Eu Não Quero Ser Só Uma Memória

7 Toda vez que dizemos adeus, isso dói


Notas iniciais
Saudações, chuchuzinhos ♥ Demorei bastante desta vez, me desculpem! Sobre o capítulo...acho justo dizer que nós brigamos huehue Tive que reescrever 3 vezes! Já que esse momento chegaria, preferi encarar de uma vez. Sem mais spoilers, boa leitura!

Izuku percebeu a atmosfera estranha assim que acordou. Notou a ausência do cheiro reconfortante de café pairando, junto do som de páginas de livros sendo viradas, que costumavam preencher o apartamento pelas manhãs.

Katsuki provavelmente não estava na cozinha, desjejuando.

Sentiu-se receoso pela repentina mudança de hábito.

— Kacchan?

Silêncio.

Tateou a cama, e não o encontrou — estava especulando se não teria acordado antes dele. Abriu os olhos para confirmar que Bakugou não estava no quarto.

— Kacchan! — Insistiu, chamando mais alto.

Nada.

Foi tomado por pânico.

Envolveu o lençol ao redor do corpo, desatento aos múltiplos focos de dor muscular, e levantou da cama em um único impulso. Ativou o One for All em potência máxima, e imediatamente começou a vasculhar o apartamento.

Em uma fração de segundos, já tinha buscado na cozinha e no banheiro. As repetidas constatações de que Katsuki não estava em nenhum lugar começavam a aterroriza-lo.

Lágrimas já ardiam nos olhos devastados de preocupação quando chegou na sala e finalmente o avistou, sentado no sofá em posição de pensador.

Fechou-se à própria razão, que o advertia sobre todas as circunstâncias incomuns que o rodeavam, e deixou um peso gigantesco sair dos ombros.

O coração bateu forte, como vinha batendo sempre que via o outro herói. Sem que percebesse, abriu um sorriso de puro encanto por tê-lo são e salvo em sua frente.

Nem pestanejou em se aproximar e rodear a anatomia alheia com seus braços. Deslizou aos mãos pelas costas nuas e repletas de arranhões novos e salientes, deixando que a respiração anteriormente presa finalmente se soltasse.

Mas foi repelido. Seu abraço foi desatado em uma ação rápida, e o olhar de Katsuki o procurou.

Midoriya não soube o que o deixou mais aflito: o desvencilhamento, a expressão facial vazia, a quebra de rotina ou a falta de uma explicação para todas os anteriores — afinal nada poderia ser mais aterrorizante, vindo de Bakugou, que o silêncio.

— Kacchan, o que aconteceu?! — Questionou, apreensivo.

O olhar de Katsuki foi desviado para o lado oposto, combinado ao aparecimento de uma careta.

Experimentalmente, Izuku esticou o braço adornado de cicatrizes, buscando tocar no rosto dele com as pontas dos dedos. Usou-se de uma abordagem extremamente gentil, incerto sobre o que encontraria a partir dali.

Bakugou desencontrou a carícia.

— Tira a mão de mim, Deku!

Os olhos marejados de preocupação se arregalaram. Sentiu os arredores se desmancharem.

Katsuki o tinha chamado de Deku. Precisamente de Deku.

Sabia o que isso significava, e entendeu as súbitas mudanças: ele tinha se lembrado.

Teve mais certeza do que nunca de que a volta das memórias faria-o se afastar.

Temeu que isso abalasse não somente o recente relacionamento íntimo dos dois, como também toda aproximação que lutou anos para conseguir com ele – que incluía a amizade e o respeito de igual para igual que acabaram por cultivar.

Deu vários passos para trás, tentado a se distanciar. Experimentou por sua vez uma profunda falta de reação.

Embrulhou melhor o corpo com pouca roupa no lençol que o mal cobria, buscando um conforto que sabia que não encontraria ali.

Apenas teve condições de também sentar, no canto inverso ao de Bakugou. Olhou-o de esguelha, e um amargor desagradável se apossou do peito pela postura do outro herói, que transmitia a mais profunda confusão.

E Bakugou finalmente parou de evitar o contato visual. No momento em que os olhares se cruzaram, Izuku identificou animosidade nas íris vermelhas.

