Parte 11

Durante os três dias seguintes, Hermione foi impecável. Pontual. Organizada. Educada. E absolutamente fria. E aquela frieza não combinava em nada com ela. Não combinava em nada do pouco que compartilharam na excursão para Londres trouxa.

Draco odiou cada uma dessas coisas com uma intensidade desproporcional.

Ela chegava aos encontros de estudo com todos os materiais separados. Cumprimentava-o com um “bom dia” ou “boa noite” correto demais, sentava-se, abria o caderno e falava apenas sobre o trabalho. Quando ele fazia alguma provocação, ela respondia de forma breve. Quando ele tentava arrancar um sorriso, ela não sorria. Quando ele demorava demais olhando para ela, Hermione simplesmente apontava para algum gráfico, tabela ou anotação.

Era insuportável. E, pior, eficiente. Pior ainda: ele iniciara aquela catástrofe.

- A apresentação precisa ter uma introdução, três partes e conclusão — ela disse, sem levantar os olhos. — Você ficará com os transportes e parte da reflexão sobre tecnologia. Eu falo sobre comparações entre mundo bruxo e mundo trouxa.

- Ordenando tudo como sempre, Granger?

- Alguma outra sugestão? — ele calou-se — Então está decidido.

- Nenhum comentário sobre eu estar sendo explorado academicamente? — Draco tentou novamente uma leve provocação.

- Não. — ele esperou por mais alguma palavra, frase, olhar. Qualquer coisa. Nada veio.

- Nenhuma observação sobre minha letra ter melhorado com caneta? — tentou novamente.

- Sua letra sempre foi boa.

Draco piscou. Aquilo era um elogio? Um elogio gelado, claro. Um elogio que poderia ter sido escrito em uma lápide.

- Obrigado.

- De nada.

O silêncio voltou. Draco bateu a ponta da caneta sobre o caderno.

- Granger, você vai continuar assim?

- Assim como, Malfoy?

- Como se eu fosse um colega qualquer.

Hermione finalmente levantou os olhos.

- Você não disse que era isso? Não era isso que queria, afinal de contas?

Ele abriu a boca. Fechou. Abriu de novo sem saber o que responder.

- Eu disse?

- Relação acadêmica. Dupla de trabalho. Não há muito o que decidir. Foram suas palavras, Malfoy.

Draco se encolheu por dentro. Por fora, infelizmente, fez o que sempre fazia quando se sentia acuado. Pareceu arrogante como era costume, como era sua forma de se defender.

- Então você escuta o que eu falo, Granger.

- Quando vale a pena. Às vezes, também quando não vale — talvez não fosse a intenção dela, mas aquilo o magoou. Ele respirou pelo nariz.

- Granger...

- Podemos continuar? Tenho outras coisas para fazer.

Aquilo o atingiu de forma ridícula novamente. Outras coisas. Outros amigos. Rony Weasley, provavelmente. Talvez qualquer pessoa que não tivesse passado a adolescência inteira chamando-a por um nome cruel.

- Claro — ele disse, frio. — Não quero tomar seu precioso tempo.

Hermione fechou a expressão imediatamente.

- Não faça isso, Malfoy — ela falou — Simplesmente não faça isso.

- Isso o quê? — o loiro perguntou.

- Essa coisa.- ela mexeu uma das mãos na direção dele — Essa ironia que solta quando não sabe falar o que sente.

Draco riu sem humor.

- Agora você também sabe o que eu sinto?

- Não. Esse é exatamente o problema — a frase dela ficou entre os dois. Draco segurou a caneta com tanta força que quase a quebrou.

- Talvez você tenha decidido sozinha que havia algo para saber.

Hermione ficou imóvel.

Por um segundo, ele quis pegar as palavras de volta. Prendê-las no ar com a mão, rasgá-las, fingir que nunca saíram. Mas já tinham saído. E o rosto dela mudou de um jeito pequeno, quase imperceptível, que foi muito pior do que uma discussão.

