Eu Não Quero Ser Só Uma Memória

3 Você olha para mim e eu quero pegar fogo


Notas iniciais
Mais um capítulo! E ele foi tão legal de escrever que acabei me empolgando, desculpa se ficou grande! Aproveito também para agradecer pelos comentários, fiquei muito feliz ♥ ♥ ♥ Boa leitura!

Midoriya acordou com um barulho estridente na cozinha, seguido por um palavrão sussurrado em tom rouco e familiar. Abriu um sorriso involuntário ao lembrar que Katsuki estava em sua casa.

Saiu timidamente do quarto, e encontrou o outro herói ainda com a regata preta, as calças folgadas e os pés descalços da noite anterior. Estava mexendo na geladeira, claramente à procura de algo para comer.

— Bom dia, Kacchan! – Cumprimentou, em êxtase. — Como você dormiu?

— Não te interessa.

Izuku considerou o silêncio como sua melhor opção a partir dali, percebendo que a irritação matinal de Katsuki era ainda maior que a irritação costumeira para o resto do dia. Apenas observou-o: elegeu um pote de requeijão pela metade, deixou algumas torradas sobre a mesa e dirigiu-se em uma trajetória confiante para buscar pratos. Ele parecia ter olhado todos os armários, porque sabia onde tudo ficava guardado.

— Sei lá. Melhor que no hospital. — A resposta aguardada chegou subitamente, desta vez de forma um pouco mais amena.

Surpreso, Midoriya buscou o olhar do outro. Ao não encontrar mais vestígios de fúria, se desinibiu o suficiente para sentar na cadeira oposta à que Bakugou tomou para si. Um prato logo lhe foi estendido, e não deixou de sentir-se meio abobalhado pelo pequeno gesto de consideração.

— Obrigado, Kacchan.

— Não enche.

A resposta estava bem longe de ser suave, mas não deixou uma atmosfera pesada. Iniciaram o desjejum sem qualquer outra palavra ser trocada — embora Izuku não pudesse evitar o impulso de lançar olhares ao outro, admirando secretamente o fato de estar tomando o café da manhã com Kacchan.

Assistiu a forma que espalhava o requeijão e comia as torradas com uma expressão indiferente, até que em determinado momento, um fio de requeijão grudou sobre os lábios dele. Izuku corou ao vê-lo apanhar o vestígio com a língua. Era impressionante a forma que seu corpo reagia à mais banal ação.

Perdeu o rumo quando o olhar carmesim recaiu em sua direção, flagrando-o. Soltou uma interjeição abafada e desviou o rosto.

— P-Posso sair para comprar outras coisas s-se você não gostar do que tem aqui... — Disfarçou.

— Foda-se. Estou com fome.

Não soube o que dizer. Ao pensar sobre aquilo, considerou seriamente a possibilidade de Bakugou não lembrar os próprios gostos, por isso a dificuldade em escolher algo.

A quietude perseverou no ambiente ao longo da refeição, permeada por Midoriya refreando um desejo tolo de oferecer ao hóspede todas as opções disponíveis em sua cozinha.

Quando concluíram, desta vez não houve protesto por Bakugou se prontificar a lavar a louça. Ao invés disso, o outro herói entrou em uma bolha de murmúrios incansáveis enquanto olhava para dentro da geladeira, inconscientemente calculando todas as variáveis possíveis do que poderia ser do agrado de Katsuki. Fez uma nota mental de limpa-la no dia seguinte.

Mais tarde, o pijama tornou-se incômodo, e a sensação de não ter despertado direito passou a importuna-lo.

— Kacchan, você precisa de alguma coisa?

— Por que eu precisaria?

— É que...eu vou tomar banho. — Avisou.

— E daí? Que merda de pergunta...

Midoriya suspirou em frustração e fechou a porta do banheiro, deixando a reclamação incisiva no ar.

*-*-*

Saiu alguns minutos depois, se deparando com Bakugou furioso em seu sofá.

