Notas iniciais
Gays is the new revolution

Em cima da escada dupla, Luke terminava de colar adesivos de cachimbo no teto. O tema da cafeteria esse mês era Assassinato no Expresso do Oriente. O patrão era um fã das obras de Agatha Christie, e já que no mês passado não houve tema — sendo o único mês do ano em que Luke não teve que madrugar para decorar tudo -, essa precisava ser uma grande volta. O lugar não era mais tão iluminado, agora poucas luzes estavam ligadas e em locais estratégicos para destacar a decoração. O papel de parede remetia ao cenário do livro, assim como a decoração com trens, neve e mesas com o número da cabina de cada personagem. A climatização se tornou mais fria, em conta que o livro se passa numa nevasca. O cardápio continha um trocadinho com a palavra e a bebida "Expresso", "Poirot Brownie", "Pão Carro-Restaurante", "Princesa ao Mel", "Chá Mrs. Hubbard". As novas comidas não agradavam muito o funcionário, porém a decoração com cortinas mais escuras e sofás estampadas, estava divina. Ao descer da escada dupla, lembrou da pior parte de seu trabalho, bem ali, o encarando no balcão. Não era um cliente chato e sem modos, não era o seu chefe pedindo a ele para ficar até depois do expediente, não era uma comida deliciosa que não podia comer, não era uma alucinação da sua cama devido às horas mal dormidas — desejava que fosse -. A pior parte de seu trabalho era usar o novo uniforme tematizado. Ninguém sabia o quão constrangedor o próximo podia ser. Desde o tema gatinhos, aonde colocara orelhinhas, pintara o rosto, usou pantufas horrorosas, teve que colocar um casaco de pele quente e fedorento, sem se esquecer, é claro, o rabo felpudo — puxado à exaustão -, até aquele tema sugerindo pela fllha do chefe, onde sentiu seus lábios e moral caírem em desgosto, "maldito mês do beijo, malditos clientes carentes, malditas bochechas pedintes", pensava Luke. O novo uniforme parecia mais com um vendedor de pipoca do que com alguém que trabalhava na cozinha de um trem expresso. Dessa vez, Daniel — O patrão — não escolhera tão mal.

— Vista o uniforme logo, já tem pessoas para atender.- Apressou, o chefe.

Luke levou a roupa para os fundos, onde se vestiu com pressa. Aquele lugar iria fazer mais frio, se preparava para cancelar a passagem e descer do trem. O funcionário voltou para o atendimento, indo de mesa em mesa atender. A filha do dono, sentada em uma poltrona bem afastada dele, ria histericamente da vestimenta que o muito bem conhecido amigo tinha que usar. Luke encarou-a com secura, a acertando com uma almofada instantes depois. O tempo passou, recebeu alguns elogios pela decoração, gorjetas generosas, boas gargalhadas da ruiva que não se importava de ser acertada por almofadas diversas vezes. Cuidando do caixa novamente, Luke apoiava sua cabeça na mão aberta, entediado com a falta de emoção no trabalho, não que isso não fosse uma bênção. A porta se abriu, não tirando muito da atenção do funcionário entediado. Aos poucos, suas pupilas foram seguindo o recém chegado, até perceberem quem era: o cliente do banner pornográfico. Ele não olhou para o caixa enquanto passava, sentou em um canto, apenas pediu um café expresso, entregue por um outro funcionário.

— Se quiser sair uns minutos.- Sugeriu o chefe Daniel, tomando o lugar no caixa.

Ele não queria sair com essa roupa estranha na rua, então sentou-se perto da estante de livros e começou a ler o que era tema do mês. Bem, alguns minutos passaram, com pequenas espiadas ao homem lá no fundo da cafeteria, assim não conseguiu sair da segunda página. Quando foi encará-lo de novo, viu-o dando um leve aceno, retribuído por instinto, seguido por uma mão que fazia sinal para se aproximar. Luke deixou o livro de lado e foi para a mesa do homem com notebook.

— Ficou ótima essa decoração.- Elogiou, o cliente.

— É, deu trabalho.

O funcionário não tinha coragem para olhar a tela outra vez, quem sabe agora veria um banner propaganda de viagra.

— Você já leu?- Luke levantou as sobrancelhas, não raciocinando a pergunta.- Assassinato no Expresso do Oriente?