Assistiu a feição dele se contorcer em uma expressão dura, que o pegou desprevenido. Tinha se acostumado a não ser olhado com toda aquela reprimenda.

Queria ser capaz de perguntar alguma coisa pertinente à evidente recuperação, mas sabia que com toda tensão que se dissipava pelo ambiente, mesmo com algum ensaio mental prévio, nada sairia da garganta. Dos olhos somente.

Sentiu quando as lágrimas escorreram por suas bochechas, em um pranto perplexo e silencioso, que formava um nó no estômago.

E um estralo familiar com a língua acabou por trazê-lo à tona.

— Merda, já vai abrir o berreiro? Era óbvio que esse dia chegaria! Foi para isso que você fez essa palhaçada toda de me trazer para cá e... — Katsuki se interrompeu, com o peso das memórias o atingindo.

Tudo que havia se lembrado implicava que não havia explicação para seu tão profundo incômodo por Midoriya estar chorando, visivelmente desamparado. E então vinham à mente as cenas impactantes dos últimos dias, que desmontavam suas bem construídas certezas.

Estava em um momento tumultuado, enfrentando um duelo entre autopreservação versus ruptura de paradigmas.

Já havia passado por outros conflitos de identidade antes, porém nunca em uma escala parecida. A única semelhança era a ligação de Deku, direta ou indireta, em cada uma delas.

Tentava se convencer que era apenas por isso que desejava a presença dele no encerramento de mais esse ciclo. Teimava nessa conclusão, por mais que os braços formigassem para alcançar o anfitrião e trazê-lo para perto, da forma que havia se tornado tão natural fazer.

Sua razão o reprimia, e as emoções impeliam. Acabava imóvel, e buscando permanecer focado em seu objetivo para aquele dia.

— Aí, Deku, eu quero ir lá na agência hoje. — Exigiu, buscando o olhar verde.

Buscou sustentar um ar de irritação, que em nada condizia com o leve rubor pintado na feição tipicamente estoica — que espelhava um pouco o estado vacilante de Midoriya.

E na verdade, a ideia de continuar ajudando o herói explosivo fez mais sentido para Izuku do que se render à aflição naquele momento.

Enxugou os olhos com os dorsos das mãos, ciente que seu lado heróico falaria mais alto e o faria concretizar a missão de auxiliar Katsuki antes que pudesse se preocupar com os próprios sentimentos. Ignoraria, mais uma vez, seu coração contrariado para dar prioridade ao outro.

Tinha esperanças que uma conversa posterior pudesse resolver aquele impasse entre os dois.

Abriu uma versão distorcida de seu sorriso de herói, que selava a promessa de que estaria ao lado de Bakugou. Sequeria trazer à tona memórias da invejável carreira dele, levá-lo ao local de trabalho seria um avanço deveras positivo.

— C-Certo. — Concordou, tentando parece menos abalado do que obviamente estava. — E...como você está, Kacchan? D-Do que exatamente se lembrou?

As palavras repletas da preocupação, que Midoriya raramente conseguia deixar de lado, saíram antes que tivesse chance de se refrear.

Recebeu um olhar de censura do outro — que acabou ainda mais confuso pela atitude aparentemente resiliente.

Sem responder, Bakugou se agarrou ao próprio plano e levantou. Foi ao quarto buscar roupas, para em seguida se trocar no banheiro.

Izuku ouviu a porta ser fechada com força. O ruído foi o ponto de partida para que a mente processasse parte da mudança radical de dinâmica.

Pensou que se iriam na agência, seria importante avisar Todoroki de antemão. Buscou o celular e ligou para o chefe.

— Olá, Midoriya. — Ele atendeu prontamente, com a voz serena.

— Todoroki-kun! O Kacchan...

— Eu sei. Recuperou substancialmente a memória.

— S-Sim! E como...

— Ele já ligou dizendo que viria na agência hoje.

— O que?! — Foi tomado por genuíno espanto.

— Por algum motivo, ele está insistindo bastante nisso. Você acha uma boa ideia?

— Eu...acho que será importante para ele. — Admitiu.

— Então pode trazê-lo. Se você estiver por perto para vigiá-lo, acho que não tem problema.

