Eternamente

8 Às claras


Notas iniciais
E aí, pessoal! Mais um capítulo saindo do forno! Fiz apenas uma revisão superficial, então me avisem caso tenha algum erro. Principalmente se for gramatical! Boa leitura.

Minha cabeça lateja tanto quanto se eu tivesse passado três dias bebendo.

Acredite, eu já passei três dias bebendo e sei exatamente como se sente depois.

— Sam! Você está por aí?

Nada.

Começo a apalpar meus bolsos o máximo que posso com as mãos amarradas atrás do corpo. Eu sei que tenho um canivete, mas não sei se o filho da puta me revistou ou até se consigo pegar caso ele ainda esteja ali...

Ouço um barulho abafado seguido de um gemido.

— Sam! É você?

— Dean! Por favor, me diz que você não é um metamorfo.

Que?

— Olha Sam, por que você não para de falar merda e tenta vir aqui me ajudar?

— É... parece que é você mesmo...

Ouço barulhos de arranhões e de metal batendo contra metal. Depois de um tempo, vejo Sam aparecer no meu campo de visão do lado esquerdo, dando pulinhos em uma cadeira onde esta amarrado.

Quando ele chega perto, me movo da mesma forma que ele até estarmos de costas um para o outro.

— Eu tenho um canivete no bolso, Sam. Tenta alcançar.

Sinto suas mãos apalpando o cós da minha calça e descendo.

Porra. Isso não foi boa ideia...

— Dean, não tem nada aqui.

— Tem sim! Eu estou quase sentado em cima. Agora que me mexi, estou sentindo. Enfia a mão até o fundo do bolso, Sam. Não é como se você nunca tivesse pego na minha bunda...

É a primeira vez que insinuo que ele já me viu nu, desde o dia em que ele me mandou embora. Não sei se Sam vai ficar irritado com isso e me preparo para pedir desculpas, quando sua mão entra pelo meu bolso e vai descendo. Meu corpo inteiro se arrepia ao sentir seu toque.

Infelizmente, acaba rápido demais.

— Peguei.

Em questão de segundos estamos ambos soltos e nos alongando para aliviar os músculos.

— Dean, ele disse que ia atrás da Rebecca! Precisamos ir pra lá antes que ele a mate.

Sem termos muito tempo para pensar em um plano, corremos para a casa da amiga do Sam, mas dessa vez não precisamos fazer qualquer coisa, pois a polícia chegou antes dele poder matar a moça e o mataram. Me mataram.

Até que foi legal poder presenciar minha própria morte...

Agora estou aqui no carro, esperando enquanto Sam se despede de Becky. É muito estranho vê-lo descontraído na presença da colega de faculdade... na minha frente ele sempre está mais tenso do que cordas de violão... às vezes me sinto um filho da puta por tê-lo tirado desse ambiente que ele claramente amava, para trazê-lo em uma jornada que o coloca em risco dia após dia.

Desde o caso da Blood Mary, me sinto com medo de pegar outro caso... em todos os anteriores eu ficava me colocando propositalmente no caminho do perigo, para poder afastá-lo do risco. É bem simples... se eu morrer, sei que ele se vira sozinho, mas se ele morrer, eu nunca seria capaz de viver sem ele. Então era o mais lógico a fazer.

Mas no caso da Blood Mary, quase que morremos os dois... Não sei como fazer para voltar a pegar um caso sem me apavorar com o risco que Sam vai correr. Mas sei que preciso vencer esse medo, pois nós meio que somos ímãs de monstros... Espero que as coisas melhorem conforme nós formos pegando novos casos...

— Dean! Cara, para de viajar no país das maravilhas e dirige!

Nem percebi que ele tinha entrado no carro.

Dou partida e pegamos a estrada. Não se passa nem meia hora antes dele falar, o que é estranho, pois ultimamente as únicas palavras nas nossas viagens de carro são aquelas que saem do rádio.

— Dean, o metamorfo se transformou em você e veio falar comigo antes de ir atrás da Becky...

Mas que merda! Se ele encostou um dedo no meu irmão...

— O que ele fez com você, Sammy?

— Nada, Dean... ele só falou comigo... mas parece que quando se transforma em outra pessoa, ele consegue ter acesso à suas lembranças e pensamentos... então ele falou muita merda sobre nós dois...