— O que...

— Eu não lembro a porra da senha! – Ele tentava desbloquear o próprio celular, soltando faíscas das mãos ao teclar com violência. — Ah, inferno! Morre, celular!

— M-Morre?

Um novo sentimento familiar assolou o peito de Midoriya. Não evitou de sorrir, e sentou-se ao lado de Katsuki, sem se incomodar com o olhar de ódio que lhe foi destinado.

— Você está entediado?

— Vai fazer mais perguntas idiotas, nerd maldito? É óbvio que sim!

— Você não precisa depender do celular. Pode fazer várias outras coisas! Se quiser ver televisão, por exemplo, tenho um pacote ótimo de filmes! Se preferir, tenho livros...

— Quero ir para algum lugar. Ficar aqui está um porre. — Sentenciou, agora encarando o teto.

Uma mordida intrigada de lábios seguida por alguns murmúrios levou Izuku até seu próprio celular. Pensou que seria bom para Katsuki estar entre amigos próximos, então tentou ligar para Kirishima. A linha estava ocupada.

— Ele deve estar trabalhando. — Explicou.

Não era a resposta que Bakugou queria. O descontentamento se combinou a uma carranca de sobrancelhas muito franzidas e uma postura defensiva.

Midoriya decidiu não insistir muito, afinal não sabia se Bakugou reagiria bem a encontrar os demais amigos do grupo sem a presença de Kirishima, que todos sabiam que era o apaziguador das explosões dele.

Pensou em levá-lo para ver alguém de seu próprio círculo social. Descartou Iida, afinal ele não se entrosava muito com o herói explosivo. Asui também não.

Então considerou Uraraka. Surpreendentemente, ela e Katsuki se davam bem o suficiente para render uma ou outra conversa. Mas deixou a ideia de lado quando outra mais promissora lhe veio à tona.

— Que tal o Todoroki-kun? — Sugeriu, atento à reação alheia.

Ele deu de ombros, acatando silenciosamente. Não que realmente quisesse saber do chefe, porém dadas as circunstâncias, aquela alternativa pareceu razoável.

Midoriya se animou imediatamente ao ter sua ligação atendida. Bakugou apenas ouvia, tentando decifrar a conversa através apenas das falas de Izuku.

"Todoroki-kun, você está ocupado?"

"É que o Kacchan quer sair e eu pensei que seria bom para ele ouvir informações diferentes das que eu tenho. Talvez haja algum detalhe importante que eu não lembro ou..."

"Podemos mesmo? Obrigado!"

Quando desligou o telefone, um olhar verde reluzente indicou que tinham conseguido um programa para o dia.

— Vamos? Ele nos convidou para ir no apartamento dele!

*-*-*

O trajeto de carro não foi muito longo.

Estacionaram em frente a um condomínio de classe média — que Bakugou não esperaria ser a casa de um sócio de agência de super heróis, certamente podre de rico.

Saíram do carro e Midoriya os anunciou ao porteiro, que abriu o portão social prontamente. Seguiram no interior do condomínio até um dos últimos prédios do corredor. Subiram de elevador para o sétimo andar, onde Izuku tocou a campainha de um dos apartamentos. Sorriu discretamente ao ver Katsuki já impaciente.

A porta foi aberta. Bakugou manteve os olhos na altura que esperava encontrar Todoroki, e ao invés disso se deparou com um peito enorme e ombros largos.

— Se não é a minha dupla de heróis favorita! Que imensa honra receber vocês!

Katsuki observou com animosidade a figura que os saudava alegremente e exibia um sorriso amplo e contagiante — que não o contagiou, é claro.

— Inasa, há quanto tempo não te vejo! Como você está? — Midoriya esticou a mão ao herói do vento, que agarrou forte e o cumprimentou com tapinhas nas costas.

— Desde aquele resgate no centro da cidade, hein? E faz um bom tempo! — Riu, nostálgico. — Mas estou ótimo! E vocês?

