Eu Acho que Vi Um Gatinho
1 Parte I
Notas iniciais
Era um vilarejo pitoresco, perto das montanhas com seus chalés rústicos de madeira, mas afastados um do outro, o que era bem providencial, não consigo evitar um sorriso, de divertimento quando essa ideia me toma de assalto e eu penso em todas as coisas maravilhosas que eu e Tsunade fizemos naquele lugar.
Dentre todos os erros que eu cometi na vida, certamente ela foi o maior acerto de toda minha vida. Meu único arrependimento era não ter sido mais insistente, quanto a mantê-la do meu lado. Se não fosse tão tarde nós poderíamos ter constituído uma família, e certamente isto teria me feito um homem melhor do que me tornei.
Meus sentimentos são interrompidos por um par de braços, que embora fossem bastante acolhedores, também eram naturalmente sufocantes. Apesar da idade, Tsunade não parecia ter ideia do tamanho de sua força.
...
— Um ryou por seus pensamentos? – Ela perguntou aconchegando-se em meus braços, e eu senti-me satisfeito de acolhe-la em meu colo.
O jardim daquele hotel não era grande coisa, mas qualquer paisagem era válida com ela perto de mim.
— Meus pensamentos valem tão pouco para você? Kukuku. – Eu comentei com certo sarcasmo, e aquilo cobriu seu rosto com um bonito blush, era adorável ver aquela mulher tão durona, derreter por coisas tão pequenas como uma fala sem segundas intenções como aquela.
— Se eu fosse falar tudo o que eles valem, eu não teria dinheiro para pagar. – Ela disse fitando o horizonte, e de novo não consegui evitar que uma risada baixa escapasse de meus lábios, diante daquela fala.
— Posso entender isso, como uma declaração de amor? – Eu perguntei levemente esperançoso, mas fui calado por um leve soquinho no ombro, que me deixou realmente arrependido de ter sido tão “abusado com as palavras”.
...
— Recebi uma carta de Shizune. Ela e Sakura querem me visitar. – Ela disse demonstrando um brilho genuíno no olhar com essa informação.
Mesmo que nunca tenhamos tocado diretamente nesse assunto, eu sabia que Tsunade tinha um forte instinto maternal, suprimido pelos anos de chumbo que nós passamos.
Então, sem perceber, ela transmitira isso um pouco para suas alunas.
— Isso parece bom. – Eu disse o oposto do que estava pensando. Porque aquilo iria interromper nossos momentos a dois.
...
— Preciso comprar os ingredientes para fazer o Yakisoba que a Shizune ama, e também anmitsu que é a sobremesa favorita de Sakura.
Tsunade dissera sem esconder a animação, já que deixar para trás suas duas pupilas, foi algo difícil para ela, mesmo que ela não admitisse isto... Mas, sua hesitação antes da viagem, em parte era porque ela, diferente dele havia conseguido alguns laços em sua trajetória.
Principalmente, com Shizune, que era uma lembrança desagradável deixada por Dan. Mas, felizmente a garota enfim, parara de orbitar em torno da minha mulher, e estava até comprometida com Gai Maito.
— Aff... Quantas vezes vou ter que te dizer que Shizune é minha aluna e ela nunca demonstrou nenhum interesse romântico por mim. – Tsunade saiu do meu colo irritada, o que também me deixou irritado.
Aquelas duas pirralhas mal apareciam, e por causa delas a gente já começava a brigar.
— Acho que invés de a gente ficar aqui brigando... É melhor irmos comprar os ingredientes de uma vez. Kukuku. – Eu disse conciliador, sabendo que eu sempre sairia perdendo em uma briga com Tsunade que não me deixaria me deleitar com seu corpinho, por um tempo prolongado demais para que eu pudesse manter minha sanidade.
— Eu vou, e você fica. – Tsunade disse resoluta, já se afastando de mim.
Aquilo poderia significar que ela estava agindo assim, apenas porque estava zangada. Mas, aquela era uma tendência que vinha se repetindo nos meses que a gente esteve junto.
