Eu Aceito

8 Los Angeles


Notas iniciais
Olá pessoas da minha vida!
Desculpa,mil vezes, pela demora,mas acho que este compensa!
Como tudoo nesta vida fica melhor com trilha sonora,capítulo cheio de musicas!
Achei melhor dividi-lo em dois...Pra facilitar a leitura,porque está gigantesco!
espero realmente que gostem!
Enjoy

Já tinha levantado da cama, escovado os dentes milimetricamente assim como os cabelos, escolhido a dedo uma roupa que acabou sendo bem simples não correspondendo a demora, apenas short e blusa, e não conseguia dar a mim mesma um motivo para continuar embromando. Não havia escutado o barulho do carro de Gustav ,logo ele ainda estava na casa o que significava que eu iria vê-lo. Peguei a maçaneta da porta do meu quarto suspirando uma vez, era ridículo, mas eu queimava de vergonha pensando na reação dele, um dia depois da entrada no meu quarto. Provavelmente sorriria daquela forma pervertida apenas para atiçar a minha ira, ou a vergonha que eu estava sentindo. Nem em mil anos eu me perdoaria por aquilo, ele fez o que fez e com meu consentimento.

Praticamente me arrastei pela minha porta a fora. Passei no quarto de Nicholas pensando em poder ajuda-lo a se vestir. Meu plano foi-se agua abaixo quando ao espiar pela porta vi que ele ainda dormia. Descer seria a única solução, como eu nunca fui de dormir ate muito tarde,não aprecer ,seria uma ideia pior,já que ficaria claro para ele que eu estava me esquivando.Inflei o peito,tal qual uma criança marota,munindo-me de coragem para descer as escadas,não deixaria Gustav ter nenhum enfeito sobre mim...Pelo menos não o deixaria perceber que ele tinha.

Passei pela porta da sala de jantar sendo traída por mim mesma, sentindo um calor aflorar na ponta dos pés ao vê-lo,subindo por toda a estenção do meu corpo,queimando em minha face.Como não podia ser diferente,vitorioso em sua tentativa de me provar alguma coisa,ele soltou aquele sorriso sem escrúpulos quando me viu.Tratei de me sentar,pra minha desgraça,o lugar posto para o café era diante dele.

-Bom dia senhora.Dormiu bem?...-Aletta sempre tornava tudo melhor com um sorriso doce.Preparava-me para lhe dar um bom dia e mentir descaradamente,dizendo que dormi alguma coisa,quando ele se pronunciou,deixando-me com minhas palavras presas na boca.

-Duvido Aletta.Foi uma noite tão quente,que afetaria o sono de qualquer um...

Agora era inevitável, a formigação que sentia em minhas bochechas só significavam uma coisa,eu havia corado e muito. Mesmo assim tentei ser indiferente.

-Porque diz isso Gustav? Teve dificuldades para dormir?

-Muito pelo contrário minha linda... -Não pude deixar de sentir o coração palpitando mais forte pela forma com que me chamou... -Dormi como uma pedra. Tão relaxado... -Era certo que ele não tinha a mínima intenção de me deixar esquecer da noite passada. Flashes de seus beijos e caricias vinham em minha mente trazendo consigo um arrepio perturbador em minha nuca.

Deus! Quando foi que isso aconteceu?

Há poucos meses atrás o único arrepio que Gustav me causava era de pura raiva, discordando e me questionando do jeito arrogante que fazia. Agora, parecia que, se eu não me policiasse constantemente, eu acabava facilmente o beijando ou sentindo meu coração pulsar mais forte com o som de sua voz. Fitei seu rosto por um instante pensando na vontade que sentia de ir até ele, passar o dedo naquele vinco que tinha formado na testa, característico de quando estava pensativo, a fim de fazê-lo sumir, faze-lo para de pensar, beijar-lhe os lábios e faze-lo perceber que não havia necessidade de truques ou testes, sem de frases ditas com duplo sentido ou ainda hostilidades entre nós, queria fazê-lo entender que eu não era mais a mesma em relação a ele que, contra a minha vontade, não podia mais dizer que nosso casamento era fundado com ausência total de sentimentos, pelo menos de minha parte.

