Eternamente
6 Por água abaixo
Notas iniciais
Estão de volta à estrada a caminho de Jericó. O clima está mais leve e nenhum dos dois consegue tirar o sorriso do rosto por muito tempo. Até as indiretas da recepcionista foram bem recebidas.
— Espero que tenham aproveitado a estadia... nada como uma boa cama para ajudar a aliviar as tensões, não é mesmo?
Dito isso, piscou um olho para Dean e deu um sorriso provocador para Sam.
— Olha, amorzinho, a cama realmente foi ótima... mas nada como aquele chuveiro para ajudar a relaxar os músculos... todos os músculos, se é que você me entende...
Saem do hotel rindo, com a recepcionista ainda de boca aberta.
— Dean! Controle o que você fala!
— Pra que? Ela tá desde ontem mandando piadinha... pelo menos agora ela sabe.
O clima relaxado foi até a cidade, com pequenas brincadeiras, lembranças da infância e músicas cantadas aos berros dentro do carro. Mas finalmente chegaram e agora a coisa era séria. Começaram o trabalho, que acabou levando mais tempo do que gostariam, somando um ataque na ponte, onde Dean terminou afundado em lama... uma busca sem resultados pelo pai em um hotel, onde só acharam a pesquisa dele... E uma prisão de Dean, que só serviu para atrapalhar mais ainda os planos... no fim, finalmente conseguiram resolver o problema da “mulher de branco", mas nem sinal de seu pai.
Como o combinado, resolveram voltar a Stanford para Sam resolver suas coisas antes de continuarem a busca.
— Você quer entrar, Dean? Tá um pouco frio hoje...
— Sammy, você vai terminar com sua namorada, fazer as malas e meter o pé. Eu não quero estar presente... pra ela eu sou o vilão dessa história, cara.
O carro para em frente ao prédio e Sam se vira no acento.
— Você não é o vilão, Dean... não brinca com isso... esses dois dias caçando com você foram mais reais do que os dois anos que passei aqui... eu finalmente vou parar de me esconder.
— Ok, Sam. Vou estar aqui te esperando. O tempo que precisar.
Não querendo ser muito direto, caso alguém estivesse olhando, Sam apenas toca as costas da mão de Dean, sendo retribuído com um dedo acariciando seu pulso, e sai do carro, deixando o irmão com um sorriso leve no rosto e acompanhando baixinho alguma canção do rádio. Tinha muito tempo que não via Dean tão calmo e satisfeito.
Entra no apartamento procurando por Jessica, mas parece que ela não está. Talvez devesse tentar o celular dela...
Deita na cama de olhos fechados pensando em Dean e em Jess e como vai ter essa conversa com ela... algo pinga em sua testa e quando abre os olhos Jess está grudada ao teto, e em segundos começa a pegar fogo.
Sam grita e não sabe o que fazer, mas Dean entra no quarto e com um força que nem sabia que tinha, praticamente carrega o mais novo dali, enquanto tudo é consumido pelas chamas. Ironicamente, se lembra de como a mesma cena tinha ocorrido mais de vinte anos atrás.
A seguir, tudo se passa como em câmera lenta. Os dois meio em choque, meio em revolta. Sam responde as perguntas da polícia e dos bombeiros, assina alguns relatórios, e logo estão de novo no carro, indo para a próxima cidade. Sam não abriu a boca por todo o caminho e Dean não quer forçar. Quando parassem no próximo hotel, tentaria falar com ele.
Duas horas dirigindo, e Dean não aguenta mais o silêncio. Embica o carro na primeira placa de neon que aparece e entram silenciosamente na recepção.
— Boa noite, gostaríamos de um quarto, por favor.
— Duas camas. – Sam finalmente abre a boca, mas continua sem olhar para o irmão.
O estômago de Dean afunda. Sam está tentando afastá-lo e ele não sabe como reverter isso.
Sobem e entram no quarto. Sam deixa a mochila em cima da cama e se senta sem falar nada. Dean não sabe o que dizer também, então entra no banheiro e se enfia debaixo do chuveiro o mais rápido possível. Aquele cheiro de fuligem o está deixando enjoado.