...
— Se não a conhecesse eu diria que você não quer ser vista comigo na rua. – Eu disse tentando rir, mas não consegui, porque aquela era uma constatação desagradável de ser feita.
Tsunade parou ainda de costas, e eu não pude ver seu semblante, mas sabia que minhas palavras haviam a atingido em cheio.
Era ingenuidade ela achar que eu não iria notar, que entre quatro paredes ela era absolutamente entregue a mim, mas quando estávamos fora dela, ela tornava-se distante, não deixando-me nem mesmo pegar na sua mão, em um passeio solitário no parque.
— Vou comprar os ingredientes. – Foi tudo o que ela me disse, caminhando para longe de meus olhos, e de meu alcance, como ela sempre fazia quando saiamos do quarto.
Por isso, eu a prendia em meus braços a maior parte de tempo que eu podia. Porque as vezes, parecia que eu me relacionava com duas Tsunade distintas. Uma era entregue e apaixonada, e a outra era relapsa e distante.
Não sei se ela fazia isto por força do hábito, pela natureza errante de nossa relação.
Ou se ela, de fato me evitava.
...
Já estava escurecendo quando ela chegou.
O verão dava seus primeiros sinais de que estava chegando, mas pelo menos naquela cidade em que estávamos, o calor não era tão debilitante quanto em Konoha.
Essa era apenas uma das muitas coisas que eu simplesmente odiava naquele lugar.
Mas, toda vez que eu comentava isso com Tsunade, ela se enfurecia e me xingava.
— Achei que iria fugir de mim. – Eu disse de novo sem conseguir sorrir.
Estava começando a ficar preocupado com seu comportamento beligerante.
— Já falei com nossa senhoria e ela ira dispor de dois quartos para Sakura e Shizune, e também irá me emprestar a cozinha. – Ela disse-me de novo com aquele brilho intenso no olhar.
— Queria que você se empenhasse assim, para me fazer uma comidinha gostosa também. – Eu disse um tanto descrente, quanto a natureza de minhas próprias palavras, porque até eu não acreditava que estava me sentindo enciumado com tudo aquilo.
— Por falar, nisso Orochimaru... – Ela começou falar firme, mas quando nossos olhares se encontraram, ela ficara hesitante, e sua fala ficou falha... – Queria que você desse uma sumida, por esses dias... Sabe... Pelo menos enquanto... – Suas palavras enfim morreram no ar, mas eu entendi perfeitamente bem, o seu pedido.
E, não vou mentir, aquilo me doeu.
...
Quer dizer, se antes eu tinha dúvida, agora eu tinha certeza.
E a forma como essa certeza, veio até mim, machucou.
— Pensei que você iria me deixar dar uns beijinhos em você na frente de suas meninas. – Eu disse provocativo, apenas para tentar dissipar o amargor que eu estava sentindo, sem nem entender o motivo.
— Você está louco? – Ela perguntou em um rompante inesperado. – EU NUNCA FARIA ISTO! – Ela disse com uma sinceridade, cortante, sem perceber que suas palavras me machucavam.
Ah, mas é claro... Ela ainda mantinha a fantasia de que eu era desprovido de emoções. Eu bem que tentei a minha vida, livrar-me delas, mas não consegui, simplesmente porque se o fizesse, eu deixaria de ser um humano.
E, nenhuma criatura viva é capaz de mudar a própria natureza, absolutamente. Nasci humano, e morreria humano. E, eu só consegui aceitar isto, porque me apaixonei cegamente, por uma outra humana.
Que agora me renegava, sem piedade nenhuma.
...
— E, porque não? – A pergunta veio baixa, porque eu não me sentia exatamente com vontade de saber a resposta.
Eu que sempre fui o mestre das perguntas, e ao mesmo tempo um aluno devotado na busca das respostas, não queria saber de nada disso, porque eu achei que se havia alguma coisa estável na minha vida, era Tsunade.
