Parte 12

Na sexta-feira, Hermione acordou antes do despertador.

De novo.

Dessa vez, porém, não era ansiedade pela excursão, nem expectativa por um quase alguma coisa que talvez tivesse acontecido se o professor Cross não tivesse surgido na hora errada. Era nervosismo puro. A apresentação final de Estudos dos Trouxas aconteceria depois do almoço, na sala ampliada do quarto andar, com a presença da diretora, do professor Cross, de alguns professores e dois convidados do Ministério.

Hermione gostava de apresentações.

Gostava de trabalhos bem feitos, introduções claras, conclusões consistentes e perguntas respondidas com dados. O problema era que, desta vez, uma parte considerável do trabalho dependia de Draco Malfoy.

E Draco Malfoy estava, nas palavras de Gina, “emocionalmente tão confiável quanto uma cadeira com duas pernas”.

- Você podia ter escolhido uma comparação menos visual — Hermione murmurou, prendendo o cabelo.

- Não. Eu gostei dessa comparação e você não gostou porque sabe que eu tenho razão — Gina sentou-se na cama da amiga. — Vai ficar tudo bem.

- Você não sabe.

- Não, mas fica mais bonito quando a gente fala com convicção — Gina sorriu, querendo animar a amiga. Hermione olhou para ela pelo espelho.

- Ele me magoou, Gina.

- Eu sei disso, Mione.

- E eu odeio que isso tenha me magoado tanto — Gina suavizou o olhar, sorrindo para a amiga.

- Você gosta dele — a ruiva disse simplesmente. Hermione não concordou e tampouco negou. Já estava cansada demais para negar.

—

Draco passou a manhã tentando reescrever a própria fala.

A primeira versão era técnica. Falava sobre trens, ônibus, carros, metrôs, semáforos e sistemas de organização urbana. Estava correta, clara e fria.

A segunda versão incluía algumas observações sobre tecnologia trouxa e sua relação com necessidade, tentativa, erro e persistência. Estava melhor.

A terceira começava com: “Fui obrigado a cursar esta disciplina.” Ele ignorou completamente, apesar de ser verdade. Em partes.

Blaise apontou para a mesa. Ao lado do pergaminho estava o caderno trouxa. Aberto. Na página, uma frase sublinhada:

“Pedir desculpas não mata. Infelizmente.”

- Parece que seu caderno discorda.

Draco encarou a própria frase.

- Ela não vai aceitar minhas desculpas. Não mesmo. Não depois do babaca que tenho sido.

- Talvez não aceite imediatamente, Draco.

- Você é péssimo em consolar, sabia disso?

- Estou tentando ser honesto, amigo. Você deveria experimentar. Estaria com a grifinória em seus braços — Draco soltou uma risada sem humor.

—

A sala estava cheia demais para o gosto de Draco.

Havia alunos de Estudos dos Trouxas, alguns curiosos de outras disciplinas, a diretora McGonagall sentada com as costas retas na primeira fileira, o professor Cross sorrindo como se tivesse criado pessoalmente a ideia de civilização e dois bruxos do Ministério tomando notas.

Hermione estava ao lado da mesa de apresentação, organizando os materiais. Vestia o uniforme de forma impecável, os cabelos presos de maneira menos desajeitada do que de costume, embora alguns cachos insistissem em escapar ao redor do rosto.

Draco achou aquilo irritantemente bonito. Ela não olhou para ele quando se aproximou. Aquilo era mais irritante.

- Sua parte está pronta? — ela perguntou de forma direta.

- Está, claro. — o silêncio pesado entre eles apareceu novamente.

- Ótimo. — ela falou, organizando desnecessariamente alguns pergaminhos.

- Hermione…

- Agora não, Malfoy.

Ele assentiu. Não porque concordasse. Porque, pela primeira vez, entendeu que talvez ela tivesse o direito de escolher quando queria ouvi-lo.

A apresentação começou com Hermione. E, como era de se esperar, foi impecável.

Ela falou sobre o mundo trouxa como quem apresentava algo íntimo, conhecido, mas também digno de estudo. Explicou que transportes não eram apenas máquinas: eram formas de aproximar pessoas, levar trabalhadores às cidades, permitir viagens, encontros, mudanças e descobertas. Comparou trens bruxos e trens trouxas sem ridicularizar nenhum dos dois. Falou sobre tecnologia, planejamento, sinais, bilhetes, mapas e horários.

