Estágios da Perda
1 Negação
I
NEGAÇÃO
OLIVER MCCLARIE
Karen e Oliver McClarie.
O primeiro encontro de ambos não ocorrera de modo tão romântico quanto os livros da época idealizavam.
Karen era a família mais próxima de Lena Moore, a primeira noiva dele, e fora escolhida para ser a nova Sra. McClarie.
Alguns anos antes, Karen prometera a si mesma que não nutriria sentimentos por homens.
Não se apaixonaria.
Não se tornaria dependente.
Como imaginava que todas as mulheres se tornavam após apaixonarem-se, novamente assim como os livros da época idealizavam que a noiva, esposa perfeita deveria ser.
Mas, tudo, suas barreiras, seus muros de pedra, todas suas proteções caíram assim que ela o viu pela primeira vez.
Não pela beleza que ele possuía.
Claro, ele era muito belo com seus cabelos negros como a noite levemente bagunçados, a pele alva e aparentemente macia, as feições suaves, encantadoras, e seus olhos.
Os olhos dele foram o que mais chamou atenção dela. Eram belos naquele tom azulado que parecia apenas a um decimo de tornar-se negro. Ela nunca tinha visto olhos assim.
Mas não foi seu tom escuro que chamou a atenção dela, mas a mistura de sentimentos que estava ali.
Ele parecia estar quebrado.
E aquilo despertou um lado protetor que Karen nem ao menos sabia ter.
Aquilo despertou um lado carinhoso que ela não imaginava existir.
Podemos dizer que foi “amor à primeira vista”.
Um tanto irônico, não?
Karen se manteve próxima. Oliver não tentara fugir.
E aos poucos as coisas se acumulavam e a relação de ambos aumentava cada vez mais. Primeiro passaram de desconhecidos para amigos, de amigos para melhores amigos, de amigos para confidentes, de confidentes para apaixonadas, e enfim tornaram-se um casal.
Uma cerimônia grande fora preparada pela mãe da noiva.
Fora tudo magico.
Vestido branco.
Lagrimas de felicidade e sorriso radiante.
“Sim” honesto.
E um beijo casto.
Estavam casados.
Viviam entre o amor.
E mesmo com tudo aquilo, aquela fagulha de tristeza, aquela fagulha de negação se mantinha nos olhos dele, e aos poucos ela aprendera a identificar tais sentimentos pelas ações dele também.
E certa noite ela perguntou o porquê.
-Oliver!?
-Hummm? -Desviou o olhar do livro que segurava, sua face estava serena e relaxada, e ao virar para ela um pequeno sorriso surgira em seu rosto.
-Como seus pais morreram? -Oliver nunca tocara no assunto “Morte dos pais e de Lena”.
-Não acho que devemos falar sobre isso, Karen... -Iniciou o monologo de sempre que ela tocava no assunto, o que só acontecera três vezes desde que haviam se casado.
-Eu quero saber Oliver, não acha que tenho esse direito como sua esposa?
-Minha esposa, não minha mãe.
-Sua esposa, Karen MCCLARIE, e merece saber como minha ANTECESSORA veio a partir desse mundo. -Ressaltou tanto o sobrenome quanto o fato de que fora antecedida por Sarah McClarie
-Tudo bem. -Suspirou derrotado. Uma expressão irritada e um tanto triste lhe dominava o rosto, e ele recomeçou a falar com certa aspereza. -Era o aniversário de onze anos de minhas irmãs mais novas, as gêmeas Arya e Anna, e além disso nossos pais também comemoravam a descoberta de uma nova gravidez. Alguém gritou, várias pessoas entraram e a matança começou.
Eu, Arya e Anna conseguimos escapar do salão mas fomos capturados logo em seguida. Cada um de nós foi levada para uma carruagem. Eu estava inconsciente por um tempo que nem mesmo posso contar. Quando acordei consegui escapar, corri por um longo tempo, até que encontrei uma vila velha, e por metade abandonada, fui acolhida por uma velha senhora, chamada Daphne. Passei uma ou duas semanas por lá, antes de enfim conseguir por meio de ajuda dessa senhora voltar para casa.
-Você nunca me contou que tinha irmãos.
-Você nunca me contou que era tão curiosa. -Fora em tom de brincadeira, mas a tristeza parecia consumir cada vez mais seus olhos azulados.
Ela abraçou-lhe com toda força que podia.
E beijou-lhe.
Dormiram abraçados naquela noite.
Meses depois, no retorno inesperado das irmãs de Oliver, Karen via aquele mesmo olhar quebrado no rosto das crianças. E imaginou o quão traumático tudo aquilo fora para Oliver, Arya e Anna.
Após algum tempo era via-os melhorarem aos poucos.
Mas havia aquela sombra.
Como um fantasma do passado.
Um fantasma que perseguia Oliver de maneira irracional.
Um fantasma que Oliver, Arya e Anna compartilhavam
Os três irmãos: Arya, Anna e Oliver era muito próximos na infância.
Pareciam destinados a ser do mesmo jeito na vida adulta.
Arya e Anna ririam e se irritariam levemente pelo ciúme repentino do irmão.
E Oliver se irritaria pelos noivos que os pais arranjariam para elas duas.
Seriam sempre unidos.
Se reuniriam aos domingos na casa central.
