Eu Me Lembro - Crepúsculo
5 Família
O dia seguinte amanheceu cinzento.
Como sempre.
A névoa rastejava entre as árvores de Forks enquanto eu corria sem direção pela floresta, tentando expulsar da mente os pensamentos da noite anterior. O cheiro daquela mulher ainda parecia preso em mim. Irritantemente familiar.
Eu não estava prestando atenção para onde ia.
Só percebi tarde demais quando o cheiro conhecido da casa de Charlie atingiu o ar úmido.
Parei instantaneamente.
A velha caminhonete vermelha ainda estava estacionada torta na entrada. A varanda precisava de pintura nova. A janela da cozinha permanecia exatamente igual.
Sete anos tinham passado e aquele lugar continuava preso no tempo.
Então ouvi vozes.
— Tio Charlie, você ainda guarda tudo nesse armário horrível?
Meu corpo congelou.
A voz era feminina.
Humana.
Eu me movi automaticamente para a sombra das árvores antes mesmo de olhar.
Charlie estava na varanda.
Mais velho agora. Ombros curvados. Rugas profundas marcando o rosto cansado.
Mas ele estava sorrindo.
Sorrindo de verdade.
Na frente dele estava a mulher grávida.
Lily.
Ela segurava o ventre enorme enquanto ria baixo, e o homem ao lado dela descarregava caixas da caminhonete.
Charlie pegou uma das caixas resmungando:
— Ei, esse armário tem história.
Tio Charlie.
Meu cérebro recusou aquilo imediatamente.
Não.
Não.
Eu forcei minha audição para dentro da casa.
Fotos.
Havia fotografias sendo penduradas.
Ouvi os pensamentos de Charlie se movendo rápido demais com nostalgia.
Minha sobrinha finalmente voltou pra Forks…
Sobrinha.
Sobrinha.
O choque atravessou meu corpo inteiro como gelo.
Eu observei Lily virar levemente o rosto enquanto falava alguma coisa para Charlie—
E foi pior.
Porque havia traços.
Pequenos. Sutis. Humanos.
Mas absurdamente familiares.
O formato da boca.
O jeito de inclinar a cabeça quando ouvia alguém.
Meu mundo inteiro pareceu inclinar violentamente.
Não.
Bella não tinha família além de Renée e Charlie.
Eu sabia disso.
Sabia.
Então por que Charlie olhava para aquela mulher com algo tão próximo da dor antiga?
E por que o cheiro dela continuava me destruindo daquele jeito?
O bebê se moveu dentro dela de repente.
Ela segurou a barriga sorrindo.
— Acho que ela gostou daqui.
Ela.
Meu corpo reagiu instantaneamente à palavra.
Eu recuei um passo.
Depois outro.
E então simplesmente corri.
As árvores viraram borrões escuros enquanto eu atravessava a floresta rápido demais até para mim. Galhos quebravam sob meus pés. A chuva cortava o ar.
Porque alguma coisa estava errada.
Terrivelmente errada.
Quando cheguei em casa, Alice já estava esperando na sala.
Como se soubesse.
Talvez soubesse.
Os olhos dourados dela encontraram os meus imediatamente.
— Edward—
— Charlie chamou ela de sobrinha.
O silêncio caiu como pedra.
Alice ficou completamente imóvel.
Os pensamentos dela explodiram instantaneamente em novas possibilidades, novas imagens, futuros tremendo em instabilidade.
— O quê?
— Eu ouvi. — Minha voz saiu baixa e perigosa. — “Minha sobrinha finalmente voltou pra Forks.”
Alice levou a mão ao rosto desnecessariamente.
Outra visão atingiu ela naquele instante.
Eu vi pelos pensamentos dela antes mesmo que falasse.
Um bebê recém-nascido.
Olhos castanhos profundos.
E Bella.
Não Bella exatamente.
Mas fragmentos.
Ecoando.
Alice me encarou assustada.
— Edward… alguma coisa está acontecendo.
Raiva subiu imediatamente.
— Não diga isso.
Porque eu sabia exatamente o que ela queria dizer.
E eu me recusava.
Me recusava a dar nome à esperança monstruosa crescendo dentro de mim.
— Bella morreu.
Alice assentiu rápido.
— Eu sei.
Mas a voz dela falhou.
Porque nem ela parecia acreditar completamente nisso agora.
Fale com o autor