Meu sangue gela nas veias... isso nunca vai me deixar em paz... estou há meses fingindo que nada aconteceu, escondendo meu tesão, agindo como se fôssemos apenas irmãos em uma viagem, e aí vem uma criatura maldita e trás tudo à superfície novamente...

— Escuta, Sam... Não era eu. O que quer que ele tenha falado, você precisa ignorar. Nós já tivemos essa conversa antes e eu prometi não tocar mais no assunto daquele final de semana. Então vamos apenas seguir nossa vida e esquecer isso.

Ele não fala mais nada e eu tampouco me pronuncio, agradecido por deixar o assunto no passado, onde ele pertence. Tenho medo de acabar falando algo que piore as coisas...

Já estamos há horas na estrada e planejo parar no próximo hotel que apareça, mas estamos realmente no fim do mundo agora... tem mais de duas horas que não passamos por algum carro ou sequer qualquer traço de civilização. Parece que essa vai ser uma das noites que vamos ter que dormir no carro... se for ver pelo lado bom, pelo menos hoje não está frio.

— Encosta o carro, Dean!

Levo um susto tão grande com sua voz elevada, que encosto o carro sem pensar, quase adentrando as árvores à nossa direita.

— Mas que porra, Sam! Quer me matar do coração?

Ele não me responde, apenas sai no carro, batendo a porta e se encosta no capô de braços cruzados. Não vejo outra saída a não ser ir falar com ele, apesar de já imaginar o rumo que essa conversa vai tomar... infelizmente, quando Sam coloca uma coisa na cabeça ninguém tira, então é melhor arrancar logo o esparadrapo com um puxão.

Deixo o farol aceso pra ter alguma luz ao redor e saio apreensivo até ele.

— Ok, Sam. Coloca pra fora. Fala tudo que você quiser, eu vou escutar e até vou responder suas perguntas se você tiver alguma, mas depois por favor, a gente pode ir embora e esquecer tudo isso?

Ele não me olha. Não age como se tivesse escutado. Apenas fica olhando para a escuridão da floresta por vários minutos, até que abre a boca.

— Dean, me diz uma coisa. Com quantas mulheres você dormiu desde que deixamos Stanford?

Oh, merda! Tanta coisa pra perguntar e ele começa com isso?

— Sam, isso não é da sua conta. O que eu faço nas minhas noites livres não te interessa.

Por favor, muda de assunto!

— Me interessa sim, Dean. Você acha que não? Você me larga sozinho em uma merda de quarto de hotel e sai por horas atrás de algum rabo de saia, e aí chega de madrugada fedendo a bebida e perfume de prostituta barata. São quatro meses agindo assim, Dean, e eu não te perturbei com isso nenhuma vez, mas agora eu vou.

— Me desculpe se isso te incomodou. Nos últimos dois anos tenho ficado sozinho nos quartos de hotel. Você sabe que o pai não divide quarto desde que nós crescemos o suficiente para não enfiar o dedo na tomada. Eu me acostumei a sair a hora que quero e voltar a hora que quero. Não achei que isso iria te incomodar. Na verdade, da última vez me lembro muito bem de você me mandando embora do quarto.

Agora finalmente consegui sua atenção. Ele desencosta do capô, dá dois passos para a frente e se vira para mim, irritado e com os braços abertos.

— O que você queria, Dean? Minha namorada tinha acabado de morrer! Me desculpe se eu não estava em condições de iniciar um relacionamento sexual com meu irmão!

— Ah, seu filho da puta! Quando foi que eu te pedi isso? Eu vi a menina queimando no teto! Eu te arranquei de lá! Eu estava contigo quando você tentava se manter inteiro enquanto respondia as perguntas da polícia e do bombeiro! Eu vi seu sofrimento, Sam, e eu nunca tentaria nada com você naquele estado! Eu fiquei do seu lado e fiz o melhor que pude pra cuidar de você... mesmo depois de você me chamar de coisas horríveis e falar que meus sentimentos são doentios! Mas adivinha, Sam! Eu já sabia disso! Eu sei que isso é doentio desde os meus dezenove anos, porra! E eu tô tentando ser só seu irmão, já que você quer isso... mas sabe de uma coisa? Eu não te devo satisfações sobre com quem eu durmo ou deixo de dormir. Se você quiser, no próximo hotel podemos pedir quartos separados e você não vai se incomodar com o cheiro de bebida nem de perfume. E eu também não vou precisar sentir seu cheiro vinte e quatro horas por dia me torturando!