Oliver, a esposa e filhos (prováveis um menino e uma menina, nesta ordem).
Anna, o marido e filho (a garota declarava na infância querer ter apenas um menino ou menina)
Arya o marido e filhos (já a outra gêmea desejava ter gêmeos).
Mas, um acidente destruiu essas esperanças.
Pelo menos uma parte delas.
Afinal mesmo que tivessem filhos, esses nunca conheceriam os avôs.
Nunca conheceriam o gosto das receitas de Sarah McClarie.
Nem as brincadeiras de Andrew McClarie.
Tudo seria diferente.
As duas realidades eram polos opostos.
E eles estavam destinados a seguir pela mais triste delas.
Anna e Arya haviam feito suas escolhas.
Oliver havia feito suas escolhas.
E Karen faria suas próprias escolhas para o bem-estar daquela família.
Mesmo com escolhas um tanto precipitadas.
Naquela tarde quando Oliver, Anna e Arya retornaram de uma reunião com a Rainha, viram algo diferente na Mansão.
Um enorme quadro exposto para todos na bifurcação entre as escadas.
Um quadro apresentando uma família feliz.
A mulher sentada numa poltrona com estofado arroxeado sorria, os cabelos negros presos num coque elegante, os olhos azuis escurecidos pareciam brilhar.
O homem com uma das mãos no ombro direito da mulher também sorria os cabelos loiros elegantemente penteados, e os olhos azuis esverdeados lhe davam um ar refinado.
A frente do homem havia um menino que tinha a outra mão do homem em sua cabeça, seus cabelos e olhos haviam sido herdados da mãe, mas o resto de seus traços eram extremamente semelhante aos do pai, carregava um sorriso travesso na face
A frente da mulher haviam duas garotinhas idênticas, ambas loiras como o pai, e o resto de seus traços herdados da mãe. Ambas tinham sorrisos brincalhões nas faces alegres.
A família McClarie.
A antiga família McClarie.
Aquela pintura, eles sabiam, fora feita a pouco menos de um ano, mas as doces lembranças daquela tarde de primavera pareciam tão distantes quanto possível.
Porque Oliver não era mais apenas uma criança, o herdeiro dos McClarie.
Porque Oliver era um homem, o Conde McClarie.
Porque Arya e Anna não eram mais apenas crianças, as caçulas dos McClarie.
Porque Arya e Anna eram adultas agora, as Condessas Winter e Brown.
As noites que se assustavam e pediam conforto aos pais haviam se passado.
As tardes alegres em família já não mais existiam.
Porque mesmo sem notar eles se afastavam cada vez mais.
Sem perceber que deveriam apenas se aproximar mais.
Horas depois quando Karen retorno de uma ida as compras, viu o quadro que ela pedira para ser exposto ali, havia sumido sem deixar vestígios.
Ela sabia perfeitamente quem havia ordenado que ele sumisse.
Os irmãos McClarie.
Que pareciam não querer vestígio nenhum da existência de Sarah e Andrew McClarie.
Esses nomes sempre foram coisas que Oliver gostava de se manter distante de citar.
Quando conhecidos antigos perguntavam sobre como era sua relação com eles, ele encobria o assunto citando negócios.
Quando Karen perguntava sobre eles, ele encobria falando sobre a família que eles aos poucos formavam.
Não importava qual a situação.
Ele sempre conseguia fugir de falar sobre os pais.
Mas naquela tarde ele não conseguira.
Uma única vez.
Estava sentado na biblioteca, lia com atenção as palavras contidas no livro de capa grossa com aparência velha.
Era uma bela cena.
Que Karen sabia que iria estragar, mas Oliver não podia continuar fugindo daquele assunto.
Mesmo que essa fosse à vontade dele.
-Oliver...
-Sim, Karen? -Perguntou com certa impaciência na voz. Sabia perfeitamente o que ela iria perguntar, não seria ela se não perguntasse.
-Sabe que dia é hoje?
-15 de fevereiro. -Falou já colocando o livro sobre a mesinha a sua frente. Mesmo que estivesse determinado a se desviar mais uma vez daquela conversa, sabia que dessa vez seria mais difícil.
-Hoje é o aniversario de casamento de seus pais.
-Seria. -Corrigiu, tentado a reiniciar sua leitura.
-Oliver, conte-me...
-Já lhe contei como eles morreram Karen -Lembrou, olhando para baixo.
-Conte-me como era a relação de vocês.
-Que sentido isso tem?
-Apenas conte-me Oliver.
-Certo. Nos dávamos bem.
Ele se sentiu tentado a rir, pela careta que Karen fez diante de sua resposta.
-Oliver estou falando sério.
-Tudo bem. Eu era muito próximo de minha mãe, mas ainda mais de meu pai.
-Oliver, você sente falta deles?
-Sim e não.
-Como?
-É, simplesmente confuso.
Karen abraçou-o, se arrependendo de fazê-lo lembrar, provavelmente, da última noite que passou com os pais.
Porque Oliver se negava a lembrar.
Porque Oliver se negava a falar.
Porque Oliver se negava a aceitar.
Aceitar que simplesmente deveria falar sobre aquilo.
Que deveria lembrar com carinho e não com magoa.
Porque Oliver estava preso na negação a aceitação.
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