A conversa se estendeu somente o tempo de Izuku agradecer e se despedir.

Bakugou saiu do banheiro em seguida, já completamente pronto.

— Vai se vestir logo, nerd.

Izuku suspirou pesado, entristecido. Pensou que na manhã anterior, naquele mesmo horário, Katsuki estava pedindo exatamente o oposto.

Quando se cruzaram no corredor, apertou ainda mais o lençol ao corpo, sentindo-se terrivelmente exposto. E para piorar, ainda parecia que Katsuki estava o medindo – ele desejava realmente estar, como era de seu feitio crítico fazer. Naquele momento, no entanto, não era o caso.

Ele não sabia como parar de ver Izuku da forma que tinha descoberto recentemente. De admirar, ser atraído e desejar. Ficava furioso consigo mesmo por isso.

Esperou com impaciência enquanto Midoriya trocava de roupa.

Nem imaginava que ele estava aproveitando a oportunidade para trocar mensagens com o chefe, que o orientava acerca dos cenários menos caóticos possíveis da agência, para prevenir o excesso de estímulos que a visita poderia desencadear em Bakugou..

Izuku laçou os cadarços de seus tênis vermelhos e saiu do quarto, evitando ao máximo pensar em seus receios.

Estava tão constrangido e sem graça com a situação que nem foi surpreendido pela porta do apartamento estar aberta, e o outro já ter saído na frente.

Quando chegou à garagem, encontrou Bakugou aguardando dentro do carro, no banco do motorista.

"Ele lembrou que é habilitado."

Aceitou ser o passageiro, entrando no veículo com um silêncio resignado.

*-*-*

Midoriya, na verdade, estava aliviado por não precisar dirigir naquele momento. Seria vergonhoso demais ter suas mãos, trêmulas demais pela situação entre ele e Katsuki, sendo percebidas ao volante.

Estava no modo automático, entorpecido e absorto em seu papel – que consistia em manter a positividade do herói e bom amigo acima de suas emoções. Mesmo focado nisso, continuava temeroso sobre tudo que deveria fazer acerca de Katsuki.

Não sabia se o silêncio entre eles pesava ou se, naquele momento, era reconfortante. Por isso, foi Katsuki a quebra-lo.

— Eu lembrei de tudo que você me disse, inclusive que eu realmente não te suportava quando éramos mais novos. — A iniciativa de explicar acabou por tornar o momento ainda mais embaraçoso.

Izuku respirou fundo, tentando se livrar do sufocamento que subitamente o acometeu. Mantinha o olhar fixo na janela, fingindo estar atento ao terreno pouco acidentado da rua.

— Você sempre se achou melhor do que eu. Ficava olhando de cima e oferecendo ajuda para me fazer te dever uma. Tipo a vez que eu caí no rio.

Aquelas acusações soaram terrivelmente familiares. Francamente, achava que tinham superado essa fase. Se esquecia que, diferente dele, Bakugou represava suas mágoas, e as acumulava até o ponto de suas emoções explodirem.

— Estava sempre observando cada passo meu, copiando minhas estratégias, prevendo meus golpes...e enquanto isso, eu fui idiota e achei que você era apenas uma pedra no meu caminho. — Acrescentou. — Você melhorava, melhorava e melhorava...até que chegou ao topo, que deveria ser só meu. Nerd filho da puta!

Queria poder afundar as costas no banco, e deixar que as palavras alheias, que agora giravam em sua cabeça, tivessem tempo de ser metabolizadas. Recebeu um olhar desdenhoso de entendimento, que o fez sentir-se novamente exposto.

— Além disso, você tem uma individualidade incrível, não tem? Então por que caralhos eu não lembro dela? Ela foi tardia mesmo ou você a escondeu de mim aquele tempo todo? Se fingiu mesmo de pateticamente fraco para ter vantagem sobre mim, Deku?

Midoriya se manteve em silêncio. Desta vez, no entanto, não era apenas pelo interrogatório desconfortável. O assunto “individualidade” e as memórias frágeis de Bakugou formavam uma mistura indigesta.