— Ah, eu...Não li ainda.- Teve certeza que deveria.

— Certeza que deveria, acho que você ia gostar.- O homem voltou os olhos para o notebook.- Bem, quer ver o que estou editando agora?

O garoto com roupas totalmente diferentes do repetido terno do cliente, se aproximou lentamente do que queria ser-lhe mostrado, para então se surpreender positivamente.

— Uau, Pinguins! É a capa de um livro?- "Sem mamilos!", comemorou mentalmente.

— Estou fazendo para um amigo, que paga bem, claro.- Eles olhavam um nos olhos do outro, interessados no que teriam a dizer.- Me chamo Mark.- Estendeu a mão.

— Sou Luke.- Cumprimentou.- Estou feliz por hoje não ver pornografia por aqui.

— Foi difícil terminar no prazo, mas deu tudo certo.

— O cliente gostou?- Perguntou, colocando suas mãos sobre a mesa.

— Não tinha muito do que não gostar.- Luke tinha.- Como é trabalhar aqui...numa cafeteria?

Por alguns segundos, o funcionário não tinha o que comentar. Era chato, mas ao mesmo tempo divertido.

— É cansativo, às vezes acontecem momentos engraçados. Também conheço muitas pessoas novas.- Seus olhos procuravam alguém, até encontrar.- Tá vendo aquele senhor ali?- Disse apontando discretamente para um velho.- Ele vai pedir três pães, um café sem açúcar e um cupcake azul.

Poucos segundos depois, um garçom veio trazendo tudo o que Luke falou.

— No caso ele já tinha pedido.

— Impressionante.- Respondeu positivamente, Mark.- Sabe o que eu peço também?

O funcionário sentado à mesa ficou quieto, intimidado pelo olhar tão focado do cliente.

— Só percebi sua presença ontem.- Falou rápido, com a cabeça mirada na mesa.

Mark deu uma risadinha, fechando o notebook e colocando seus braços em cima dele.

— Me fala mais daqui, do seu patrão, os funcionários...Estou aberto para desabafos.

— Não tenho o que reclamar...- Tinha bastante, mas não encheria a cabeça do cliente com essas baboseiras.

— Então liste as qualidades.- Mark estava empenhado em saber sobre o trabalho de Luke, talvez até mais fundo do que isso.

Vinte minutos se passaram, foi uma conversa divertida para os dois, ampliada para um pouco da vida pessoal deles. Luke contou sua idade — dezessete anos -, sobre sua família, seus hobbys, lazer e trabalho. Mark ouviu tudo atentamente, contando apenas quando perguntado sobre seus assuntos. Nessa conversa, foi descoberto que o cliente não só tinha uma aparência que agradava o funcionário, como também um gosto para se divertir bem parecido.

— Você gosta de rodas gigantes?- Indagou, o mais velho. Ele estava continuando o assunto sobre a cidade vizinha e seus atributos.

— Eu sempre adorei essas atrações que tem haver com altura, mas não gosto de ir sozinho.- Seria estranho levar a amiga filha do chefe ao parque de diversão da cidade vizinha, mesmo que já tenham saído juntos para o shopping.

— Bom, quer ir comigo? Não precisa se não quiser.

A conversa teria se desenrolado tão bem para acontecer um convite de ir ao parque de diversões? Luke ficou gago, não tinha uma resposta na ponta da língua.

— Luke! Chega de papear!- Gritou Daniel, despertando o funcionário da cara de bobo.

Mark ergueu uma das sobrancelhas, ainda encarando o garoto — quatro anos mais novo — que convidou para sair.

— Eu...acho que está bem. Folgo amanhã.- Não folgava, mas esperava convencer o chefe.

Mark pegou seu celular do bolso, entregando nas mãos do cara que chamou para um provável encontro. Luke colocou seu número e devolveu o smartphone, indo de cabeça baixa até o chefe. Poucos minutos depois, Mark foi embora, despedindo-se com o olhar. Após a saída, o funcionário debruçou no balcão, devaneando com o dia de amanhã. Era um encontro de amigos ou romântico? Bem, só saberia amanhã. O trabalho estava ficando mais divertido, agora podia sentir algo queimando-o, o esquentando daquele terrível frio. Era a terrível cafeteira queimando seu cotovelo.

Notas finais
Leiam Agatha Christie