Estrelas Azuis

1 •Prólogo•


Notas iniciais
Aviso: Ji-woo é um personagem fictício criado por mim, ele não é inspirado em nenhuma pessoa real ou do tipo
BOA LEITURA! :3

20 de Janeiro de 2019 — Dias atuais

Era uma típica tarde de inverno, sem neve ou um frio absurdo que fazia todos precisarem vestir cachecóis, luvas e toucas. Mas ainda sim, chovia há semanas e a umidade incomodava os narizes, além dos moletons que estavam na moda.

Já passava da hora do almoço quando uma caminhonete terminou de subir a ladeira de lama na pequena colina, em frente ao enorme edifício de tijolos laranjas, um asilo que existia ali há mais de vinte anos, mas estava ainda em forma e com muitos idosos sendo cuidados por enfermeiros e enfermeiras. Com um estacionamento quase vazio, um homem alto saiu do carro, travando a porta e logo retirando um maço de cigarros e acendendo um na ponta dos lábios.

Park Ji-woo era um homem com quase seus quarenta e poucos anos de idade, o cabelo preto ligeiramente raspado nas laterais da cabeça e olhos castanhos cansados, com olheiras que deixavam evidente as noites sem sono. Embora quase sempre tivesse uma carranca mal-humorada marcando a expressão facial, era um homem de bom coração, mas muito melancólico. Separado da esposa e com duas filhas que já não via há alguns meses, ele trabalhava dia e noite, sem sonhos, sem esperança, sem nada. Só uma rotina cansativa de acordar, tomar banho, comer, ir para o trabalho, voltar para casa tarde da noite e dormir. Todo dia era o mesmo ciclo, por seis dias na semana, exceto nos domingos quando não trabalhava. E hoje, era um domingo.

Ji-woo deixou pegadas sobre o caminho lamacento com suas botas coturno, enquanto enfiava uma das mãos no bolso do casaco e assoprava a fumaça pelos lábios, mirando os olhos na porta de entrada do asilo, avistando alguém que já conhecia. Uma mulher negra, baixa e gorda, com o cabelo crespo e escuro preso em um coque bem penteado, os lábios carnudos e escuros que quase nunca ficavam juntos, pela dona ser uma verdadeira tagarela. Os óculos quadrados escorregando pelo nariz redondo e rechonchudo. Todas as enfermeiras do asilo usavam um uniforme azul-claro e com o chapéu, bordado com detalhes brancos. Lucinda -ou apenas Lucy- era uma mulher que trabalhava naquele asilo muito tempo antes do pai de Ji-woo ser internado naquele asilo. Embora tivesse uma personalidade forte e falante, era uma mulher de bom coração e amiga da família. Ela cumprimentou Ji-woo brevemente por trás do balcão, quando ele passou pela porta e jogou o cigarro na lixeira mais próxima. Eles não permitiam que fumasse lá dentro.

— Chegou mais tarde hoje. Pegou algum trânsito? — perguntou a mulher, empurrando o óculos com as longas unhas pintadas de vermelho. — O que é um pouco difícil nessa cidade, visto que tem não mais que seis mil habitantes.

Ji-woo negou com a cabeça, suspirando cansado.

— Perdi a hora. Dormi até tarde.

— Já almoçou?

— Comi alguma coisa no caminho para cá, hambúrguer.

Lucy deu uma olhada para os lados na recepção, que estava vazia, enquanto apenas escutavam os sons de diversas vozes e enfermeiros e enfermeiras que iam e viam nos corredores, alguns levando idosos em suas cadeiras de rodas. Lucy se apoiou no balcão, dando uma boa olhada para o amigo.

— Minha nossa... você está um caco. Parece até que um caminhão passou por você.

— Samantha decidiu pedir o divórcio, finalmente.

Lucy piscou os longos cílios algumas vezes, compreendendo. Ela parecia um tanto surpresa.

— Já não eram divorciados?

— Separados. Nunca assinamos os papéis legalmente, mas agora... ela parece ter perdido de vez as esperanças em mim.

— E as meninas?

— Estão bem. Obrigada por perguntar.

