Eu fui embora antes que enlouquecesse.

O impulso de continuar ouvindo aquela casa era doentio. Obsessivo. Familiar demais.

As árvores passavam borradas enquanto eu corria pela floresta encharcada, a chuva atravessando meu rosto imóvel. O vento frio deveria ajudar. Deveria limpar minha mente.

Não ajudou.

Porque eu já tinha feito aquilo antes.

Na casa de Charlie.

Anos atrás, antes de Bella sequer imaginar o que eu era, eu ficava escondido do lado de fora ouvindo sua respiração durante a noite como algum tipo de criatura faminta e patética. Observando a luz apagar no quarto dela. Decorando o ritmo do coração dela enquanto dormia.

Eu havia chamado aquilo de amor.

Talvez parte realmente fosse.

Mas outra parte…

Outra parte sempre foi obsessão.

Quando cheguei em casa, atravessei a porta rápido demais, fazendo o vidro das janelas vibrar.

Esme levantou os olhos imediatamente do sofá.

A preocupação veio antes das palavras.

— Edward?

Eu ignorei.

Subi as escadas num borrão e parei no meu quarto vazio.

O quarto que nunca mudou.

Ainda havia livros que Bella fingia tentar ler. Um porta-retrato virado para baixo em cima da mesa. A colcha azul-clara perfeitamente arrumada porque ninguém tocava em nada.

Um mausoléu preservado.

Eu apoiei as mãos na parede tentando me controlar.

O coração da mulher ainda ecoava na minha cabeça.

E o do bebê também.

Tum-tum-tum-tum.

Rápido. Saudável.

Vivo.

Fechei os olhos imediatamente.

— Para — murmurei para mim mesmo.

Porque aquilo precisava parar agora.

Não importava se a mulher tinha maneirismos parecidos. Não importava a visão de Alice. Não importava os olhos do bebê.

Bella estava morta.

Morta.

Eu tinha sentido o corpo dela esfriar nos meus braços.

Ainda conseguia lembrar do peso absurdo do silêncio depois do último batimento.

Nada mudaria isso.

Então por que parecia que alguma coisa dentro de mim estava acordando pela primeira vez em sete anos?

Raiva percorreu meu corpo inteiro.

Eu destruí a cadeira ao meu lado antes mesmo de perceber o movimento. Madeira explodiu contra a parede.

— Edward! — Esme apareceu na porta instantaneamente.

Eu me afastei.

— Não.

Ela observou o quarto destruído e depois meu rosto.

E entendeu imediatamente que aquilo era sobre Bella.

Sempre era.

Esme se aproximou devagar, como alguém tentando alcançar um animal ferido.

— Você não precisa carregar tudo sozinho.

Uma risada amarga quase escapou de mim.

Sozinho.

Não existia outra forma de carregar aquilo.

— Eu ouvi uma mulher hoje — falei finalmente.

Esme permaneceu em silêncio.

— E por um segundo… eu quis que fosse ela.

Dizer em voz alta fez a vergonha piorar.

Patética esperança.

Depois de sete anos.

Os olhos de Esme suavizaram imediatamente com tristeza.

— Edward…

— Não. — Minha voz saiu mais fria do que pretendia. — Eu não posso fazer isso de novo.

Não podia observar outra humana. Não podia me prender à ideia impossível de Bella vivendo em ecos espalhados pelo mundo.

Porque Bella não tinha substituta.

Nunca teria.

O silêncio durou alguns segundos.

Então ouvi Alice entrando na casa.

Os pensamentos dela vinham rápidos.

Ansiosos.

E novamente aquela imagem atravessou sua mente antes mesmo que ela chegasse ao quarto.

O bebê.

Olhos castanhos enormes.

Os olhos de Bella.

Meu corpo inteiro endureceu.

— Eu preciso parar — falei baixo, mais para mim mesmo do que para Esme. — Antes que isso me destrua de novo.

Mas no fundo…

Uma parte horrível de mim já sabia que era tarde demais.