Charlie ainda estava sentado no sofá, inclinado para frente, tentando esconder o rosto cansado atrás das mãos.

E eu continuava imóvel diante da janela.

A conversa tinha aberto alguma coisa antiga demais dentro de nós dois. Uma ferida que nunca realmente cicatrizou.

Pela primeira vez em anos, eu não me sentia completamente sozinho na dor.

Então ouvi motores se aproximando pela estrada molhada.

Duas motocicletas.

Reconheci imediatamente.

Jacob.

E Seth.

Charlie levantou os olhos automaticamente quando o som parou do lado de fora.

— Black — murmurou baixo.

Ouvi os pensamentos de Jacob antes mesmo que desligasse a moto.

Preocupação.

Confusão.

Alice ligou pra gente?

Atrás dele, Seth parecia apenas nervoso e perdido como sempre quando vinha até nossa casa.

A campainha tocou.

Alice apareceu no topo da escada instantaneamente.

Ela lançou um olhar rápido para mim e Charlie antes de descer para atender.

Eu já conseguia ouvir os pensamentos dela correndo rápidos demais.

Jacob percebeu alguma coisa.

Ele vai sentir o cheiro do hospital.

Droga.

Charlie soltou um suspiro cansado.

— Isso vai ser estranho.

Quase respondi que “estranho” tinha deixado de significar qualquer coisa naquela cidade anos atrás.

Mas antes que falasse, ouvi Alice abrir a porta.

— Jacob.

A voz dela saiu cuidadosamente neutra.

Jacob entrou primeiro, alto demais para a entrada da casa parecer confortável. Seth veio logo atrás, encharcado da chuva.

Então Jacob viu Charlie sentado na sala.

E congelou.

— Ah.

Os pensamentos dele mudaram imediatamente.

Charlie aqui?

Com o sanguessuga?

Charlie pareceu irritado instantaneamente.

— Que foi? Nunca viu adulto conversando?

Seth claramente quis evaporar naquele momento.

— Oi, Charlie — disse sem graça.

Jacob ainda encarava a situação toda como se fosse uma armadilha.

Então o cheiro do hospital atingiu ele.

Imediatamente.

Os olhos escuros dele estreitaram.

Emily.

Bebê.

Droga.

Ele olhou diretamente para mim.

E entendeu alguma coisa horrível no mesmo segundo.

Porque meu rosto provavelmente estava tão destruído quanto eu me sentia.

Charlie franziu a testa olhando entre nós.

— Tá acontecendo alguma coisa que eu não sei?

— Não — respondi rápido demais.

Jacob soltou uma risada seca.

— Claro que tá.

Alice apareceu silenciosamente atrás deles.

Os pensamentos dela estavam frenéticos outra vez.

Visões rápidas.

Jacob segurando Maliza.

Charlie sorrindo depois de anos.

Eu observando tudo de longe como alguém morrendo de fome.

Meu corpo tensionou instantaneamente.

Jacob percebeu.

Sempre percebia.

Ele me encarou por um longo segundo antes de falar devagar:

— Você viu a bebê, não viu?

Silêncio.

Charlie olhou imediatamente para mim.

Depois para Jacob.

Então alguma compreensão cansada atravessou o rosto dele.

— Ah, ótimo — murmurou baixo. — Então não sou só eu.

Seth parecia completamente perdido agora.

— Eu perdi muita coisa, né?

Ninguém respondeu.

Porque o ambiente inteiro tinha mudado de novo.

Mais pesado.

Mais perigoso.

Jacob passou a mão molhada pelo cabelo curto.

— Escuta… eu vim porque Sue falou que Emily tava perguntando sobre você, Charlie.

Charlie piscou surpreso.

— Sobre mim?

— Ela quer que você vá conhecer Maliza quando elas voltarem pra casa.

O coração desnecessário no meu peito pareceu parar.

Charlie ficou imóvel.

E então ouvi o pensamento que ele não conseguiu controlar a tempo:

Bella deveria estar fazendo isso. Bella deveria estar segurando aquela bebê.

A dor atravessou a sala inteira como fumaça.

Jacob fechou os olhos por um segundo, claramente arrependido de ter vindo.

Alice teve outra visão naquele instante.

Violenta.

Rápida.

Maliza pequena correndo pela floresta.

Rindo.

E eu sorrindo pela primeira vez em sete anos.

Alice arregalou os olhos imediatamente.

Meu corpo inteiro endureceu.

Porque eu vi também através dela.

E aquilo me aterrorizou mais do que qualquer coisa até agora.



Notas finais
Me desculpem por não postar esses dias, estava sem Internet e aqui em casa não tem wi-fi.