Estrelas sem céu

1 Capítulo 1: Tropicália atrasada


18 de Maio de 2009

Era exatamente 07:40 da manhã e eu estava como sempre atrasada para minha aula, o dia estava seco e o sol estava destinado a brilhar mais que tudo hoje, realmente não seria nada fácil essa segunda-feira, e para completar o transito tão pouco favorecia, nada estava ao meu favor.

Quando se vive em uma cidade tropical e pequena, acaba tendo-se algumas desvantagens como estas. Enquanto eu estava presa naquele transito parei-me para pensar, já se faziam 3 anos que eu estava no curso de dança e estava me identificando com o mesmo a cada dia, e estava colecionando sonhos para depois que tivesse minha graduação concluída e estava mais focada do que nunca em me tornar a melhor professora de dança contemporânea de todos os tempos e para isso se tornar realidade, relacionamentos estavam terminantemente proibidos. Logo no início do curso acabei quebrando a promessa me relacionando com um moço de minha classe e quando todo esse relacionamento se deu por fim, só me fez perceber que realmente envolvimentos me tirariam do foco, eu de modo algum poderia me envolver com mais ninguém.

Passados alguns minutos os carros começaram a se mover e o ônibus onde eu me encontrava pode enfim seguir seu trajeto até onde eu desceria. 08:20 e eu finalmente tinha chegado ao meu destino, o último ponto da praia, assim que desci os últimos degraus do ônibus me pus a correr, estava mais atrasada que o de costume levaria falta com toda a certeza do mundo. Enquanto corria em direção do prédio e consequentemente me desvencilhava das pessoas pude perceber o quão desorganizada eu era, as duas mãos ocupadas por cadernos, casaco e sacolas, a bolsa cheia de tralhas e o cabelo mal preso voando para meu rosto, tudo se juntava para dar um belo desastre.

Quando finalmente cheguei ao prédio corri em direção aos elevadores que me levariam até o andar de minha sala, eu tinha que chegar a tempo. Enquanto atravessava o corredor, todos olhavam-me como se eu tivesse acabado de correr uma maratona, ou sair de um arrastão, mas mal sabiam eles que isso tudo era apenas para não reprovar por falta.

Para minha felicidade ao adentrar a sala, a professora tinha acabado de iniciar a chamada e para minha felicidade teria mais uma presença, enquanto a professora falava o nome de cada um na lista e os respectivos respondiam à presença, eu me recompunha da quase “maratona”, até que meu nome foi enunciado e eu apenas levantei a mão e a lista se prosseguiu até o fim dela. Faltava exatamente 5 minutos para a aula acabar e todos estavam discutindo sobre o trabalho da próxima aula, quando a porta se abre e revela um homem de seus 20 e poucos anos, de semblante fechado e levemente cansado. Ele direcionou-se até a professora, conversaram por alguns minutos e ele caminhou com ela até o centro da sala e pronunciou:

— Pessoal, estamos a algumas semanas já de aula, porém sempre temos novidades. Este é Afonso o novo colega de classe de vocês, espero que vocês os acolham bem e aproveitando que estamos praticamente todos aqui, ele precisa se encaixar em algum grupo.

A professora voltou a falar com Afonso, lhe informando sobre que o mesmo deveria entrar num grupo que tivesse menos de cinco pessoas. Assim que a professora haverá acabado de dar seu recado sobre o novato, todos os alunos se levantaram e foram em direção a porta, a aula já havia de ter terminado.

E Afonso também fez o mesmo, deu alguns passos na minha frente e parou ao lado de uma amiga, onde o mesmo perguntou se poderia se encaixar em nosso grupo e a mesma respondeu que sim. Afonso olhou para trás e depositou a escuridão de seus olhos em mim. Jamais vi olhos tão negros quanto os dele.