Qualquer coisa que dissesse poderia desencadear uma epifania sobre o One for All, que poderia convergir em momento inoportuno – na agência ou outro lugar público. Não era o momento adequado para terem aquela conversa.

Preferiu continuar em silêncio, sobre tudo.

— Oe, vai ficar me ignorando?

Respiraram fundo em uníssono, antes de Bakugou se fechar novamente.

*-*-*

Chegaram rapidamente ao prédio da agência. Subiram lado a lado pela rampa de acesso, buscando Todoroki. Não souberam exatamente onde procura-lo — já que o chefe havia somente mencionado nas mensagens que preferia levar Bakugou para longe da ala de escritórios.

Ele estava preocupado que o herói começasse a destilar explosões a torto e a direito próximo a salas com pilhas de documentos. Seria fácil apagar um incêndio, devido às individualidades presentes, mas Todoroki preferia evitar a fadiga.

E enquanto checavam a esmo em cada corredor de cada andar, o entorpecimento heróico de Izuku dava lugar a um misto nada aprazível de sensações.

A presença do outro, que nos últimos dias vinha sendo extremamente bem-vinda, agora o estava deixando profundamente angustiado. Evitava fazer qualquer contato visual, cabisbaixo e perdido em pensamentos.

Notou tardiamente que ele havia cansado de acompanhar seu ritmo e se adiantado. Ouviu exclamações enfurecidas logo a frente , e se dirigiu até lá. Deduziu que Bakugou e o chefe já tinham se encontrado.

Avistou uma troca faiscante de olhares firmes e resolutos. Bakugou estava inclinado na direção de Todoroki, com uma postura pensada para intimidar — inflando o peito e enfatizando pontos na discussão que apenas ele pareceria estar levando adiante.

— Por que você tinha que me dedurar para o Deku, seu pavê desgraçado?! Não era para ele sabe que eu tinha ligado!

Todoroki bufou. A falta de sono ainda comprometia seu humor.

Midoriya estava envergonhado pela presença dele, afinal o chefe havia o designado para cuidar de Katsuki, e nem fazia ideia das coisas fora do roteiro que se desenrolaram entre os dois — e não julgava adequado contar.

Optou por ser discreto e assistir a briga — que se parecia muito com as rotineiras entre eles — a uma distância educada.

— É o seguinte, meio a meio: quero ir em uma missão, mas sei que você está com o meu traje! — Bakugou explicou. — Então vê se me devolve essa porra de uma vez! E também, já deu de cuidar da minha vida!

— Isso está fora de questão. — Todoroki replicou, com sua inexpressividade imaculada.

— Como vou superar esse merda toda se você fica me tratando como um pirralho e insiste que o bosta do Deku banque a babá comigo?!

— Bakugou, seja realista. Até poucos dias você nem lembrava que era um herói. Não existe condição alguma de mandar você em uma missão nesse estado. As chances de você perder o controle pelo excesso repentino de estímulos são bastante altas, segundo o seu médico.

— O que está sugerindo, seu filho da puta? Acha que eu não dou conta?!

— Não se trata disso. Eu te dei a ordem de descansar sob os cuidados do Midoriya até ter recuperado completamente a memória, e não vejo motivo algum para voltar atrás nisso. Guardei seu traje em um lugar seguro e vou devolver apenas quando for o momento. Quer que eu repita alguma parte?

— Saco!

Um turbilhão de pequenas explosões iluminou as mãos de Bakugou. Ele deu as costas ao outro, e seu olhar cruzou com o de Izuku.

Todoroki sentiu alívio ao ver Deku ali. Não estava mais aguentando discutir com Katsuki, e sabia que o amigo era muito mais tolerante com os rompantes de fúria do turrão explosivo.

— Midoriya, que bom que chegou. — Saudou com simplicidade.

— T-Tudo bem, Todoroki-kun?

— É claro. Obrigado por ficar de olho no Bakugou durante esses dias. Não deve ter sido fácil.

— N-Não foi nada... — Abriu um sorriso envergonhado e coçou a nuca.

— E essa péssima ideia dele sair em missão hoje mostra que o heroísmo e a inconsequência estão voltando. Que bom.

— É. Que bom... — Concordou, sem tanto ânimo quanto gostaria.

