Eu Não Quero Ser Só Uma Memória

4 Quando você olha para mim e o mundo inteiro desaparece


Notas iniciais
Olá, pessoal! Acabei demorando um pouco mais do que pretendia, mas aqui está o capítulo novo! ^u^ Muito obrigada por todo carinho que vocês tem me dado através dos comentários e favoritos ♥ Sobre o capítulo de hoje, me diverti horrores o escrevendo. Pude explorar algumas ideias que pensei que nunca teria coragem de postar, e foi muito bom huehue espero que não tenha ficado confuso! Vale ressaltar que a censura da fanfic ser 18+ é real! *Torcendo para o celular não desformatar o texto* Sem mais delongas, boa leitura! :3

Midoriya saiu do quarto bocejando. Encontrou Bakugou sentado à mesa da cozinha, lendo um de seus livros e bebendo café puro de uma xícara grande.

— Kacchan, bom dia! — Abriu um sorriso radiante. — Já acordado? É tão cedo!

— Foda-se. É segunda-feira mesmo.

A resposta atravessada não desmanchou o semblante contente do herói, ainda um pouco sonolento.

Sentou-se na mesma cadeira que tinha ocupado na manhã anterior, contemplando a mesa perfeitamente arrumada. A atmosfera pareceu tão natural que era como se Katsuki estivesse sempre incorporado à sua rotina.

Não resistiu ao desejo de observá-lo. Notou as roupas diferentes das que usava na noite anterior e o cabelo úmido, indicando um banho recente. Encantou-se com o quão à vontade ele se sentia em sua casa.

E aquele café da manhã teve um sabor doce que não vinha de nada na mesa.


*-*-*

Obedecendo a nota mental feita anteriormente, Midoriya verificou a comida em sua geladeira. Com a vida agitada de herói que normalmente levava, não dispunha de muito tempo para se atentar a ela.

Estava quase vazia, evidenciando a necessidade de fazer compras, enquanto a maior parte dos produtos lhe pareciam impróprios para o consumo.

Acabou cheirando alguns dos potes que guardava há bastante tempo, realmente distraído com a tarefa. Não notou a chegada de Bakugou com as mãos nos bolsos, silencioso e emburrado.

— Izuku.

Franziu o cenho imediatamente, olhando o vidro de geleia em suas mãos como se o som fosse proveniente dele. Tinha ouvido seu nome, mas...

— Izuku! — Desta vez foi chamado com vigor e irritação.

Virou o pescoço e olhou de soslaio para Katsuki, que o encarava com impaciência.

Tinha ouvido direito? Bakugou estava o chamando por seu nome? Há quanto tempo isso não acontecia?

Desde que o apelido “Deku” surgiu, naquele dia há quase vinte anos, seu nome nunca mais havia escapado daqueles lábios. Sentiu-se muito impactado com isso.

Sabia que a mudança era consequência da amnésia, porém ainda soava estranho e...

Teve o corpo arrastado com brutalidade por um puxão na camiseta, que o deixou cara à cara com o outro. De repente, se viu em um cenário parecido com o da tentadora noite anterior.

— Não me ignora, inferno! E vê se para de murmurar! — Katsuki exclamou, inconformado com a falta de uma resposta.

— Ah, d-desculpe! E-Eu... — Nem sabia como reagir. Os pensamentos não tinham coerência alguma.

— Qual o seu problema? Não é esse seu nome?

— É! É s-sim!

Bakugou acompanhou o movimento da garganta de Midoriya quando ele engoliu em seco, e notou a movimentação espasmódica das pernas trêmulas — e muito bem esculpidas, reparou — evidenciadas por shorts de malha.

— O que é? Você me chama de “Kacchan” e eu não te chamo pelo nome também? Não faz sentido nenhum! — Reclamou. — E tenho certeza que não te dei um apelido infantil e brega como o seu.

— Infantil e brega não, mas... – Explicou meio embolado, resultando numa frase incompreensível.

— Ahn?! Mas que porra, fala direito!

— Não é isso, Kacchan, é que...m-meu nome é Izuku, mas...