Estamos os dois frente a frente, uns dois pés de distância, nos encarando irritados. Ele fecha os olhos e respira fundo, acho que está contando até dez. Odeio quando ele faz isso!

— Quantas mulheres, Dean?

— Vai se foder!

Me viro e vou voltar para o carro, mas sua mão agarra meu antebraço com força, me girando. Estou olhando dentro dos seus olhos, que nesse momento parecem mel derretido com o farol brilhando neles. Fecho meus próprios olhos.

Por favor, eu não posso lidar com isso agora.

— Me responde! Quantas mulheres?

— NENHUMA, PORRA! Tá satisfeito? Eu não estive com nenhuma mulher desde semanas antes de te encontrar em Stanford! Não que isso seja da sua conta.

Puxo meu braço com força, mas ele não me solta. Porra! O que que um cara precisa fazer para ter um pouco de paz?

Me rendo, olhando para o chão

— Me solta, Sam. Eu já respondi sua pergunta.

— Por que, Dean?

— Por quê? Porque eu quero entrar na porra do carro e procurar a porra de um hotel! Por que mais eu mandaria você me soltar?

— Não se faz de imbecil! Por que não teve nenhuma mulher, Dean? Peraí! Foram homens? Você dormiu com quantos homens?

— Seu merdinha! Você acha que só por que dormi com você um final de semana, eu ia sair por aí dando o rabo pra qualquer pau que quisesse me comer? O que você acha que eu sou?

Agora ele foi longe demais... eu tenho clamado por ele esses quatro meses, sem contar os últimos sete anos! Como ele pode sequer insinuar que estive por aí com outros homens? Estou gritando com ele, mas o buraco no meu peito voltou a sangrar... ele percebe isso em meu rosto, tenho certeza... não consigo disfarçar a mágoa que estou sentindo agora.

— Dean, eu... me desculpe... eu falei sem pensar.

— Não peça desculpas, Sam... Você quis dizer cada palavra... Você quer saber porquê não dormi com qualquer mulher nesses quatro meses, Sam? Eu vou te dizer... é por que eu sou a porra de uma aberração! Você não poderia ter usado palavras melhor pra descrever... – ele solta meu braço e eu começo a andar enquanto falo – antes de tudo, era fácil fingir que não reparava no seu corpo sem camisa quando saía do banho, ou no suor escorrendo depois de lutar contra alguma coisa... era fácil ignorar seu cheiro e ir pra rua procurar um par de peitos qualquer pra afundar minha necessidade... aí você foi embora e eu aprendi a viver sem você... mais ou menos... não era fácil, eu sentia sua falta como se faltasse um pedaço de mim... mas eu segui em frente e só procurava uma mulher quando minha mão não era suficiente... não preciso dizer que não precisava com muita frequência.

Paro de frente para a floresta e respiro ofegante. Nem percebi que não estava respirando o suficiente. Estou pensando em como continuar a falar sem estragar o pouco que recuperamos nesses meses, mas agora que comecei, não quero mais parar.

— Depois de ter você por um final de semana inteiro, eu não consigo nem imaginar como seria estar com uma mulher de novo! – tomo coragem e me viro, caminhando de volta até estar a centímetros de distância dele – Eu tive o que eu mais queria com você, Sam... mas passou, eu sei, você deixou bem claro... e você não tem ideia da tortura que é estar ao seu lado dia após dia e ter que fingir que nada aconteceu... eu não consigo... não quando só de fechar os olhos eu vejo cada minuto daqueles dias... a porra do seu cheiro está impregnado em cada centímetro daqueles quartos e eu ainda sinto seu gosto nos meus lábios! Então eu saio e bebo, Sammy! Eu bebo até não sentir mais seu gosto em minha boca. E eu recebo dança de colo de quantas prostitutas eu consigo, até parar de sentir seu cheiro me rodeando. E então eu simplesmente volto para o hotel... porque depois de ter estado com você, o meu pau não se mexe mais pra nenhuma dessas mulheres.

Abro meus braços e olho dentro de seus olhos, mesmo que os meus estejam tão embaçados que não posso enxergar direito.

— É isso, Sam. Era o que você queria? Que eu abrisse minha alma? Esse é seu irmão patético, te contando como a vida dele ficou patética. Será que agora podemos parar com o bate papo e entrar na droga do carro?

