Eu Aceito
1 Memórias
Notas iniciais
Meninas mais uma fic com o nosso Gustav!
Enjoy
Ao que parecia finalmente a chuva daria uma trégua, os pingos pareciam açoitar menos as telhas da casa.
Fui até o sofá onde Nicholas dormia tranquilamente, pousei minha mão em sua testa verificando pela milésima vez se ainda tinha febre. Afastei uma mecha do cabelo castanho deixando a mostra sua face de pele amendoada. Se estivesse acordado, teria os olhinhos castanhos, idênticos aos do pai, olhando para mim, com um sorriso largo no rosto. Assim era meu filho de seis anos, uma fonte inesgotável de sorrisos.
Ainda no fim daquela tarde havíamos chegado em casa de mais uma noite mal dormida no hospital, ele na cama e eu nas desconfortáveis cadeiras para acompanhantes. Os constantes ataques respiratórios estavam nos levando à exaustão.
Sentei no outro sofá ficando de frente para o pequeno. Encolhi minhas pernas em cima dele e pousei minha cabeça na mão, apoiando-me com o cotovelo na guarda. Admirei por instantes o pequeno adormecido depois fechei os olhos tentando descansar um pouco.
Estava quase caindo em sono profundo quando ouvi a campainha tocar. Nick remexeu-se um pouco e eu corri para a porta, se o visitante tocasse de novo acabaria por acorda-lo.
Gustav tirou a atenção do chão voltando-a para mim assim que me viu abrindo a porta. Ele tinha as mãos nos bolsos da calça preta, como de costume, os cabelos pareciam húmidos pela chuva e no rosto a mesma expressão austera de sempre.
-Oi... -Disse a ele dando passagem para que entrasse.
-Oi... -respondeu-me seco entrando porta adentro.
Andou até a sala fitando o menino no sofá por longos minutos.
-Como ele está?...-Perguntou ele passando a mão pelos cabelos loiros escuro, tirando o excesso de água.
-Esta muito melhor... -Respondi sem maiores informações, falar com Gustav era algo que eu fazia mecanicamente, mais por obrigação do que por gosto. Se ele não falasse nada provavelmente ficaríamos os dois sem trocar uma palavra sequer à noite inteira, e ele também não parecia se importar com isso.
Apesar de o paletó cobrir boa parte, pude ver que a camisa estava aderida ao peito devido à humidade.
-Vou pegar uma toalha para você.
-Não é necessário... -Nem mesmo quando eu tentava ser gentil ele parecia ser menos duro.
Gustav Schäfer mais parecia ser feito de mármore do que de carne e osso. Ele deveria ter agora uns trinta anos, não estava bem certa. Quem via o renomado empresário da indústria da musica nuca imaginaria que ele mesmo havia feito muito sucesso como baterista em uma banda, quando era mais jovem. Eu mesma não acreditaria se não tivesse visto inúmeras fotos. O homem sério que ele era nada fazia lembrar o jovem simpático e cheio de graça das fotos. O inegável era que, sempre fora muito bonito.
Ele tirou o casaco colocando-o sobre uma cadeira,i ndo em direção ao sofá onde Nick dormia profundamente de novo.
--Vou leva-lo para o quarto... -Tirou o menino do sofá indo eperdendo-se no corredor com ele nos braços.
Gustav podia ser de pedra, mas quando se tratava de Nicholas podia vê-lo amolecer. O menino tinha por ele amor igual, Gustav era tudo para ele. Podia jurar que o amava tanto quanto a mim.
Andei até a cozinha e coloquei água para esquentar a fim de preparar um chá. Fechei os olhos suspirando ao pensar o que ele realmente fazia ali... Ele queria de mim uma resposta.
Virei em direção de um dos armários para pegar xícaras, encolhendo-me novamente de susto ao vê-lo parado na porta. Andara até ali tão sorrateiramente que nem o ouvi se aproximando. Senti raiva dele por ter me assustado, engoli o palavrão que estava na ponta da língua e peguei as xicaras colocando a água fervente e o chá, olhando para ele que me encarava encostado no marco da porta.
-Não precisava ter vindo tão tarde, bastava ter ligado... -Não eram nem dez horas da noite, mas a casa de Gustav ficava distante, em um lugar mais afastado do centro da cidade de Hamburgo. Depois, não tinha ainda uma resposta a dar pela pergunta de hoje a tarde.
-Você sabe que eu viria... -Falou ele com o rosto inexpressivo... -Quero uma resposta.
-Você sabe que quero a opinião de Nicholas primeiro... -Passei uma das xicaras a ele sentindo por um momento a ponta dos dedos frios nos meus.