Os olhares de Inasa e Bakugou finalmente se cruzaram. O sorriso radiante se estreitou um pouco, ao passo que Izuku tentou responder da forma mais casual possível.

— Tudo bem...

— Fico feliz em ouvir isso! — Deu mais dois tapinhas nas costas de Midoriya, antes de se direcionar ao outro. — E eu soube da sua amnésia, Bakugou. Mas não fique preocupado, temos muitas lembranças legais para dividir com você!

Inasa estendeu a mão a Katsuki, e Midoriya teve certeza absoluta que ele receberia um tapa ardido em resposta. Viu o brilho furioso familiar reluzir nos olhos escarlates, porém o herói apenas ignorou e virou o rosto, claramente irritado.

— Cala a boca! Não estou preocupado!

— Kacchan, o Inasa também está no ranking dos dez melhores heróis! A individualidade dele é muito impressionante, e ele consegue torna-la perfeita para qualquer tipo de missão! – Izuku comentou, deixando transparecendo sua admiração. – Ele ganhou cinco páginas de anotações no meu caderno de análise de heróis, e tem...

— Não passa de um figurante. Com certeza sou muito melhor que ele.

A resposta competitiva e birrenta arrancou uma risada divertida de Inasa – que não se incomodou nem um pouco.

— Foi um insulto, filho da puta! – Bakugou se fez claro.

— Claro que foi! – Riu novamente. — E por isso mesmo é tão legal! Eu adoro essas explosões passionais!

— Tanto faz. Quem é você, afinal?

No segundo seguinte, a cabeça raspada de Inasa estava quase cravada no chão devido a uma reverência exagerada.

— Yoarashi Inasa! Mas para que se lembre de mim mais apropriadamente, sugiro que vocês entrem! – Se recolheu do cumprimento e abriu passagem para os convidados. — Sem cerimônias, a casa é de vocês!

Entraram, com Bakugou direcionando olhares enviesados a seu “novo” conhecido. Logo avistaram Todoroki enrolado em um cobertor no sofá, com potes de sorvete bem arrebanhados na mesa principal e assistindo uma comédia romântica. Ele tinha olheiras tão grandes que explicavam aquelas circunstâncias deploráveis em um belo domingo ensolarado.

— Todoroki-kun, como você está? — Midoriya perguntou, em um conflito interno se deveria se aproximar do amigo.

— Tenho trabalhado por três na agência.

— Oh! S-Sinto muito! Não foi minha intenção te sobrecarregar com as missões...

— Eu sei. Nunca disse que foi intencional.

— Então você está...bem?

— Ah. — Piscou descoordenadamente, exausto. — Não.

A resposta dita no tom despreocupado do chefe deixou Izuku um pouco confuso. Sentiu uma mão enorme em seu ombro, e Inasa se prontificou a nortea-lo.

— Ele está um pouco mau humorado ultimamente. O lado ardente que esse homem esconde fica bem evidente quando ele dorme pouco.

— Por favor, me desculpem por causar problemas! — Midoriya lamentou, realmente sentindo-se negligente com suas responsabilidades de herói. – Eu prometo que vou compensar por tudo!

— Relaxa, Midoriya! Vamos fazer tudo funcionar até vocês voltarem! — Mais uma vez, Inasa pacificou. – Agora o foco tem que ser o Bakugou. Ele realmente não está em seus melhores dias se ficou cinco minutos na minha presença e não me chamou de "careca” nenhuma vez!

Inasa emitiu outra risada escandalosa. Em seguida, os olhares se voltaram para Katsuki, que assistia tudo, silenciosamente, de braços cruzados – deslocado e arrependido por ter insistido em sair.

— Estão olhando o que, seus malditos? Querem uma foto?

— Estamos estranhando que você está calado! — Inasa exclamou, sentando no mesmo sofá que Todoroki estava.

— Que saco, não enche!

