Eu Me Lembro - Crepúsculo

13 Conversa e Desabafo part. 2


Charlie ficou em silêncio depois disso.

A chuva preenchia os espaços entre nós enquanto ele encarava as próprias mãos, como se tivesse vergonha de tudo o que acabou de admitir.

Mas eu entendia.

Porque eu também estava me afogando exatamente nas mesmas coisas.

Por alguns segundos, fiquei apenas olhando para ele.

O pai de Bella.

Mais velho.

Mais cansado.

Ainda destruído.

E pela primeira vez em sete anos, percebi algo horrível:

nós nunca tínhamos realmente conversado sobre ela.

Não de verdade.

Sempre existiu distância demais. Culpa demais. Segredos demais.

Então as palavras começaram a sair antes que eu pudesse impedir.

Baixo no começo.

Presas.

— Eu ainda espero ouvir ela às vezes.

Charlie ergueu os olhos imediatamente.

Meu peito apertou.

Porque aquilo era verdade demais.

— Tem dias em que eu entro num cômodo e meu cérebro… — parei por um segundo, tentando organizar algo que não soasse insano. — Meu cérebro age como se ela ainda estivesse lá.

Charlie não falou nada.

Então continuei.

Talvez porque depois de sete anos eu estivesse cansado demais para guardar tudo sozinho.

— Eu não mexi em nada no quarto dela.

A garganta queimou.

— Nem uma única coisa.

Uma sombra de dor atravessou o rosto de Charlie.

— Eu também não consegui vender a caminhonete.

Claro.

Claro que não.

Bella ainda existia em objetos agora.

Em ecos.

Respirei fundo desnecessariamente.

— Eu ainda lembro do jeito que ela andava pela casa quando estava irritada.

Um pequeno sorriso involuntário apareceu no rosto cansado de Charlie.

— Batendo o pé sem perceber.

Aquilo me atingiu tão forte que precisei desviar o olhar.

Porque sim.

Exatamente aquilo.

O silêncio ficou menos pesado depois disso.

Ainda triste.

Mas humano.

Charlie passou a mão pelo rosto devagar.

— Às vezes eu esqueço por alguns minutos.

Franzi levemente a testa.

Ele encarava a chuva enquanto falava:

— Esqueço que ela morreu. Aí eu vejo alguma coisa idiota… uma jaqueta azul, um livro largado… e penso “preciso mostrar isso pra Bella”.

Meu peito pareceu afundar violentamente.

Porque eu fazia aquilo também.

Todos os dias.

Ouvir uma música.

Ver um lugar.

Pensar automaticamente nela antes de lembrar.

A morte de Bella nunca vinha de uma vez só.

Ela continuava acontecendo repetidamente.

Charlie respirou fundo.

— E agora apareceu Emily.

Ele soltou uma risada cansada e amarga.

— Parece piada cruel.

Eu permaneci imóvel por um instante longo demais.

Então finalmente falei a verdade que estava presa em mim desde o primeiro dia.

— Quando ouvi ela falando pela primeira vez… achei que estava enlouquecendo.

Charlie ergueu os olhos rapidamente.

— Você também sentiu?

A pergunta saiu rápido demais.

Desesperada demais.

E isso me destruiu um pouco mais.

Assenti devagar.

— O jeito que ela fala. Algumas expressões. Até o olhar às vezes…

Não consegui terminar.

Porque dizer aquilo em voz alta fazia parecer traição.

Charlie pareceu aliviado e devastado ao mesmo tempo.

— Graças a Deus.

Franzi a testa levemente.

Ele riu sem humor.

— Eu achei que fosse só coisa da minha cabeça.

Silêncio novamente.

Mas dessa vez havia algo diferente nele.

Compartilhamento.

Luto reconhecendo luto.

Então Charlie falou algo tão baixo que quase não ouvi:

— Você sabe qual foi a pior parte?

Olhei para ele.

Os olhos dele estavam vermelhos.

— Quando eu segurei Maliza no hospital…

Meu corpo inteiro congelou.

Charlie engoliu seco.

— Por meio segundo eu senti que tinha recuperado alguma coisa.

A dor na voz dele era tão brutal que quase parecia física.

Ele fechou os olhos imediatamente, envergonhado.

— E isso me fez sentir culpado pra caramba.

Meu peito apertou violentamente.

Porque eu entendia perfeitamente.

Perfeitamente demais.