Eu Acho que Vi Um Gatinho
2 Parte II
Minha vontade era ir atrás daquela loira atrevida e com problemas com humor, mas achei mais seguro ficar um tempo a mais no quarto, enquanto eu continuava ensaiando na frente do espelho caras e bocas, tentando parecer fofo naquela forma felina.
No entanto, enquanto eu fazia meu ensaio, a camareira apareceu por ali, era uma jovem enxerida e falante, que causava mais aborrecimento com seu falatório do que de fato trabalhava na arrumação do quarto que Tsunade sempre fazia por conta própria, porque era uma aberração cheia de manias.
— Oh, por onde entrou?! – Assim que me viu, ela veio com passos apressados na minha direção, e era uma visão um tanto impactante, ver alguém tão grande daquele jeito.
Se gigantes existissem, eu agora saberia como eu me sentiria sendo um anão entre as duas espécies.
— CHI, SAIA. – Ela bateu os pés, e fez uma cara mais feia ainda do que tinha.
Claro que aquilo não adiantou, e eu continuei sentado, e esse foi meu erro, porque sem que eu esperasse eu senti uma dor aguda no meu traseiro e me vi voando porta a fora, triste e repentino assim.
Meio zonzo e com ego despedaçado, eu me levantei, enquanto fazia questão de me arrepiar todo, numa clara demonstração de ameaça, mas aquilo não adiantou muito e aquela louca correu atrás de mim, com a vassoura e só me restou sair correndo.
Era isso ou desmanchar aquela porcaria de jutsu e lhe mostrar quem é que tinha mais força.
Mas, isso não deixaria a chata da Tsunade feliz, então entre aborrecê-la ou me frustrar, eu fiz o sacrifício de ficar com a segunda opção, mas antes fiz uma nota mental, de fazê-la me recompensar no único lugar que ela era absolutamente minha: na nossa cama.
...
Não demorou para que a algazarra da camareira correndo atrás do gato chamasse a atenção das três mulheres.
E, a primeira a reagir foi Sakura, que correu apressada na direção onde Orochimaru estava tentando subir numa árvore, mas desacostumado com aquele corpo felino, ele só conseguiu dar de cara na árvore e ficar tonto.
E, só não foi acertado pela vassoura, porque Sakura chegou como um foguete e tirou a vassoura das mãos da camareira que se assustou com aquela aberração de cabelos róseos, e Orochimaru sentiu que não poderia culpa-la.
— Que maldade! Deixe o gatinho... – A jovem protestou entre dentes, enquanto atirava para longe a mais nova inimiga quase mortal de Orochimaru, a vassoura. Quem diria que algo do tipo poderia ser tão perigoso.
O sannin conseguiu enxergar os dois pezinhos de Tsunade que vinha mais atrás, mas por ter sido capturado em um aperto de urso, por parte de Sakura, ele infelizmente não conseguiu ver a expressão que sua loiraça fazia.
— Senhora, é proibido animais... Você leu bem o contrato? – A camareira insistiu entre um espirro e outro.
— O gato só está de passagem... Ele é um presente para minha discipula. – Aquelas palavras pegaram o gatinho preto de surpresa, que arregalou os olhos e fez uma expressão humana demais para o gosto de Shizune, que estava observando atentamente os acontecimentos.
E, foi nítido o modo como os olhos verdes de Sakura brilharam e o quanto aquilo abalou Orochimaru que murchou as orelhas, e se pudesse chorar, o fazia.
Sua amante, estava o empurrando para o aconchego de outra mulher, e tudo que Tsunade fazia era uma expressão maldosa, e depois ela queria fazer pose de santa e boazinha.
Sakura por sua vez, o puxou e o apertou como se fosse uma massa de pão, ou algo gelatinoso, e insensível a dor.
— Já chega, Sakura.
Tsunade disse, depois de ter se resolvido com a camareira, que não ficou muito contente com essa justificativa.
Mas, uma molhada na mão, resolveu o problema e Tsunade respirou aliviada por não ter de lidar com a chatice da senhoria.
— Estou enojada. – Shizune dissera em um tom exageradamente amargurado. – Você se tornou corrupta, Tsunade-sama.
A morena dissera sem conseguir conter a língua, e aquilo lhe custou uma encarada que a quase fez esquecer como se respirava.
— Aquilo foi só uma troca de favores, Shizune. Não exagere. – Tsunade disse em meio a uma careta um tanto de desgosto, será que ela estava convivendo demais com aquela cobra excêntrica, que para piorar nem era mais cobra?