Que merda eu faço agora? Eu não posso simplesmente dizer que vai ficar tudo bem. Porra, a namorada dele morreu! Do mesmo jeito que a mãe. Provavelmente nas mãos da mesma criatura. Quem sou eu pra tentar falar alguma coisa? Merda, se for pensar bem, a culpa é basicamente minha de ter arrastado o cara pra longe de casa! Deve ser isso que ele está pensando também...
Todo o tempo em que se lavou, secou e vestiu, nunca parava de se culpar. Justo agora que recuperou o irmão, iria perdê-lo novamente... não consegue pensar em um jeito de melhorar as coisas. Sai do banheiro ainda buscando uma resposta e o irmão entra sem nem olhar em sua direção. Se deita na cama, mirando o teto, tentando achar nas marcas de infiltração das paredes a solução de toda essa confusão.
Sam não pode acreditar no que aconteceu. Chegar em casa em uma bolha de felicidade depois de finalmente ter se resolvido com Dean, e encontrar Jess morta grudada no teto foi mais do que dolorido... foi quase um aviso. As pessoas importantes pra ele não duram muito... sua mãe... agora Jess... quanto tempo vai levar pra alguma coisa atingir Dean?
Está apavorado de que algo aconteça com o irmão. E também não pode deixar de se culpar. Se ele não estivesse tão excitado de reencontrar Dean, talvez não tivesse ido com ele. E se tivesse ficado, poderia ter salvo Jessica.
Todos esses pensamentos nadando em sua mente, só faziam com que fosse mais difícil superar o ocorrido. Ele devia ir embora. Ficar sozinho e não envolver mais ninguém na sua vida de merda.
Nem percebe que já está de banho tomado e vestido, mas mesmo assim não sai do banheiro. Sabe que quando sair, Dean vai confrontá-lo e tem medo do que pode acabar falando. Infelizmente o banheiro é pequeno demais para dormir ali dentro, então cria coragem e sai.
Dean está deitado na cama, mas se senta assim que a porta do banheiro se abre. Sam não olha em sua direção, apenas se senta na própria cama e espera.
— Sammy... eu não sei como falar com você, por que eu sei que você está triste... eu sinto muito pela morte da moça. Ela parecia ser uma boa pessoa e eu...
— Boa pessoa? Ela era uma das melhores! Ela foi a única pessoa que esteve do meu lado todo esse tempo. Não fale sobre ela como se soubesse de algo. Você não sabe de nada, Dean!
A voz é baixa e fria, despida de qualquer emoção, o que faz o mais velho se encolher, mas já imaginava que essa conversa não iria ser fácil.
— Sam... eu não estou tentando agir como se soubesse de algo, mas eu sei de uma coisa. Carregar essa culpa vai acabar com você. Olha o que fez com o pai. Não é assim que se resolve as coisas. A gente vai dar um jeito de encontrar quem fez isso e matar, eu juro! Mas por favor, não tente me afastar...
— Não, Dean! Cala a boca! Você não sabe de nada! Eu vou te explicar os fatos – Sam ouve a própria voz gritando em sua cabeça para ele parar agora, antes que faça um estrago maior, mas não consegue parar – Fato um: eu estava muito bem aqui vivendo minha vida, e aí você aparece e me convence a ir atrás do pai. E eu vou, como um cachorrinho adestrado, sem pensar duas vezes. Fato dois: Eu deixo minha namorada sozinha aqui, mesmo sabendo de todos os seres horripilantes que vivem nas sombras. Eu nunca nem tentei alertá-la de que essas coisas estavam lá. Fato três: eu e você fodemos em todos os momentos livres nesse final de semana e isso atrasou a resolução do caso. Você tem noção do quanto isso é doentio? Nós somos irmãos, Dean! Esses sentimentos não deveriam existir entre nós! E por fim o fato número quatro... enquanto eu estava fodendo com meu irmão em qualquer hotel sujo de beira de estrada, alguém pegou a Jessica e a matou. Ela não merecia morrer, Dean! Ela era uma pessoa boa, com toda a vida pela frente. Se ela morreu, a culpa é minha! E a culpa é sua também! Nós somos duas aberrações e se não estivéssemos tão ocupados transando, poderíamos ter resolvido o caso antes e eu estaria em casa pra tentar salvar a vida dela. Eu nunca vou me perdoar! E eu nunca vou perdoar você também.
