Eternamente
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Notas iniciais
Stanford – 2005
Não sei o que estou fazendo aqui. Eu odeio festas a fantasia. Melhor dizendo, eu odeio festas e ponto. Obvio que a Jess sempre consegue o que ela quer, então cá estou eu com um copo de cerveja na mão e lutando para não tampar os ouvidos contra essa música alta demais.
Mas não posso reclamar. Eu consegui tudo o que vim buscar. Faculdade, amigos, namorada... a vida normal que tanto quis. E de quebra, ainda consegui me libertar do meu pai e sua mania de querer controlar minha vida.
Tudo poderia estar perfeito hoje, se eu não tivesse abandonado a outra metade do meu coração naquele hotel dois anos atrás.
Dean.
A única pessoa que eu sempre soube que poderia contar em toda a minha vida. E o homem que amo mais do que a mim mesmo.
Dou um sorriso sarcástico ao perceber a ironia disso tudo. O único homem que eu quis na minha vida, e que acaba por seu meu irmão.
E esse é o meu segredo mais obscuro. Que tipo de maluco depravado tem esse tipo de pensamentos pelo próprio irmão?
Crescer admirando Dean é tudo que me lembro da minha infância... o modo como ele me colocava o café da manhã, sempre enchendo meu prato com mais cereal que o dele. A forma que prendia o cobertor em volta do meu corpo na hora de dormir. Boa noite, Sammy. Durma com os anjos. O cuidado em pentear meu cabelo, me dar banho e cuidar dos meus machucados... todas as minhas lembranças envolvem Dean de alguma forma. Ele foi o único que deu alguma normalidade à minha vida...
Mas a minha lembrança favorita, foi quando eu tinha por volta dos doze anos e peguei uma gripe muito forte...
—*-
Milwaukee – 1995
— Você ouviu, não é Sammy? Ela disse sim então hoje à noite não vou estar em casa.
É sexta feira e estamos os dois voltando do colégio. Já estamos na cidade há três semanas, o pai está tendo dificuldade com um ninho de vampiros na cidade vizinha. Como sempre, somos apenas eu e Dean.
— Eu já ouvi, imbecil. E para de me chamar de Sammy, eu não tenho mais cinco anos.
Ele dá um sorriso e esfrega meus cabelos, outra coisa que odeio. Me esquivo dele.
— Você sempre vai ter cinco anos pra mim, Sammy. Você é meu irmãozinho.
Entro no quarto de hotel sozinho, enquanto Dean vai buscar algo para comermos. Tenho certeza que ele vai vir com mais do que o necessário para nós dois. Ele tem essa mania de querer que eu coma que nem um urso. Você está pequeno demais, Sammy. Se bater um vento forte, a gente perde você.
Um dia, vou ser maior e mais forte que ele, aí eu quero ver ele me provocar.
Eu planejava fazer logo toda a tarefa que os professores passaram para o final de semana, mas minha cabeça está doendo e meu corpo todo está pesado, então apenas me deito na cama e espero melhorar.
Acho que peguei no sono, pois desperto com Dean entrando cheio de sacolas.
— Comprei sanduíches, bolinho de queijo, asinhas de frango e tortas. Precisamos colocar um pouco de carne debaixo de toda essa sua pele. – ele para ao me ver na cama – o que houve, Sammy? Nunca te vi deitado essa hora.
Não posso dizer que não me sinto bem. Ontem nós brigamos por que eu saí sem avisar e acabei pegando chuva. Ele passou horas dizendo que eu ia ficar doente. Não vou admitir que ele estava certo.
— Estava te esperando, idiota. Tô morrendo de fome.
Para ressaltar o que digo, pego o primeiro sanduíche que vejo na frente e dou uma mordida.
Ótimo. Porco. Tinha que ser porco.
— Esse é o meu, imbecil! — Ele tira o sanduíche da minha mão e me vira para ele – vamos lá, Sam. Eu quero a verdade. O que você está sentindo?
Não sei como ele sempre sabe quando estou mentindo. Resignado, admito que não estou bem.
— É só dor no corpo, Dean. Eu vou comer alguma coisa e deitar. Daqui a pouco já estou melhor.
Ele me encara desconfiado. Juro que ele consegue ler todos os meus pensamentos quando me olha desse jeito. Não aguento sua intensidade e desvio o olhar, focando no meu próprio sanduiche e dando uma mordida, mesmo estando com o estômago um pouco embrulhado. Comemos em silêncio e me deito, enquanto ele vai fazer alguma coisa no carro. Sempre tem algo pra fazer no Impala.
Não vejo quando ele volta, mas acordo a tempo de ver quando ele sai do banheiro pronto para seu encontro. Ele tem estilo, isso eu tenho que dizer. Calça jeans, botas e jaqueta de couro... todos os ingredientes para o visual de bad boy que as meninas gostam... se elas soubessem que ele assiste novela toda noite, talvez o encanto passasse um pouco... se bem que eu sei disso e mesmo assim ainda o admiro.