Nick entrou com a alegria costumeira abraçando-me com força. Aletta parecia movimentar-se de acordo com os pensamentos do menino, de pronto serviu-lhe suco e colocou diante dele e a tigela com cereais. O ânimo de meu filho logo esmoreceu em uma breve analise feita em Gustav, logo percebeu que ele sairia dali a um pouco.

-Ah papai! Vai trabalhar hoje?...-De fato ele havia aproveitado nosso passeio em família tudo o que pode e era certo que gostaria de repetir a dose. Gustav parecia empenhado em fazê-lo animar-se novamente.

-Sinto muito meu filho, mas hoje eu preciso ir. Mas, como hoje é sexta, ainda temos o final de semana para nós.

Então o sorriso satisfeito de Nick estava presente novamente. Gustav se levantara vindo em nossa direção, levando o menino aos braços carinhosamente, abraçando-o por alguns instantes inclinou-se e depositou um beijo em minha face.

Minutos depois a porta principal havia sido fechada, ele havia saído me deixando com meus pensamentos confusos. Aletta mantinha o olhar doce sobre mim, um pequeno sorriso confortador formado no canto do lábio. Assim que Nick partiu para a sala ela desviou a atenção da louça suja que retirava, olhando-me com as palavras debatendo-se em sua boca. Sorri para ela incentivando-o a colocar pra fora o que tinha para dizer, cruzando os braços em cima da mesa.

-A senhora gosta muito dele não é mesmo?...-Não era bem uma pergunta. Os olhos dela olhavam-me carinhosamente, passando-me segurança. Aletta era o mais próximo de uma amiga que eu tinha já me conhecia bem apesar do pouco tempo, fruto das conversas que mantínhamos o que contribuiu para seu alemão saísse mais fluentemente.

-Sim, eu gosto embora ele me confunda... -Bebi um pouco de meu café enquanto ela sorria diante de minha confissão, aproximando-se um pouco mais.

-Senhora, não está claro? Ele a ama... -Vendo-me pouco confiante diante de sua perspectiva, ajeitou uma mecha de meu cabelo atrás de minha orelha, como faria uma mãe carinhosa.

-Eu não tenho certeza, há horas que eu poderia jurar que ele sente algo... Em outras... -Escorei o queixo sobre os braços cruzados, pensando nem eu mesma podia definir certas atitudes que Gustav tinha. Ontem a noite poderia muito bem ter sido nossa primeira noite de amor.

-Eu não passo de uma velha minha querida, mas conheci o amor e posso reconhecê-lo ainda. Eu me casei quando ainda era uma menina, jovem demais para ter sabedoria sobre qualquer coisa, mas com a certeza que estava seguindo o caminho certo... -Eu a ouvia atentamente até que seus olhos expressaram uma tristeza que eu bem conhecia uma que não tinha remédio, a dor de ter perdido alguém... -Quando meu marido morreu eu achei que não aguentaria. Ficamos uma vida inteira casados e ele partiu me deixando sozinha. A senhora tem o seu filho e uma segunda chance minha querida. Eu sei que ele a ama... Apenas dê espaço para que ele demonstre. Não deixe uma oportunidade verdadeira de ser feliz lhe passar despercebida... -A pequena depositou um beijo em minha testa saindo da sala logo em seguida.

Subi novamente para meu quarto e fiquei nele, vagando em meus pensamentos por nem sei quanto tempo, sequer desci para almoçar precisava pensar, precisava de um tempo para pensar, organizar os pensamentos e principalmente aquilo que mais fervia dentro de mim, os sentimentos.

Pelo menos de uma coisa eu tinha certeza, o que eu sentia por Gustav ia além de desejo, era algo que havia modificado se transformado com o tempo... Eu estava apaixonada por ele, sem saber como nem o porquê, mas estava e se ele sentia algo por mim eu teria que saber.