— E, Sakura... Chega de apertar o gato. – Tsunade disse com uma veia na cabeça, o que fez com que Sakura se encolhesse um pouco, mas continuasse apertando Orochimaru que estava um pouco zonzo, já arrependido por ter elaborado aquele plano falho.
— É que ele é tão fofinho... Que eu não resisto. – Sakura disse inocentemente.
E, Tsunade puxou o gato dos braços da sua aprendiz, que o soltou incrédula pela proximidade de sua shishou que como sempre a impactava em cada gesto mínimo.
— Você já tem o Naruto para apertar desse jeito... Então, se contente com o Uzumaki. – Os olhos de Sakura se arregalaram de um jeito engraçado, e até Shizune deixou o queixo cair.
— Porque está comparado o gato com o Naruto? – Se valendo da orientação de Tsunade quando ela começou estudar com a mesma, que não era para hesitar em fazer perguntas.
Mas, Tsunade nada respondeu, apertou com força Orochimaru em baixo de seu braço, deixando-o ainda mais zonzo, e se encaminhou para a cozinha, onde ela pretendia ter um almoço tranquilo com suas filhas do coração. Mas, como tudo na vida, aquele ser desbotado estragou tudo.
E, isso fez a mulher apertar ainda mais o sannin que só se debatia tentando arranhá-la, mas sem sucesso.
E, se não bastasse a mulher empurrou seu chakra para Orochimaru, que percebeu que ela estava usando uma versão imperfeita e incompleta do juuken dos Hyuugas.
Lógico que ela nunca teria a precisão de um portador do Byakugan, mas conhecimento amplo de anatomia, e precisão cirúrgica, mais um controle de chakra perigoso, tornavam Tsunade uma adepta perigosa daquele tipo de truque, que só ela conseguia realizar com aquela destreza, e ainda sem usar as mãos.
“Depois, o monstro sou eu”. – Orochimaru pensou um pouco amuado, antes de ser empurrado em direção a uma sala escura e a porta fechou apertando um pouco o seu rabo, e ele descobriu da pior maneira como aquela parte era sensível.
Sakura queria muito ajudar o pobre gatinho que agora era supostamente seu, mas Shizune, apenas com um olhar fofo a convenceu a ficar ali na mesa, o gato estaria melhor ali, do que com alguém correndo atrás dele com uma vassoura.
Além do mais, Tsunade não gostava muito da presença do pobre gato, e irritar sua shishou era tudo que elas não queriam, depois de tanto tempo longe, e o pior, é que depois daquela tarde, elas não sabiam quando encontrariam de novo sua querida tutora.
— Espero que esteja do agrado de vocês. – Sakura estremeceu um pouco quando olhou para sua sensei, e viu que ela estava dando um sorriso falso parecido com o desbotado do Sai.
Até Shizune teve de admitir que sua senhora estava agindo de um modo ainda mais estranho do que o habitual.
— Ah, adoro Yakisoba. – Shizune disse com água na boca, já Sakura olhou com certa indisposição para o anmitsu.
E, o motivo é que ela estava preocupada com o pobre gatinho e também, porque a fala de sua shishou não saia de sua cabeça.
Isso a fez pensar em uma artigo que ela leu em algum lugar, sobre mulheres solitárias que transferem seus sentimentos sexuais reprimidos para os animais.
Sua shishou era uma mulher notável, mas esteve sempre sozinha... E, isso sempre foi motivo de especulação por parte dela e também de Ino, mas as duas nunca tiraram nada de concreto de Shizune que também estava achando estranho o comportamento de sua sensei.
— Que foi Sakura, não me diga que está grávida? – Tsunade perguntou com certo furar, fazendo sua pobre aprendiz quase morder a língua.
— Credo, não diga uma coisa assim... Shishou. – Sakura espichou o beiço ofendida. – Sou moça descente, então não duvide.
Sakura disse arrebitando o nariz e fazendo uma expressão neutra, evidente que Tsunade não acreditou muito nisso.
Aquelas meninas da geração de Sakura pareciam ter fogo nas saias, na opinião de Tsunade. Pelo menos o gosto da rosada refinou-se um pouquinho, e ela deixou de lado sua obsessão pelo Uchiha.
— Acho bom que você deixe as mãos daquele pervertido bem longe de você... – Sakura fez um aceno como se orgulhasse por estar conseguindo cumprir os conselhos de sua shishou a risca. – E, de preferencia até os quarenta anos.
Já essa aparte não deixou Sakura muito contente, e ela hesitou um pouquinho.
— E, não faça essa cara... Homens tem que passar períodos de seca prolongadas, para sentirem falta e dar valor quando puderem colocar suas mãozinhas famintas em cima de nós.