Ao longo de todo o discurso, Sam observou o irmão sendo rasgado por suas palavras. Ele viu a dor transbordando em seus olhos e viu o corpo se retrair a cada palavra ofensiva que ele soltava. Em nenhum momento Dean o interrompeu ou tentou revidar suas palavras. Ele queria se socar por estar causando essa dor. Ele sabia que não era culpa de Dean que isso tivesse acontecido. Ele também sabia que não era culpa sua... o que quer que tivesse pego Jess, era forte. Teria pego ela de qualquer jeito, Sam estando em casa ou não... mas a dor que sentia era forte demais e ele precisava descarregar em alguém. Não sentia orgulho disso, mas era a verdade.
Dean se levanta e estende a mão para o irmão.
— Não fala assim, Sammy. Não fale como se tivéssemos feito algo sujo...
Sam dá um tapa em sua mão, não permitindo o toque.
— Mas foi exatamente o que fizemos, Dean! Foi sujo. Foi doentio. Foi errado! E nós sabíamos disso... por que você acha que ficamos anos negando esses sentimentos? Foi por que sabíamos que era errado! E mesmo assim, acabamos caindo na tentação. A verdade é que eu queria que você nunca tivesse aparecido... eu queria que esse final de semana nunca tivesse acontecido... E eu queria que você fosse embora agora, Dean.
Com o coração exposto e sangrando, Dean ainda pensa em continuar tentando conversar, mas entende que Sam está transtornado e não vai conseguir uma conversa racional agora. Se vira e pega sua mochila, não se permitindo sentir nada agora. Se fosse chorar – quando fosse chorar – seria sozinho em seu carro.
— Tudo bem, Sam. Se é assim que você quer, eu vou embora.
Sam não responde. Será que Dean não entende que ele não sabe o que quer? Ele acabou de ver sua namorada e melhor amiga ser assassinada...
— É isso que você quer, Sam? – Dean toca seu ombro suavemente, mas novamente é rechaçado com uma esquivada e um empurrão no braço.
— Porra, Dean! SAI DAQUI!
Então Dean suspira e sai, e Sam finalmente desaba na cama.
Ele não deveria ter sido tão duro com o irmão, mas esse novo relacionamento entre eles ainda é recente e estranho e meio apavorante... como você fala pro cara com quem você teve o melhor fim de semana sexual de sua vida, que agora você está triste e só quer seu irmão de volta? Isso não se faz, não é? Eles deram um passo... Eles falaram que não tinha volta... Mas não dá pra simplesmente manter um caso com Dean agora. Seria total falta de respeito com a memória de alguém que nunca lhe deu menos do que toda a sua amizade e confiança. E no fim ele simplesmente expulsou o loiro, então nem se quisesse iria poder resolver isso agora.
Eu ferrei com tudo! Ferrei com tudo quando transei com ele. Depois ferrei com tudo de novo quando gritei com ele e o expulsei do quarto. Agora eu perdi meu irmão e meu... amante?... enfim, perdi os dois... os perdi completamente.
