Eu Não Quero Ser Só Uma Memória
9 Quando estou engasgado mas não encontro as palavras
Notas iniciais
Apenas dois dias após a interrupção do que poderia ter sido o beijo conciliatório que precisava para resolver seu impasse com Bakugou, Deku retornou de sua curta licença. Não teve notícias dele desde então.
E embora recuperado, foi designado somente para missões leves naquela semana, a fim de garantir que os pontos do ferimento recente não abririam. E em uma quarta-feira que nada acontecia na cidade, permaneceu apenas de prontidão na agência.
Suspirou sozinho na sala de multimídias, buscando ocupar a mente com alguns relatórios e boletins semanais.
Sentia-se terrivelmente entediado fazendo trabalho de escritório, o que cedo ou tarde desviava seus pensamentos para o herói que vinha lhe tirando o sono há tanto tempo.
Desejava que Kacchan viesse procura-lo. Entretanto, racionalmente, sabia que o orgulho dele não permitiria — e tinha certeza que àquela altura, Bakugou estava frustrado por não ter sido procurado também, julgando-se como
ignorado.
Foi surpreendido por uma requisição de seu comparecimento na recepção, anunciada nos auto-falantes da agência. Saiu apressado.
E Katsuki, que estava voltando de uma missão e se dirigindo à sua sala, ouviu também.
Soube que se encontrariam no meio do corredor.
Dito e feito. Os caminhos se cruzaram, e uma espécie ambígua de magnetismo — que atraía e repelia simultaneamente — foi instaurada.
Não houve troca de palavra alguma, entretanto os olhares se conversaram. E o de Bakugou percorreu Izuku como um todo, trajado com o uniforme que cobria o ombro — fez questão de olhar, procurando inconscientemente pelo ferimento.
Constrangido, Midoriya desviou suas atenções ao chão. Não sabia lidar com aquele tipo de tensão, com origem enigmática.
As coisas ficaram estranhas após último encontro dos dois, e nem sabia o motivo. Possivelmente era pela vastidão de tudo que permanecia não dito.
— B-Bom dia, Kacchan.
Não houve resposta.
Katsuki fez cara de decepção — como se estivesse perplexo por ter sido aquele o teor da interação dos dois.
Quando ficou claro que não seria cumprimentado de volta, Izuku decidiu que seria menos desconfortável apenas deixa-lo sozinho com os próprios pensamentos.
Passou por ele cabisbaixo, evitando ao máximo qualquer contato visual. Viu apenas de relance a expressão familiarmente furiosa e indecifrável.
Ignorou o olhar escarlate que o acompanhou até que sumisse no hall principal. E sem que percebesse, não foi só o olhar que o seguiu.
*-*-*
O semblante de Izuku se iluminou ao ver os heróis que solicitaram sua presença: com exceção de Todoroki, seus amigos mais próximos da época da academia estavam lá.
— Deku-kun! — Uraraka foi a primeira a cumprimenta-lo, e exclamou de forma que os demais também o fizessem.
— Ah, Uraraka-san! É muito bom te ver! — Ele retribuiu, direcionando as atenções aos demais também. — Aliás, todos vocês! Como estão, pessoal?
— Prioridades, Midoriya-kun! Como você está? — Iida o cumprimentou, sacudindo o braço de forma robótica. — Soubemos recentemente do seu machucado, e combinamos uma folga na patrulha para passar aqui e te ver!
— Kero. — Asui assentiu com a língua para fora, fazendo seu barulho característico de sapo.
— Estou bem, obrigado! — Deku coçou a nuca, um pouco tímido pela visita. — F-Foi um corte pequeno no ombro, só precisei levar alguns pontos. Não queria que isso tivesse os preocupado!
— O que vocês acham de passarmos na lanchonete? Assim o Midoriya-chan pode nos explicar como isso aconteceu. — Levantando o indicador em sinal de sugestão, Asui esboçou.
— Parece ótimo! — O ex-representante de sala concordou de imediato.
O grupo se dirigiu ao refeitório, enquanto Katsuki, que ouvia tudo escondido atrás da parede mais próxima, correu rumo ao outro andar.
*-*-*
Bem acima da lanchonete, havia uma varanda — um anexo externo da sala de descanso da agência, onde existia uma variedade impressionantes de tarefas destinadas a lazer e relaxamento.
Por isso Bakugou nunca tinha entrado ali até aquele dia.
Tudo que queria era ouvir a conversa de Deku e seus amigos na surdina, indiferente a quão stalker parecia com isso — e se possível, não sentar nas cadeiras ao ar livre em que os pombos costumavam fazer sujeira.
Torceu para que sua trama de improvisos lhe desse uma pista do motivo de Deku não estar o procurando, uma vez que seu interesse estava tão explícito. Não queria ter de procurá-lo novamente, ou pareceria que estava implorando — seu orgulho ainda teimava com isso.
Quando chegou, a voz potente de Iida se sobressaiu em alto e bom som. Se tivesse sorte e os outros também embarcassem no mesmo timbre, ouvir a conversa seria extremamente fácil.
— Então foi um estilhaço da janela do prédio que te atingiu? Você devia estar distraído. — Ele pontuou.
— E-Eu calculei errado a trajetória... — Izuku explicou ao amigo, bebericando um milk shake com a voz miúda, porém que podia ser ouvida do esconderijo de Katsuki.
O grupo se diversificava em bebidas: café expresso para Iida, chá de hortelã para Tsuyu e mochi para Uraraka. Eles sorviam suas escolhas aos poucos, entretidos pela conversa.