Midoriya se acomodou no outro sofá, e Katsuki acabou se juntando a ele. Emitiu um forte estralo de descontentamento com a língua, incomodado.

— Sofá bosta esse de vocês, hein! — Ralhou, mas sem deixar sua curiosidade de lado. — Aí, vocês dois moram juntos?

— Moramos. — Todoroki replicou.

— E como isso foi acontecer?

— Eu contei que estava louco para sair de casa, e ele disse que tinha um apartamento modesto. Então eu trouxe as malas no dia seguinte.

— Que merda...eu queria sair, não empatar foda!

— Você não empatou. — Todoroki replicou. – Quem fez isso foi o Midoriya, quando me ligou.

Inasa engasgou, assustado com o súbito rumo da conversa. Bakugou se viu sem fala, com uma sobrancelha pulsando em puro tique. Midoriya jurou que poderia entrar em combustão espontânea a qualquer momento.

— Ah...alguém quer café? — Inasa ofereceu, com os olhos arregalados e um mero fio de voz.

*-*-*

Com minúsculas xícaras floridas em mãos, que Katsuki tinha vontade de tacar na parede, os convidados bebericavam café apenas para dissipar a vergonha do ar. Inasa sorvia de sua xícara com uma absurda dificuldade de manipular a micro asa de porcelana com seus dedos enormes.

— Nerd, que ideia foi essa? Por que você me trouxe logo para cá? — Bakugou sussurrou de forma surpreendentemente discreta para Izuku, que se arrepiou com a voz em seu ouvido.

— E-Eu não sabia onde mais...

— Estamos segurando uma vela do caralho, seu idiota!

Midoriya corou e tossiu em um misto de engasgo e constrangimento, que chamou a atenção de Inasa. Já Todoroki direcionou apenas um breve olhar de surpresa, voltando em seguida a se concentrar na legenda do filme.

— Já que é para ajudar o Bakugou com as memórias, vou começar contando do dia que nos conhecemos! — Inasa exclamou, já demonstrando sua costumeira animação. — Foi no exame da licença provisória de heróis, no primeiro ano do curso, é claro! E com exceção do Midoriya, nós três reprovamos!

— Ahn?! — Os olhos de Katsuki se arregalaram em perplexidade. — Que história é essa?! Você está louco, seu careca? Eu nunca reprovaria numa bobagem dessas!

— Poxa, não veja dessa forma! Tivemos uma ótima prova de repescagem! Eu adoro crianças, e...

— Corta essa e explica direito!

Bakugou finalmente desmanchou parcialmente sua carranca, e se atentou à narração. Midoriya também ouviu com interesse, em seu típico transe de coleta de dados.

*-*-*

Inasa realmente foi minucioso no quesito detalhes, e contava tudo como se cada lembrança lhe fosse recente. A forma divertida com que descrevia sua paixão descontrolada pelo heroísmo irritava Bakugou e encantava Izuku, que concordava em silêncio com cada palavra.

No trâmite entre a narração entusiasmada e uma propaganda do canal de filmes, Todoroki acabou adormecendo. Foi puxado suavemente pela cintura para deitar a cabeça em uma almofada fofa no colo de Inasa, que logo mergulhou os dedos longos no cabelo bicolor, iniciando um cafuné lento e visivelmente gostoso. Os outros dois heróis observavam, curiosos.

Katsuki notou então que Izuku não estava mais tão atento à conversa. Ele ostentava um sorrisinho sonhador e um olhar direcionado às mãos de Inasa – a que continuava acarinhando o cabelo de Todoroki, já adormecido há tempos, e também a outra, que se apoiava com a ternura de um toque de asa de borboleta na mandíbula dele, deixando carícias lentas com o polegar.

Enquanto assistia, hipnotizado por toda afeição, Midoriya se inclinou inconscientemente na direção de Bakugou. Acabou encostado ao ombro dele, ruborizado e sorridente.