Todoroki começou a estranhar o trato silencioso do herói explosivo. Não estava xingando ou dizendo que não queria saber de ninguém.

— Por que não nos explica do que se lembrou, Bakugou? — Sugeriu. — Como se conhecem há tanto tempo, o Midoriya pode ajudar a determinar quanto da sua memória ainda falta recuperar.

— Porque não é da conta dele, e muito menos da sua! — Cortou, cruzando os braços. — E além do mais, eu não quero a ajuda do Deku! Quantas vezes vou ter que repetir isso?

A teimosia dele fez Todoroki esboçar uma careta. Midoriya se viu arrasado, entretanto a motivação que sempre o guiava para nunca desistir, especialmente se fosse por alguém que precisasse de ajuda — e se fosse por Bakugou, então seria capaz de derrotar um deus — se manifestar.

— Kacchan, é importante você me dizer! — Insistiu, firme.

— Qual o seu problema, hein? Você sempre foi mala assim!

— Tem razão, eu sempre fui assim. — Devolveu. — E esse é mais um motivo para você dizer! Sabe que eu não vou desistir de te ajudar...

— Inferno de nerd...

Apesar da rispidez, Bakugou saboreou aquela ideia em segredo.

Sua expressão assumindo uma conformação ligeiramente menos dura serviu de sinal verde ao outro, que o conhecia bem. E entre estralos de língua e olhares desviados para o lado em pura impaciência, cedeu.

— Consegui usar o celular. Falei com meus pais, mais especificamente com a bruxa velha. Ela ficou puta por eu atrapalhar o cruzeiro estúpido deles.

Por mais que Izuku transbordasse desconforto, ficou visivelmente mais relaxado ao ouvir as constatações de Bakugou. Gelo quebrado, afinal de contas.

Todoroki, por outro lado, achou aquilo curioso. O pedido de Midoriya surtiu algum tipo de impacto em Katsuki, normalmente impassível.

E ele continuou sua narração.

— Lembrei de trabalhar como herói, e que a agência do Endeavor era aqui. Queria sair em uma missão para ver se acelerava a recuperação, mas o pavê de merda acha que eu vou surtar!

— Você não precisa necessariamente dos efeitos colaterais da amnésia para surtar, Bakugou. Esse já não é um bom motivo para a minha suspeita? — Todoroki se defendeu.

— Morre, bastardo! Já disse que estou recuperado!

— Então se é assim, você deve ter lembrado o seu verdadeiro endereço. — Alfinetou. — Depois do acidente, acho importante atualizar seu registro.

— Vai se foder, Todoroki!

Izuku sorriu involuntariamente com a cena que presenciava. As coisas entre os dois nunca mudavam, independente do quanto Bakugou se lembrasse.

— O problema é que as memórias mais antigas estão voltando primeiro. — Katsuki ignorou Todoroki e continuou, com o cenho franzido em impaciência. — Lembrei dos extras que andavam comigo na escola e depois na academia. E, obviamente, lembrei do Deku.

— O que exatamente sobre ele? — Todoroki questionou, para a aflição de Midoriya. Se Bakugou dissesse que ele não tinha individualidade, o desfecho poderia ser muito problemático.

— Que ele era irritante e me deixava puto. Estava sempre anotando coisas sobre heróis para cima e para baixo naqueles lixos de cadernos. Andava sempre na minha cola...exatamente como naquelas fotos.

Izuku abriu um sorriso triste.

Lembrou da opinião de Bakugou sobre si mesmo ao olhar os álbuns escolares. Se perguntou se o pensamento dele permanecia o mesmo depois de recobrar a memória.

E após a explicação, Katsuki agitou-se.

— Se não posso sair em missão, eu vou é dar o fora! E acelera o passo aí, Deku desgraçado, senão vou sozinho!

— Não vai, não. Isso é uma ordem, Bakugou. — Todoroki replicou.

— Me deixa, caralho! Nem estava falando com você!

Midoriya assentiu em silêncio, e os três desceram juntos a rampa, de volta para o térreo da agência.

Ele caminhava sem nem perceber aonde estava indo, imerso nos pensamentos que vinham o acometendo desde o início desencorajador da manhã.

