Estágios da Perda
2 Culpa
Notas iniciais
II
CULPA
ANNA MCCLARIE
As gêmeas McClarie.
Unidas de uma maneira inquebrável.
Faces e pensamentos idênticos, certo?
Não.
Anna e Arya não eram tão iguais quanto muitos imaginavam.
Por mais que em aparência fossem reflexos, elas tinham suas diferenças.
E mesmo assim tinham uma relação invejável.
Mas,...
E antes?
Quando pequenas de certa forma se negavam a aceitar que fossem tão parecidas.
A medida que cresciam se apegavam cada vez mais uma a outra.
E quando tiveram que amadurecer rápido demais sua relação não se desestabilizou apenas evoluiu de uma maneira quase sobrenatural.
Se na infância desejavam diferenças, depois desejavam apenas ver mais de si mesma uma na outra.
Certa noite, meses e meses antes do acidente, estavam as duas encarando-se diante de um espelho.
Arya, com seus cabelos esbranquiçados soltos corria os olhos pela imagem da irmã.
Anna, com os seus dourados presos numa trança tinha seus olhos focados no reflexo de Arya.
Tentavam perceber diferenças além do tom do cabelo em si mesmas. Quando eram pequenas (do nascimento até os quatro anos, relatavam os pais) seus cabelos tinham um tom exatamente igual.
Mas a partir de então enquanto os de Arya apenas ficavam mais claros os de Anna ganhavam mais brilho.
Quem lhes garantiria que seus cabelos não voltariam a ser iguais a vida adulta?
Ao longe Sarah McClarie observava as filhas com um sorriso no rosto, tanto elas quanto Oliver eram seus tesouros. Ela lembrava perfeitamente da primeira vez que os vira. Enquanto Oliver nascera numa noite tão tempestuosa quanto seus olhos, as gêmeas haviam nascido numa manhã fria, em que mesmo assim o sol brilhava.
Arya então sorriu e Anna retibruiu.
O assunto fora esquecido temporariamente, voltaram a brincar, como as inocentes crianças que eram alheias a tudo que no futuro delas as aguardava.
–Me escutou, milady? -A voz de Esther fez com que Anna saísse de seu estado de quase inconsciência e suspirasse audivelmente.
Sua cabeça doía, e sua visão aos poucos se tornava turva. Tonta apoiou-se na mesa, e com a voz fraca pediu ajuda para a mulher.
Piscou repetidamente.
Reparou que não estava mais no escritório e sim em seu quarto, recebendo olhares preocupados de todos.
–O que houve? -Perguntou, encolhendo-se ao sentir sua cabeça recomeçar a doer.
–Parece que você teve uma crise de enxaqueca e acabou desmaiando, Srtª. McClarie. -Falou um homem, que provavelmente seria médico, se retirando do quarto.
Anna se surpreendera, não tinha uma crise de enxaqueca desde antes do último aniversario que comemorara com os pais. Fechou os olhos com força desnecessária, parecia que até mesmo pensar fazia sua cabeça estar um passo mais perto de explodir.
–Sua cabeça ainda dói?
–Sim. -Sussurrou baixo. Abrindo novamente os olhos. Procurando, involuntariamente, a presença dos pais.
Fechou-os novamente. E aos poucos adormeceu novamente.
“Estava num espaço enorme, sem gravidade aparente, já que ela flutuava. Tudo a sua volta era branco.
Quando vultos negros começaram a surgir, os dois vultos a frente, tiraram o que pareciam ser capuzes dos rostos.
–Anna... -A voz daquele ser com a face estranhamente semelhante ao do seu pai começou.
–Anna... -Era a voz de sua mãe agora.
–SALVE-NOS...”
Abriu os olhos rapidamente, piscando repetidas vezes logo em seguida, até acostumar-se com a alta iluminação do lugar.
–Papai, mamãe. -Sussurrou numa mistura de confusão e tristeza. Suspirou aliviada ao perceber que sua cabeça parara de doer, “ao menos isso” pensou.
Arya estava adormecida ao seu lado, e não havia sinal de outra presença no quarto senão a delas duas. Balançou de leve a irmã, Arya sempre tivera o sono mais leve que o seu e qualquer movimento fazia com que ela acordasse. Sempre atenta, como um gato.
–O que houve? -A albina perguntou, sentando-se.
–Eu tive um pesadelo. -Anna murmurara se abraçando a irmã, que retribuía o gesto.
–Sobre eles?
–Sim.