— Você não parece muito bem, Midoriya-chan. Esse acidente com o destroço é a prova disso. — Asui expôs.
— O que está dizendo, Asui-san? — Iida ergueu uma das sobrancelhas finas.
— Me chame de Tsuyu. E eu soube da amnésia do Bakugou.
A colocação trouxe outra atmosfera à mesa. A expressão assombrada adquirida pelo rosto de Midoriya demonstrou que ela tinha acertado na mosca. E notando o assombro, ela prosseguiu:
— Eu soube que ele ficou na sua casa até recobrar a memória.
— F-Ficou...
— E agora que ele se recuperou, você está sofrendo, não está?
Não foi necessário responder. Midoriya apoiou o rosto na mão, olhando com tristeza para seu milk shake pela metade.
— Como você sabia?
— Qualquer um perceberia que você gosta dele. Kero.
Os olhos verdes arregalados e o engasgo embasbacado do rapaz foram apenas outras confirmações.
Ao se recuperar, mais reações incriminatórias. Não contrariou, não fez pergunta alguma sobre as conclusões dela, apenas observou com espanto.
— Exceto pelo Todoroki. — Foi Uraraka, para a sua surpresa, que acrescentou.
Ela não sabia o que seria adequado dizer, haja vista que foi apaixonada por Deku no passado — e mesmo em sua condição de encanto, acabou percebendo os sentimentos do rapaz pelo rival. Quem dirá o que os outros notaram...
— P-Pensei que ninguém soubesse disso... — Izuku viu-se apreensivo por ser tão óbvio.
— Você é incrível em muitas coisas, Midoriya-chan, mas esconder seus sentimentos não é uma delas. — Tsuyu enfatizou. — Especialmente pelo Bakugou.
A risadinha tímida e derrotada que partiu dele despedaçou o coração dos amigos.
Iida então se pronunciou.
— Ele não lembrava da raiva que insiste em nutrir de você?
— Vocês ficaram juntos? — Uraraka finalmente soltou a dúvida que estava coçando na garganta.
Midoriya refletiu, enquanto parecia estar hipnotizado por seu copo cheio de espuma.
Ponderou se deveria contar ou não. Se poderia verbalizar as coisas que aconteceram, e que em outras condições, manteria sob o mais absoluto sigilo, até mesmo de seus amigos de confiança. Entretanto, estava há tempos sufocado por ter que lidar com tudo aquilo sozinho — e eles já sabiam mesmo.
— Tenho medo de ter cometido um grande erro! — Desabafou, exausto.
Houve uma fraca reação surpresa por parte dos demais. Pareciam confusos, como se a ideia de Deku se arrepender lhes fosse contraditória. Ante as feições torcidas, esclareceu:
— Todos os dias com ele foram incríveis! Era como se tudo estivesse no lugar certo. Consegui me tornar o herói que eu queria, tenho ótimos amigos e uma mãe que me apoia em tudo que eu faço, e...tinha ao meu lado a pessoa que eu amo desde sempre...
À medida que a voz começava a falhar, os breves soluços e olhos marejados foram uma questão de tempo. Logo estava se desmanchando em prantos, enxugando as lágrimas com os punhos.
— Agora eu não consigo entender o que estamos fazendo! Ele às vezes parece me querer, às vezes não. E eu sabia desde o começo que algo assim aconteceria, mesmo assim me deixei levar! — Acabou até chamando a atenção de outros heróis, que passavam pela lanchonete. — Depois do tanto que me esforcei para conquistar a amizade e o respeito do Kacchan, arrisquei tudo para agarrar a chance de viver uma fantasia. Talvez até o Wonder Duo deixe de ser o mesmo pelo que fizemos durante a amnésia dele. E tudo isso por eu ser tão... — As palavras não vieram.
— Tão perdidamente apaixonado por ele? — Asui ofereceu.
— S-Sim... — Enrubesceu intensamente, notando uma lágrima pingar no copo. — Se eu não fosse assim, ainda poderíamos ser amigos e eu não estaria com tanto medo de perdê-lo...
— Não se culpe, Midoriya! — Iida interviu. — Conhecendo você, sei que se sucumbiu a seus sentimentos, foi porque ele demonstrou reciprocidade! Você não cederia facilmente porque não acharia adequado!
— Mesmo assim foi errado. Eu lembrava de tudo...
— Deku-kun, ele está certo. — Uraraka também opinou. — Não é justo com você pensar dessa maneira.
Izuku absorveu aquelas palavras. Considerando o tanto que estava sofrendo, remorso realmente era a última coisa de que precisava. Não fazia já muita diferença se estava certo ou não.
— Ele deve ter ficado furioso quando lembrou de tudo. — Tsuyu comentou, imaginando o cenário. — Bem, mais furioso que o normal. Kero. Com certeza disse coisas terríveis.
— Sinceramente, acho que o tempo vai amenizar essa situação. — Após dar uma batidinha nos óculos, para ajeita-los no lugar, Iida também deu sua sugestão. — Ele não pode sentir raiva para sempre. Pelo menos não por isso. E se você achar que ainda vale a pena tentar recuperar a amizade e confiança dele, vá em frente.
— Você pode tentar se aproximar dele de novo, quem sabe não voltem a ser amigos? Mas não crie expectativas, por favor... — Uraraka, tentando evitar de cutucar a ferida, disse com o máximo de cuidado.
— Tem um detalhe. Se isso não der certo, você vai ter que superar seu amor pelo Bakugou. — Foi Asui a puxar de vez o band-aid.