Mas, Tsunade como sempre não respondeu, apenas andou de um lado para o outro como se ponderasse alguma coisa e saiu, batendo os pés no chão, demonstrando com isto que estava zangada e que certamente eu dormiria naquele quarto quente, sem ela para me refrescar.
Eu pensei enquanto olhava o vazio que ela deixou, e me sentindo frustrado por estar ficando tão dependente dela, em tão pouco tempo.
Ou melhor dizendo, aquela dependência perdurara uma vida inteira, e só agora eu me dava por conta do quanto isto me afetava, para o bem e para o mal.
Se eu fosse um homem impulsivo, tinha ido atrás dela e começado uma briga.
Mas, como sempre eu recuei, tentando analisar suas ações, tentando encontrar por mim mesmo, uma justificativa.
Mas, por mais que eu tentasse não conseguia.
— Mulheres são o maior enigma da natureza.
...
Quando dei por mim, havia escurecido, e eu estava ali no mesmo lugar, fitando o teto, com meus botões como companhia.
Além do irritante canto das cigarras, para embalar meus pensamentos, que iam do passado ao presente.
Cada lembrança doce. Cada lembrança amarga. Entre risos e lágrimas. Entre tapas e beijos. Entre o amor e ódio. Sempre na base do tudo ou nada, assim escrevemos nossa história.
E, Tsunade tinha vergonha de tudo que vivemos.
Essa conclusão custou a sair, já estava amanhecendo, e eu estava no mesmo lugar.
Escutei o som de uma risada, conhecida.
E, surpreendentemente era a de Tsunade, que estava acompanhada de dois chakras bastante fortes.
Espionei pela janela e a vi recebendo duas mulheres, que lado a lado pareciam ter a mesma idade.
“Essa Shizune deve ter aprendido o jutsu do rejuvenescimento com a Tsunade”. – Pensei contrariado em ter de reconhecer o quão bela havia se tornado a sobrinha de meu principal desafeto.
A outra que acompanhava, me parecia mais estranha com o passar do tempo. Sua testa ficara maior e seus olhos tornaram-se mais graúdos também. Mas, isso não queria dizer que ela fosse feia. Apenas exótica. Como minha Tsunade.
— Shishou, é uma cidade encantadora. – A rosada falara para Tsunade que lhe deu um sorriso genuíno, antes de conduzi-la para o interior de outro chalé.
Mas, antes a loira olhara carrancuda na direção do chalé onde eu estava, e eu sabia que com isto ela estava emitindo um aviso para mim, não a atrapalhar.
— QUE OUSADIA! – Pensei irritado, como poucas vezes me senti.
Estava sendo trocado por duas pirralhas que vieram de Konoha só para tirar minha mulher de mim, por algumas horas e ainda eu era forçado a ficar escondido, porque Tsunade tinha vergonha da minha magnífica pessoa.
...
A maioria dos Henge no Jutsu, servem apenas para os ninjas disfarçarem a própria aparência, a maioria dos iniciantes não consegue camuflar nem mesmo a altura, ou o índice de gordura corporal.
Mas, eu não seria um ninja lendário se não tivesse ultrapassado esse limite, há muito tempo.
Apenas com alguns selos de mãos, eu consegui me transformar em um simples gatinho, todo preto e de olhos muito dourados.
Fiz um som estranho, tentando imitar um miado, mas parecia que eu morreria engasgado a qualquer momento.
— Felizmente, ou infelizmente... O ruído insistente chamou a atenção de alguém e vi a garota de cabelos róseos correndo na minha direção.
— Eu disse que havia algo aqui. – A Haruno murmurara pegando-me no colo, e fazendo uma careta, porque certamente eu era um pouco mais pesado do que um gato normal. Mesmo tendo usado uma aparência magricela, eu conseguia muito mais com aquele jutsu, do que a maioria dos shinobis, mas estava muito longe de ser perfeito, infelizmente.
Shizune vinha logo atrás e deu uma risada de divertimento.
