Estudo sobre os trouxas
10 Parte 10
Parte 10
Rony Weasley não gritou. Não reagiu, ouviu a provocação silenciosamente.
Esse foi o primeiro sinal de que a conversa seria difícil.
Hermione conhecia o amigo o suficiente para saber que, quando ele explodia, geralmente era porque estava com medo, cansado ou com fome. Às vezes, os três. Mas quando ficava quieto demais, quando escolhia cada palavra antes de falar, a situação era outra.
Draco, por sua vez, parecia ter decidido que a melhor estratégia era ficar encostado na estante, com os braços cruzados e o rosto perfeitamente impassível. Parecia uma estátua loira de julgamento e superioridade. Irritantemente perfeito.
- Você precisa de alguma coisa, Ron? — Hermione perguntou, tentando manter a voz calma.
- Queria falar com você, Mione — Draco respirou ao ouvir o apelido. Sabia perfeitamente que o uso fora proposital e para marcar um espaço que ele não ocupava.
- Pode falar — Hermione disse, optando por ignorar a tensão no ambiente. Rony olhou rapidamente para Draco.
- A sós — o ruivo insistiu.
- Nós estamos no meio de um trabalho — Draco disse — E você sabe o que isso significa para Granger.
- Você quer me ensinar alguma coisa sobre Hermione, Malfoy?
- Ron — Hermione chamou, em tom de aviso. O ruivo respirou fundo.
- Tudo bem. Eu espero do lado de fora — Rony saiu, Draco acompanhou com o olhar e arqueou uma sobrancelha.
- Que generoso da parte dele.
- Malfoy — Hermione falou, mais baixo.
Ele olhou para ela. Por um instante, pareceu que diria alguma coisa. Talvez uma provocação, talvez uma frase atravessada, talvez algo capaz de transformar o corredor inteiro em campo de batalha. Mas o sonserino apenas pegou o próprio caderno.
- Continuamos amanhã, Granger — ela notou algo no tom de voz dele, mas não soube identificar.
Ao passar por Rony, os dois se encararam. Nenhum deles disse nada. Hermione teve a impressão de que o silêncio carregava anos de xingamentos, feitiços e escolhas ruins.
Quando a porta se fechou, ela soltou o ar.
- Ron...
- Você gosta dele?
A pergunta veio direta. Sem rodeios. Sem piadas. Sem ironia. Sem raiva. Hermione piscou algumas vezes.
- O quê? — aquilo a surpreendeu e ela não soube o que responder.
- Você gosta do Malfoy? — o ruivo repetiu a pergunta.
- Isso não é tão simples — Hermione sabia muito bem o que estava fazendo. Pior: sabia que Rony também sabia o que ela estava fazendo, afinal Hermione nunca deixava de responder uma pergunta.
- Para mim parece uma pergunta bem simples.
Ela cruzou os braços.
- Não deveria parecer. Não depois de tudo.
Rony passou a mão pelos cabelos ruivos, claramente tentando se controlar.
- É exatamente por isso que estou perguntando. Depois de tudo. Depois de tudo que ele falou para você, depois de tudo que ele fez. Depois da nossa casa, da guerra, dos Comensais entrando no castelo. Eu sei que ele mudou de lado no final, eu sei que a mãe dele ajudou Harry, eu sei que as coisas são mais complicadas. Mas, Mione, é o Malfoy. Estamos falando de Draco Malfoy.
Hermione desviou o olhar para a mesa. O caderno de Draco ficara ali, fechado, ao lado de uma caneta preta.
- Eu sei quem ele é, Rony.
- Sabe mesmo? — ele perguntou, cruzando os braços.
A pergunta machucou mais do que deveria. Talvez porque Rony não estivesse sendo cruel. Estava preocupado. E aquilo era pior.
- Você acha que eu esqueci? — ela perguntou, a voz mais baixa. — Acha que eu esqueci cada vez que ele me chamou daquele nome? Acha que eu esqueci a Mansão Malfoy? Acha que eu esqueci a guerra?
Rony empalideceu.
- Não foi isso que eu quis dizer, Mione.
- Mas é isso que parece. Como se eu estivesse sendo ingênua — ela falou, a voz trêmula.
- Eu só não quero que você se machuque. Sabe o quanto me importo com você.
Hermione fechou os olhos por um segundo. Quando abriu, a raiva tinha diminuído, mas o aperto no peito não.
- Eu também não quero sofrer mais, Ron. Mesmo.
O silêncio entre eles ficou mais triste do que bravo.
- Malfoy está tentando — ela disse, por fim. — Não estou dizendo que isso apaga tudo. Não apaga. Mas ele está tentando.
- E isso basta? — era uma pergunta sincera. Hermione sabia, afinal, antes dela, a família de Rony também sofrera preconceito por parte dos Malfoy. Hermione olhou novamente para o caderno.