Mesmo com o alarde que reconheceram nos olhos do amigo, souberam que ele não tinha descartado totalmente aquela ideia. Provavelmente seria inútil aconselhar Midoriya a se afastar de Katsuki, então se mantiveram em posições menos radicais — que ele absorveria melhor naquele momento de vulnerabilidade.
Deixaram que digerisse tudo. Nem mesmo interromperam os muitos murmúrios exaltados que emergiram dos lábios dele nos minutos seguintes.
Por fim, Midoriya chegou a uma conclusão.
— Sei que isso vai ser muito difícil, mas vocês estão certos. Esse incidente com o destroço só prova que eu não posso deixar de focar na minha carreira e que ainda tenho muito que melhorar como herói, independente da fase ruim que eu esteja passando. Todos estão contando comigo, não posso decepciona-los.
— Kero. — Asui assentiu, orgulhosa pela decisão do amigo.
O assunto do grupo mudou rapidamente, e a atmosfera tensa que pairava na mesa foi amenizada. Izuku já não estava mais tão abalado, e conseguiu até trocar algumas risadas.
Sentiu que a partir dali, as coisas tendiam a melhorar. A divulgação do ranking semanal de heróis e sua posição como número um só parecia confirmar isso.
*-*-*
Atravessando o corredor com passadas de pernas largas, Katsuki acabou por esbarrar em um extra qualquer por pura distração. Sem sequer olhar o rosto, exclamou:
— Morre!
Estava um poço de nervos. Sentia tanta raiva que os olhos ardiam, e os dentes rangiam quase que instintivamente. O estômago continuava congelado depois da conversa que ouviu discretamente, surpreso demais com seu auto-controle por não ter explodido a varanda sobre Izuku e os infelizes que ele chamava de amigos.
Tinha dito com todas as letras que a última conversa dos dois ainda não estava acabada. Dobrou o orgulho para explicitar que queria resolver a situação, e mesmo assim Deku não estava nada seguro. Isso o deixava desanimado.
Ele sempre lia tudo nas entrelinhas, então como conseguia interpretar tão equivocadamente suas ações?
Certo que estava bem confuso e vinha agindo de maneira inconsistente, mas...
O maldito estava arrependido? Depois da forma que se entregou sem ressalvas, de bandeja, e embarcou de corpo e alma na intensidade daqueles dias de ternura?
Deku o olhava cada segundo como se seus sonhos tivessem se realizado. Demonstrava o quanto cada toque e palavra trocados eram preciosos, e como lembraria de cada mísera detalhe.
E de certa forma, por conhecê-lo tão bem e saber que ele realmente lembraria, aquilo doía. Saber que tudo seria apenas uma lembrança. Ser "apenas" alguma coisa para Deku era algo que o incomodava delirantemente.
Queria que o nerd o seguisse, admirasse, gostasse e procurasse, exatamente como sempre foi...e agora...
Foi para casa sem avisar ninguém, em uma tentativa desesperada de digerir a indignação.
*-*-*
No dia seguinte, percebeu que sua decisão de não ter ido trabalhar foi miserável.
Estava muito parecido com Todoroki alguns dias antes, deitado no sofá enrolado em um cobertor. Em seu caso, entretanto, sem ninguém por perto, e com
uma fome que não o motivava o suficiente para levantar.
Tudo que conseguia fazer era pensar no maldito Deku, e tinha vontade de explodir a própria cabeça por isso.
Pensava que o nerd estava tomando as rédeas para seguir em frente, enquanto ele estava na merda, sonhando com a forma passional que o outro o olhava, o jeito que dizia seu velho apelido irritante e os tantos sorrisos carinhosos que brotavam daqueles lábios quando ele olhava todo abobalhado, apreciando sua presença como um autêntico admirador.
A solidão era horrível. Se recriminava por achar que seu apartamento era vazio demais — não tinha um All Might olhando de todos os ângulos possíveis. Que era quieto demais, sem ninguém murmurando sobre as opções de jantar que a geladeira porcamente abastecida ofereciam. Que era frio, com nenhum corpo para se aconchegar na primeira chance que tivesse.
Não queria admitir. Não poderia tolerar esse tipo de coisa...algo tão estúpido quanto saudades. Saudades de Deku e daquela vida a dois que levaram juntos.
Seu celular vibrou. Apanhou o aparelho com a já conhecida expectativa tola, e sentiu-se ridículo pela própria decepção ao ver que era uma mensagem de All Might.
Como ousava se desapontar com um contato de seu ídolo?
“Jovem Bakugou, assisti em primeira mão ao documentário do Wonder Duo! Estou muito orgulhoso de vocês! Isso que é Plus Ultra!”
Não acreditou que tinha esquecido da estreia do primeiro longa de entretenimento voltado diretamente a seu respeito — e a Deku, é claro.
Ser filmado constantemente nos meses anteriores foi irritante. Os infelizes — vulgo cinegrafistas e bastidores — posicionavam câmeras estrategicamente em zonas da cidade conhecidas pela atividade criminosa, apenas para captar flashs dos heróis focos do documentário em ação.
Abriu uma cópia digital do filme no próprio celular.
Não era muito diferente das mídias daquele estilo já feitas para outros heróis. Resgates célebres, missões que demandavam raciocínio rápido e excelentes reflexos. Explosões, chutes. Explosões, super velocidade. Mais explosões e socos de ar.
O trabalho em equipe dos dois era impecável. Pareciam ler a mente um do outro, tamanho era o entrosamento até mesmo para os improvisos.
O Wonder Duo provava ser uma verdadeira promessa heróica para a nova geração. Pensou então na última missão que tiveram juntos — e que trabalharam contraditoriamente separados.