Queria não estar tão desnorteado por simplesmente ter sido chamado por seu nome. Além desse fator, a pouca distância entre os dois também não estava ajudando. Nunca sabia como se refrear quando era tão severamente encarados por aqueles olhos vermelhos.

— Então vê se responde quando eu te chamar, caralho! — Ainda zangado, Katsuki censurou.

— S-Sim! Desculpe!

— Morre, nerd!

Bakugou desistiu da conversa ante as reações descompostas do outro, que daquela maneira não os conduziriam a lugar algum.

O enlace na camiseta sumiu, e logo a figura irritadiça deixou o ambiente da cozinha.

Izuku ficou parado, sentindo o ar frio da geladeira aberta irradiar sobre seu corpo, quente demais para uma manhã de primavera.

Quando Katsuki vinha com aquelas explosões emocionais, repletas de fúria e palavras saturadas de intensidade, Izuku se via alheio a qualquer coisa que não fosse aquela boca sempre ocupada demais com gritos histéricos.

Não queria estar dando tanta bandeira de seus sentimentos, mas as mudanças causadas pela amnésia estavam o desconcertavam.

*-*-*


Terminou de organizar a geladeira e se dirigiu à sala, onde encontrou o amigo de infância olhando os porta-retratos de sua estante — depois de ter ignorado dúzias de figuras de ação. Ao notar a aproximação, Katsuki aproveitou a presença do anfitrião para elucidar os componentes das fotografias.

— Quem são esses caras? — Referia-se a uma imagem da formatura na U.A..

— São nossos professores.

Midoriya apontou para cada um deles, citando os nomes. Não percebeu o olhar de Bakugou estacionado fixamente sobre um.

— Ele tinha uma individualidade muito compatível com treinamentos urbanos, e na verdade criava paredes...

— Quem é esse? — Interrompeu ao indicar o indivíduo franzino e alto de cabelos loiros.

— Ah, é o All Might!

Katsuki pareceu tão surpreso que Midoriya se preocupou imediatamente. Após alguns segundos digerindo os próprios pensamentos, o herói explosivo finalmente se explicou:

— Eu acho que lembro dele.

— Você lembra?! — Izuku exclamou, mal podendo acreditar também. — Do que exatamente?

— Eu lembro que ele não era assim. Ele era...

Virou-se para olhar o pôster com a frase “eu estou aqui”, na mesma parede do sofá, e seus olhos brilharam da mesma forma que Midoriya costumava presenciar na infância. Uma pequena intenção de sorriso surgiu na feição de traços angulares e rudes.

— Esse cara! É ele, não é?

— Kacchan, você lembrou do All Might!

— Ele era o melhor herói porque sempre saía vitorioso. Eu queria ser como ele!

Katsuki apreciou as memória que invadiram sua mente como se assistisse a uma retrospectiva. Então uma sensação desagradável veio, dissipando a nostalgia de ter conhecido seu ídolo e aprendido tanto com ele.

— Foi por minha causa que ele perdeu os poderes.

Aquela frase pegou Midoriya desprevenido.

Parte dele receava a possibilidade de Bakugou lembrar do One for All enquanto não estivesse plenamente ciente da situação, porém a preocupação tola que sempre assolava seu peito quando o assunto era Katsuki falou mais alto.

Não imaginava que, após tantos anos, ele continuasse remoendo responsabilidades pela aposentadoria de All Might. Esquecia frequentemente o quanto o rival guardava seus rancores, inseguranças e desaprovações.

— Kacchan, não foi sua culpa! Ele mesmo disse isso... — Reforçou, tentado a apoiar a mão no ombro dele na mesma medida que hesitava em fazê-lo.

— Me conte o que aconteceu com ele.

Midoriya suspirou. Tinha uma longa história para narrar.

*-*-*


Sentado de frente para Katsuki no sofá, era possível ver a indignação nos olhos ardentes.

As informações tinham um evidente sabor amargo, por mais que ele não se visse naquela situação: ser sequestrado pela Liga dos Vilões em um ataque ao acampamento de treinamento, passar por uma tentativa de conversão e necessitar um resgate, cujo desfecho foi a última luta de All Might.