Tsunade repetiu seu mais precioso mantra amoroso.
E, suas duas discipulas só balançaram a cabeça em concordância, embora por dentro não concordassem muito.
Já Orochimaru a essa altura tinha caído duro atrás da porta, tamanho choque.
Ingenuamente Tsunade achou que ele não iria ouvi-las, mas é claro que ele iria... Ela podia ter bloqueado seus Tenketsus, ou parte deles, com uma intenção maligna, mas suas intenções eram mais malignas ainda.
E, ele agora descobriu porque aquela louca, agia semanas como um bloco de gelo, com sua pessoa e custava a derreter um pouquinho.
— E, você Shizune? Espero que não esteja fazendo nada de excêntrico com Maito-san. — Tsunade o chamava desse jeito, porque a besta verde da folha era uma das poucas pessoas que tinham a admiração cega da Senju.
Sakura pensou que aquilo era impossível, já que Gai era a excentricidade em pessoa.
— Estamos nos conhecendo ainda, Tsunade-sama. – Shizune disse com as bochechas vermelhas, e parecendo tão kawaii aos olhos da Haruno que a garota quis apertá-la por ser tão fofa.
— Sabe que nós fizemos um passeio ao luar, e ele declamou um poema romântico para mim. – Shizune falou com ar sonhador, e Sakura ficou um pouco ressentida, porque ela pediu para o Naruto fazer o mesmo, e ele acabou declamando um poema de amor ao ramen. Quer dizer, ele a comparou a um ramen, o que foi pior para a jovem médica-nin.
— Como retribuição, eu fiz um jantar a luz de velas pra ele. – Shizune disse de novo toda vermelhinha e fazendo caras e bocas fofas. Mas, Tsunade ficou enjoada com aquele relato, não é que ela não gostasse desse tipo de coisa, mas é porque ela não ia ter nada daquilo, então... Do que adiantava, se deleitar com esse tipo de coisa?
— Hm. Ele declarou outro poema de amor para você? – Tsunade se obrigou a perguntar enquanto forçava um pouco de chá gelado, goela baixo, estava tentando deixar seu amado saquê de lado, mas com aquele treco amargo como substituto ficava impossível, manter-se longe por muito tempo.
— Não. – Shizune respondeu com parte de sua tez roxa, como se a lembrança a seguir não fosse muito agradável.
— Começou... Agora termina! – Tsunade disse com uma pontinha de curiosidade, embora tentasse se manter desinteressada... Já Orochimaru queria morrer, ali dentro daquele quarto que já nem estava escuro, pois sua vez gatuna estava se aperfeiçoando e adaptando-se ao meio.
Mas, ouvir todas aquelas bobagens, o deixavam ainda mais indignado, por Tsunade ter trocado sua ilustre companhia, por aquele emaranhado de tolices.
— Ele ficou muito emocionado. – Sakura tomou a palavra, porque Shizune não teve coragem de contar.
— E, quis fazer algo a altura. – Tsunade teve um mal pressentimento, quando ouviu aquilo.
— O que aquele idiota fez? – Tsunade perguntou pensando que ter um gênio, antirromântico como companhia casual e sorrateira, tinha suas vantagens.
— Colocou fogo nos próprios cabelos! – Ambas disseram em uníssono, e Tsunade acabou rindo depois do choque só porque imaginou Orochimaru fazendo algo semelhante, para mostrar a intensidade da paixão que sentia por ela.
Coisa que o Gai fez, por mais insano que parecesse.
Naturalmente nada mais grave aconteceu, porque Shizune foi rápida em apagar o incêndio, naquela cabeça oca.
— Ainda bem que você conseguiu apagar o incêndio. – Tsunade disse depois de se permitir dar uma risada um tanto cínica.
Orochimaru por sua vez, queria sair dali e boicotar aquele falatório sem pé nem cabeça. Ou seu cérebro agora gatuno iria virar purê.
Percebeu-se em uma sala com muitas prateleiras.
E, então descobriu-se em um ambiente onde guardavam os mantimentos.
E, bem no alto havia uma pequena janela, que providencialmente estava entre aberta.
Ele só tinha que escalar as prateleiras, e alcançar a janela.
Fazer a volta, sem a louca da vassoura encontra-lo.
Conseguir abrir a porta da cozinha que agora estava fechada, e bolar um plano para... Até desistiu de pensar tão longe, sua convivência com Tsunade estava levando sua sorte embora.