Ela não chorou. Não levantou a voz.

Apenas ficou mais distante.

- Tem razão — disse, juntando os materiais. — Eu decidi coisas demais sozinha.

- Granger… Espera um pouco. Eu…

- O professor Cross espera um rascunho amanhã. Eu termino minha parte e deixo na sua sala.

- Hermione.

Ela parou ao ouvir o próprio nome. Estava de costas e não esperava ouvir seu nome dito por ele novamente. Quando se virou, sua expressão estava neutra.

- Não é apenas o mundo trouxa que você precisa estudar, Malfoy — ela disse, encarando-o. Draco engoliu em seco.

- E o que mais?

- O impacto das próprias palavras.

Ela saiu antes que ele conseguisse responder.

—

- Você fez merda — Blaise disse cinco minutos depois, ao encontrar Draco parado no meio do corredor.

- Vá à merda, Blaise. Você nem sabe o que aconteceu.

- Conheço sua cara. É a cara de quem fez merda e ainda está tentando descobrir como culpar o universo. Menos a si mesmo

Draco apoiou as costas na parede.

- Eu falei algo errado.

- Nossa, que chocante. Nem esperava por isso.

- Zabini — o outro sonserino sabia que quando o amigo o chamava pelo sobrenome significava que a situação era séria.

- Desculpe. Continue. Estou tentando ser um amigo melhor.

Draco contou, de forma resumida, a conversa. Blaise ouviu tudo com uma expressão cada vez mais sofrida.

- Por Merlin, Draco. Com quem acha que estava conversando?

- Eu sei.

- Sabe mesmo?

- Sei. Pior é que eu sei, Blás.

- Porque dizer “talvez você tenha decidido sozinha que havia algo para saber” para a garota que claramente estava tentando entender se podia confiar em você é uma escolha... criativa.

- Eu disse que sei. Entendi a merda toda — Draco fechou os olhos com tristeza. Blaise suspirou e soltou em voz baixa:

- Você gosta dela.

- Não era para acontecer e não podia estar acontecendo. Sabe quem somos! — Draco murmurou um palavrão — Eu não sei o que fazer com isso.

- Comece não destruindo, Draco.

- Comentário muito útil — novamente o tom irônico, mas que não atingia Blaise Zabini.

- Às vezes o básico precisa ser dito — Blaise disse, dando de ombros. Draco passou a mão pelos cabelos.

- Ela ouviu Weasley perguntando se eu bastava. Ela disse que não sabia.

- E você simplesmente transformou a dúvida dela em prova contra ela? Uma dúvida válida, diga-se de passagem.

Draco fechou os olhos.

- Quando você coloca assim...

- Fica pior? Ótimo. Estamos progredindo.

—

Hermione passou o resto do dia fingindo que estava ocupada demais para sentir qualquer coisa. Obviamente não funcionou.

Corrigiu anotações, separou imagens, preparou um quadro comparativo sobre transportes bruxos e trouxas e ainda ajudou Pansy com Transfiguração. Em algum momento, Pansy fechou o livro com força.

- Chega! Você está explicando a mesma coisa há dez minutos e com uma cara horrível. Não estou entendendo merda nenhuma do que está falando.

- Minha cara está normal, Pansy!

- Sua cara está de “posso organizar uma revolução e chorar depois em ordem alfabética”. O que Draco fez?

Hermione ficou em silêncio.

- Eu nem disse que foi ele.

- Não precisava. Conheço Draco desde que nasci. Desembucha. — Pansy sentou-se ao lado dela no sofá da sala de monitoria. — Ele é um idiota.

Hermione soltou uma risada curta.

- Ele disse que talvez eu tivesse decidido sozinha que havia algo sobre ele para saber.

Pansy fechou os olhos por um instante.

- Idiota confirmado. Não disse?