O único detalhe que ele não teve acesso foi do One for All. De resto, Izuku foi completamente transparente e deixou que ele tirasse as próprias conclusões.

— Como você diz que não foi minha culpa, nerd maldito?!

— Porque não foi! Podia ter acontecido com qualquer um! Você não era o único alvo...

— Só que eu não sou qualquer um! Era para eu ser o mais forte de todos, e não ser capturado como um fracassado por um bando de vilões patéticos!

— Foi culpa minha também. Eu não consegui te alcançar quando estavam te levando...

— Ahn?! Conseguir me alcançar?! Acha que se eu precisasse da ajuda de alguém, seria logo da sua, o idiota que estava mais morto que vivo? — Ante a descrição que Midoriya fez de si mesmo, insistindo em ir atrás dele mesmo todo fraturado, Bakugou regougou.

Houve silêncio. Izuku também carregava seus remorsos, e um deles foi justamente permitir que ele fosse sequestrado naquela noite.

Ainda sentia o estômago se revirar com a imagem de Katsuki desaparecendo através portal, e o peito se enchia com a agonia familiar de tê-lo distante. O aviso dado há tanto tempo, em tom sério e imperativo, estava mais marcado nele do que as cicatrizes obtidas nas lutas daquela noite.

"Não venha, Deku".

Deku.

Abriu um pequeno sorriso ao lembrar do apelido, que ao longo de sua vida ganhou tantos significados diferentes. Estava acostumado aonde ia em ser o Deku "eu consigo", porém a ausência do velho Deku "inútil", proferido pelos lábios de Katsuki, não tinha o sabor de vitória que ele esperava.

Na verdade, parecia que um pedaço de sua história estava faltando, em que o outro teve um papel tão importante.

— Foi por fazer essas merdas de se quebrar todo que acabou com essas cicatrizes? — Bakugou interrompeu o que seria o início de longos murmúrios, apontando para o braço direito de Midoriya.

— F-Foi. — Corou ao perceber que ele havia reparado.

— Então você é bem estúpido.

Bakugou estalou a língua no céu da boca e se levantou do sofá. Continuou olhando os quadros, ao passo que Midoriya não sabia como — ou se deveria — continuar a conversa.

*-*-*


Pouco após a hora do almoço, Izuku trocava mensagens com a mãe pelo celular. Inko não pareceu nada surpresa quando soube que o filho tinha se oferecido para cuidar de Bakugou enquanto ele se recuperava da amnésia.

E falando nele...

— Oe, Izuku!

— S-Sim, Kacchan? — Ainda sentia o coração saltar toda vez que era chamado pelo nome.

— Por que você só tem até esse volume? — Apontou para o segundo livro da quadrilogia famosa que esteve lendo desde o café da manhã.

— Ah, eu...não gostei muito do rumo que a série estava tomando.

— Que lixo. Agora que a história estava começando a prestar.

Um risinho de desconcerto preencheu o ambiente.

Bakugou se revelou um leitor ávido, e àquela altura só restavam os livros que talvez fossem científicos demais para o gosto dele.

Midoriya se perguntou o que fazer quanto ao tédio, e teve uma ideia que combinava perfeitamente com a necessidade de fazer compras.

— A comida está acabando.

— Finalmente notou?

— Preciso comprar mais. Quer vir comigo?

— Não. — Replicou, olhando feio para a televisão.

E a ideia de distraí-lo foi por água abaixo.

Katsuki acabou por ligar o eletrônico e colocar em um programa de forja competitiva de espadas.

O anfitrião decidiu não insistir. Foi ao quarto trocar de roupa, e rapidamente se preparava para sair.

Sentiu certa preocupação por deixar Katsuki sozinho, afinal ficou responsável por ele, entretanto concluiu que alguns momentos de privacidade poderiam até fazê-lo bem.

— Estou indo, Kacchan. Você quer alguma coisa?

— Não.

— Tem certeza que não quer vir comigo? – Teimou, da porta, observando-o aumentar o volume da televisão.

— Vai logo.

A porta foi trancada após a resposta curta, com alguns murmúrios deixados no ar antes da partida.