The Kombucha mushroom people,

Sitting around all day...

Who can believe you?

Who can believe you?

Let your mother pray.

As palavras de Aletta vieram fortes em minha cabeça, dando-me a injeção de ânimo, e um lapso de coragem, para sair dali e ir ao encontro dele. Andei até o closet pegando a primeira coisa bonita para vestir. Coloquei o vestido azul claro e tive a certeza de que havia feito uma boa escolha, deixei os cabelos soltos e coloquei uma sandália alta, mas confortável, peguei minha bolsa revirando em se interior a procura da chave do meu carro, que eu não havia usado desde que chegara ali. Saí do meu quarto com uma atitude renovada. Marchei pela sala, Nick tirava uma soneca, com a televisão ligada, largado no sofá, Aletta apareceu na sala com o ar curioso.

-Vai sair senhora?...-Um sorriso cumplice ao meu era visível n o rosto dela.

-Vou resolver a minha vida Aletta... -Joguei-lhe um beijo no ar, agradecendo internamente por ser a mentora da minha personalidade corajosa, mais tarde a abraçaria por dizer as palavras certas no momento em que eu mais precisava.

Entrei no meu carro pensando por um momento como me fazia falta dirigir. Tentei manter uma velocidade razoável embora minha vontade fosse afundar o pé no acelerador, o que me faria chegar mais rápido e despejar em cima dele tudo que eu sentia, embora eu não tivesse a mínima ideia do que iria falar, talvez apenas fosse até ele e o beijasse deixando que tudo seguisse seu rumo.

Finalmente, estaciono o carro na frente do enorme prédio espelhado, senti o nervosismo me atacando. Decidida de que não havia ido até ali por nada, ignorei minha respiração ofegante e meu coração acelerado entrando no prédio pegando o elevador logo em seguida. Entrei na sala da produtora esperando encontrar a secretaria que estaria ali. A mesa dela estava vazia. Lembrava-me vagamente da senhora que trabalhava naquela mesa, das poucas vezes que estivera ali, há um bom tempo atrás, sempre se mostrou simpática e prestativa. A porta entre aberta da sala de Gustav era um convite para que eu entrasse sem me anunciar, talvez ,no fim, talvez isto contribuísse para que minha coragem não se esvaísse.

Fiquei um instante parada, analisando aquela cena por um segundo. Gustav balbuciava qualquer coisa enquanto sorria para a moça a seu lado. Ela era alta, loira e linda em suma e retribuía o sorriso dele de uma forma que me deu nos nervos logo de cara. Sequer notaram minha presença de tão envoltos em seu assunto particular. Eu me faria notar então, pigarreei alto atraindo a atenção dos dois, ele me olhou de forma surpresa, ela desfez o sorriso como se atenção lhe fosse tirada de Deus para o próprio demônio. Mordi o lábio com uma força excessiva e arrumei uma mecha solta do cabelo. Os dois ainda me olhavam como se eu fosse alguma assombração. Pensei em sair por onde entrei arrependida por ter chamado a atenção, mas já era tarde.

-Espero não estar interrompendo nada... -Meu olhar procurou o rosto dele e depois o dela, que me fazia uma analise completa, dos pés a cabeça.

Gustav sorriu para mim remoendo alguma coisa naquela cabeça pervertida.

-Mais tarde terminamos querida... -Entregou-lhe alguns papeis lançando- lhe uma piscada charmosa logo em seguida. A garota parecia ter ganhado um premio, embora tivesse uma pontada de espanto no olhar. Atravessou a sala rebolando de uma forma que parecia sofrer de algum problema na coluna. Gustav a observava retirando-se como alguém que acompanha um programa interessante na televisão. Apenas depois da porta fechada dirigiu-se a mim novamente... -Isso sim que é surpresa! Não esperava vê-la por aqui.

-Pude ver que não esperava mesmo... -Pelo menos eu preferia pensar que demonstraria mais decoro se soubesse que eu viria ao invés de se desfazer em sorrisos para qualquer uma. Fiquei me perguntando se aquela seria a substituta da senhora simpática que estaria sentada na cadeira da secretária, mas manteria a compostura e não perguntaria diretamente.