Estava tão impactado que nem sequer murmurava. E com o cérebro totalmente desconectado do momento presente, não percebeu o olhar intenso e escarlate de Katsuki sobre si.

Após chegarem ao térreo, Todoroki se despediu dos dois. Pensou em repreender Bakugou caso ele tentasse alguma coisa irresponsável, mas teve certeza que a situação já estava sob controle.

Midoriya, saudosista, observou a partida do amigo. Suspirou pelas circunstâncias, e se virou para o loiro.

Ainda estava sendo encarado pelas íris vermelhas imersas em fúria.

— É... — Pretendia se desculpar por algo que nem sabia o que era, mas foi deixado falando sozinho.

Katsuki se pôs a caminhar na direção do carro estacionado, com as mãos nos bolsos. Já havia se certificado que sua mensagem implícita — de puro descontentamento — tinha ficado clara.

Preferia ir embora usando suas explosões, mas a mente extremamente embaralhada pela recuperação recente lhe rendeu uma dor de cabeça pulsátil. Sabia que Todoroki estava certo sobre o excesso de estímulos, embora nunca fosse admitir.

Midoriya seguiu o herói enfurecido.

*-*-*

Na reclusão do carro, o silêncio acabou por imperar novamente. Ele transmitia uma espécie de suspense, como a típica calmaria antes da tempestade.

Os dois heróis faziam contatos visuais breves, nos quais trocaram toneladas não verbais de dúvidas e confusão.

No trânsito, com Bakugou novamente ao volante, o carro da frente fez uma manobra imprudente. O herói colocou a cabeça para fora da janela e xingou alto, recebendo farol do carro de trás para repreendê-lo por aquilo.

Os flashs de luz ritmados trouxeram algumas memórias marcantes à tona. Cenas lampejantes como aquela — em que disparava explosões contra Deku.

— Lutamos duas vezes no Ground Beta. — Comentou repentinamente a lembrança, sem olhar na direção de Midoriya, já com o corpo inteiro dentro do perímetro do carro — Da primeira vez, eu perdi para você e aquele seu maldito poder descontrolado. Da segunda vez, eu só venci porque você foi fraco e não fez do poder que o All Might...

Os olhos de Katsuki quase saltaram das órbitas. Ficou estarrecido ao lembrar que All Might, o ídolo que os dois tinham como o modelo de herói a ser seguido, reconheceu o infeliz sem individualidade como um sucessor valoroso. Deu o poder passado de geração em geração a Deku, e confiou a luta contra o grande mal a ele.

— One for All. — Sussurrou. — Caralho, eu lembro!

Finalmente ligou alguns dos pontos que faltavam, e viu o outro profundamente estarrecido com as confrontações.

— O All Might precisava de um sucessor por causa daquela ferida, e deu o poder para você. E por eu ser sequestrado pelos vilões, ele teve que usar o pouco que restava no corpo dele contra o All for One. Não foi isso, Deku?

O velho apelido sussurrado como se fosse um segredo fez o coração de Izuku acelerar.

— V-Você realmente ainda se sente culpado por isso?

— Não é só por isso, merda!

— S-Se isso tem algo a ver comigo, já conseguimos superar as nossas diferenças no passado.

— Não fique se achando, eu não disse que era sobre você!

Midoriya mordeu os lábios, sem saber o que dizer. Temia piorar ainda mais o clima nada ameno entre os dois.

E o resto do caminho para o apartamento foi mergulhado em incertezas.

*-*-*

Enquanto destrancava a porta, Izuku ouviu Katsuki se movimentar impacientemente. A linguagem corporal estava agitada, junto de uma expressão furiosa e estranhamente decidida.

— A-Aconteceu alguma coisa? — Ousou questionar.

Viu os cantos dos lábios dele se contorcerem em uma careta.

— Vou pegar minhas coisas e dormir em um hotel, pelo menos até que eu lembre onde moro.

Midoriya desviou o olhar, que já dava novos indícios de marejamento, voltando-o à fechadura – a viu desfocada através das lágrimas.

O peito pesou de forma terrível, e o sabor amargo que qualquer resposta apropriada teria o desestimulou a falar.