Bakugou não se incomodou em ficar sozinho até que o programa que vinha lhe interessando chegou ao fim, e o próximo não fisgou sua atenção.

Se Midoriya estivesse em casa, perguntaria se ele tinha mais algum tipo de entretenimento. Como não estava, decidiu explorar por si mesmo — não era como se já não tivesse revirado o banheiro e a cozinha do avesso.

Começou no sala, na estante recheada de livros. Fora as ficções que já tinha lido, encontrou apenas revisões de assuntos extremamente nerds. Até ousou folhear alguns deles, na esperança de estar julgando mal os conteúdos — não tardou a fazer uma careta e fecha-los.

Cansou de ficar na sala, sendo encarado por mais de trinta bonecos do All Might, e seus pensamentos se voltaram ao único cômodo que ainda não tinha explorado: o quarto.

Ao chegar, não hesitou em abrir os armários, procurando por algo inespecífico. Além de roupas, encontrou mais bonequinhos de edições de colecionador — provavelmente os que não couberam na sala.

"Maldito nerd de merda."

Abriu uma gaveta e encontrou todo o aparato do traje de herói de Izuku. Na segunda, encontrou roupas. Na última, encontrou peças íntimas e uma caixa com...

Corou assim que a abriu. Tampou-a no segundo seguinte, com palpitadas fortes no coração, tentando afastar da mente as imagens de Izuku usando tudo aquilo.

Nisso que dava mexer nas coisas dos outros. Ao menos já sabia onde ficavam, caso precisasse...

Não deteve sua curiosidade. Seguiu para as mesas de cabeceira que ladeavam a cama de casal. Abriu as gavetas de uma delas, e encontrou mais livros acerca de heróis, vilões, individualidades e outros interesses obsessivos que se mesclavam ao trinômio. Estalou a língua em frustração.

Restava então apenas o outro lado. Na primeira gaveta, deparou-se com revistas. Revirou os olhos, achando aquilo realmente ultrapassado.

A maior parte da coleção consistia em exemplares da revista Heróis. Haviam muitos sobre sobre All Might, e até sobre alguns extras heróis que ele nem desconfiava quem eram. Mas um padrão mudou: pela primeira vez, All Might tinha sido desbancado nas preferências de Midoriya. Katsuki pasmou por encontrar uma quantidade enorme de revistas sobre si, com o nome Ground Zero sempre impactante nas capas.

A diversidade de assuntos tratados sobre ele era atordoante: ensaios fotográficos, entrevistas, reportagens e até fofocas para tietes. Achou aquilo uma total perda de tempo.

Notou então uma saliência no fundo da gaveta. Investigou e descobriu um fundo falso, que continha mais revistas a seu respeito — de um teor que o surpreendeu. Eram para outro tipo de fã: os sedentos.

Continham sessões de fotos, em que estava particularmente bonito, e sempre vestindo pouca roupa. Corou novamente e sentiu certa indignação consigo mesmo, notando as poses, ângulos e perfis impecáveis.

Vasculhou mais a fundo a coleção secreta e arregalou os olhos em pura mortificação. Lá estava a edição especial de uma revista de nudez. Só a capa já o deixou sem chão, com seu corpo totalmente despido e apenas a região pélvica oculta atrás de uma de suas manoplas de granada.

— Quem foi o filho da puta que me convenceu a fazer uma merda dessas?

E as novidades não pararam de constrange-lo. De todas as revistas, aquela era a que parecia mais folheada, contando com páginas até meio gastas. Uma, em particular, tinha um canto um pouco desbotado, justamente em uma foto em que ele estava sentado em uma pilha de travesseiros, com um olhar muito irritado e uma ereção em riste impossível de se ignorar.

Franziu tanto as sobrancelhas ao olhar para si mesmo que sentiu a pele do rosto repuxar. Sua vontade era de explodir tudo naquele quarto – carbonizar a caixa, reduzir as revistas a pó, e...

Ouviu a fechadura da porta de entrada ser destrancada.

O coração disparou, e uma descarga de adrenalina dominou o corpo.