Sabia que aquela era a melhor estratégia para aquele tipo de demanda, porém não foi isso que norteou sua decisão de agir sozinho. Ele queria evitar Midoriya, por não saber como lidar com seus sentimentos sobre ele, e não duvidava que o outro tivesse optado pelo mesmo.
Algumas frases de Deku então invadiram seus pensamentos.
“Acho que você não sabe, mas...você foi o meu primeiro amor. Você sempre foi tão incrível, e eu nunca consegui parar de te admirar...ou de te querer...”
“Não quero que tenha raiva de mim quando lembrar quem eu sou.”
“Sei que vai ver as coisas de uma forma bem diferente quando sua memória voltar.”
Fez uma explosão em cada mão. Estava frustrado a níveis extremos, e entre vários motivos, principalmente por constatar que Izuku estava certo.
Como sempre, o nerd conseguiu o antecipar — realmente tinha sentido muita raiva. Mas ela tinha passado há tempos. Então por que ele não percebia isso também?
O dia foi um tormento a partir de então. Sua mente insistia em tortura-lo, trazendo toneladas de lembranças a respeito de Deku à tona. Ironicamente, lhe ocorriam menos memórias dos longos anos que se conheciam do que daqueles dias de convivência agradável e calorosa.
Os sorrisos lhe acometiam a mente, juntos das sardas camufladas no rubor expressivo das bochechas, o cabelo sempre desarrumado, a ternura de seus toques, as demonstrações de carinho e as frases doces demais para serem ditas sobre alguém como Katsuki — que mesmo assim Midoriya falava, com a solenidade de uma prece, e apesar dos olhares indiferentes e reclamações que devolvia, gostava de ouvir.
"Eu quero você mais que tudo, Kacchan."
Seu corpo se arrepiou. Aquele era uma lembrança muito forte. Não apenas pelas palavras, mas pelo olhar de Izuku ao confessar, como se tivesse tirado um peso enorme do peito e estivesse muito feliz por isso.
Adormeceu. Não soube como acabou dormindo em plena luz do dia, tampouco como acordou horas depois, assustado e com o coração acelerado — sozinho. Os arredores estavam gelados demais, e tomados por um vazio sufocante.
Sentiu-se terrivelmente vulnerável.
Então a campainha tocou.
As únicas vezes que a campainha havia sido tocada desde que se mudou foram quando encomendou comida.
Assim como acontecia em relação às ligações, teve uma pontada de esperança que fosse Deku.
Mas ele não tinha seu endereço. Ninguém tinha. A não ser...
— Meio a meio, se for você, juro que te mato! — Ameaçou, de dentro do apartamento. — Se manda!
A campainha deixou de ser tocada, e batidas insistentes na porta passaram a importuna-lo. Faíscas reluziam em suas mãos.
Aquele não era o perfil de atitude do chefe. Não poderia ser ele.
Quem teria a cara de pau de aparecer sem avisar e não ter se retirado após uma dispensada daquelas?
Somente uma pessoa...
— Bakugou, sou eu! Te liguei o dia inteiro, cara! — Kirishima se anunciou do lado de fora. — Abre para mim!
Só podia ser.
De alguma forma, o amigo o havia encontrado.
— Morre, cabelo de merda! Como achou meu endereço? — Encarou a porta fechada como se pudesse enxergar através dela.
— O Todoroki me deu! Ele pediu que eu viesse te ver! O cara está preocupado com você desde ontem, que você esbarrou nele e foi embora xingando!
Tinha que ser justamente Todoroki a estar em seu caminho durante um momento de extravasamento. Não podia ter sido apenas algum herói aleatório, das dezenas que trabalhavam na agência.
Todo dia via um herói novo e avulso surgir naquele lugar, e justamente quando esses figurantes seriam necessários, Todoroki que deu as caras. Foi revoltante. E como se já não bastasse, ainda tinha que enviar Kirishima para vê-lo — que era bem mais astuto para entender seus sentimentos complexos e contraditórios.
— Bando de extras de merda...
O resmungo baixo não espantou o homem do outro lado da porta, que tocou a campainha com mais veemência.
— Vai embora, porra! Não quero ver ninguém! — Katsuki sentenciou.
— Vou tocar a campainha até você abrir.
Aquele argumento era imbatível.
Uma veia pulsou dolorosamente na têmpora de Katsuki apenas de imaginar a campainha sendo tocada ininterruptamente. E conhecendo Kirishima, sabia que ele realmente tinha a audácia necessária para colocar suas palavras em ação.
Abriu a porta com uma autêntica expressão assassina. Encontrou um ar vitorioso no amigo.
— Entra! — Ordenou.
Sem cerimônias, Kirishima foi. Analisou o apartamento com olhares nada discretos, surpreso pelo tamanho e com o quão vazio o lugar parecia.
— Você mora aqui há pouco tempo? — Deduziu pelo caráter impessoal da mobília fina e decoração minimalista.
— Não.
Olhou-o com preocupação. Só pelo tom desgastado da negativa, percebeu que Bakugou não estava bem.
— Você estava na fossa?
— Não te interessa! — Enxugou o nariz pintalgado de vermelho com o dorso da mão. — O que você queria comigo, caralho?!
— Saber se você ficou bem depois de ter recuperado a memória... — Abriu um sorriso que pingava malícia. — E fingir que não sei que você e o Midoriya ficaram bem íntimos nesses dias.
Explosões escaparam pelas mãos de Katsuki. A reação involuntária só pareceu confirmar as suspeitas de Kirishima.
E talvez não valesse a pena negar.