Draco observou a turma prestar atenção nela. Observou a diretora inclinar discretamente a cabeça, satisfeita. Observou Rony Weasley no fundo da sala, ao lado de Harry e Gina, com os braços cruzados e expressão desconfiada.

Então chegou sua vez. Hermione afastou-se um passo e entregou-lhe a palavra sem olhar diretamente para ele. Draco segurou as anotações. Poderia falar apenas o combinado.

Seria mais seguro. Ser seguro, percebeu, tinha sido uma desculpa conveniente durante tempo demais.

- Fui obrigado a cursar Estudos dos Trouxas — começou. Alguns alunos se mexeram. Hermione virou o rosto para ele, surpresa. O professor Cross parou de sorrir por um instante. — A diretora McGonagall decidiu que, se eu pretendia trabalhar com leis mágicas, deveria compreender melhor aqueles que, por muito tempo, foram ignorados ou tratados como inferiores por parte do nosso mundo.

A sala ficou em silêncio. Draco sentiu a garganta seca, mas continuou.

- Eu não gostei da ideia. Na verdade, achei uma punição. Entrei na primeira aula preparado para desprezar tudo. Cadernos, canetas, ônibus, bilhetes, catracas... principalmente catracas.

Uma risada baixa percorreu a sala. Hermione baixou os olhos, mas Draco viu o canto da boca dela se mover quase nada.

Quase.

- O que aprendi na excursão, e ao longo destas semanas, é que o mundo trouxa não é vazio de magia. Ele apenas aprendeu a resolver problemas por outros caminhos. Onde nós usamos varinhas, eles criam máquinas. Onde usamos feitiços, eles criam sistemas. Onde aparatar parece simples para nós, eles constroem estações, trilhos, mapas, placas e horários. Nem sempre funciona perfeitamente. Mas funciona. E talvez o maior erro seja olhar para algo que não entendemos e chamar de inferior apenas porque não nasceu do nosso jeito de viver.

Dessa vez, olhou para Hermione. Ela estava olhando para ele.

- Tive uma excelente parceira de trabalho. Insuportável quando tem razão, o que infelizmente acontece com frequência. Ela me ensinou sobre transportes, tecnologia, dinheiro trouxa, hotéis, semáforos e também sobre algo que não estava no programa da disciplina: olhar antes de julgar.

Hermione ficou imóvel.

Draco sabia que todos estavam ouvindo. Sabia que Nott provavelmente torcia o nariz em algum canto. Sabia que Rony Weasley talvez quisesse jogá-lo pela janela. Mas, pela primeira vez, isso pareceu menos importante do que terminar o que precisava dizer.

- Eu não posso mudar o que já falei ou fiz. Mas posso escolher não continuar repetindo. E posso reconhecer, diante desta sala, que muitas das minhas certezas eram apenas ignorância usando roupas caras.

Blaise levou a mão ao peito, teatralmente emocionado. Pansy enxugou uma lágrima inexistente. Neville pareceu não saber se sorria ou se continuava sério. Hermione, por sua vez, continuou olhando para Draco como se tentasse decidir se estava brava, comovida ou apenas surpresa.

Provavelmente um misto dos três sentimentos.

A apresentação terminou com aplausos. O professor Cross parecia prestes a chorar de orgulho acadêmico, o que deixou Draco profundamente desconfortável.

- Brilhante! — o professor exclamou. — Uma demonstração excelente de compreensão, reflexão e mudança de perspectiva.

- Eu aceitaria “aceitável” — Draco murmurou. Hermione ouviu. Dessa vez, sorriu um pouco. Mas sorriu.

—

Depois da apresentação, alunos se espalharam pelo corredor. Harry cumprimentou Hermione, Gina a abraçou, Rony ficou alguns segundos parado antes de se aproximar de Draco.

- Malfoy.

Draco virou-se, preparando-se mentalmente para o pior.

- Weasley.

Rony olhou para Hermione, depois de volta para ele.

- Aquilo foi... menos ruim do que eu esperava — o ruivo disse, com sinceridade. Draco arqueou uma sobrancelha, e respondeu sem disfarçar sua ironia:

- Que elogio generoso.