Enfiou todas as revistas na gaveta de qualquer jeito, em uma velocidade espantosa. Correu pela casa e se escorou na parede da sala, sem tempo para se ajeitar no sofá. Firmou os pés no chão no exato momento que Midoriya apareceu na porta.

Ao fazerem o primeiro contato visual, foi inevitável corar. Julgou-se ridículo por isso, e pela iminência de um engasgo envergonhado escapar da garganta.

— Kacchan, como você está?

A voz inocente e o olhar puro o deixaram confuso. Ao menos, Izuku não tinha notado a movimentação, aparentemente.

Ao invés de responder, Katsuki preferiu analisar a figura dele, carregado de sacolas brancas e uma, apenas uma, amarela.

— O que...o que é isso? — Apontou para a diferente, se amaldiçoando mentalmente pela voz falha.

— Ah, é para você!

A sacola foi entregue em suas mãos.

— Eu passei numa livraria no caminho. São os outros dois volumes daquela quadrilogia que você gostou.

Bakugou sentiu um frio na barriga, que só piorou quando tirou os livros da sacola e folheou o terceiro volume, encontrando uma dedicatória na contra-capa, escrita com o máximo de graciosidade que a letra feia de Izuku permitia.

Ele fechou o livro com tudo, sem saber como lidar com os acontecimentos dos últimos cinco minutos.

Apesar do silêncio pesado que rondava o ambiente, e o rubor sem motivo aparente no rosto dele, Midoriya esperava uma resposta. Sabia que não seria um agradecimento ou um comentário gentil, mesmo assim queria que ele dissesse algo. E a réplica veio, em tom rouco e baixo demais para o padrão do sempre esgoelante Kacchan.

— Agora sua coleção vai prestar minimamente.

Midoriya sorriu. Conseguiu arrancar algo, afinal.


*-*-*


Já era noite quando a leitura do livro terminou.

Bakugou nunca diria ao outro, mas foi obrigado a concordar. Aquela série ficava um desastre a partir do segundo volume.

O apartamento estava razoavelmente coberto por uma cortina de vapor, proveniente do banho de Midoriya. Ele saiu enxugando o cabelo curto com uma toalha, trajado em uma camiseta e uma bermuda — Katsuki não soube explicar porque os detalhes da vestimento chamaram sua atenção.

Izuku tinha um olhar alegre, daqueles que surgiam sempre que ele tinha uma ideia.

— Quer pedir uma pizza?

A pergunta direcionou a linha de raciocínio do herói explosivo para outro rumo. Tentou se lembrar que tipo de pizza costumava comer.

— Hm...que tal Pepperoni? É um pouco apimentada.

Estalou a língua nos dentes, provocando um "tsc" realmente alto. A habilidade que o outro tinha de o lê-lo, que notava se tornar cada vez mais frequente, estava o irritando demais.

— Que seja. — Concordou, em um resmungo.

Midoriya fez o pedido e alguns minutos depois o porteiro anunciou a chegada do entregador, pelo interfone. Enquanto Izuku recebia, Bakugou se adiantou em pegar pratos e talheres. Não sabia se o outro era do tipo que comia a pizza com a mão ou com talheres, então preferiu se precaver.

O cheiro da pizza chegou antes de Izuku, que encontrou todo aparato de jantar já pronto. Lhe encantava saber que Katsuki já sabia onde tudo era guardado.

— Obrigado.

Sem trocarem grandes palavras, concordaram em comer na sala, de preferência assistindo alguma coisa na televisão.

Optaram por um documentário sobre heróis, escolha de Midoriya, da qual o outro também não protestou. Na verdade, nem prestando muita atenção estava.

Mordia a pizza entre olhares de esguelha para Izuku — que sorria involuntariamente toda vez que uma cena emocionante era exibida, ou quando algum herói falava sobre seus sonhos e motivações. Os olhos verdes brilharam quando uma cena de All Might em meio a um desabamento foi exibida, e acabou tão fisgado que mastigava o pedaço de pizza em sua boca infinitamente, esquecendo de engolir.

