Depois que Jacob e Seth foram embora, a casa mergulhou num silêncio pesado outra vez.

Charlie saiu pouco depois.

Antes de entrar na caminhonete, ele ficou parado na varanda por alguns segundos olhando para mim.

Como se quisesse dizer mais alguma coisa.

Talvez agradecer.

Talvez pedir desculpas.

Talvez simplesmente admitir que nenhum de nós sabia mais como sobreviver à ausência de Bella.

Mas no fim ele apenas assentiu devagar e foi embora sob a chuva.

Eu permaneci parado na sala até o som do motor desaparecer completamente.

Então subi para o quarto.

Sem dizer nada para ninguém.

O corredor estava silencioso quando entrei no antigo quarto de Bella e fechei a porta atrás de mim.

Escuridão.

Cheiro antigo de livros, chuva e memória.

Eu sentei na ponta da cama tentando organizar os pensamentos, mas era impossível.

Tudo estava piorando rápido demais.

Emily.

Maliza.

Charlie.

Os olhos.

E agora Alice tinha me visto sorrindo.

Aquilo me aterrorizava.

Porque parte de mim queria aquilo.

Queria sentir qualquer coisa além do vazio contínuo dos últimos sete anos.

Uma batida leve na porta interrompeu meus pensamentos.

Alice entrou antes mesmo da resposta.

Ela ficou parada perto da porta por alguns segundos, observando meu rosto cuidadosamente.

Então suspirou.

— Você vai embora.

Não era uma pergunta.

Meu corpo inteiro ficou imóvel.

Alice já sabia.

Claro que sabia.

Desviei o olhar imediatamente.

— Faz sentido.

A voz dela saiu baixa.

Triste.

— Edward—

— Eu não consigo fazer isso de novo.

Finalmente encarei minha irmã.

Os olhos dela suavizaram instantaneamente.

Porque ela conseguia ver exatamente o que estava acontecendo comigo.

— Cada vez que eu penso naquela criança… — minha voz falhou por um instante. — Eu me odeio um pouco mais.

Alice caminhou devagar até a janela.

A chuva refletia luz cinzenta no rosto pequeno dela.

— Você não está substituindo Bella.

Fechei os olhos imediatamente.

— Não importa. Parece errado.

E parecia.

Profundamente errado.

Porque Maliza era inocente.

Só uma criança humana.

Mas meu cérebro continuava procurando Bella nela como alguém desesperado procurando ar.

Alice ficou em silêncio por um momento.

Então falou algo que fez meu peito apertar imediatamente:

— Eu vi você indo embora.

Olhei para ela rápido demais.

Alice cruzou os braços devagar.

— Alguns anos.

O quarto pareceu menor instantaneamente.

— Alguns?

Ela assentiu.

Os pensamentos dela estavam estranhos agora. Nebulosos. Fragmentados.

— Você some. Viaja muito. Europa… América do Sul… depois eu perco você completamente por um tempo.

Isso soava familiar demais.

Como da primeira vez que deixei Forks.

Depois de abandonar Bella na floresta.

A lembrança atravessou meu peito como vidro.

— E depois? — perguntei baixo.

Alice me encarou diretamente.

Então sorriu de um jeito pequeno e triste.

— Depois você volta.

O silêncio caiu entre nós.

Eu conseguia ouvir a chuva. O vento. O coração distante dos animais na floresta.

Mas tudo parecia distante agora.

— Por quê?

Alice hesitou.

Aquilo imediatamente piorou tudo.

— Alice.

Ela desviou o olhar para a cama de Bella antes de responder:

— Porque existe uma garotinha que te faz lembrar como é amar o mundo de novo.

Meu corpo inteiro endureceu.

— Não.

A palavra saiu instantaneamente.

Quase feroz.

Alice deu um passo na minha direção.

— Não daquele jeito.

Mas meus pensamentos já estavam contaminando tudo.

Medo.

Culpa.

Pânico.

Alice percebeu imediatamente e segurou meu rosto entre as mãos frias.

— Edward, escuta direito.

Os olhos dourados dela prenderam os meus.

— Você ama aquela bebê porque ela faz as pessoas que sobraram de Bella respirarem de novo.

A frase destruiu alguma coisa dentro de mim.

Porque era verdade.

Charlie sorria diferente quando falava de Maliza.

Mesmo Jacob parecia menos quebrado.

E eu…

Eu tinha sentido algo se mover dentro do peito morto pela primeira vez em sete anos.

Alice acariciou meu rosto devagar.

— Só não demora pra voltar dessa vez.

A voz dela quase falhou no final.

E pela primeira vez em muitos anos…

Eu percebi que minha ausência também destruiria alguém.