Gustav deu de ombros bebendo um pouco da xícara.
-Duvido que ele se oponha... -A certeza que ele tinha chegou a me irritar, mas de certa forma falava a verdade .Nick amava Gustav de uma forma que eu simplesmente não podia compreender, nada que fosse em relação a ele poderia ser proibido para o menino. Tinha certeza que seria favorável a ele em tudo que pedisse... Embora eu não ,precisava simplesmente de mais tempo, não queria ter que responder nada agora...-Amanhã... -Ele soltou a xicara na mesa saindo porta afora, sem sequer se despedir decentemente.
Andei pelo corredor entrando em meu quarto, deitei na cama macia apenas para aproveitar o conforto de estar em casa. Estava exausta e com o corpo dolorido mesmo assim não poderia dormir, a exigência no tom de voz de Gustav se encarregou de abalar meu sono.
Cruzei os braços no rosto desejando não ter nenhum pensamento sobre coisa alguma, tentando esquecer que estava cansada, e que tinha uma decisão importante a tomar, por mim e principalmente por Nicholas. Meus esforços foram inúteis, inevitavelmente pensei em Tom.
Estava apenas com dezoito anos quando mudei do interior da Alemanha para Hamburgo com a certeza de que lá poderia ser mais do que uma garota provinciana e o primeiro passo para isso seria mudar para onde eu pudesse fazer faculdade. Iria sozinha e com poucos recursos, mas nem isso me assustava ou me fazia mudar de ideia, o fato de andar sempre com as próprias pernas teve algum efeito positivo sobre mim ,havia me feito mais corajosa.
Meus pais morreram antes mesmo de eu ter a capacidade de lembrar o rosto deles, desde então passei aos cuidados de uma tia distante e já com idade avançada. Ela incentivou-me sempre a seguir meus sonhos, e apoiava minha ideia de mudança. Aos quinze, quando ela também partiu, fiquei novamente sozinha.
Estava apenas uma semana na cidade grande .Aluguei um minúsculo apartamento, me matriculei na faculdade de direito e tratei logo de arranjar um emprego, conseguindo em seguida em uma lanchonete perto de minha casa. Não era nada glamoroso servir mesas, mas o dinheiro custearia parte dos meus estudos.
Foi lá que conheci Tom Kaulitz ,há quase dez anos atrás.
Aproximei-me da mesa onde ele e um amigo conversavam animadamente. Tentei desviar dos olhos castanhos que me encararam desde o momento que notaram minha presença. Ele era lindo, mais do que posso explicar, o típico garoto da cidade, com trancinhas nos cabelos e alguns piercings, alguém muito longe do alcance de uma garota como eu.
-O que deseja?...-Perguntei a ele vendo o amigo loiro levantar-se saindo pela porta da lanchonete. Baixei meus olhos tentando não corresponder a aquele olhar. Ele sorriu abertamente movendo ao dar-me a resposta.
-Que você saia para jantar comigo hoje a noite...-Não era a primeira vez que alguém se atrevia comigo no meu novo emprego mas ele parecia estar falando sério apesar do sorriso e eu aceitei. Meu instinto de autopreservação gritava para que eu não desse assunto a ele, enquanto meu coração pulsava quase na boca. Naquela noite jantamos juntos e foi a primeira vez que Tom me beijou.
Três meses depois como os jovens apaixonados e inconsequentes que éramos, ele então com vinte e um anos, nos casamos em uma pequena cerimonia, tendo apenas alguns amigos dele como convidados, inclusive os que fizeram parte de uma banda junto a ele, com a qual Tom ganhou muito dinheiro quando era mais jovem.
Eu parecia uma princesa com meu vestido de noiva casando com o meu príncipe encantado. A pequena festa de casamento durou até altas horas da noite. No fim dela muitos amigos de Tom vieram nos cumprimentar, inclusive Gustav. Tom apertou mais em minha cintura percebendo a aproximação do amigo.
-Posso beijar a noiva?...-Gustav pediu a permissão de Tom , como se eu sequer estivesse ali, os dois se olhavam de um jeito que pareceriam confidenciar algo que eu desconhecia. Tom rolou os olhos para a pergunta do amigo.
Então, como se fosse a coisa mais natural do mundo, Gustav tomou meu rosto em suas mãos selando por alguns minutos nossos lábios. Fiquei completamente sem reação esperando que os lábios mornos se afastassem dos meus. Assim que ele o fez ,saiu como se nada tivesse acontecido. Olhei para Tom analisando suas reações. Ele parecia não dar importância ao fato de ter outro homem beijando a mulher que era agora sua esposa. Ele aproximou-se de meu ouvido sussurrando.