- Não se acostume.

Hermione olhou de um para o outro e, pela primeira vez em dias, sentiu vontade de rir.

Rony apontou um dedo para Draco.

- Não faça merda, Malfoy. Ainda estou de olho e estudando para ser auror.

- Eu ficaria decepcionado se não estivesse de olho na segurança da sua amiga, Weasley.

- Vocês já terminaram essa demonstração de masculinidade ferida? — Gina perguntou.

- Sim — Hermione respondeu por eles. — Obrigada.

Aos poucos, todos se afastaram. O corredor ficou mais vazio. Draco permaneceu perto da janela, esperando. Hermione sabia que ele esperava por ela.

E, por mais que parte dela quisesse continuar irritada, a outra parte estava cansada de fugir.

- Sua apresentação foi boa — ela disse, iniciando o diálogo.

- Boa?

- Muito boa, na verdade.

- Isso doeu? Te incomodou?

- Na verdade, não. Eu imaginei que era capaz. Sempre quis acreditar nisso. — Hermione cruzou os braços, mas não se afastou.

- Sinto muito — Draco disse depois de algum tempo.

- Pela apresentação?

- Não. Pelo que eu disse na biblioteca e no corredor. Por não ter dito o que precisava quando deveria. Por anos de arrogância. Por muitas coisas que não cabem em um pedido de desculpas decente nesse curto espaço de tempo.

Hermione olhou para ele. Não havia deboche. Nem defesa. Nem aquela pose irritante de superioridade.

Só Malfoy. Aliás, só Draco. Talvez, pela primeira vez, sem armadura suficiente.

- Você me magoou — Hermione disse, depois de algum tempo.

- Eu sei — Draco disse, afinal o que mais poderia falar?

- E eu não consigo fingir que todo o passado deixou de existir porque você fez uma apresentação bonita.

- Não estou pedindo isso. De forma alguma, Hermione.

- O que está pedindo, afinal?

Draco demorou um pouco para responder.

- Apenas uma chance de continuar tentando. Do jeito certo, se eu conseguir aprender.

Hermione respirou fundo e falou:

- Você é insuportável e sabe disso.

- Estou melhorando. Sabe disso.

- Às vezes. Um pouco, está melhorando um pouco.

- Aceito esse avanço — Draco disse.

Ela balançou a cabeça, mas estava sorrindo. Draco deu um passo à frente, devagar o suficiente para que ela pudesse recuar, mas Hermione não recuou.

- Granger...

- Hermione — ela corrigiu, quase em sussurro.

Ele pareceu surpreso por um instante. Depois sorriu de um jeito pequeno, raro.

- Hermione.

Foi ela quem diminuiu a distância final.

O beijo não teve música, nem chuva, nem professor Cross interrompendo com comentários meteorológicos. Foi simples. Suave. Um pouco hesitante no começo, como se os dois ainda estivessem esperando que alguma coisa desse errado.

Nada deu errado, afinal eram Hermione Granger e Draco Malfoy.

Quando se afastaram, Hermione estava corada. Draco também, embora preferisse enfrentar um trasgo a admitir.

- Isso não significa que você está perdoado por tudo — ela afirmou.

- Eu sei. — Draco concordou, sem soltar-se dela. Seus dedos percorrendo e conhecendo cada cacho dos cabelos de Hermione.

- Nem que pode voltar a ser idiota — continuou, ignorando o frio na barriga ao sentir a proximidade, o toque dele em seu cabelo.

- Prometo limitar minha idiotice a situações acadêmicas.

- Péssimo acordo.

- Posso melhorar. Prometo, Hermione — ela sorriu ao ouvir as palavras dele.

- Então continue estudando, Malfoy.

- Draco — ele respondeu simplesmente. Ambos sorriram. Ele inclinou a cabeça, os olhos brilhando de diversão — Estudar com você?

- Infelizmente, parece que sou a pessoa mais qualificada. Draco.

- Insuportável quando tem razão, Hermione.

E Draco decidiu, naquele instante, que talvez o mundo trouxa tivesse inventado algo mais impressionante do que aviões, catracas e cartões de hotel.

Talvez tivesse inventado a possibilidade absurda de uma Hermione Granger sorrir para ele como se o futuro não precisasse ser igual ao passado.


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