Katsuki ainda estava confuso em relação a ele. Sentia um misto desconcertante de coisas. Algo dentro dele dizia que ele devia estar odiando até a forma que Midoriya respirava, mas essa voz lentamente sucumbia a outras. Lhe era cada vez mais inevitável reparar no quão bonito o sorriso dele era, quão hipnotizantes eram aquelas sardas e que aquele jeito intelectual e extrovertido era completamente cativante.

Ele parecia ser tão tímido e reservado. Quem diria que teria aquelas coisas, especialmente uma revista daquele tipo tão gasta...era surpreendente. E interessante.

Imaginou que tipo de fantasia tinha protagonizado no imaginário dele.

O anfitrião finalmente percebeu que estava sendo vigorosamente observado. Abriu um semblante de desconcerto e se explicou.

— E-Eu gosto muito desse documentário.

— Claro que gosta. É coisa de nerd.

A reação foi, de tabela, exatamente a que Bakugou previu: uma expressão constrangida, bochechas rubras e o olhar desviado.

Ele era tão óbvio sobre suas emoções que Katsuki sentiu a impulsividade ferver no sangue. Não estava mais aguentando apenas expectar.

Terminou seu pedaço de pizza sem nem ter sentido direito o sabor. Deixou o prato vazio sobre a mesa de centro, ao lado da caixa, e se manteve vigilante a Midoriya, que também não tardou a juntar o prato vazio ao dele — sem desgrudar as atenções da televisão.

Bakugou perdeu sua pouca paciência. Aproximou-se sem discrição alguma, colando as laterais dos corpos. Sentiu Izuku tensionar a postura quase imediatamente, e aproveitou para deslizar o braço pelo encosto do sofá, até ter o outro envolvido pela cintura.

Os olhos arregalados foram a confirmação de que, embora fingisse ainda estar prestando atenção ao longa metragem, Midoriya havia captado as intenções por trás da iniciativa contundente.

Começou a tremer de nervosismo, e logo desviou o olhar para o chão, sem condições de sequer lembrar da existência do documentário após o enlace começar a aquecer sua pele.

Após alguns segundos, Izuku criou coragem e finalmente fez contato visual. E nas íris vermelhas, avistou uma coisa perfeitamente clara e condensada: desejo.

Sentiu um prazer culpado, que foi percebido.

— Até um idiota perceberia que você é louco por mim. Então está esperando um convite formal ou o que? — Bakugou questionou, incomodado com a incerteza que encontrou na face dele.

— K-Kacchan...é que...você não lembra de mim. É m-melhor esperarmos até que sua memória esteja recuperada, e caso ainda queira, eu ficaria muito feliz em...

— Que mané esperar eu me recuperar! Por acaso não quer e está me enrolando?

— O que?! Não!

— Então qual é a de fazer cu doce?

— N-Não é nada disso! — Izuku replicou, envergonhado pelo vocabulário do outro.

Katsuki bufou, percebendo que não conseguiria mais nada se não ouvisse o que estava incomodando Izuku. Os cantos dos olhos marejados denunciavam que um dilema tinha o arrebatado..

— Qual o problema? Eu não te dava bola? – Ousou um palpite.

— B-Bem...é quase isso...

— Ahn? Quase isso o que?

— Essa seria a última coisa que você pensaria em fazer comigo. — Explicou, sentindo o coração apertado. — Eu estaria me aproveitando da sua situação se deixasse acontecer. Seria errado, Kacchan. E eu...não quero que tenha raiva de mim quando lembrar quem eu sou. Você nunca me perdoaria se...

— E tudo bem para você ser filho da puta comigo a ponto de me deixar de lado por causa de uma crise de consciência bosta?

As palavras dele arrancaram algumas lágrimas de Midoriya, visivelmente muito dividido. Queria fazer o que era certo, mas...ceder ao desejo era tão mais tentador...

— Eu quero você mais que tudo, Kacchan, e justamente por isso não posso trair sua confiança... — Confessou, enxugando as lágrimas com os punhos.

O braço em sua cintura o puxou na direção de Bakugou, que levou a mão oposta ao rosto intensamente corado. A respiração nitidamente descompassada se intensificou, na mesma medida que Izuku cedia sem relutância alguma aos toques que recolhiam suas lágrimas.