Um silêncio constrangedor passou pelo lugar, e Ji-woo ficou tão nervoso que suas mãos deslizarem pelo bolso da calça, esquecendo da proibição do lugar e quase cedendo ao seu vício maldito pela nicotina. Mas Lucy foi mais rápida, pigarreando e chamando a atenção para o homem. Sua voz assumiu um tom sério e profissional, mas nem por isso menos melancólico.

— Seu pai está no quarto como sempre. — Mas ela não havia terminado de falar, quando pegou Ji-woo pelo ombro e o fez esperar. — Ji-woo... sinceramente, acho que seu pai não tem mais muito tempo de vida. Dessa semana ele não passa.

Ji-woo não disse nada. Não era a primeira vez que alguma enfermeira, ou até os médicos o avisassem sobre isso. Ela já sabia. Seu pai era um homem idosos e de noventa anos, com a pele fina e enverrugada, marcada pelos ossos. Mas ainda sim, tinha consciência de algumas coisas e conseguia falar. Mas mesmo assim, saber que perderia um pai em uma época tão difícil de sua vida era chocante.

Ele apenas assentiu para Lucy, enfiando as mãos de vez nos bolsos do casaco e caminhando pelos corredores, cumprimentando algumas enfermeiras. A fina chuva começava a cair pelo lado de fora, e Ji-woo pensou que não deveria haver um tempo melhor do aquele para uma ocisão tão triste e deprimente.

O quarto de seu pai era no segundo piso do asilo, com uma porta de madeira como as outras e que tinha um número pintado em dourado. Ji-woo deu três leves batidas de aviso, antes de abrir a porta pouco a pouco e observar o ambiente. Era um quarto simples, com as paredes em um papel florido e bonito, além do armário de madeira e duas janelas que permitiam a entrada do ar e uma bela vista para o lado de fora. Mas era triste ver seu pai ali, sempre deitado na cama e entubado, com um aparelho que registrava seus batimentos cardíacos.

Mas o que mais deixava Ji-woo curioso era a quantidade absurda de porta-retratos espalhados pelo quarto, que o pai colocou ali quando foi levado para morar naquele asilo. A maioria das fotos eram em preto e branco ou amareladas, da época que seu pai ainda era jovem e registrou os momentos em vidas com câmeras. Tinha até mesmo uma de seu casamento com a falecida mãe de Ji-woo, há muitos anos atrás. Mas a que mais parecia o impressionar e deixar curioso, era a foto de um jovem rapaz ao lado da cama de seu pai. Era de um rapaz, jovem e bonito, mas que Ji-woo nunca soube quem era. E também nunca perguntou. O pai era tão idoso que poderia não lembrar.

Uma enfermeira ruiva estava ali, anotando algumas coisas em sua prancheta quando notou a presença do homem atrás de si, parado na porta. A jovem mulher apenas passou por ele e sussurrou um "Meus pêsames", mesmo que ainda não houvesse realmente um morto naquele quarto.

Ji-woo fechou a porta, isolando qualquer som que viesse do lado de fora para o corredor, e finalmente tomando coragem para entrar no quarto. Um quarto que cheirava à velhice e uma morte que se aproximava, um quarto perturbadoramente calmo

Na cama estava o velho senhor Park. O pai de Ji-woo. Jimin agora era um homem de noventa anos que mal podia se mexer pelos anos acumulados nas costas, mas conseguia escutar, falar e entender. Os cabelos finos e grisalhos como de um anjo, mas uma expressão enrugada marcada pela idade. O velho senhor Park abriu lentamente os olhos, mexendo os lábios secos e com uma voz cansada.

— Ji-woo... que bom que veio.

— Como se sente, pai?

Ji-woo puxou uma cadeira, sentando-se ao lado da cama e pegando uma das mãos do velho senhor, enquanto o outro apenas sorriu e umedeceu os lábios.

— Velho. E cansado. — O senhor Park também tinha consciência de seu atual destino, mas não parecia ter um pingo de tristeza em sua voz, ele fala até com uma certa ironia, disfarçada na doçura de seu habitual tom de voz. — Eu não tenho muito tempo sobrando.

— Está com medo, pai?

O velho Park negou com a cabeça, esboçando um sorriso fraco, porém muito gentil. Para Ji-woo, ele nunca entendeu como quando era mais jovem e seus amigos da época do colegial reclamavam dos pais. Para Ji-woo, Jimin sempre foi o mais amoroso e gentil dos pais, empre sorrindo e quando fazia algo errado, quase nunca lhe dava bronca. Ji-woo não sabia o que faria quando aquele sorriso desaparecesse do mundo, apenas queria passar os restos finais ao lado dele.