Assim que a porta foi aberta, Bakugou se dirigiu imediatamente ao quarto. Ele não tardou a aparecer com uma calça enrolada sob o braço — as demais peças de roupa ainda secavam na lavanderia do condomínio.

Pela resolutividade que reluzia nos olhos vermelhos, era evidente que ele iria embora e não voltaria mais.

Por mais que tivesse uma tonelada de coisas para dizer, Izuku se viu ao longo do dia sem fala ante a sucessão de eventos que estavam o machucando tanto. Sentiu-se atingido por tudo de uma vez.

— Kacchan, espera! – Exclamou em um último esforço, no qual a voz arranhou ao deixar a garganta.

Bakugou estancou os passos que já o levavam porta afora.

Apenas quando os ouvidos arderam, Midoriya percebeu que tinha gritado em total desespero. Não era a intenção, mas ao mesmo tempo era a única forma de verbalizar sua indignação ao ver o outro partir daquela forma. Sentia seu interior desabar.

— Depois de tudo, você não pode ir embora assim! — Defendeu com convicção, cansado do silêncio resignado que vinha o assombrando ao longo de tantos anos.

De repente, não era mais sobre a amnésia apenas. Era sobre tudo entre eles.

— S-Se está bravo pelo que fizemos... – Foi interrompido.

— Não é isso, porcaria! Eu não esqueci que você me avisou e mesmo assim eu insisti.

— Então o que é?

— Posso não ter recuperado a memória completamente, mas já sei o suficiente para entender que preciso dar o fora. Meu lugar não é aqui.

— Seu...lugar?

Izuku agarrou a própria camiseta, sentindo pânico se apossar do coração. Tentou acalmar a voz, buscando apelar pela racionalidade, já que seus sentimentos o traíam.

— O T-Todoroki-kun disse que...

— Diz que para aquele desgraçado que estou pouco me fodendo para as ordens dele!

E mais uma vez, Katsuki deu as costas. Quando já estava cruzando a porta, sentiu um toque pedinte nos ombros. Virou a cabeça lentamente, apenas para ver o rosto sardento terrivelmente aflito e coberto de lágrimas.

— Kacchan, por favor, me escuta! Não é só por isso! É perigoso te deixar sozinho, você pode ter uma recaída com a amnésia e...

— Se manda! — Apartou-se. Antes que pudesse perceber, um raio verde levou Izuku a seu caminho, bloqueando a porta. — Sai agora da minha frente!

Midoriya era rápido e forte. Pareceu uma verdadeira muralha quando se agarrou ao peito dele, detendo o avanço para fora.

— Me deixa, porra! — Inquiriu, com as mãos já faiscando, em simbiose com sua raiva.

— Kacchan, por favor...

— Você não entende, Deku!

A última palavra deixou os lábios de Katsuki com peso, e ele não ousou proferir mais nenhuma durante a epifania que o acometeu em seguida.

Deku o encarou com íris verdes retraídas e lábios entreabertos, que contribuíam com a respiração descompassada. Sabia que presenciaria um desabafo de Katsuki, e com as reviravoltas recentes, aquilo o inquietava.

— Não importa para qual lado das minhas memórias eu olhe, eu sempre vejo você! Primeiro atrás de mim, me seguindo como um perdedor. Depois eu seguindo você, porque sentia fraco e não permitiria que você me vencesse... — Franziu as sobrancelhas. — E agora que esses malditos dias fizeram alguma coisa comigo, não consigo me entender! Foi tão fácil gostar de você que me sinto um idiota! Preciso sair daqui antes que tudo isso me enlouqueça!

O coração de Midoriya perdeu totalmente o controle das batidas. Seus sentimentos se resumiam a uma mistura conflitante naquele momento, e a julgar pela atitude compenetrada do outro em verbalizar a própria confusão, não duvidava que o mesmo acontecesse com ele. Tinha quase certeza que Bakugou estava dividido entre tudo que sempre foram e tudo que se tornaram após a amnésia.

E o amortecimento de Bakugou foi imã para explosões sem alvo específico, por puro descontrole.

— Por que, inferno?! Por que você nunca desiste de mim?!