Andei um passo pela sala passando os braços para as costas de forma dissimulada. Gustav lançou-me um olhar daqueles que me fazia perder o chão... Quando ele me olhava daquela maneira me fazia sentir a única mulher a andar pela face da terra, a mais desejada e a mais bonita. Por um breve momento o gosto amargo do ciúme dissolveu-se de minha boca dando lugar para o já conhecido sabor do desejo que ele me causava, como se o episódio desagradável com aquela mulher em sua sala não passasse do fruto da minha imaginação, pois um olhar como aquele só podia significar que ele também me desejava. Porem não podia perder o foco que tinha naquele momento, a moça havia modificado meus objetivos. Não podia dizer a ele tudo o que sentia se ele não correspondesse, se ficasse se desmanchando em sorrisos para outras mulheres, ou o que seria pior, não poderia dizer que o amava se ele não correspondesse ao meu amor por ele. Tentei equilibrar o Tom de voz, um pouco sem sucesso.

-Ela é uma moça muito bonita...-Esperei alguns segundos, vendo ele fazer-se de desentendido. Provavelmente ele só obteria respostas dele eu se eu falasse mais diretamente, então que seja! Eu tenho o direito de saber, somos casados afinal... -Sua secretária, é jovem e muito bonita... -Eu tentei, mas não tinha certeza se conseguira soar indiferença.

-Ah sim!..É muito bonita... -Que ódio! Como ele ousa? Como se atreve a admitir que aprecia outras mulheres justamente para mim? Por pouco não comecei a insulta-lo,engoli a raiva ao morder o lábio.Ao invés de agredi-lo, sorri com pouco sucesso.Não daria a ele o gosto de saber que aquilo me incomodava...-Mas o que a traz aqui?...-Ele mal havia formulado a pergunta e eu tratei de baixar o rosto sentindo-o avermelhar-se...-Uma visita surpresa para o marido?

“Anna, da próxima vez que quiser agir por impulso, simplesmente não aja” ,pensei comigo mesma

-Bom...-Compras não eram uma desculpa aceitável, já que eu não carregava nada, a menos que ainda não tivesse comprado alguma coisa de fato. Suspirei sentindo a cabeça doer somente com a ideia de elaborar uma boa desculpa, improviso não era o meu forte com certeza... -Vim ao centro da cidade e pensei em passar pera vê-lo... -Um pouco de sinceridade não faria mal, apesar de meus planos não terem saído como eu queria,o fato não mudava, estava ali por ele... -Mas acho melhor ir andando... -Virei-me em direção da porta querendo sair dali o mais breve possível, até alivio chamando o meu nome.

-Anna... -Virei-me para ele novamente, querendo entender um pouco daquela cabeça. Primeiro, claramente, exibe a falta de respeito que tem por nossa união, dando a entender que provavelmente teria algo a mais com a própria secretária, depois me olha com o olhar doce que poucas vezes eu via, me desconcertando e confundindo, fazendo com que eu me questionasse se algum dia em nossas vidas nos falaríamos as claras e sem impedimentos. Quando ele chamava por meu nome daquela maneira me fazia perceber como foi fácil me apaixonar por ele. Esperei por um segundo para saber o porquê havia me chamado de volta, na esperança que todas as minhas tentativas de parecer indiferente a ele há alguns minutos atrás fossem descobertas e que ele exigisse de mim a verdadeira razão da minha visita, me deixando sem saída, apenas com a opção de dizer-lhe a verdade, que eu o amava... -Gostaria de me acompanhar a Los Angeles na semana que vem?

-Uma viagem? Assim do nada?...-O vi encolhendo os ombros.

-Dois ou três dias. Haverá uma festa para a qual fomos convidados. Assino alguns papéis e voltamos logo... -A breve aparição de alegria que se manifestava em mim contra minha vontade foi esmagada já que o convite era em razão do trabalho e não de nós dois. Em ambientes assim a presença de Nick não aconteceria, além do mais seriam horas de viagem desnecessárias para ele.