— Não, nem um pouco. Porque finalmente vou rever aquela pessoa.

— A minha mãe?

Jimin sorriu pacientemente, rindo nasalmente e esfregando os dedos na palma da mão do filho.

— Sua mãe também, a amei muito. Mas... ele era especial.

Ji-woo não compreendeu aquelas palavras, mas observou quando o pai ergueu a mão e puxou o mesmo porta-retratos com a foto de um rapaz que Ji-woo não conhecia e nem sabia quem era. Jimin abraçou com força o retrato e teve que conter as finas lágrimas que escapavam pelas bochechas.

O senhor Park desviou o olhar intenso, mirando nos olhos do filho e piscando lentamente.

— E Samantha e suas meninas?

— Sam e eu vamos nos divorciar em breve. As meninas estão bem e...mandaram beijos.

Ji-woo preferiu não acrescentar o fato de que a pequena Rosie, a filha caçula, havia quebrado um braço durante um treino de balé. Não queria incomodar ou preocupar o pai com outras coisas em um momento tão íntimo e delicado como aquele, eram seus últimos momentos com ele, e queria apenas aproveitar e falar sobre algo que os envolvesse. Jimin assentiu com a cabeça e sorriu.

— Sempre gostei da Sam, ela era uma boa nora. Que pena que decidiram não continuar.

— Não é algo que um casal decida, pai. Quando se separam, é pra valer.

— ..."Não é algo que um casal decida", você diz. Meu filho... quanta bobagem. Quando um casal quer ficar junto e se ama, nada os impede. — O velho Park piscou mais algumas vezes, acariciando a foto. — Quando se trata do amor, as emoções e ações podem falar mais alto. Por isso, é algo que um casal decide sim. É algo pelo qual querem lutar e proteger.

Ji-woo não disse mais nada, prestando atenção no que o pai dizia. Mesmo com a velhice, os lábios ressecados e olhos que mal podiam ficar abertos, ele falava cada palavra com ternura e como se reunisse forçar contra a franqueza para dizer cada coisa.

Os dedos longos e envelhecidos acariciaram o garoto da foto por trás do vidro do retrato, fazendo Jimin esboçar um breve sorriso de canto.

— Há tantos anos que não o vejo... espero que ele me reconheça.

— Esse rapaz da foto. Quem é ele, pai? Um parente?

Jimin não respondeu, apenas olhou para o teto branco, sorrindo calmamente e fechando os olhos, como se tentasse trazer à tona velhas lembranças. Apontou para uma gaveta sem armário, sussurrando com calma.

— Pegue um caderno antigo, feito de couro. Está sob a pilha de meias.

Ji-woo não ousou dizer nada. O que o pai dizia não fazia o mínimo sentido, mas sentiu que, naquelas horas que o pai ainda estava vivo, precisava escutar aquilo. Como se fosse um grande segredo revelado do passado. Ele apenas obedeceu o pai e encontrou na gaveta um caderno, de fato feito de couro, e com página amareladas.

— Esse era meu diário, de quando eu era muito, muito jovem. — Explicou o velho homem, enquanto Ji-woo fechava a gaveta e voltava para seu lugar. — Se incomoda de ler para mim? Também tentarei contar em palavras o que lembro, mas isso me ajudará bastante.

— Por que?

— Porque quando morremos, dizem que nossa vida passa diante dos nossos olhos. E quero relembrar a minha agora, com todos os detalhes.

— Mas e quanto ao rapaz da foto?

E mais uma vez, Ji-woo havia deixado suas perguntas pairando no ar, enquanto Jimin o encarava pacificamente, parecendo esperar que ele começasse. O filho apenas suspirou cansado e folheou a primeira página, escrita com uma letra que era parecida com a de seu pai. Ele encarou o homem mais uma vez, antes de continuar, enquanto Jimin sorria feliz.

Aquela história tão bela... ele a lembraria mais uma vez. Pela última vez.

Notas finais
Espero que tenham gostado, e por favor deixem comentários dizendo o que acharam, isso ajuda muito. Beijos!