— NANI?! – Orochimaru estava quase alcançando o alto da prateleira quando o grito estridente de Tsunade o fez desabar lá de cima, e perder todo o esforço que ele tinha feito para subir até o alto.
Se ele desfizesse o jutsu, aquelas duas cabeçudas iam notar a oscilação de chakra e isso iria colocá-lo em apuros.
Mas, ele ainda não tinha se acostumado com aquela forma felina.
Então, algo tão banal, como homem... Tornou-se difícil para o gato. O que era para ser o contrário, não?
Shizune por sua vez, escondeu-se atrás de Sakura, que por sua vez quase foi parar embaixo da mesa, tudo porque Shizune contou que naquela noite, ela apagou o incêndio "na cabeça de cima, e de baixo de Gai-kun", e os dois tiveram sua primeira vez como um casal.
Nada demais.
Mas, para Tsunade era uma heresia, uma mulher entregar-se a um homem sem estar devidamente casada. Embora, ela tenha feito exatamente isto. Mas, ela sempre se via como uma exceção a qualquer regra, e muitos diriam que aquilo era hipocrisia, e a Senju não ligava a mínima para a opinião alheia, só para a própria opinião.
Constatar, isso fez Orochimaru ter uma vontadezinha de sair de fininho, e nunca mais voltar.
Quem sabe achasse uma gatinha no cio, para acasalar, longe da complicação das mulheres.
Depois daquilo uma ladainha interminável de Shizune, começou. Sobre Gai ser o amor de sua vida, o homem de sua vida... E, não foi isso que chamou a atenção de Orochimaru que tinha se contentado em ficar no chão momentaneamente, esperando que seu furacão loiro parasse de fazer tempestade em um copo d’água.
Mas, o que chamou a atenção de Orochimaru foram as palavras duras de Tsunade:
— Não seja boba, Shizune. Não existe isso de homem da vida, amor da vida, ou o que for... É tudo uma ilusão.
Aquelas palavras pegaram o sannin desprevenido. Quer dizer, ele não achava que existissem duas pessoas destinadas uma a outra, ao redor do mundo.
Mas, havia algo de incrível, na remota possibilidade de duas pessoas que nunca se viram, se atraírem uma para a outra. Trocarem um olhar, uma palavra e a partir daí, algo tão grande acontecer.
Como uma relação, íntima e assustadora do tipo que dificilmente elas terão com outra pessoa.
Afinidade é um mistério.
Atração é mais misterioso ainda.
E, amor e suas paixões obscuras, mais ainda.
E, ele como cientista não se interessava por nada disso. Então raramente ele pensava nesse tipo de enigma.
Só queria passar o restante da velhice de Tsunade enlaçada com ela em seus braços, tornando eterno cada segundo, porque depois o que lhe restaria era a mesma existência sombria, preenchida pela busca incessante por um conhecimento, que não tinha por onde ter vasão.
Mas, daí as palavras dela silenciaram o pouco que ele compreendia sobre aqueles sórdidos sentimentos.
Ao mesmo tempo que desencadearam tudo.
— Isso é algo muito duro de se dizer shishou. – Shizune disse franzindo o cenho, e voltando-se para a tigela de comida.
Embora tivesse perdido o apetite.
— Eu estou feliz com o Gai-kun como nunca me senti. – Shizune disse com sinceridade. – Ele me faz rir como nenhum outro e ele aquece meus pés de noite. Me deixa um pouco irritada com suas idiotices, mas quando sorri aquele cretino sabe que me tem na mão. Eu não me preocupo muito com o amanhã, se ele vai encontrar uma moçoila mais interessante que eu, ou se eu vou me cansar e preferir continuar casada com meus livros... Mas, por agora está bom, então porque não aproveitar?
A pergunta bem baixinho de Shizune, pegou Tsunade totalmente desprevenida.
E, ela desistiu de tomar aquela porcaria de chá, ela precisava de saquê, porque aquilo a conectou diretamente com seu próprio dilema.
“Porque não aproveitar?”
— Droga, eu quase estraguei tudo. – Mas, no fim Tsunade sorriu apaziguadora, assustando ainda mais Sakura por seu sorriso ainda lembrar o desbotado do Sai, ao mesmo tempo que ela lamentou as coisas terem ficado tensas daquele jeito, embora ela e Shizune já esperassem por isto.
— Vamos almoçar em paz, sim? – Sakura sorriu apaziguadora, e Tsunade fez um aceno com a cabeça, sabendo que tinha de remediar as coisas, não só ali, mas com outro alguém, porém ela não sabia como.
Mas, certo gatinho preto sabia. E, ele ia partir para o tudo ou nada.
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