-E quanto a Nick?...-Eu sabia que Aletta cuidaria bem dele se precisássemos deixar a cidade por um tempo tão curto, só não estava certa se ele seria facilmente convencido a ser deixado para trás. Gustav saiu de trás da mesa, cruzando os braços, vindo em minha direção.

-Falamos com ele em casa, tudo bem?...-Assenti apenas com a cabeça, minha vontade de falar havia sumido.

Um pequeno silêncio estabeleceu-se entre nós, enquanto ele olhava em meus olhos, quando ele ficou demasiado insuportável tratei de me despedir dele.

-Nos vemos em casa?...-Por um segundo ele pareceu escolher as palavras que diria com cuidado para no fim franzir o rosto como sempre.

-Hoje eu ficarei um pouco mais, tenho um pouco de trabalho atrasado... -A maneira como ele abaixou os olhos ao falar me deu uma sensação que eu bem conhecia, de que ele mentia. Tom mirava os pés de uma forma semelhante a ele, quando me dizia que se atrasaria para jantar porque trabalharia até mais tarde quando na verdade eu sabia bem que ele não jantaria comigo e com Nicholas porque estaria na cama com alguém. Senti meus olhos marejando ao compará-los com suas desculpas esfarrapadas e perceber que eram as mesmas. Talvez a loira esguia na recepção fosse ajuda-lo com isso.

-Tudo bem... Até mais então... -Nem ouvi sua resposta e sai porta afora, cruzando com a loira na saída. Olhar uma vez mais para ela somado as atitudes de Gustav ,fizeram com que a pressão das lágrimas querendo sair de meus olhos se intensificasse. Apertei o botão luminoso chamando o elevador. Assim que entrei nele, meu refúgio momentâneo, pisquei algumas vezes expulsando um pouco da água que fazia com que meus olhos ardessem.

A few questions that I need to know

How you could ever hurt me so

I need to know what I've done wrong

And how long it's been going on

Was it that I never paid enough attention?

Or did I not give enough affection?

Not only will your answers keep me safe

But I'll know never to make the same mistake again

Dirigi sem animo nenhum de volta para casa. Assim que cheguei Aletta veio até mim apressadamente, na certa querendo saber das boas novas. Depois de verificar que Nick não estava na sala abracei a pequenina, curvando-me um pouco sobre seu ombro, chorando compulsivamente. Esta, confusa, só fazia pedir que eu me acalmasse enquanto afagava meus cabelos. Andamos juntas até o sofá da sala, Aletta segurando-me pela cintura enquanto eu não conseguia erguer o rosto do seu ombro acolhedor. Ela sentou-se, puxando minha cabeça para seu colo, as lágrimas por fim saindo com menos fluência.

-O que aconteceu senhora?...-Os olhinhos azuis eram miúdos e avermelhados, como se qualquer minuto fosse começar a chorar junto comigo.

Ainda sentindo seu afago em meus cabelos tratei de pôr pra fora tudo aquilo que me angustiava, começando pelo inicio ,começando por Tom.

Depois de alguns minutos narrando meu casamento fracassado cheguei ao ponto que me fizera chorar tanto.

-Se você visse Aletta...A forma com que aquela mulher olhava para ele...-Escondi meus olhos por um momento com a mão, como se o gesto apagasse de minha mente aquela sequência de cenas...-A forma com que ele olhava para ela...Não me surpreenderia que fosse por ela que ele ficasse tanto tempo na produtora...-Olhei mais uma vez para a senhorinha ,olhando-me com júbilo. Sabia que devia confiar a ela meus sentimentos... -Eu o amo Aletta .Eu senti tanta raiva, tanto...