Ele não se move, apenas continua me olhando. Não consigo decifrar exatamente as emoções que passam por seus olhos. Vejo frustração, mágoa... um pouco de raiva...

Sem que eu tenha tempo de reagir, sou agarrado pela nuca e ele encosta nossas testas uma na outra.

— Você acha que é só a sua vida que está uma merda, Dean? Você acha que para mim é fácil? Passar horas dentro dessa merda de carro, te olhando, sentindo seu cheiro, querendo poder arrancar sua roupa e lamber cada centímetro de pele que se esconde por baixo de todo esse pano? Você acha que é fácil ouvir dia após dia você tomando banho pra ir pro bar? Ficar no quarto morrendo de ciúme imaginando você beijando uma mulher, entrando no corpo de outra pessoa que não seja eu! Você já parou pra pensar em como me corrói ouvir você entrando de madrugada e sentir o cheiro dessas prostitutas? Você acha que sua vida é patética, mas esse troféu eu ganho, maninho!

Agora ele me empurra para trás e começa a avançar, ira brilhando em seus olhos, dedo em riste espetando meu peito num gesto acusatório.

— Mas aí, o filho da puta de um metamorfo vem me dizer que você não está dormindo com nenhuma mulher, que você se masturba pensando em mim, e outras coisas que deveria ser você me falando! Você tem agido como o perfeito irmão mais velho, Dean, e eu me torturando por não conseguir ser apenas o irmão mais novo! E era tudo fingimento! Você odiava essa situação tanto quanto eu e nunca me disse!

Agora sou eu quem o empurra com as duas mãos espalmando seu peito.

— VOCÊ QUIS QUE FOSSE ASSIM! VOCÊ PEDIU PRA EU IR EMBORA! VOCÊ NÃO AGUENTOU ESSA SITUAÇÃO!

— EU ESTAVA CONFUSO! EU ESTAVA SOFRENDO! Mas depois, você levantou a porra da Muralha da China ao seu redor e não dava nem para eu tentar entrar!

— E POR QUE VOCÊ ACHA QUE EU PRECISEI DE UMA MURALHA, EM PRIMEIRO LUGAR? Como eu ia lidar com o que eu sinto por você, Sammy, quando tudo que você queria era me afastar de novo?

Agora estou prensado na porta do carro, com o corpo maior quase grudado em mim. Quando foi que meu irmão virou a porra de um gigante?

Ele respira fundo e me olha. Seus olhos refletem a dor dos meus. Pela primeira vez em meses, deixo minha muralha baixar um pouquinho e o permito ver meu sofrimento. Quando fala, sua voz está tão suave que quase não consigo ouvir por baixo da minha respiração.

— Me desculpa, Dean... nada do que eu falei aquele dia era verdade... eu não conseguia lidar com o medo de te perder... não consigo nem imaginar um dia entrar em um quarto e ver você grudado no teto! Isso me mataria! Eu iria morrer junto contigo, Dean! – envolvo seu rosto com minhas mãos pronto para dizer que isso nunca aconteceria, que eu sempre vou estar aqui, mas ele continua – Sentir o que eu sentia por você quando tinha doze anos era quase normal... apenas uma paixão de criança... crescer e continuar sentindo aquelas coisas me deixou confuso... e depois, dormir nos seus braços no dia da morte da Jess... isso me marcou profundamente... eu percebi que não importa quanto tempo passe, eu me apaixonei por você quando tinha doze anos e isso nunca foi embora, só vem crescendo até hoje...

Peraí... o quê?

— Dean, eu te amo. Me desculpa por ter te machucado... mas eu juro que não vai se repetir... eu te amo tanto que nem sei como respirar sem você...

Oh, merda! Puta que o pariu! Eu devo estar ouvindo coisas...

Cada pedacinho da minha muralha está se despedaçando agora e não sei se consigo — ou se quero — restaurar isso...

— Você me ama, Sam? Você realmente me ama? Por que não vou aguentar se eu me abrir e mergulhar nisso de novo e depois você me chamar de...

Porra! Ele não me deixou nem terminar!

Que se dane! A boca dele na minha é a única coisa que importa agora...

Merda! Como eu senti falta desse beijo!

Notas finais
Bem, é isso... as pazes terão que ficar para o próximo capítulo! xD Pretendo lançar o próximo ainda essa semana. Beijocas