Com amnésia ou não, Bakugou era extremamente perceptivo. Leu nas entrelinhas o que aquele gesto significava.

— Naquele dia perguntei qual era a comida preferida dele! — Alheio ao que se passava bem a seu lado, Inasa contava detalhes da história que não eram, na verdade, necessários. – Acabei pesquisando todos os restaurantes de soba da cidade, e...

— Foda-se. Ninguém quer saber como é o ritual de acasalamento dos pavês. — Katsuki replicou.

— Ah, desculpe, acabei fugindo do assunto! Bom, da sua participação nisso tudo, é disso que me lembro!

O desfecho não empolgou muito Bakugou, que continuava se sentindo um estranho dentro de sua própria vida. Já Midoriya estava radiante pelas constatações novas, e sorria como se tivesse feito uma descoberta épica — para ele, era como se fosse.

— Obrigado por nos contar! Foi ótimo, não foi, Kacchan?

— Tanto faz, não adiantou nada.

— O Shouto com certeza tem informações muito melhores que as minhas, mas... — Inasa se interrompeu, olhando para baixo e fazendo uma expressão abobalhada. — Vou deixá-lo dormir.

— E o que você e esse meio a meio desgraçado são? — Bakugou os surpreendeu ao mudar de assunto.

— Namorados! — O herói do vento apresentou um pequeno rubor ao responder.

— Amigos. — Todoroki, aparentemente não tão adormecido quanto se pensava, alfinetou. — Eu não aceitei.

— Mas também não recusou!

— Espera! Você pediu esse pavê em namoro? — Katsuki apontou com desdém. — Qual o seu problema?!

— Pedi mês passado...e meu problema é que ele não aceita!

Bakugou sacudiu a cabeça em desaprovação. Midoriya também estava surpreso, e esperava uma explicação mais aprofundada de Inasa.

— Estamos enrolando para oficializar desde a época da academia, e já moramos juntos há dois anos! Se sinto a paixão que tenho por ele crescer a cada dia, devemos ficar juntos! Vocês não concordam?

Inasa encarou os convidados com um olhar expectante. Eles se sentiram estranhos quando perceberam que não foi uma pergunta retórica.

— Ele não quer namorar com você, careca! Se quisesse, já teria aceitado o seu pedido estúpido! – Bakugou, sem rodeios, exclamou.

Inasa abriu uma expressão indignada e dolorida. Katsuki imaginou ter mandado uma real necessária, até que uma bronca veio de quem ele menos esperava:

— Kacchan, você é idiota?! O que deu em você?!

— Como assim “o que deu em mim”? O bastardo queria opiniões, caralho!

E o ambiente ficou terrivelmente tenso.

Ver Izuku bravo — e o enfrentando — era algo que Bakugou não imaginava ser possível. E nem Inasa, que não sabia se chorava ou pegava pipoca para assistir a troca faiscante de olhares entre os dois. Ele adorava reações passionais assim.

— Inasa. — A voz de Todoroki, em tom sereno demais para a ocasião, quebrou o momento de silêncio. — Eu aceito.

Uma exclamação eufórica tomou a casa. Em seguida, houve um esbravejo de Katsuki.

— Vai à merda, meio a meio!

— Vai você, Bakugou! — O herói do vento interviu, debochando. — Ele aceitou! Engole essa, cara!

Até Todoroki abriu um pequeno sorriso de satisfação.

— P-Parabéns! Fico muito feliz por vocês! – Midoriya, mesmo confuso com a mudança de eventos, apoiou.

Já Bakugou estava, o que não era surpresa para ninguém, furioso.

Ele xingou sussurrado e afundou no sofá, com vontade de gritar com todos eles até a garganta doer, principalmente com Izuku. Mas preferiu ficar quieto — sentindo-se patético demais no momento.

— Temos que comemorar! — Inasa anunciou. — Vou fazer um jantar para nós!

— Não. — Todoroki opinou.

— E que tal na semana que vem?