- Não sei — a resposta era curta e sincera. Rony pareceu aceitar a resposta, mesmo sem gostar dela.
- Só... toma cuidado. Por favor.
- Eu sempre tomo.
- Mentira. — ele sorriu — Você já colocou fogo nas vestes do Snape no primeiro ano.
Hermione retornou o breve sorriso.
- Foi uma decisão estratégica.
- Claro. Estratégica e ilegal — Rony avaliou, um tom que não era o que Hermione estava acostumada. Provavelmente influência da sua formação como auror.
Dessa vez ela sorriu de verdade, e Rony também. Ele a abraçou com cuidado, sem apertar demais. Um abraço de amigo, de irmão escolhido, de alguém que temia perder mais uma coisa para as consequências da guerra.
Hermione apoiou a testa no ombro dele.
- Eu não vou desaparecer da sua vida porque estou conhecendo melhor outra pessoa.
- Mesmo que essa pessoa seja um idiota loiro sonserino?
- Mesmo assim. Nada vai apagar o que vivemos, Ron.
- Péssimo gosto, Mione — ele falou, sorrindo.
- Ainda não admiti nada.
- Não em palavras, Mione, mas te conheço o suficiente para entender. E tentar aceitar.
—
Do lado de fora, Draco caminhava pelo corredor mais rápido do que o necessário. Não havia escutado tudo. Infelizmente, escutara o bastante, algo que o incomodar quando pegou trecho de uma conversa.
“É o Malfoy.”
“E isso basta?”
“Não sei.”
Não sei.
Aquelas duas palavras se repetiam em sua cabeça com uma irritante precisão. Ele sabia que Rony Weasley tinha motivos para desconfiar. Ele mesmo desconfiaria. Na verdade, se a situação fosse inversa, provavelmente teria dito coisas piores.
Mas ouvir Hermione não saber doía de uma forma inesperada.
O que era ridículo. Ele não deveria esperar nada. Não tinha direito a nada. Muito menos dela.
Ao virar o corredor próximo às masmorras, encontrou Theodore Nott encostado na parede, folheando um livro.
- Estava com a Granger? — Theodore perguntou, sem levantar os olhos.
- Estava estudando, Nott. Preciso dessa nota nos NIEMs
- Claro, nota para os NIEMs — o tom debochado e irônico não passou despercebido.
Draco continuou andando e falou:
- Não comece.
- Só acho curioso. Primeiro Pansy com Longbottom, agora você com Granger. Daqui a pouco teremos que convidar a Weasley para jantar na Sonserina.
- Não seja um babaca, Nott.
- Foi você quem começou a brincar de integração — Nott cruzou os braços, o olhar bem sério — Draco parou e se virou.
- Não estou brincando — cinza tempestuoso e ameaçador. Theodore fechou o livro.
- Então está falando sério? Com ela?
Draco sentiu uma resposta atravessar a garganta, mas ficou presa. Falar sério. Com ela. Isso parecia maior quando dito em voz alta.
- Ela é minha dupla de trabalho em uma aula, Nott. Uma aula que preciso para ter o cargo que quero no Ministério.
- Só isso?
Draco hesitou meio segundo. Meio segundo a mais.
- Só isso. O que mais seria? Estamos falando da Granger.
Theodore sorriu de lado, satisfeito por algum motivo que Draco não teve paciência para entender.
- Melhor assim, Draco.
Antes que Draco pudesse responder, Blaise surgiu no corredor, vindo sabe-se lá de onde. Ele tinha esse péssimo hábito de aparecer exatamente quando as pessoas gostariam que ele não aparecesse.
- Mentir deixa rugas, Draco.
- Você também está insuportável hoje, Blas?
- Hoje? Sou consistente e sempre insuportável.
Theodore deu de ombros e se afastou. Blaise esperou que ele sumisse antes de falar de novo.
- Draco, você não deveria deixar Nott conduzir suas respostas.
- Me deixe em paz. Não preciso de conselho.
- Na verdade precisa muito. Só não tem humildade para perceber, Draquinho — o loiro rolou os olhos. Draco abriu a porta da própria sala de monitoria e entrou. Blaise entrou atrás sem pedir licença.
- Faça o favor de invadir outro lugar.
- Não. Aqui tem cadeiras melhores.
Draco jogou o caderno sobre a mesa.
- Ela não sabe — o loiro disse simplesmente sem disfarçar sua irritação.
Blaise sentou-se, mas dessa vez não fez piada.
- Ela não sabe o quê?
- Se eu basto. Se minha tentativa de mudar é suficiente. Weasley perguntou e ela disse que não sabe.
Blaise ficou em silêncio por alguns segundos.
- E você esperava que ela soubesse? Depois de tudo?