-Ciúmes... -O sorrisinho dela surgia aos poucos... -A senhora tem certeza que não viu mais do que deveria por ciúmes?...-Ponderei por um momento as palavras dela pensando no que poderia haver de verdade nelas. Aletta era uma mulher sábia, merecia que suas suposições fossem levadas a sério... -A senhora chegou a dizer a ele o que sente?...-Balancei a cabeça negativamente... -Então senhora. Vá lá pra cima...Tome um bom banho e espere por ele. Tenho certeza que assim que a senhora disser que o ama, ele não terá olhos para mais ninguém.

Pensei quantas vezes este raciocínio me fez passar por cima de meu orgulho e até mesmo de minha dignidade quando eu tentava reaver meu marido morto. Não sabia se queria isso de novo...

A noite já caia do lado de fora quando por fim Nick entrou correndo pela sala, dizendo-se cansado do vídeo game. Levantei do sofá vendo Aletta ,preocupada com o atraso do jantar que teria que fazer. Como fora minha crise que a tirou de seus afazeres sugeri que servisse qualquer coisa pronta pois de qualquer forma eu não sentia fome.

Depois de acompanhar Nick até seu quarto fui em direção ao meu, já eram quase nove horas, talvez Gustav chegasse dali a um pouco. Mais uma vez deixei as palavras de Aletta me incentivarem, entrei em um banho disposta a dar a ele o benefício da duvida, sem tirar minhas conclusões precipitadas. Depois do banho, procurei alguma camisola bonita para vestir, em geral eu gostava das de cor clara, mas usaria uma preta com o robe da mesma cor. Desci pelas escadas, a casa já não tinha barulho algum, pois Aletta também já havia se retirado. Sentei no sofá fazendo a única coisa que poderia ser feita por hora, esperar por ele.

Sentia um embrulho desagradável no estômago, um tremor de leve pelo corpo e as mãos gélidas além de mais mil maneiras de expressar meu nervosismo. Ficava atenta a todo e qualquer ruído oriundo do lado de fora, sempre sentindo o coração bater na boca e não no peito, mas nada de Gustav chegar. Por fim deitei no sofá refletindo sobre tudo ao mesmo tempo. O relógio fino na sala Já marcava mais de onze horas e ele sequer me telefonara. Por um lado tentava levar em consideração os bons conselhos e argumentos de Aletta, advogada empenhada na causa de Gustav. Por outro me perguntava que trabalho ele teria atrasado que não havia sido concluído a àquela hora da noite. Fechei as pálpebras pedindo internamente que aquela demora toda não significasse mais uma noite de bebedeira. Por um momento lembrei-me da sensação da pele dele na minha, de como ele me acariciava gentilmente quando se empenhava para isso então abruptamente a secretária loira surgiu na imagem,sorrindo da maneira que eu vira hoje a tarde.

-Anna... -A ponta dos dedos frios sendo passados em minha face me fez abrir os olhos...

Sem sequer notar, percebi que havia entrado naquele estágio do sono onde você não tem sequer a certeza de estar dormindo. Olhei meio aturdida novamente para o relógio e vi que havia cochilado por mais de meia hora. Gustav ainda me olhava com o rosto inexpressivo, nunca quis tanto saber o que ele tinha em mente.

-Você demorou muito... -Disse enquanto esfregava os olhos e ficava ereta no sofá.

-Não precisava ter esperado por mim... -A voz dele era fraca e serena. Alguma coisa em sua expressão tornava difícil acreditar que ele estava trabalhando.

Muni-me de coragem na esperança de ouvir uma resposta sincera enquanto me punha de pé. Por um momento ele passou os olhos por mim, dos pés a cabeça, suspirando finalmente. Não queria que minha pergunta soasse inquisitiva, mas eu precisava saber, o ciúme me consumia ,chegando a doer quase fisicamente.

-Estava trabalhando até agora?...-Em nenhum momento desviei meus olhos dos dele. Gustav podia ter mais de mil defeitos, mas podia jurar que nunca conseguiu mentir para mim quando olhava em meus olhos.