-Ele só está zangado porque disse que viu você primeiro na lanchonete... Está apenas brincando. Mal notei a presença de Gustav quando conheci Tom, apenas o percebi quando se retirou da lanchonete. Não que ele não fosse bonito como o amigo, qualquer garota em minha festa ficaria lisonjeada ganhando um beijo seu, mas com Tom foi amor a primeira vista. Minhas atitudes com Gustav passaram a ser frias desde aquela noite e ele jamais voltou a me beijar.
Gustav era superficial o bastante para me considerar um pedaço de carne a ser conquistado e Tom era imaturo o suficiente para aceitar como uma brincadeira um outro homem beijando a sua esposa diante de seus olhos.
A noite de meu casamento foi também a minha primeira noite de amor.
-Vai doer um pouco, mas eu serei cuidadoso... -Tom disse beijando-me apaixonadamente ao possuir pela primeira vez meu corpo virgem. Senti receio, mas a confiança que ele me passou fez com que eu me entregasse de uma forma que eu nem sonhava ser possível.
No primeiro ano de casados era como se o mundo girasse a nossa volta ,nada mais importava, eu bastava para ele assim como ele para mim, tanto que aceitei, sem objeção alguma ,largar a faculdade junto com emprego, assim que Tom me pediu.
No ano seguinte o lado boêmio de Tom ,que eu desconhecia, se manifestava quase incontrolavelmente. Ele e Gustav davam os primeiros passos, sendo sócios, na produtora que fundaram. Gustav trabalhava incessantemente enquanto Tom passava pela vida de férias. As noites de bebedeiras do meu marido tornaram-se cada vez mais frequentes. Não era raro chegar em casa de madrugada e desculpar-se no dia seguinte.
Eu sempre o perdoava, pois, apesar de tudo acreditava em seu amor... Até a hora que o amor deixou de ser o suficiente e eu decidi deixa-lo.
Meus planos de separação foram por água abaixo quando descobri que estava grávida. Tom me acompanhou durante toda a gestação com impecável dedicação. Já trabalhava tanto quanto Gustav na produtora e havia mudado a olhos vistos e foi assim durante os dois primeiros anos da vida de Nicholas.
Foi então que uma simples vida familiar passou a ser cansativa demais para ele e as noites de bebedeira voltaram violentamente e seguiram durante os anos seguintes.
Gustav era o único amigo que havia restado, por vezes estava presente quando Tom parecia estar mais distante de mim e do filho. Quando pensava que eu não estava ouvindo, ele tentava persuadir Tom a ser um pai e um marido melhor, tendo sempre uma promessa de melhora que nunca aconteceu.
Certa noite, mais uma regada a álcool, Tom colidiu com o carro ficando entre a vida e a morte. Eu nunca contei a ninguém que eu sabia que ele estava na companhia de outra mulher durante o acidente. Cuidei dele como a esposa devotada e o perdoaria novamente, esquecendo a humilhação, principalmente por nosso filho que mal conhecia o que era ter um pai, na esperança que o acidente o fizesse reconsiderar as atitudes dos anos anteriores. Tom morreu dois dias depois do acidente.
Embora estivesse consciente no momento do fim não nos despedidos, ele quis apenas a presença de Gustav. Foi a primeira vez que o odiei ,não por conduzir a sua vida até aquele desfecho trágico, deixando a mim e o filho ,mas por preferir dizer as ultimas palavras a Gustav não .No mês passado fez um ano que o homem que eu amei havia morrido.
Limpei com a face da mão as lágrimas que caiam involuntariamente com as lembranças dolorosas. Levantei indo até o quarto de Nick querendo com urgência ver o rosto de meu filho.
Sentei em sua cama e afaguei seus cabelos...Estava cada vez mais parecido com Tom.
-Mamãe...-A voz saia sonolenta, nem sequer abriu os olhos para falar...-Tio Gustav está aqui?...-As vezes tentava explicar a mim mesma que tanto apego a Gustav,apesar de nossas diferenças,era apenas a necessidade de suprir a ausência do pai.
-Não lindinho, ele já se foi faz tempo...
Ele respondeu em um muxoxo voltando a dormir profundamente logo em seguida.
Voltei novamente para o meu quarto e peguei o telefone. Disquei rapidamente o numero de Gustav.
-Alô...-A voz dele era sonolenta, conferi no relógio e já se aproximava da uma da madrugada. Mas eu precisava... Tinha medo que minha decisão não se sustentasse até o dia seguinte.
-Gustav... -Comecei pausadamente...-Eu aceito, me caso com você.
Notas finais
Beijos
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