Draco olhou para ele, irritado.
- Que tipo de pergunta é essa? Você é meu amigo ou não?
- Uma boa pergunta, meu amigo. Você passou anos sendo cruel com ela, Draco. Não estou dizendo isso para te ferir. Você sabe. Eu sei. Ela sabe. Talvez ela goste de você, mas ainda assim precisa de tempo para entender se consegue confiar. Uma coisa não anula a outra.
- Então o que faço? — Draco disse jogando-se no sofá e bagunçando os próprios cabelos.
- Pela primeira vez na vida seja honesto.
- Honesto com meus sentimentos? Não aprendi isso, Blás.
- Nada fácil. Mas costuma funcionar melhor do que parecer indiferente enquanto sofre como um personagem mal escrito.
Draco passou a mão pelo rosto.
- Não sei como fazer isso.
- Aprenda. Você conseguiu aprender muita coisa sobre o mundo trouxa e deve ter se aproximado da Granger de alguma forma.
Draco bufou, sabendo que o amigo estava certo.
—
Nas estufas, Pansy Parkinson segurava um vaso pequeno com uma expressão de sofrimento teatral.
- Neville, acho que essa planta me odeia.
Neville olhou para a folha perfeitamente saudável.
- Ela está ótima — o grifinório afirmou.
- Acho que a planta está me julgando.
- Pansy, é uma muda de gerânio-dentado.
- Exatamente! Olhe para ela: uma plantada DENTADA!
Neville tentou não sorrir, mas falhou.
- Você precisava mesmo de ajuda hoje?
Pansy piscou, fingindo inocência.
- Claro, sou péssima nisso.
- Porque semana passada você confundiu fertilizante com farinha de osso. Hoje trouxe luvas novas, anotou tudo corretamente e acabou de identificar a planta sem eu falar.
Ela ficou quieta por uma fração de segundo.
- Talvez eu esteja evoluindo. Aos poucos.
- Ou talvez só quisesse vir aqui.
Pansy largou o vaso com cuidado sobre a bancada e aproximou-se um pouco.
- E se eu quisesse apenas isso?
Neville corou, mas não mudou de assunto.
- Eu diria que... poderia ter me chamado para Hogsmeade.
- Poderia?
- Poderia.
- Então talvez eu esteja esperando você chamar.
Neville respirou fundo. Enfrentara Voldemort, Nagini, torturas e uma guerra inteira. Ainda assim, chamar Pansy Parkinson para sair parecia perigosamente próximo de desafiar a morte.
- Você quer ir a Hogsmeade comigo no próximo sábado?
Pansy sorriu como se tivesse vencido uma batalha planejada havia semanas.
- Achei que nunca fosse perguntar, Neville.
—
Na manhã seguinte, Hermione encontrou Draco na biblioteca. Ele estava sentado no lugar de sempre, com os materiais organizados demais e a expressão muito séria.
- Bom dia — ela cumprimentou.
- Bom dia.
Educação novamente. Péssimo sinal se tratando de Draco Malfoy e da relação que se estabelecera entre ambos. Hermione sentou-se à frente dele.
- Podemos revisar a parte sobre tecnologia aplicada aos transportes — ela tentou novamente.
- Claro.
Claro. A volta dos monossílabos. Hermione estreitou os olhos.
- Você está estranho, Malfoy. Está tudo bem?
- Estou estudando. Apenas isso, Granger.
- Você está estudando de forma estranha.
- Não sabia que havia uma forma grifinória aprovada para estudar.
- Há. — ela disse, sem disfarçar sua irritação — Chama-se não agir como se tivesse engolido uma vassoura.
Draco levantou os olhos. Havia algo ali. Uma ponta de mágoa escondida atrás do deboche.
- Talvez eu apenas tenha entendido que nossa relação é acadêmica.
Hermione sentiu uma pontada no peito, como uma ferida.
- Nossa relação?
- Nossa dupla. Nosso trabalho. Como preferir, Granger. Parceria, talvez? Para as aulas que fazemos juntos e fomos obrigados a compartilhar?
Ela ficou alguns segundos olhando para ele, tentando entender de onde vinha aquela frieza repentina.
- Foi isso que decidiu?
- Não há muito o que decidir.
Hermione fechou o livro devagar.
- Ótimo, Malfoy. Então vamos trabalhar — ela abriu as próprias anotações. Draco olhou para ela como se tivesse esperado outra resposta. Mas Hermione Granger também sabia se proteger. Havia aprendido isso da pior maneira.
E, naquele momento, decidiu que talvez a pergunta de Rony tivesse sido mais importante do que queria admitir. Draco olhou para Hermione, que encarava o caderno e alguns livros. Abriu a boca para mudar suas palavras, ajeitou sua postura para mudar sua atitude. Porém, novamente, se acovardou.
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