— Sua comida vai continuar péssima na semana que vem.

— Em um restaurante de soba então! — Concluiu. – Estão convidados!

O sorriso relaxado de Todoroki trouxe alívio a Izuku, ao contrário do silêncio de Bakugou.

*-*-*

Midoriya se despediu longamente dos amigos.

O dia tinha rendido bastante. Conversaram muito, acabaram assistindo um filme — que Katsuki fez questão de enfatizar o tempo todo que era patético — e já anoitecia.

— Obrigado pela ajuda de vocês! — Izuku se despedia de Todoroki, que fez questão de leva-los até a porta.

— Não foi nada.

— Aliás, voltem sempre que quiserem! — Inasa estava ao lado, radiante pela agradável visita dos outros heróis.

Mais alguns agradecimentos, que Bakugou apenas assistiu de longe, fingindo não ter gostado da companhia deles, e ele e Izuku foram embora.

Entraram no carro no mais absoluto silêncio.

*-*-*

Àquela altura, pouco antes de chegarem ao apartamento, Midoriya já tinha entendido que Bakugou estava o ignorando. Sabia que cutucar o outro acabaria por despertar uma briga, mesmo assim não vacilou em tentar puxar assunto.

— E então, Kacchan, conseguiu lembrar de alguma das histórias que eles contaram?

— Não. — Respondeu grave, sem desviar os olhos da janela.

— Nem da prova da licença provisória?

— Por que eu deveria lembrar? Só porque você passou de cara e eu rodei?

Izuku apertou o volante e fez uma careta. Pelo visto, a tendência de Katsuki levar tudo para o lado competitivo — e terrivelmente pessoal — estava intacta. E até que não conversassem sobre o que estava o incomodando, sabia que ele apenas lhe destilaria disparates.

— Você...está irritado comigo?

Faíscas de explosões reluziram nas mãos de Katsuki. Seu olhar pela janela se estreitou, em fúria, embora poucas palavras tenham escapado pelo ranger de dentes.

— Qual é a sua?

— O que quer dizer? — Midoriya estranhou, apanhando o controle do portão automático.

Um silêncio abissal se fez entre os dois, e uma atmosfera estranha tomou conta do carro.

Algo estava para acontecer.

*-*-*

Izuku olhava Bakugou de esguelha enquanto os dois subiam as escadas até seu apartamento. Destrancou a porta com um autêntico frio na barriga — um sentimento de antecipação que não parecia condizer com a expressão fechada do outro herói. Assim que entraram, o motivo se revelou.

Muito rápido, numa fração de segundos, sentiu suas costas baterem forte contra a parede e uma explosão acontecer na altura de seu peito.

Katsuki o havia prensado com o corpo, e agarrado sua camiseta no processo. Claro que ele tinha que explodir o tecido, deixando uma camada de fuligem na mão dele e no queixo de Midoriya.

Os dentes totalmente à mostra, as sobrancelhas franzidas e o enlace de aço na camiseta demonstravam uma porção da raiva que tomava conta daquele homem. E ele se aproximou lentamente, encarando os olhos arregalados do outro, na medida que se inclinava de forma intimidadora.

— P-Perto demais... — Foi tudo que Izuku disse, ciente que em breve presenciaria outro tipo de explosões: as emocionais.

Ergueu as mãos em sinal de rendição, enquanto o outro continuava se aproximando, sem afrouxar a mão em sua roupa.

Bakugou envolveu com firmeza a cintura dele, indicando ameaçadoramente que não o deixaria ir a lugar algum. O coração falhou uma batida quando os rostos se desalinharam, e Katsuki levou a boca até o ouvido de Midoriya.

— Você quer saber se estou irritado, nerd? — Sussurrou em tom perigoso.

Se afastou lentamente, buscando o olhar esverdeado. Viu a expressão tensa se transformar em uma mais determinada — por mais que um rubor forte se fizesse presente. Logo a mão adornada por cicatrizes pousou sobre sobre seu braço tenso, dando um aperto firme.