Hermione olhou para as mãos.

- Talvez ele tenha razão. Talvez eu tenha visto mudança demais porque queria ver. Talvez eu tenha confundido gentilezas, cadernos e aproximações de forma errada.

- Hermione. Me escuta.

- O quê?

- Draco Malfoy não vai até a Londres trouxa por qualquer pessoa.

Hermione tentou não rir.

- Isso deveria me consolar?

- Dentro da realidade emocional limitada dele? Sim. Muito — As duas ficaram quietas. Depois Pansy falou mais baixo — Ele está tentando deixar de ser o que ensinaram que ele deveria ser. Isso é bom. Mas tentar não dá a ele o direito de ferir você enquanto aprende.

Hermione olhou para a amiga, surpresa com a seriedade.

- Quando você ficou tão sábia?

- Desde sempre. Eu só me escondia para não assustar os fracos. Ou desde que eu comecei a andar com você — ela deu de ombros — Ou a gostar do Neville. Ou um conjunto de tudo — Hermione sorriu, mas logo o sorriso sumiu.

- Eu gosto dele, Pansy.

A confissão saiu antes que pudesse ser impedida. Pansy não comemorou. Apenas tocou o ombro dela.

- Eu sei. Está óbvio isso.

- É péssimo. Você entende o quanto isso é péssimo?

- Sei, mas também sei que se olham como se estivessem em uma dança há semanas e nenhum dos dois soubesse os passos.

Hermione apoiou a cabeça no encosto do sofá.

- Eu não sei se consigo confiar. Juro que quero tentar, mas é tão difícil.

- Então ele precisa merecer. Não com uma frase bonita. Com escolhas e atitudes.

—

No dia seguinte, o professor Cross anunciou que a apresentação final de Estudos dos Trouxas seria na sexta-feira, aberta para alguns professores e dois convidados do Ministério, interessados nas mudanças do currículo após a guerra.

Hermione anotou tudo. Draco também.

Sentaram-se lado a lado, mas a distância entre eles parecia maior do que na primeira aula, quando Draco ainda achava canetas uma afronta pessoal.

- Espero trabalhos autorais, reflexivos e, principalmente, respeitosos — o professor disse, olhando para a turma. Seu olhar passou rapidamente por Draco, mas sem acusação. — O objetivo desta disciplina não é rir de quem vive diferente. É compreender.

Draco sentiu a frase como se tivesse sido escrita diretamente para ele.

Ao final da aula, tentou alcançar Hermione no corredor.

- Granger — ele apressou os passos.

Ela continuou andando.

- Hermione — tentou novamente. Ela parou.

- O que foi?

Draco havia ensaiado. Tinha frases prontas. Boas frases, inclusive. Elegantes, objetivas, sinceras.

Diante de Hermione, todas pareciam ridículas.

- Sobre ontem… — ele iniciou.

- Não precisa — Hermione interrompeu rapidamente.

- Precisa, sim — ele pigarreou — É importante — Ela cruzou os braços.

- Então fale logo.

Ele olhou ao redor. Alguns alunos passavam. A coragem, que parecia tão fácil quando Hermione não estava olhando diretamente para ele, sumiu. Muita gente perto, ouvindo, vendo, avaliando.

- Não aqui — Draco disse. Hermione soltou o ar, cansada.

- Claro. Não aqui. Não agora. Não de verdade.

- Não foi isso que eu quis dizer — ele tentou argumentar. Seus olhos percorrendo rapidamente os outros alunos ao redor e voltando para ela novamente.

- Mas é sempre isso que acontece. Não aqui resume muita coisa — Ela se afastou.

Dessa vez, Draco não a seguiu. Ficou parado no corredor, com a sensação incômoda de que havia uma diferença enorme entre querer mudar e saber como.

E talvez estivesse prestes a perder a única pessoa que parecia acreditar, mesmo com medo, que ele era capaz disso.