— Primeiro se faz de sonso e agora solta essa! Foda você, hein!
Ele riu. Como se fosse tudo completamente óbvio, e estivesse tratando com uma criança.
— Eu suspeitei desde que vi uma foto de vocês dois juntos, na internet. Estavam muito casal! Achou mesmo que ninguém repararia?
Bakugou virou o rosto, corado, com o sangue fervendo nas bochechas- em um misto de raiva e vergonha.
— Saudade dele? — Kirishima perguntou, estranhamente calmo.
— Não, seu cabelo de merda miserável! — Só a forma que respondeu foi a confirmação que o outro precisava. — E não podia ter escolhido um momento pior para vir aqui encher o meu saco?
— Na verdade, acho que eu cheguei no momento perfeito.
O estralo de língua de Bakugou foi realmente alto. Aquela malandragem toda do amigo o deixava desnorteado — era como se além de estar lá para constrange-lo, Kirishima tivesse outra carta na manga.
E a campainha foi tocada novamente.
O peito de Katsuki pareceu ter sido invadido por toneladas de borboletas apenas por pensar na possibilidade de Kirishima ter passado de todo e qualquer limite de bom senso e levado Deku até ele.
Abriu a porta cheio de expectativa.
Não era Deku.
Kirishima sabia atropelar seu orgulho inflado como um trator, porém ainda era respeitoso demais para se envolver em algo tão pessoal.
Ao invés disso, o deixou com expectativa para que ele atendesse a porta, ao invés de ignora-la. E não haveria outra forma dele ter permitido a entrada do grupo que comemorava por finalmente vê-lo.
— Ah, chamei eles também. — Kirishima anunciou. .
Katsuki teve vontade de se explodir para fora dali quando avistou seus famigerados amigos da academia.
Soube que seria zoado por sua amnésia — além das razões normais e costumeiras pelas quais eles o atormentavam desde a época da U.A.
— Kacchan! — Kaminari imitou o chamado de Deku até na tonalidade da voz. — Você sabe quem eu sou?!
Desejou ter se submetido ao lado dos vilões quando teve chance.
— Morre, pedaço de bosta! — Bradou com o recém chegado. — Todos vocês, escória, fora do meu...
Antes que pudesse concluir, Sero e Ashido se empurraram contra a porta, comprimindo-o entre os dois. Passaram por ele após se desentalarem, alheios à indignação despertada.
— É assim que recebe seus amigos?! — Kaminari provocou, entrando tranquilo, quase desfilando, indiferente ao olhar lívido que o metralhava.
Bakugou virou o pescoço em câmera lenta. Fechou a porta com o pé, provocando um baque estrondoso que arrancou uma exclamação amedrontada dele.
Mas Katsuki focou sua ira em Kaminari por pouco tempo. Logo avançou pelo apartamento, à procura de caos — que o grupo inevitavelmente causava.
— Será que tem algo para beber? — Sero indagou da cozinha, em um tom displicente.
Bakugou teve vontade de explodir o apartamento inteiro quando ele abriu libertinamente a geladeira.
— Água, cara? É sério? — Ashido, que se interessou e foi procurar também, resmungou.
— Já tenho dor de cabeça o bastante por vocês existirem, porra! — Correu até eles, que fugiram teatralmente de forma infantil, rindo de sua situação.
E comentários hilariantes preencheram o apartamento ao vê-lo fechar a geladeira, furioso.
O sofá logo foi coberto pelos corpos esparramados e extremamente à vontade de Sero, Ashido e Kaminari, que se ajeitavam como se frequentassem o apartamento há anos.
Até Kirishima pareceu estar um pouco menos confortável, apesar de ter sido o único efetivamente convidado a entrar.
— Folgados de merda... — Katsuki resmungou ao assisti-los.
Para reforçar sua reprimenda, permaneceu em pé, com todos os dentes à mostra. Ostentava um ar perigoso, que deixou de intimida-los ao longo dos anos.
— E sobre o acidente com a individualidade de amnésia, como você está? — Ashido questionou, fazendo contato visual com o anfitrião furioso. Bebericou uma garrafa de água roubada da geladeira, apenas para provocá-lo.
— Vivo! Agora vazem daqui!
— Espera! E como ficaram as coisas depois? — Kaminari interviu, sem perceber que era o único que ainda se exaltava pelos gritos de Katsuki.
— Que coisas, inferno?! Fala direito!
— Você! Sua memória! — Se enrolou. — É o que quero dizer!
— Se ele não lembrar o que esqueceu, como pode saber se a memória voltou? Está fazendo perguntas estúpidas. — Sero alfinetou.
Ele e Kaminari entraram em uma pequena discussão acerca da possibilidade de alguém com amnésia lembrar que esqueceu algo.
Enquanto isso, Bakugou percebeu que Kirishima não se juntava à pequena bagunça dos amigos.
Maturou aquela constatação. O amigo sabia de seu estado antes mesmo de vê-lo, e sem ter tido nenhum motivo para suspeitar que estivesse triste. Ele apenas sabia, e para anima-lo, levou o grupo bem humorado para lhe fazer uma visita.
Por mais que Katsuki fingisse detesta-los, realmente gostava deles.
Mas as intenções de Kirishima individualmente não estavam claras. Ele observava demais os arredores, sorvendo demais os detalhes para um intuito tão simples quanto o dos outros.
Então Kirishima notou-se sendo encarado com desconfiança por Bakugou. Abriu seu sorriso ziguezagueado característico e finalmente se pronunciou:
— Você nem está xingando...