— Me solta, Kacchan.

O olhar sério de Izuku e o toque incisivo trouxeram espanto à feição de Katsuki.

— Então agora é assim? Vem cheio de moral para cima de mim? — Resmungou em tom agressivo.

Esperava que ele recuasse — o que não aconteceu. Midoriya era tímido, se esforçava horrores para agradar, e mesmo assim...era destemido.

Não soube digerir a informação.

— Eu já disse, Kacchan. Me solta.

A voz austera frustrou Bakugou. Queria brigar ainda mais por ter sido desafiado daquela maneira, mas sua irritação pelo acontecido de mais cedo era maior que isso. O golpe que queria dar era verbal.

— Você me fez parecer um otário naquela hora! Isso me deixou muito puto! — Ignorou o pedido alheio, inclusive o puxou para mais perto ainda pela camiseta. — Que porra foi aquela?

Midoriya não deixou que o tremor em suas pernas desviasse seus pensamentos.

— Eu que pergunto! Por que você foi falar aquelas coisas? Se você não tivesse agido daquela forma... — Foi interrompido.

— Cala a boca! Não tente me dizer o que fazer!

Finalmente largou Midoriya, porém sem se afastar — ou tirar a mão pousada na cintura dele. Olhou para a parede oposta, com uma expressão de fúria.

Pensou na cena de mais cedo. Na cara de Inasa. Na reação de Izuku. Em sua própria incapacidade de sair daquela saia justa.

— Merda, não fale como se eu tivesse me metido na vida dos extras!

— Não falar? Mas foi exatamente o que você fez!

— Eu só achei que ele estava forçando muito a barra, caralho!

— Você não tem nada a ver com o relacionamento deles, idiota!

— Ah! — Lhe faltaram argumentos. — Morre!

A indagação não desfez a postura firme e o olhar confiante de Izuku. Ele estava sério, por mais que fosse evidente que sua mente analisava todos os acontecimentos recentes.

Então algo lhe ocorreu, e seu olhar suavizou. Bakugou continuava o encarando com fúria, sob o ritmo de subidas e descidas aceleradas de sua respiração, cujo ar quente ricocheteava no rosto do outro herói.

Midoriya esboçou sua epifania:

— Você achou que o Todoroki-kun não queria, mas não sabia como recusar. Por isso... — Encontrou hesitação em suas palavras, então pulou para a conclusão. — Você tentou ajudar. Do seu jeito, mas tentou.

Katsuki sentiu um pequeno alívio, muito bem disfarçado, pela compreensão. E o pequeno deleite acabou misturado com a pontada desagradável que sempre lhe acometia quando Izuku o lia. E ele fazia isso tão facilmente, como se fosse natural como respirar.

"Quanto esse bastardo me conhece?"

A confusão, tão sutilmente escondida no olhar ígneo, só poderia ser captada por olhos bem treinados como os de Midoriya.

— Tudo bem, Kacchan. — Ofereceu um sorriso conciliador. – Só tenha mais....

— Já mandei você não me dizer o que fazer!

Apesar da interrupção grosseira, um rubor povoava o rosto de Katsuki, indicando que ele estava mais envergonhado do que irritado.

E a proximidade com Midoriya finalmente chamou a atenção. Ainda tinha a mão na cintura dele, o mantendo com o peito colado ao seu e as costas à parede. As respirações se mesclavam, e os dois se entreolhavam com os lábios entreabertos, ofegantes. Ambos desnorteados. Na iminência de...

Foi Katsuki a se afastar.

Izuku desviou o olhar para o chão, porém não se moveu da parede. Permaneceu estático por algum tempo, esperando o coração normalizar e os pensamentos se desembaralharem, com o olhar fixo na luz da lua que entrava pela janela da cozinha.

Apenas despertou do transe quando a porta do banheiro foi fechada com violência, emitindo um ruído alto.

