Uma semana.

Foi o tempo que levei para decidir fugir outra vez.

Talvez eu já tivesse decidido naquela primeira noite em que ouvi Emily falando perto do cemitério. Talvez tudo depois disso tenha sido apenas meu corpo tentando acompanhar algo que minha mente já sabia.

Eu precisava ir embora.

Antes que aqueles olhos me destruíssem completamente.

A casa estava silenciosa naquela manhã.

Pesada.

Como se todos soubessem que aquilo era um erro, mas nenhum de nós tivesse forças para impedir.

Minha mochila estava no banco do passageiro. Poucas coisas. Eu nunca precisei de muito.

Imortais aprendem rápido como abandonar vidas.

Esme me abraçou primeiro.

Forte demais para alguém que tentava parecer calma.

— Volte pra casa, Edward.

Casa.

A palavra doeu.

Porque Bella sempre foi minha casa.

E ela estava enterrada num cemitério a menos de dois quilômetros dali.

— Eu vou voltar — murmurei.

Mesmo sem saber se era verdade.

Carlisle apertou meu ombro em silêncio. Emmett tentou agir normalmente, mas os pensamentos dele estavam pesados demais para sustentar qualquer piada. Jasper apenas assentiu devagar, entendendo mais do que dizia.

Então Alice apareceu.

Ela não falou nada no começo.

Só me olhou.

Os olhos dourados carregavam tristeza e uma estranha paciência.

Como se já soubesse exatamente quanto tempo eu ficaria longe.

— Não desaparece completamente dessa vez — disse baixo.

Tentei sorrir.

Falhei miseravelmente.

Então saí.

A chuva fina de Forks cobria tudo numa névoa cinzenta enquanto caminhei até a garagem.

E lá estava ele.

O carro.

Preto. Elegante. Rápido demais para humanos.

O carro de depois.

Bella chamava assim.

A memória me atingiu tão forte que precisei parar antes de abrir a porta.

“Esse é um carro de depois, Edward.”

Eu conseguia ouvir a voz dela perfeitamente naquele instante.

Provavelmente porque meu cérebro estava desesperado para levar alguma coisa dela comigo antes de partir.

Passei os dedos frios pela lataria molhada.

Bella nunca dirigiu aquele carro.

Nunca chegamos no “depois”.

Nunca existiu um futuro.

Só promessas interrompidas.

Fechei os olhos por um segundo.

E imediatamente vi outros olhos.

Castanhos.

Pequenos.

Maliza.

Meu corpo inteiro tensionou violentamente.

Não.

Entrei no carro rápido demais e bati a porta com força.

O motor ronronou baixo.

Então ouvi passos correndo atrás de mim.

Alice.

Claro.

Ela apareceu ao lado da janela antes que eu colocasse o carro em movimento.

Os pensamentos dela estavam frenéticos.

Mudando.

Mudando rápido.

Franzi a testa.

— O que foi?

Alice parecia estranhamente pálida.

Assustada.

E fascinada ao mesmo tempo.

— Eu perdi você de novo.

Minha mão apertou o volante imediatamente.

— Alice—

— Mas eu vi uma coisa antes.

O jeito como ela falou fez algo frio atravessar meu peito.

— O quê?

Ela hesitou.

Então sorriu pequeno. Incrédulo.

— Você segurando uma garotinha no colo.

Meu corpo inteiro ficou imóvel.

Não precisei perguntar quem.

Alice continuou olhando diretamente para mim.

— E você estava feliz.

A palavra pareceu absurda.

Feliz.

Como se fosse algo que ainda pudesse existir para mim.

Balancei a cabeça imediatamente.

— Não faz isso comigo.

Alice se inclinou levemente pela janela aberta.

— Você acha que tá indo embora porque quer esquecer Bella.

Ela tocou meu rosto rapidamente.

— Mas eu acho que você tá indo embora porque tem medo de lembrar como é amar alguma coisa de novo.

O silêncio caiu entre nós.

Pesado.

Insuportável.

Então Alice deu um passo para trás.

E pela primeira vez desde a morte de Bella…

Ela sorriu pra mim de verdade.

— Vai, Edward.

Olhei uma última vez para a casa.

Para minha família.

Para Forks.

Para o cemitério escondido atrás das árvores distantes.

Então acelerei.

E deixei tudo para trás outra vez.