O coração palpitou forte quando sentiu o calor do corpo do outro extremamente próximo ao seu. Acabou arrepiado em um efeito contraditório, admirando os detalhes do rosto que tanto o encantava — que também ostentava um rubor forte. Achou-o maravilhoso daquela forma.

— Foda-se o resto. Eu vou enlouquecer se não te beijar agora. – Katsuki sentenciou, umedecendo os lábios com a língua.

Izuku sentiu a racionalidade se esvair com aquelas palavras.

Fechou os olhos ao vê-lo tombar a face para encaixar à sua, e apreciou as respirações quentes e irregulares mesclando gradualmente. A mão pousada em sua bochecha escorregou até a nuca, que foi prontamente puxada por Katsuki para extinguir a distância entre os dois.

A primeira constatação de Bakugou foi da entrega completa e imediata de Midoriya. Os braços fortes o envolveram pelo pescoço quase que por instinto, numa tentativa irracional de aproxima-los ainda mais. Ele queria demais aquele beijo, e Katsuki se rendeu a uma urgência semelhante.

Os lábios ainda se arranhavam em uma frenesi de descobrimento, com fome pela boca alheia, e se chupavam para extrair os sabores inéditos. Por vezes mordidas ocasionais de pura provocação preenchiam os espaços vazios.

Foi Izuku a querer aprofundar o contato, viciado na textura um pouco rude dos lábios firmes de Katsuki. Os beijos dele eram brutos e excitantes, exatamente como sempre sonhou que seriam. Pareciam capazes de fazê-lo derreter.

A perdição definitiva veio com o entrelaçamento das línguas, que se moviam em sintonia e deixavam os corpos afoitos por mais.

As mãos, antes comportadas, já ousavam explorar cabelos, costas, pescoços e cinturas, mapeando todo território ao alcance.

Bakugou se ajeitou no sofá para puxar Midoriya para seu colo, e ele foi sem pestanejar, se deleitando com a voracidade do beijo.

Quando já estavam sem fôlego, foi Katsuki a separar os rostos, abrindo os olhos somente o bastante para flagrar a expressão do outro pelo fim abrupto. Viu um pequeno nuance das íris verdes, e a mão adornada por cicatrizes afundou na nuca de fios loiros, a fim de puxa-lo para perto.

Na iminência de selarem os lábios novamente, Bakugou provocou.

— Porra, que boca gulosa. — Sussurrou, agarrando a nuca de Izuku e forçando cabeça dele para trás. — Eu sabia que você estava morrendo por isso...

— Ah, finalmente...

De forma rude, saboreou a pele do pescoço de Midoriya com a língua, entre beijos e dentes resvalando, na ameaça de morder.

Os corpos esquentavam mais a cada toque, e algumas reboladas de Midoriya tornaram os ofegos de ambos cada vez mais gostosos de se ouvir. Ele pesava de forma excitante sobre as pernas de Bakugou – que sugou a pele no caminho de volta à boca dele, onde encontrou um beijo ainda mais necessitado do que os anteriores.

Izuku o apertou contra si de forma quase predatória e tomou o controle do beijo, estabelecendo um ritmo gostoso e lento. Saboreava os lábios do outro como se fossem a coisa mais deliciosa que já tinha provado, e por vezes contraía o rosto em uma espécie de sorriso.

Quando se separaram, os olhos verdes brilhavam com sensualidade.

Ser o herói número um era o objetivo de vida de Izuku, mas ele não podia negar que agora que tinha conseguido, seu velho amor pelo rapaz explosivo, que esteve presente ao longo de toda sua vida, se tornou um desejo inquieto em seu coração.

Naquele momento, ele preferiu ser o homem sedento nos braços de Bakugou do que o herói exemplar.

— Vamos para o quarto, Kacchan.

E por mais que toda sua razão lhe alertasse sobre todos os contras, decidiu agarrar a oportunidade.

Notas finais
Já dá para imaginar como será o próximo, né? OuO Eu nem sei o que dizer huehue adoro uma pegada meio pervertida mas tenho vergonha de comentar sobre depois xD Até o próximo, chuchus ♥