou, indignado, e se pôs a segui-lo. — Deku de merda, volta aqui!
E a velocidade aumentou. Os tênis vermelhos desfilavam em um ritmo espantoso pelo chão.
— Deku, não me ignora!
Agarrou-o com tanta habilidade que não houve nem tempo de reagir. Abriu uma das salas de escritório aleatoriamente — a de um herói veterano que estava em campo, reparou — e o levou para dentro.
Não demorou a encurrala-lo na parede. E sussurrou bem arrastado e furioso.
— Deku...
Uma ideia arriscada: acabaram realmente próximos. As respirações irregulares para pequena corrida se mesclavam.
— P-Perto demais... — Izuku murmurou, encarando o outro com olhos arregalados.
Bakugou constatou que ele estava certo. Era mesmo perto demais: e esse era um detalhe crucial, porque o remetia a lembranças de um passado recente.
Foi inevitável lembrar dos momentos quentes demais para os dias maravilhosamente amenos entre os dois, nos quais aquela mesma posição traria recompensas mais proveitosas que uma simples intimidação.
O olhar inquieto de Midoriya parecia interrogá-lo.
Seria sábio realmente focar na conversa, ou seu corpo se adiantaria e falaria antes dele.
— Como está o seu ombro? — Não soou irritado, para o espanto de Izuku.
— B-Bem. S-Só levei alguns pontos. — Replicou, realmente ludibriado pela proximidade tentadora.
Katsuki analisou o esclarecimento raso. Não soube se Deku e a mídia estavam mascarando algo mais sério para não impactar a sociedade, ou se ele só estava nervoso mesmo.
— Não acredito em você. — Decretou, recebeu um olhar levemente ofendido. — Eu quero ver.
— Ver?! M-Mas...
— Não tem nada aí que eu já não tenha visto.
— E tem que ser aqui?!
— Tem que ser agora, não dou a mínima onde.
O fato de estarem ambos de trajes de repente pareceu oportuno, porque o de Deku tinha o zíper emperrado que descia do pescoço até a barriga.
Suas mãos se dirigiram até ele, puxando-o. Abriu o traje com a respiração presa, um tanto distraído pela pele que se revelava. O olhar pasmo de Deku seguiu o movimento, acompanhado da expressão lívida adquirindo um tom afogueado intenso.
Abriu além do necessário para conseguir puxar o tecido o bastante para expor o ombro, revelando até a barra da cueca.
Abandonou a porção frontal do traje e puxou as mangas de ambos os lados sem muito cuidado. Deixou-o nu do quadril para cima.
Precisava urgentemente toca-lo, e a forma que seu plano impulsivo tinha se convertido em uma ocasião oportuna lhe daria a desculpa perfeita.
Pousou uma mão na cintura dele, enquanto a outra rumou até o ombro adornado por uma sequência linear de suturas bem feitas, que pareciam estáveis. Tocou com cuidado.
— Era um corte grande. — Deduziu, pela quantidade de pontos.
— S-Se tivéssemos a Recovery Girl por aqui, ela teria cuidado disso em cinco minutos...foi superficial... — Tentou articular com coerência, apesar das muitas distrações.
— Nem pense na velha beijoqueira. Ela não devia mais aguentar ver sua cara sempre lá e esse seu corpo todo fodido pelo One for All.
— Você também vivia na enfermaria depois do segundo ano. — Sorriu pela lembrança de Bakugou sendo cuidado por ela, em meio a dúzias de reclamações. — Mesmo para ferimentos leves...
— Era para te stalkear, seu lesado! Você, ela e o All Might falavam do seu poder pelas minhas costas se eu não estivesse por perto! Eu já sabia do segredo, então que merda vocês ainda tinham para esconder de mim?
— N-Nós só...
Midoriya se interrompeu quando a luva de textura áspera de Katsuki abandonou o toque receoso no ombro e se aproximou da região sensível pelo ferimento.
Ele deslizou o polegar nos arredores do corte, observando o comportamento da pele — alheio a Deku se arrepiando pelo contato mais direto. Não parecia muito esticado, e a cicatrização estava se revelando promissora.
— Não está ruim.
Estranhou o silêncio que recebeu. Redirecionou suas atenções ao rosto do outro herói, que parecia estremecer em seus braços.
— Seus pais foram me visitar. — Ele comentou, incerto se deveria ou não tocar no assunto.
— Eu sei. Pedi que fossem.
— Você pediu?
— Achou que eles foram porque deu na telha? Eu mandei os dois em meu nome, idiota!
— Estava...preocupado? — Arriscou, ciente que seria difícil arrancar uma confissão dele. — Por isso ligou também?
A ligação.
Foi a vez de Katsuki ficar pasmo.
— Eu sei que era você. — Deku se adiantou.
— Como? Eu não disse nada!
Izuku abriu um sorriso acolhedor. Ele apenas sabia.
— Também não está sendo fácil para mim, Kacchan. — Completou, como se estivesse ciente de todos os altos e baixos que Katsuki vinha enfrentando.
E deixou-o teatralmente incrédulo.
Bakugou não podia acreditar que estava sendo lido por Deku ao longo daqueles dias todos. Em contrapartida, foi um estranho alívio. Sentiu-se menos deslocado.
Analisou o rosto sardento, buscando sinais de outras coisas que ele sabia sem que lhe fossem ditas.
Acabou analisando cuidadosamente a aparência convidativa daqueles lábios, que sabia quão viciantes eram.
Abandonou o toque no ombro, e contornou-os com a ponta coberta de fuligem de um dedo, movimentando a língua inconscientemente dentro da boca conforme traçava a forma irregular.
Desejou intensamente beija-lo.
Aproximou-se. As testas se tocaram, e o olhar ousado de Midoriya sinalizou que ele também queria.
Uma movimentação no corredor os interrompeu. Pelas vozes, reconheceram que o herói a quem a sala pertencia estava retornando.
Contrariados, tiveram que se apartar.
— P-Preciso ir. O T-Todoroki-kun está me esperando. — Izuku disfarçou, vestindo a parte despida do traje.
— Vai. Só que essa conversa ainda não acabou.
O ultimato de Bakugou foi a última sentença trocada antes de saírem da sala em velocidade máxima para não serem notados, cada um seguindo o seu lado.
— Porra! — Katsuki esbravejou aos ares.
Não fazia ideia de quando teria outra chance como aquela novamente.
Queria negar que seu coração arrebatado pelo desfecho inconclusivo era um sintoma bem claro.
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