No começo, eu contei os dias.


Não porque eles importassem.


Mas porque eu precisava transformar a eternidade em alguma coisa menor.


Algo suportável.


Dia 1.


Bella ainda estava quente quando eu a carreguei para fora daquela casa.


Dia 3.


Charlie ligou cinquenta e duas vezes para o celular dela.


Dia 8.


Jacob parou de aparecer.


Dia 14.


Rosalie chorou escondida no porão, acreditando que ninguém ouviria.


Eu ouvi.


Eu ouvia tudo.


Mas nunca mais ouvi Bella.


Forks continuou existindo de maneira ofensivamente normal. A chuva caía. Os carros passavam. Pessoas riam no supermercado. Crianças corriam pelas ruas.


Como o mundo ousava continuar?


Carlisle tentou falar comigo no primeiro mês.


- Edward, você precisa caçar.


Precisa.


Como se ainda existisse alguma necessidade em mim além da dor.


Esme deixava roupas limpas no meu quarto mesmo sabendo que eu não sairia dali. Alice evitava olhar para o futuro porque todo caminho que envolvia meu nome terminava vazio.


Emmett parou de fazer piadas.


A casa inteira parecia um mausoléu.


E eu era o fantasma.


No segundo mês, comecei a visitar o túmulo dela.


Toda noite.


Sempre depois da chuva mais forte, quando o cemitério ficava completamente vazio.


Isabella Marie Swan Cullen.


O nome parecia errado gravado em pedra. Bella nunca deveria ter pertencido à morte. Ela era calor demais para aquilo.


Eu sentava ao lado da lápide e imaginava absurdos.


Que ela abriria os olhos.


Que pisaria na grama molhada reclamando do frio.


Que riria da expressão miserável no meu rosto.


Mas o chão permanecia fechado.


Silencioso.


E eu permanecia imóvel porque vampiros não enlouquecem da forma humana. Não quebramos. Não desmoronamos.


Nós apodrecemos lentamente por dentro.


Para sempre.


No primeiro ano, Charlie envelheceu dez anos.


Eu o observava de longe às vezes. O andar mais lento. O cabelo mais branco. A dor constante escondida atrás de uma rotina mecânica.


Ele mantinha uma foto dela na carteira.


A mesma foto.


Bella usando aquela blusa azul escura, sorrindo para a câmera enquanto reclamava de ter sido fotografada.


Eu quase fui até ele uma vez.


Quase.


Mas o que eu diria?


"Desculpe. Eu destruí sua filha porque a amava demais."


Não existiam palavras para aquilo.


No terceiro ano, Alice finalmente teve uma visão minha novamente.


Ela entrou na floresta me procurando como alguém tentando se aproximar de um animal ferido.


- Edward...


Eu não olhei para ela.


- O que foi?


Ela hesitou.


Pela primeira vez em décadas, Alice parecia com medo de mim.


- Você desaparece em algumas visões.


- Talvez eu devesse.


Ela entendeu imediatamente.


Os pensamentos dela explodiram em pânico.


- Não.


- Não existe mais motivo.


- Bella não iria querer isso.


Isso finalmente me fez levantar os olhos.


Raiva.


Fria. Instantânea.


- Não fale sobre o que Bella iria querer. Você não pode ouvi-la.


Ninguém podia.


Esse era o verdadeiro inferno.


No quinto ano, Jacob voltou para Forks.


Mais velho. Mais duro.


Ainda carregando culpa nos pensamentos como uma cicatriz aberta.


Nós nos encaramos por longos segundos na floresta.


Antigamente teria havido ódio.


Agora só existia cansaço.


- Você ainda visita ela? — ele perguntou.


- Todos os dias.


Jacob assentiu devagar.


- Eu também.


Foi a única conversa que tivemos em anos.


Então vieram sete anos.


Sete anos desde o último batimento do coração de Bella.


Sete anos desde o silêncio da nossa filha.


Sete anos desde que o mundo acabou e, estranhamente, continuou girando.


Forks não tinha mudado muito. Ainda chovia demais. Ainda cheirava a pinheiros molhados. Ainda parecia um lugar preso entre sonhos e luto.


Mas Charlie estava velho agora.


Muito velho.


E isso... isso me destruiu de uma maneira nova.


Porque Bella deveria estar aqui para ver isso.


Deveria reclamar dos cabelos grisalhos dele.


Deveria abraçá-lo nos aniversários.


Deveria existir.


Numa noite particularmente fria, fiquei diante da lápide até o amanhecer.


Imóvel.


As gotas de chuva atravessavam meu rosto como lágrimas que meu corpo não podia produzir.


E pela primeira vez em sete anos... eu falei em voz alta.


- Eu não consigo mais lembrar da sua voz direito.


Aquilo me aterrorizava mais do que a morte.


As memórias humanas desaparecem primeiro.


O som exato da risada.


A maneira como ela dizia meu nome.


O ritmo da respiração durante o sono.


Eu ainda lembrava do rosto dela perfeitamente. Vampiros nunca esquecem rostos.


Mas a voz...


A voz estava indo embora.


Então senti algo impossível.


Um cheiro.


Familiar.


Doce.


Humano.


Meu corpo inteiro congelou.


Porque por um segundo absurdo...


Cheirava exatamente como Bella.