Era verdade. Em circunstâncias normais, Katsuki já teria colocado os amigos para correram dali. Entretanto, estava consideravelmente exausto pela montanha russa cheia de loopings que sua vida havia se tornado desde o instante que sofreu a amnésia. Preferia evitar a fadiga.
Realmente não eram seus melhores dias.
— Agora que eu reparei, seu apartamento é tão legal! Com certeza custou uma nota! — Kaminari comentou, sem se atentar à tensão que desenrolava bem à sua frente. — Você disse uma vez que comprou com o dinheiro daquela sessão de fotos, não foi, Bakugou?
— Daquela? Quando ele posou peladão? — Sero provocou.
Gargalhadas soaram como um trovão pelo apartamento. E por um paralelo desgostoso, um arrepio percorreu a espinha de Katsuki como um raio.
Sua sessão para a revista de nudez não era segredo para ninguém, porém lembrar que Deku, o nerd sempre tão comportado e polido, havia desenvolvido interesses bem particulares em relação a essas fotos, o deixava inquieto.
E uma lembrança veio.
“- Aí, Izuku... — Chamou, com a voz arranhando a garganta. — De qual outra foto da revista estúpida você gosta? Para eu saber qual imitar da próxima vez.”
Não houve aquela suposta próxima vez que tinha prometido. E restavam ainda tantas fotos que não tinha imitado para ele...
As risadas que ecoavam pelos ares foram progressivamente cessando, deixando apenas a estranheza.
Mesmo indecorosos, os amigo perceberam o trejeito reticente e incomum que Katsuki apresentava. Seu olhar vidrado era quase assustador também.
Estava quieto demais, talvez até calmo demais. Como se outra coisa muito mais urgente estivesse lhe roubando os pensamentos e impedindo-o de realmente se importar com toda descortesia.
— Sinto muito por não termos te procurado antes. Ficamos muito preocupados com você, mas decidimos te dar espaço depois que ignorou todas as nossas ligações. — Ashido explicou, considerando a possibilidade do gesto ser mal interpretado.
— Achamos que não era o momento! — Fazendo um tom dramático, Kaminari acrescentou. — Eu não iria querer um monte de desconhecidos enchendo o meu saco dizendo que são meus melhores amigos, caso eu tivesse uma amnésia!
— Você já nasceu com amnésia, Kaminari. — Com seu sorriso neutro, Sero debochou.
— Ah, cara! O que você quer dizer com isso?!
— Calem a boca! — Bakugou interrompeu, seriamente irritado. — Acham mesmo que estou ligando para isso, seu bando de idiotas?!
Os amigos se entreolharam, confusos. A teoria que cimentavam acerca do comportamento incomum de Katsuki havia caído por terra como um relâmpago despenca do céu em meio a uma tempestade.
— Então não está chateado? — Kaminari insistiu.
— Não, porra!
Expressões de pura mortificação tomaram as faces de traços diversificadas na sala.
Agora tinham um mistério em mãos.
— A amnésia passou totalmente? — Sero coçou a cabeça, incrédulo.
— Passou! Entendeu de uma vez ou quer que eu desenhe?
— Então por que você parece estar tão mal?
Os olhos carmesins que ardiam como brasas se desviaram.
Kirishima finalmente se aproximou do grupo. Apoiou a mão no ombro do herói explosivo, e ostentava um sorriso estranhamente conciliador.
— Desabafa, bro. Está na cara que precisa. — Aconselhou. — Todos aqui querem o melhor para você. Pode abrir o coração.
— Que papo é esse?! Mas nem fodendo! — Sacudiu o ombro, livrando-se do toque.
— Qual é?! É super másculo ser sincero com os amigos!
— Pensando bem...você nunca desabafou conosco. — Sero pontuou, trazendo a atenção de todos para si.
— Ele só se abre com o Midoriya! Normalmente no meio de uma briga, mas sempre com o Midoriya! — Kaminari completou. — Falando no cara, espero que você não tenha dado muito trabalho quando enquanto esteve na casa dele! A Uraraka trabalha na mesma agência que eu, e disse que ele estava muito preocupado com você.
O sangue subiu à cabeça de Bakugou. Não suportou esconder seu abalo por aquele tópico.
— Tinha que falar do nerd bosta?! E eu não pedi nada para ele, inferno! Não fale como se eu estivesse devendo uma!
A reação bem mais condizente com o temperamento estourado arrancou reações interessadas.
— Espera! Isso tem algo a ver com ele? O que aconteceu? — Kaminari foi tomado pela curiosidade.
— Vai, fala logo! — Ashido o acompanhou. — Quero saber desse rolo com o Midoriya!
Katsuki sentiu seu último vestígio de paciência ser torrado. Deu as costas ao grupo, e quando pretendia sair de perto deles, uma mão firme o fixou no lugar.
Não soube se Kirishima estava usando sua individualidade, porém claramente não o deixaria fugir.
Estava o fazendo encarar a situação de frente para confessar seus sentimentos. Típico da perícia sentimental dele.
— Vocês...transaram? — Sero finalmente levantou a questão inconveniente.
A vermelhidão que se apossou do rosto de Bakugou disse mais do que deveria. E ele não era de mentir — e mesmo que fosse, nunca poderia negar.
Pensou que ficariam espantados. Ao invés disso, fizeram uma espécie de comemoração. Kaminari foi o único a não participar — ele, na verdade, sacou a carteira, enquanto até mesmo Kirishima se desmanchava em risos.
— Do que você estão rindo, amigos da onça?! — Katsuki se irritou por não estar entendendo nada.
— Ganhamos a aposta! — Ashido exclamou.