Escorregou lentamente pela parede e sentou no chão.

Respirou fundo, tombando a cabeça para trás. Ainda sentia o calor da mão de Katsuki em sua pele e a sensação de ser devorado por aqueles olhos vermelhos arder em cada centímetro do corpo. Tremia inteiro.

Nada parecia fazer a agitação no peito passar.

Se uma tentação como aquela acontecesse novamente, estaria perdido.

*-*-*

Quando Katsuki saiu do banho, Midoriya já estava mais recomposto — até tinha feito um plano para se livrar do clima estranho no ar.

Tinha certeza que os sentimentos que o acometeram alguns momentos antes eram completamente unilaterais, então não fazia sentido alimentar a expectativa que teimosamente surgiu...mas não podia evitar, e sorriu em evidente euforia por vê-lo.

— Kacchan, quer assistir um filme? — Ofereceu, decidido a animar o outro. — Eu deixo você escolher!

A carranca habitual de Bakugou se desfez minimamente, porém ainda não era o bastante. Midoriya estava disposto a melhorar a proposta.

— E se você quiser, também posso fazer pipoca...

Alguns resmungos depois e Bakugou estava navegando no extenso catálogo de filmes da televisão, enquanto ouvia o anfitrião estourar pipoca no microondas. Ele não demorou a chegar com uma tigela cheia do aperitivo, curioso pelo escolha de Katsuki, que na verdade não o surpreendeu nem um pouco: Clube da Luta.

O filme começou.

*-*-*

Apesar de Katsuki ter conhecidamente o hábito de dormir cedo, Midoriya não imaginava que ele não chegaria nem na metade do filme.

Estava com o cotovelo apoiado no braço do sofá, e o queixo repousado sobre a mão. Izuku o observava como se visse uma obra de arte.

A cena que presenciou mais cedo, de Inasa acariciando o cabelo de Todoroki, lhe veio inevitavelmente à tona. Não queria obedecer à vontade irritante que pulsava no peito de erguer a mão até as mechas loiras e naturalmente rebeldes, no entanto não foi capaz de suprimir o desejo. Antes que percebesse, deslizava os dedos por elas e sorria pateticamente com algo tão simples.

Nem mesmo as pancadas e barulhos cinematográficos exagerados despertaram Bakugou naquele intervalo, do qual Izuku tentou sorver cada segundo para esculpir na memória.

Já vinha sendo difícil articular pensamentos coerentes perto de Katsuki em seu estado normal – se derretia todo com os olhos vermelhos intensos, a voz modulada e os traços faciais angulares — e daquela forma então...

Quando o filme terminou, decidiu que era hora de chama-lo. Começava a sentir sono também, relaxado com o calor gostoso que crepitava no estômago.

— Kacchan...

O chamado cuidadoso pelo ombro foi seguido pela abertura dos olhos escarlates, e uma expressão interrogativa se estampou na feição sonolenta. Midoriya já esperava empurrões e gritos, porém o herói explosivo não se desvencilhou do toque. Parecia confortável, na verdade.

— Vou te deixar dormir. — Avisou, levantando-se com extremo cuidado.

Bakugou se limitou a puxar o travesseiro, deixado no lado desocupado do sofá, e o assistir ir embora.

— Boa noite, Kacchan! – Despediu-se. – E obrigado por hoje, eu me diverti muito! Espero que você também!

Se retirou da sala, deixando Katsuki com aquelas palavras no ar, e alguns pensamentos que se desvencilharam no momento que a luz do quarto se apagou e seus olhos foram fechados.

Notas finais
Vou fazer uma enumeradinha de comentários sobre esse capítulo: 1 - desculpa aí se alguém não gosta de Inatodo (Inasa x Todoroki), mas eu não pude resistir, amo esse ship pouco comum e divulgo sempre que posso huehue 2 - Midoriya merece o universo 3 - Bakugou comendo requeijão virou minha nova religião Até o próximo! :3