-Não... -A resposta soou seca e puramente verdadeira, o suficiente para que eu temesse que viesse acompanhada de detalhes que me fariam sofrer. O rosto dele tinha uma pontada de angustia como se eu o estivesse obrigando a falar mais do que gostaria. Vê-lo massagear a têmpora enquanto suspirava foi a ultima imagem clara que tive dele antes que a cortina d’agua de apossasse de meus olhos. Passei por ele indo em direção as escadas antes que as lágrimas irritantes começassem a cair ali mesmo, me humilhando mais uma vez diante dele... -Eu sinto muito... -Ouvi-lo murmurar aquilo só fez piorar tudo.

Ao contrário do que sempre acontecia não passei aquela noite em claro. Deitei em minha cama e o torpor me fez adormecer e ter um sono vazio, sem sonhos ou lembranças que me fizessem sofrer.

Naquele final de semana evitei Gustav tudo o que pude. Quando ele ia para a sala eu ia para o quarto, quando ele ficava com Nick no jardim eu procurava a estufa, a maior demonstração de afeto que ele teve por mim. Houve apenas um momento onde foi inevitável que trocássemos algumas palavras. Foi durante o jantar de domingo quando ele anunciou a Nicholas que faríamos uma viagem. Como já era esperado meu filho reagiu com birra alegando que gostaria de ir junto. Parte de mim queria ficar ali com ele já que não tinha a mínima vontade de estar com Gustav naquele momento. Outra pensava que não era certo deixa-lo ir sozinho, bem ou mal éramos casados. O fato é que eu iria de qualquer jeito.

Já era quinta feira e o aborrecimento de Nick ainda não havia passado, no outro dia partiríamos para Los Angeles e o fato de ele ainda não ter se conformado me fazia seriamente pensar em desistir. Olhei mais uma vez para o telefone. Nicholas era nossa responsabilidade então disquei o numero do celular de Gustav que atendeu logo em seguida.

-Alô...-Sentia raiva de mim mesma por sentir um arrepio apenas em ouvir sua voz.

-Gustav... -Apenas pronunciar seu nome fazia as borboletas em meu estômago se agitarem... -Nicholas ainda está ranzinza pela viagem. Não tenho certeza... -Antes que eu pudesse falar qualquer coisa ele me interrompeu...

-Falarei com ele assim que chegar em casa, confie em mim...-Como podia ele falar em confiança? Como Nicholas era um terreno neutro entre nós concordei com ele desligando logo em seguida.

Arrumei minha mala para o dia seguinte com algumas peças de roupa, perfumes e maquiagem. Quanto à festa onde teriam apenas velhos, ricos e egocêntricos magnatas da musica eu não tinha nada em vista, o melhor que pensei foi comprar um vestido de ultima hora.

Estávamos Nick e eu sentados na sala quando a tarde começava a chegar ao fim quando a porta principal da casa foi aberta por Gustav.

-Nick... -Ele chamou o menino que foi correndo em sua direção. Fiquei observando do sofá onde estava quando meu filho voltou saltitante com algo nas mãos.

-Mamãe, olhe o que meu pai comprou para mim... -Nick não cabia em si, mostrando-me fascinado o filhote em suas mãos.

-É para que você não se sinta sozinho enquanto estivermos fora, não é mesmo Anna?...-Ele olhou para mim esperando cumplicidade no agrado que havia feito a Nicholas. Ver o quanto a criança sorria e agradecia ao pai me dava a certeza de que eu havia feito a escolha certa, casar-me com Gustav não era um total erro afinal.

Eu adorava cachorros e o pequeno filhote me conquistou de cara. Peguei a bolinha de pelos dos braços de Nick afagando seu pescoço. O filhote de labrador era marrom e seus olhinhos pareciam brilhar a cada vez que era acariciado. Assim que Nick saiu para o jardim com ele olhei para Gustav, satisfeito com seu plano que havia dado certo, Nick já nem se importava se viajaríamos ou não.

-Obrigado... -Sussurrei a ele, embora não pudesse sorrir muito mais que o mínimo possível diante de sua gentileza.

Sem saber ele havia tirado um peso de cem quilos do meu peito.