Eles tinham apostado sobre ele e Deku?
Ficou perplexo com a forma que tinham o decifrado, como se sua fortaleza de bloqueios fosse transparente.
— Tenho certeza que ele nem se incomodou de ter que abrigar você. — Sero pontuou, sorrindo sarcástico. — Deve ter te tratado como um rei.
— Não é mesmo, Rei das Explosões Assassinas? — E Ashido não perdoou a chance de trazer memórias infames à tona.
Todos riram, exceto Katsuki, que cruzou os braços ainda sem entender o que eles viam de tão horrível naquele nome de herói.
— Ele que é estúpido e se preocupa demais! — Constrangido, desconversou.
— E se preocupa mesmo! — Aproveitando aquele viés da conversa, Kirishima enfatizou os sentimentos de Midoriya, olhando-o face a face. — Você não imagina como ele fica quando alguma coisa acontece com você!
— O All Might poderia falar “pare, jovem!” que ele iria mesmo assim. — Sem captar as intenções, Kaminari transformou aquilo em piada.
Os risos dele fizeram algo desmoronar dentro de Bakugou. Não tinha graça nenhuma.
— Se é assim, por que aquele desgraçado não me procura?!
E o ambiente tornou-se subitamente silencioso.
O grupo encetou novas teorias a partir daquela explosão emocional. Finalmente entenderam a razão por trás do estado deplorável dele: estava apaixonado.
— Você está caidinho pelo Midoriya! — Ashido declarou. — Parece que nosso menino explosivo encontrou o amor!
— O caralho! Que asneira é essa, olhos de guaxinim?!
A resposta foi dita tão sem pensar duas vezes que ficou claro que não era verdade.
Encararam Katsuki com olhares simultaneamente transtornados e admirados.
Transtornados por estarem presenciando, pela primeira vez, Bakugou sofrendo por amor. E admirados por quem era o alvo desse amor.
— Você é orgulhoso a ponto de não aceitar que gosta dele? — Sero demonstrou sua indignação. — Ou está com medo?
— Que mané medo?!
— Está com medo, sim. — Sem receio de falar o que pensava, Kirishima discorreu. — Sei que aconteceu alguma coisa que abalou a sua confiança. Não sei o que foi, mas você deveria aproveitar a chance de se resolver com ele, ao invés de ficar aqui na pior! O Bakugou que eu conheço já teria ido atrás do Midoriya, e não estaria de braços cruzados esperando ele aparecer!
Contar que havia escutado a conversa de Deku e que estava realmente apavorado com a possibilidade de perdê-lo seria impensável. Mas percebeu que Kirishima tinha razão: não era o tipo de pessoa que esperava a iniciativa alheia.
E além do mais, Deku tinha mais motivos para estar incerto do que ele.
A partir dali, teve certeza que cada segundo que passava era tempo perdido.
— Não dou a mínima para os conselhos de vocês, mas vou atrás do maldito Deku para dar uma lição nele por tentar me esquecer! — Se apartou de Kirishima. — E já que vocês não vão embora, foda-se, vou eu!
Os amigos o saudaram pela decisão, radiantes por verem os olhos vermelhos dele arderem em ambição. Mas tudo ficou estranho a partir do momento que Bakugou realmente se dirigiu à porta, exatamente com as mesmas roupas que estava usando, sem se despedir de ninguém.
Observaram incrédulos quando ele deixou o apartamento.
Esperavam que o conselho surtisse efeito, porém naquelas condições, nem tanto...
— Sério que ele nos largou sozinhos aqui? — Ashido indagou.
Sentiram-se felizes por Bakugou, embora indignados.
Fizeram notas mentais de nunca mais darem conselhos deveras imediatistas a alguém tão impulsivo.
*-*-*
Os amigos o compreenderiam — Katsuki sabia — por isso não conseguiu evitar de sair de lá o mais rápido possível.
Havia uma última coisa que precisava fazer antes de ir realmente atrás de Izuku. E só poderia fazê-la na agência.
Invadiu o vestiário, ignorando o rosto conhecido que avistou por lá. Foi direto ao seu armário, que abriu com mãos trêmulas e pensamentos inquietos.
Encontrou os livros da saga que Deku lhe deu, e abriu cada um deles em busca da dedicatória que nunca tinha lido.
O coração falhou uma batida quando avistou a escrita na folha de rosto.
“Querido Kacchan...
Sei que não vai se lembrar por enquanto, então vou contar como se fosse a primeira vez.
Você sempre foi uma das minhas maiores inspirações. Mesmo com o All Might sendo o nosso ídolo, você que é o meu herói!
Espero que sua memória volte logo, mas até lá, estou feliz que estejamos passando esses dias juntos!
É ótimo fazer parte do Wonder Duo com você!
Sou seu maior fã!
Você é tão incrível!
É muito bom te conhecer!
E...desculpe, era isso!
Com amor,
Midoriya Izuku/Deku".
Fechou o livro com força, e sentiu-se completamente ridículo por ter desejado abraçar um objeto inanimado, mimicando o que faria com Deku.
Ele nunca omitia sua admiração e carinho, era corajoso o bastante para entregar o coração sem nem considerar remissão e expunha seus sentimentos mais profundos sem que isso fosse um desafio.
Ao refletir sobre a conversa que ouviu, entendeu que Deku também estava com medo. Ele, que sempre deu tudo de si para impressiona-lo e o olhou desde sempre com genuína adoração, estava pedindo que pelo menos uma vez, fizesse o mesmo e fosse atrás dele.