— Se divirta hoje, Dean.
Tentei parecer animado para ele não ver que eu estava mal, mas minha voz sai rouca e tenho um ataque de tosse que faz com que ele venha para o meu lado.
— Eu disse que você ia ficar doente, porra! – toca minha testa com as costas de sua mão – Viu? Tá com febre! Você sempre sabe como estragar minhas noites de sexta!
Me sinto irritado. Nunca o pedi para cuidar de mim.
— Você não faz nada nas sextas por que não quer! Eu tenho doze anos e posso muito bem me virar sozinho. Não preciso de você pra nada!
Vejo um brilho de mágoa nos olhos dele e me arrependo imediatamente de minhas palavras, mas antes que eu possa me desculpar, ele se vira e pega as chaves do carro.
— Se você pode se virar sozinho, então não tem problema eu sair para meu encontro, não é? Não me espere acordado.
E sai batendo a porta sem me dar chance de falar nada.
Meu peito aperta e sinto meus olhos se encherem. Ele nunca saiu do meu lado quando fico doente. Eu sei que praticamente o mandei embora, mas não imaginei que ele realmente fosse...
De repente meu estômago revira e mal tenho tempo de chegar ao banheiro antes de colocar para fora o pouco que comi mais cedo. Volto para cama me arrastando. Minha cabeça dói demais e não consigo mexer meu corpo sem sentir dor em alguma junta. Os ataques de tosse são cada vez mais frequentes e não sei o que fazer. Não tem remédio aqui. Me enrolo debaixo do cobertor e deixo as lágrimas rolarem.
Eu quero meu irmão do meu lado.
A porta se abre e ouço seu assobio antes mesmo dele entrar. Não tem nem meia hora que ele saiu...
Ouço quando ele coloca coisas em cima da mesa e vem para meu lado. Não quero que ele veja o quanto estou arrasado, então rapidamente enxugo meu rosto no travesseiro e olho para ele.
— O que houve? Levou um bolo?
Ele me olha e toca minha testa de novo.
— A febre tá piorando. Ainda bem que fui buscar remédios. — se levanta e afaga meus cabelos — Tenta se sentar, Sammy. Vou trazer uns comprimidos para você.
Vejo Dean se afastar tirando a jaqueta e ficando apenas com a camiseta de baixo. Então ele começa a mexer nas sacolas que trouxe. Tira uma caixa de comprimidos, xarope, termômetro e pastilhas de garganta. Da outra sacola ele tira um pote de sopa e um embrulho que tenho certeza que é um hambúrguer.
Ele vem para o meu lado com aquele olhar preocupado e enfia o termômetro debaixo da minha língua, enquanto vai buscar água e volta colocando todos os remédios na mesinha de cabeceira. Se senta em sua cama e marca o tempo até pegar o termômetro de volta.
— Trinta e nove, Sam! Quase trinta e novo e meio! Vamos precisar baixar essa febre.
Ele nunca toma nem uma aspirina quando está doente, mas sempre me entope com todos os remédios possíveis quando dou um espirro sequer. Em cinco minutos ele me faz tomar dois comprimidos e um copo de xarope, tira minhas roupas e me coloca debaixo do chuveiro. Meu corpo todo treme, mesmo a água estando morna.
— Sinto muito, maninho. Não posso esquentar mais do que isso senão não vai adiantar nada.
Mais cinco minutos e já estou seco, vestido e debaixo das cobertas, recostado no travesseiro com ele me dando sopa.
— Eu posso comer sozinho. — estou envergonhado do quanto sou dependente dele — Não precisa me tratar como um bebê.
— Aí o idiota derrama sopa na cama e vai precisar dormir comigo. Essas camas são pequenas demais, Sammy. Não vou arriscar. Vamos, abra a boca. Ou quer que faça aviãozinho?
A contra gosto deixo que ele me alimente. Fico observando sua expressão concentrada e pela primeira vez, o analiso profundamente. Seu rosto é anguloso e possui uma mandíbula forte, mesmo com apenas dezesseis anos. Seus lábios parecem úmidos e... macios. Seus músculos do braço forçam a manga da camiseta e ondulam quando se move com a colher na minha direção. E o modo como ele quase abre a boca junto comigo quando recebo a sopa, é bem fofo pra dizer a verdade... acho que posso entender por que as meninas se jogam aos pés dele... ele é mesmo um cara bem atraente, se é que posso dizer isso do meu próprio irmão.
A sopa acaba e ele ergue os olhos, me dando um sorriso leve que nunca o vejo dar pra ninguém. Esse sorriso é só meu e sempre me faz sentir amado. Retribuo de leve.
— Viu? Nem doeu, não é? Agora deita e descansa. Vou comer rapidinho e estarei na cama do lado se você precisar. Tenta dormir, Sammy.
Me cubro até as orelhas e fico escutando enquanto ele mastiga. Ainda não posso acreditar que ele voltou para cuidar de mim mesmo depois da merda que falei pra ele... Ouço quando ele vai escovar os dentes e logo sua cama se afunda.