Ambas as gêmeas se encaravam, nunca havia precisado de palavras, não precisariam agora.
Arya sabia que aquela noite afetava a irmã.
Anna sabia que aquela noite afetava a irmã.
De maneiras claramente diferentes, mas afetava.
Anna de certa forma se sentia culpada pelo acontecimento.
Ela não se martirizava culpando-se a cada segundo por aquilo. Sabia que os verdadeiros culpados haviam sido os que haviam ordenado o assassinato dos McClarie e de familiares próximos, mas sentia que pelo menos um terço da culpa era sua.
Um irmão mais velho super- protetor.
Era isso que Oliver McClarie era para ambas as irmãs mais novas em certo momentos.
Haviam se passado incontáveis semanas desse o incidente da crise de enxaqueca de Anna.
O trio estava vagando pela biblioteca da casa quando encontraram alguns documentos do pai datados de três semanas antes do aniversário de onze anos delas duas.
Haviam três contratos devidamente assinados por Andrew McClarie.
O primeiro depois de muitos termos, envolvendo coisas diversas oficializava o noivado entre Oliver McClarie e Lena Moore, o garoto estranhou aquilo já que conhecia Lena desde muito antes disso e sempre diziam que os dois eram noivos.
O segundo e o terceiro documento, oficializavam com todas as palavras os noivados de ARYA MCCLARIE e THEODORE RYANS/ ANNA MCCLARIE e DANIEL PHILIPPS.
Após ler tais documentos, Oliver, de certa forma, surtou.
–Ótimo pai, não podia morrer antes de fazer esses contratos não? -Perguntou-se certa vez ganhando como resposta um murmúrio de concordância de Arya e Anna e uma risada divertida de Karen.
–Vocês três são tão parecidos. -Murmurou Karen atraindo atenção deles para si. -Mas, Oliver não acha que isso é superproteção?
–NÃO. -Arya e Anna haviam respondido pelo irmão. Os três olhavam mortalmente para os dois contratos, o de Oliver nem ao menos recebera atenção.
–Eles podem nem ao menos saber sobre esses contratos.
–Mas a Rainha sabe e ela vai expor isso ao mundo assim que lhe for conveniente.
Os três eram leais a coroa mas sabiam que a Rainha faria aquilo sem pensar duas vezes.
–Então...? -Karen lhe dirigiu um olhar confuso, tal como Arya e Anna que estavam realmente curiosas sobre qual seria a decisão do irmão sobre isso.
Oliver sempre fora um bom líder para a família McClarie, conseguia equilibrar tudo com perfeição sempre era justo e racional em suas escolhas, tanto profissionais quanto familiares.
Mas Arya e Anna eram exceções para a maioria das regras dele.
Quem sabe não fossem naquele assunto também?
–Tentarei desfazer os contratos, ou pelo menos diminuir os termos de tempo mínimo para uma separação. Convidei os Philipps e os Ryans para um jantar amanhã à noite. -Resmungou, sentando-se no sofá, abraçando as gêmeas, uma de cada lado.
Foi inevitável para ambas as garotas não sentirem um nó nas suas gargantas ao se verem tão próximas de conhecerem seus prováveis-ex-futuros-noivos.
Se perguntaram se Oliver e Karen se sentiram assim quando se viram pela primeira vez.
Provavelmente não.
Na noite seguinte, usando um longo vestido azul, Anna descera lentamente as escadas acompanhada da irmã que usava um vestido idêntico só que vermelho. Pode-se dizer que elas estavam realmente nervosas, torcendo para que os contratos fossem apenas uma brincadeira armada pelos pais. Uma esperança vã tratando-se de pessoas tão serias quanto Sarah e Andrew McClarie.
Anna se perguntou, em seu intimo, se aquilo era o que a faria pagar por seus pecados.
Um casamento arranjado.
Sabia que poderia vir a se tornar amiga de seu noivo.
Mas não se apaixonaria.
E faria o possível para que ele não se apaixonasse também.
Já se sentia culpada por saber que Oliver e Karen sofreriam com a perda delas duas, não queria acrescentar mais pessoas a essa lista.
Não queria que o fantasma da culpa ficasse ainda amais presente.
Não queria mais aqueles sussurros acusando-lhe.
Não queria mais lembrar daquela noite, se recriminando por todos seus atos.
Queria para de imaginar “e se...”
Queria que todas as vozes se calassem.
Mas, Esther não poderia resolver aquilo dessa vez.
Anna estava sozinha.
Por sua culpa.
Porque Anna culapava-se por tudo.
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