E quando pensava no que estava o impedindo, soube que, acima de tudo, era o orgulho — que naquele momento, não doía tanto pela perspectiva de ser ferido quanto a perda da figura irritante que o perseguia até os confins da existência desde a infância.
Será que dava tempo, mesmo depois de Deku ter feito planos? Que lhe daria outra chance?
Enquanto entrava em colapso, percebeu um olhar injetado em sua direção. Devolveu um enviesado, de pura intimidação, e avistou a mesma pessoa que estava no vestiário desde de sua chegada: Inasa.
Ele aparecia esporadicamente para ajudar com alguma missão, quando conseguia uma brecha na agência em que trabalhava.
Os lábios dele se moveram para formar o início de uma saudação extravagante e alegre, entretanto foi cortado antes mesmo de formar a primeira sílaba.
— Sai da minha frente, seu careca com cabeça de vento! — Bakugou bradou, deixando o livro no armário e se esgueirando pelo ambiente com as mãos nos bolsos.
— Eu não estou na sua frente! E nem sou careca! — Mesmo que o outro não tivesse se dignificado a olhá-lo, fez questão de levantar seu quepe. — Vejo que se recuperou completamente, Bakugou! Bem-vindo de volta!
Bufou. Não era dele que queria ouvir essa última frase.
Deu as costas sem cerimônias, pronto para sair dali o mais rápido possível — embora sem um plano.
— Está com cara de quem vai fazer algo irresponsável! Isso tem algo a ver com a nossa missão programada para daqui a pouco e você estar praticamente de pijama?
Tinha se esquecido completamente que a missão em parceria com ele era sua. E que era realmente importante.
— Você e o meio a meio dão conta daquela missão patética sem mim! — Preferiu inflar o ego do outro do que dar uma satisfação. — Esse tipo de coisa nem vale o meu tempo!
— Então eu te desejo boa sorte no seu afazer misterioso?
— Não! Morre! — Exclamou antes de deixar o local.
Inasa riu. Teve uma estranha certeza que aquilo tinha algo a ver com a ternura que ele e Midoriya demonstraram quando foram visita-lo — apesar da briga, que era até um pouco adorável a seus olhos.
— Nada como uma paixão juvenil...
E ele não via nem um pouco de problema em dividir com Todoroki a próxima missão, ao invés de Bakugou. Nem um pouco mesmo.
*-*-*
Katsuki encarou a tela do celular por algum tempo. Temia que se ligasse para Izuku, ele não o atendesse. Já estava se sentindo um completo idiota, e a última coisa que precisava era de um fora.
A outra pessoa que ele tinha em mente procurar também não tornava aquela ideia fácil. Nesses anos todos, tinha se dirigido a ele por livre e espontânea vontade quantas vezes? Poucas, em que fez questão de salientar que não eram amigos.
Mas considerando que, ciente disso ou não, ele vinha sendo seu informante sobre tudo que se tratava de Midoriya, não pensou em mais ninguém.
Ir até ele seria como pedir ajuda — apesar de estarem literalmente no mesmo prédio naquele momento.
Ligar era menos pior. Arriscou, e esperou chamar duas vezes antes de ser atendida.
— Você ligou errado?
O espanto na voz de Todoroki só agravou a irritação de Katsuki.
Teve vontade de aparecer na sala dele para explodir o lugar todo com ele dentro. Inasa provavelmente chegaria lá em breve, e explodir o careca seria um bônus.
— Cala a boca, pavê desgraçado de merda! — Replicou, andando em círculos no meio do corredor.
— Certo, calar a boca...então qual o ponto de me ligar se...
— Não enche! Cadê o bosta do Deku? Está trabalhando, está na casa da mãe, onde? Só me diz isso!
— Você não deveria pedir informações confidenciais, Bakugou. Mas que eu saiba, o Midoriya não está trabalhando. E acho já voltou para o apartamento dele. Por que?
Todoroki viu Inasa cruzar sua porta com um olhar alegre demais para quem teria uma missão com Bakugou dali a uns poucos minutos.
E quando a linha tornou-se silenciosa, percebeu que o herói havia o deixado falando sozinho.
— Por que ainda me surpreendo? — Resmungou.
*-*-*
Katsuki não se esqueceria daquele caminho nem se quisesse.
Quando ficou de frente com o prédio, que conhecia bem melhor por dentro do que por fora, o coração pareceu estar entalado na garganta.
Não se deu ao trabalho de gastar tempo com formalidades: entrou no perímetro do prédio usando sua individualidade. Aterrissou na garagem.
Ficou tão ansioso que conforme cruzava a distância entre seu ponto de início e o apartamento de Deku, começou a contar seus passos, com a sensação de que a distância era infinita.
Sentia um turbilhão sólido de emoções exacerbadas alojadas em seu âmago entrando em ebulição.
Quando finalmente chegou à porta de Deku, já nem tinha mais controle sobre elas.
A primeira coisa que fez foi apoiar os braços na madeira, respirando fundo para reunir coragem. Em seguida bateu forte com os punhos fechados, cada vez mais nervoso.
— Deku! — Chamou, secretamente temeroso que os milésimos de segundo de espera desde sua chegada fossem uma recusa.
Surrava a porta, tão exaltado que havia se fechado à sua racionalidade — e à existência da campainha.
Queria não estar tão vulnerável naquele momento.
— Deku de merda, abre essa porta!
Bateu mais algumas vezes, antes de ouvir a fechadura ser destrancada. Afastou-se, com olhos arregalados em expectativa.
Quando a porta foi aberta, sentiu como se o mundo tivesse parado de girar.
Estava finalmente em casa.
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