— Ainda não estou ouvindo seus roncos, Sammy.
— É por que eu não ronco, imbecil.
Ele não responde, mas escuto seu riso baixo. Ele fica trocando de canal e para em algum filme de ação cheio de tiros e explosões. Gosto de ver seu perfil, e me sinto um pouco agitado quando ele passa a mão no cabelo e lambe o lábio inferior olhando pra TV. Ele faz isso o tempo todo, quase como um tique.
— Ei, Dean... – ele permanece calado, mas se vira para minha cama me dando atenção – por que você não foi no seu encontro? Algumas horas sozinho não iriam me matar...
Dean não responde de imediato. Acho que ele está decidindo de mereço uma resposta... por fim, parece que decide que sim.
— O que adiantaria eu sair com uma garota qualquer se iria ficar o tempo todo preocupado com você, Sam? Algumas horas sozinho talvez não te matasse, mas os trinta minutos que levei indo e voltando da farmácia quase me mataram... Você é tudo que eu tenho, Sammy. E você pode ser um pé no saco quando quer, mas eu nunca vou te abandonar doente só pra ter um pouco de farra com uma menina. Eu sei que você não é mais um bebê. E sei que você precisa menos de mim a cada dia que passa... você logo vai ser um homem, Sammy, mas você sempre vai ser meu irmãozinho e eu vou cuidar de você até o dia que eu morrer.
Não respondo, mas essas palavras nunca mais vão sair da minha cabeça. Vejo como ele volta sua atenção para a TV sem se preocupar em esperar uma resposta. Eu tenho que falar alguma coisa mas meus olhos estão pesados agora, então me permito adormecer.
Acordo algumas horas depois com Dean me levando pra sua cama e tirando minha blusa.
— O que...
— Shhh, Sam. Sua roupa está ensopada de suor e sua cama também. Mas isso é bom... Sinal que a febre está baixando.
Ele me coloca uma blusa dele. Acho que não encontrou outra no escuro e eu fico feliz, meio que gosto de sentir seu cheiro ao meu redor. Me lembra de quando ele me segurava a noite toda quando eu era bem pequeno e ficava cantando um monte de coisa sem sentido porque não sabia nenhuma canção de ninar.
Então ele se deita do meu lado e se vira para mim, mexendo no meu cabelo.
— Dorme mais um pouco. Daqui a pouco vou te dar mais remédio.
— Dean... você disse que a cama era pequena demais...
— E é mesmo. Minha bunda vai pegar uma friagem de tão pra fora que está, mas você não vai ficar naquela cama molhada. — ele me da um soco de leve no ombro, mostrando que é bincadeira — Eu não me importo de dividir, Sammy. Boa noite.
— Me desculpe, Dean... por ter saído na chuva ontem... por não ter te escutado... por ter atrapalhado seu encontro... e por ter falado as coisas que falei hoje...
— Nossa, cara. Esquece essas bostas, ou então eu vou lembrar que tenho que ficar com raiva de você.
Ele abaixa e beija o lado da minha cabeça. Já tem anos que não faz isso... Era assim que ele se despedia de mim toda noite quando me colocava para dormir.
— Volta a dormir, Sammy. Eu tô cuidando de você.
Me viro e grudo meu rosto em seu peito, segurando a camisa na altura de sua cintura. Quando tinha um pesadelo, sempre dormia na cama de Dean com o rosto enfiado no seu peito. O cheiro dele sempre me trouxe paz. E sentir seus dedos em meu cabelo me deixava saber que ele estaria ali para afastar qualquer perigo.
— Dean... não importa quantos anos eu tenha... acho que eu sempre vou precisar de você.
— E eu sempre vou estar aqui, Sammy.
—*-
Stanford – 2005
— Ei, Sam! Você parece estar no mundo da lua.
Sacudo minha cabeça, afastando as lágrimas que encheram meus olhos. Sinto falta do Dean. Quero sentir seu cheiro de novo... já quase esqueci o tom de sua voz...
Preciso me recompor. Jess ainda está esperando uma resposta.
— Desculpa, Jess... estou pensando na entrevista de segunda feira.
— Não se preocupa, bobo! Vai correr tudo bem... – ela me da um estalinho – alguém busca mais uma cerveja para ele! Hoje vamos comemorar.
Não vejo qual dos meus amigos sai para pegar a bebida, mas logo está de volta com a caneca transbordando.
— Pronto, Sammy! Aí sua cerveja.
— Não me chama de Sammy, cara. Ninguém tem permissão de me chamar assim.
Exceto meu irmão.
Bebo quase metade da caneca em apenas uma virada. Ainda não parei de pensar nas lembranças... ainda bem que aqui está escuro... essa especificamente sempre me deixa emocional.
Isso foi há dez anos, mas nunca vou esquecer de cada segundo daquele dia. Seria impossível esquecer, mesmo se eu quisesse...
Aquele foi o dia em que me apaixonei pelo meu irmão.
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