Finalmente deixa as lágrimas caírem. Lágrimas por Jess, que morreu apenas por ter se envolvido com ele. Lágrimas pela mãe, que também tinha ido cedo demais. E lágrimas por Dean. Se fosse ser sincero, a maior parte de suas lágrimas eram por ele. A mãe já se foi há muito tempo e ele já chorou toda sua cota de lágrimas por ela. A Jess... bem, ele já a perderia de qualquer forma, quando terminasse tudo... as lágrimas por ela eram mais por saber que ela poderia ter tido uma vida inteira pela frente se simplesmente não tivessem se conhecido... mas Dean? Ele nunca viveu sem Dean na vida. Até esses dois anos não contam, por que ele sabia que o irmão estava a uma ligação de distância. Sempre soube que no momento que desse o telefonema, Dean estaria ao seu lado em um piscar de olhos. Mas agora ele tinha passado dos limites e provavelmente nunca mais o veria e nunca mais dormiria em seus braços como fez nas últimas noites. Engraçado como essas poucas noites dormindo com Dean fizeram parecer que ele nunca tinha dormido de outra forma na vida.
Mais de uma hora depois, ainda não dormiu. Seu corpo sente falta do corpo menor enrolado nele. Lágrimas ainda caem de vez em quando, e sua cabeça está girando com tudo o que houve. Não sabe por onde prosseguir agora.
A porta do quarto se abre e Dean entra como se nada tivesse acontecido. Larga a mochila na cama livre e se vira para Sam. O mais novo percebe que seus olhos estão vermelhos e que provavelmente não foi o único que chorou. Se sente ainda mais arrasado por saber que foi a causa de toda a tristeza do irmão.
— Dean, eu...
— Não, Sam! Deixa eu falar. Você disse tudo que quis e eu escutei, então agora você me escuta... você estava certo. Eu provavelmente sou... d-doente... por ter esses sentimentos por você... Deus sabe que eu pedi dia e noite pra parar de sentir essas coisas. Mas isso não é algo que eu posso arrancar de dentro de mim... então eu tive que aprender a lidar com isso... mas quando você me mandou sair, eu percebi que continua tão difícil te deixar sozinho como quando você era criança. Por que mesmo que a gente tenha... você sabe... feito o que fez esse final de semana... isso não apaga o fato de que eu sou seu irmão e me preocupo com você... eu nunca tentaria te tocar daquele jeito agora, Sam... eu vejo o sofrimento em seus olhos... eu nunca tentaria nada sexual. Mas eu não posso me afastar também. Eu ouvi tudo... a parte que você me c-culpa... e a parte que eu sou uma a-aberração... e a parte que o que fizemos foi sujo e doentio... mas agora... bem... agora nós vamos esquecer toda essa loucura que fizemos e vamos voltar atrás e eu vou ser apenas o seu irmão de novo. Por que isso é o que você precisa nesse momento.
Dito isso, o mais velho tira a jaqueta e se enfia na cama ao lado de Sam. É tão pequena que a qualquer momento um dos dois vai cair no chão, mas mesmo assim ele se deita ali.
— Eu posso te tocar, Sam? Não vou fazer nada inapropriado... eu só quero estar aqui pra você... eu juro que nunca mais vou te tocar de forma inadequada de novo.
Sam olha para o mais velho ali ao seu lado e não responde nada, apenas agarra a lateral de sua camiseta e afunda o rosto em seu peito, deixando as lágrimas caírem. Sente a mão de Dean acariciando seus cabelos com carinho e segundos depois, as primeiras frases de Hey Jude saem da boca do irmão. Mais rouca e mais baixa do que quando ele ouviu pela última vez, mas ainda com o dom de acalmar toda a sua alma. Se permite relaxar contra o corpo menor, enquanto a voz do irmão cantando se propaga pelo quarto pelos próximos minutos, até que sobra apenas o silêncio.
— Me desculpa, Dean. Por tudo.
Um beijo no canto de sua cabeça.
— Eu te amo, Sammy. Boa noite. Sonha com os anjos.
E é isso... algumas palavras trocadas, pedidos de desculpas, um beijo de boa noite... e eles voltaram a ser os irmãos que sempre foram. Pelo menos por fora.
O mais triste disso é que Sam tem certeza que acabou de se apaixonar por seu irmão pela segunda vez, mas agora, graças a sua estupidez e suas palavras ditas sem pensar, ele sabe que Dean nunca mais vai lhe abrir uma brecha novamente.
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