Ele agarrou as mechas loiras espetadas em revolta. Apertou os dentes, olhando no fundo dos olhos de Midoriya.

O ar destemido dele alertou que ganharia uma resposta que o desmontaria.

— Mesmo que você ache que seu lugar não é comigo, eu sei onde quero que seja o meu. E não é nem na sua frente e nem atrás de você, Kacchan. É do seu lado. E se você quer um motivo, é porque eu te amo!

O ambiente mergulhou no mais absoluto silêncio. Os instantes de pura mortificação pesavam, compartilhados com olhos arregalados e peitos rasgados pelas confissões que escaparam.

A espera por uma reação chegou ao fim abruptamente, numa fração de segundo em que Izuku foi jogado contra a parede. Os olhos se fecharam instintivamente quando a boca de Katsuki chegou até a sua, lhe arrancando um beijo faminto, temperado com o salgado de suas lágrimas.

O apertou como se a vida dependesse disso, e sentiu os dígitos dele se firmarem ambiciosamente em sua cintura, com uma pegada firme. Ouviu a calça que o outro segurava cair ao chão, e os braços dele chegaram, reivindicando a extinção do espaço entre os dois.

Havia um estranho tipo de satisfação presente por Bakugou já ter recuperado a memória, como se estivesse o beijando de verdade pela primeira vez – não parecia mais um sonho. O beijo foi permeado por emoções que contavam a história as dois. Raiva, cumplicidade, admiração, inveja, desconfiança, carinho, cuidado...

O coração batia em ritmo descontrolado, socando a caixa torácica. Não deixou de reparar que o pulso de Bakugou estava instável em medida semelhante.

Enroscou as pernas às dele, e se atrelou aos ombros amplos em um abraço que pedia silenciosamente que ficasse. Buscava a língua já conhecida, afoito demais, e sendo correspondido proporcionalmente, sempre com o aparecimento de mais pressão nos lábios e corpos do que seria necessário.

Teve a boca mordida, sugada, lambida e explorada por inteiro, sem que sequer parecesse suficiente. As lágrimas insistiam em cair, alheias aos quadros que se atraíam com cada vez mais intensidade, unidos por um movimento sincronizado.

As mãos já se agarravam às peças de roupa que bloqueavam o caminho.

E em meio ao frenesi, Katsuki se apartou. Respirou em estarrecimento algumas vezes, com o olhar direcionado ao rosto afogueado de Midoriya. Recolheu os braços que o envolviam, e recebeu um olhar interrogativo devido ao término abrupto do beijo.

— Merda, Deku... — O puxou para longe da porta, lutando brevemente contra a resistência oferecida pelas pernas dele. — Eu não posso ficar!

O corpo de Izuku, castigado pelas emoções e, diga-se de passagem, hormônios, demorou somente alguns segundos para compreender que Katsuki tinha ido embora. Mesmo assim, graças à velocidade dele, era tarde demais.

Saiu em disparada pelo corredor do prédio, deixando que o frio noturno se chocasse contra seu corpo fervendo.

No céu, somente a lua. Ele já estava longe.

*-*-*

Katsuki lembrou que não morava muito longe dali. O trajeto foi curto, recheado de vibrações constantes em seu celular — Izuku ligando incansavelmente e mandando dezenas de mensagens. Ignorou todas, sabendo que ele insistiria que voltasse.

Precisava se distanciar, ou acabaria ainda mais dividido do que já estava.

Foi a pé, e se surpreendeu ao acertar em cheio o caminho, o prédio, o andar e o apartamento que morava. Ele realmente tinha recobrado a memória.

Tudo que tinha trazido consigo eram os pertences em seus bolsos — entre eles, suas chaves.

Ao entrar, a primeira coisa que lhe acometeu foi estranhamento. Não sentiu-se em casa.

Soube que não dormiria aquela noite – e que Deku também não.

Notas finais
Katsuki está mais confuso que a Nazaré, tadinho. Daqui a pouco percebe que essa ideia de se afastar foi horrenda. Eles nem se separaram e só quero os dois juntos de novo t.t Escrever o Todoroki é tudo de bom, preciso salientar. Vejo vocês no próximo! Até mais!