— Você não resiste a um peludo não é Sakura-chan? – A mulher acariciou os cabelos de Sakura carinhosamente, e a mais jovem dera um sorriso que seria até bonito, se eu não estivesse de birra com a presença daquelas duas enxeridas.
— EU POSSO EXPLICAR! – Não demorou para que Tsunade aparecesse dramaticamente por ali, atraindo tanto minha atenção como de suas duas alunas.
— Shishou? – Sakura arregalou os olhos, e Shizune deu uma risada surpreendentemente alta.
— Não precisa ficar envergonhada, porque adotou um gatinho, Tsunade-sama. – Shizune disse e até eu me surpreendi com o desenrolar dos fatos, e me senti orgulhoso de mim mesmo, por eu ter conseguido inesperadamente reverter as coisas a meu favor.
Tsunade ficou olhando-me com seus olhos redondos, mas quando ela se recobrou do choque, seus olhos tornaram-se deliciosamente jocosos. Afinal, não precisou muito para que a inteligente mulher percebesse o que estava acontecendo.
— Está mais para um in-tro-me-ti-do, que não conhece o seu lugar. – Minha mulher apontou acusatoriamente para mim, enquanto silabava cada parte daquela palavra, demonstrando assim o seu descontentamento. E, foi estranho vê-la fazendo aquilo, já que eu estava tão pequeno e ela tão grande.
Mas, a visão dos seus seios balançando suavemente, ao ritmo de sua irritação, me fizera ronronar, e isso foi o bastante para que Sakura me puxasse mais para perto, e mesmo ela não sendo tão avantajada, tinha de admitir que cheirava muito bem.
— Sério? Coitadinho, ele é tão fofinho! – A testinha acariciou minhas orelhas e eu gostei do toque de seus dedos, suaves deslizando em meio a minha pelagem, satisfeito de o jutsu ser real o bastante para que uma jounin me tocasse, e nem duvidasse do que na verdade ela estava com um homem nos braços.
— SAKURA! – Tsunade praticamente soltou fogo pelas ventas, quando viu que eu e aquela pirralha estávamos em uma sessão de esfrega-esfrega, sem malicia nenhuma.
— DEIXA O GATO AI! – Tsunade disse levando a mão na cintura, e falando aquilo de um jeito ameaçador e a Haruno até estremeceu, mas quando se tratava de bichinhos fofos, ela perdia a noção de realidade e portanto, perigo.
— Porque? – A Haruno questionou puxando-me mais para perto, e eu fiquei satisfeito em ver Tsunade, de novo soltar fogo pelas ventas, porque aquela turrona estava com ciúme de minha esplêndida pessoa.
Kukuku. Mimimi.
Minha intenção era rir, mas eu soltei um som muito estranho.
— Será que ele está engasgado? – Sakura me ergueu no ato e me observou com aqueles olhos muito verdes, e só então eu percebi que eram realmente bonitos, lembravam o verde dos olhos de minha mãe.
— Se você não largar esse gato imundo agora... Vou colocar todo o anmitsu que eu fiz para você, fora. – Tsunade disse em um tom que parecia mais uma mãe ralhando com uma criança, e aquilo foi um golpe certeiro em Sakura que pareceu bastante dividida.
— Que maldade, shishou. – A jovem espichou os lábios, e apertou-me mais ainda em seus braços por reflexo.
Kukuku. Mimimi.
Tentei o meu melhor, para que a pirralha não me soltasse, e me levasse junto, para aquele encontro, eu queria ouvir bem de perto, tudinho que elas iam conversar.
Mas, parece que nem todo o meu charme felino, poderia competir com doces. Tanto que em meio a um protesto, dramático, e a jovem mulher me largou ali de novo, e foi atrás de Tsunade que pareceu satisfeita com aquele desfecho.
E, deu-me um sorriso de triunfo antes de sair.
Mal sabia ela que eu havia perdido a batalha, mas não havia perdido a guerra e eu iria marcar aquela reunião com minha ilustre presença, ou eu abdicaria do meu título de gênio para todo o sempre.
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