Notas iniciais
No capítulo anterior, a história era narrada em terceira pessoa e no presente. A partir desse capítulo, será em narrado por primeira pessoa e pelo Jimin, e se passa no passado (Segunda Guerra Mundial, que é onde a história começa). É isso e boa leitura, beijinhos!

13 de Setembro de 1943 (Jimin POV)

A imensa aeronave chacoalhava pela milésima vez naquele dia, me fazendo curvar para frente e vomitar outra vez no saquinho de papel, que começava a criar volume. Quando minha mãe costumava me dizer que um dia eu iria voar e observar todo o mar, não era bem isso que eu esperava. O lugar fedia à cigarro e morte, e eu não me sentia nem um pouco confortável com os olhares sínicos que os soldados, companheiros militares do meu pai, me lançavam cada vez que eu botava meu almoço para fora.

— Seja homem. — Foi tudo que meu pai me disse, antes de pegar o saco de minhas mãos e sair do assento, procurando algum lugar para jogar fora. Foi na verdade a segunda coisa que ele havia me dito naquele dia, a primeira foi um "bom dia" seco antes do café da manhã. Que agora já nem estava mais em meu estômago.

O capitão J. Park era um homem de quase um metro e noventa, com pele bronzeada e olhos castanhos que brilhavam como fogo sempre que falava sobre a guerra. A guerra que havia virado seu próprio lar, mais do que a nossa antiga casa no Missouri, que agora, era apenas uma cidade que ficaria em minhas lembranças.

Eu apenas tinha quatorze anos, mas sempre que ouvia falarem sobre "A Guerra" nos rádios, me sentia quase como um adulto. Meu avô costumava dizer que, nas guerras, meninos e meninas tinham que virar adultos e crescer antes da hora se quisessem sobreviver. E sempre que eu escutava sobre os alemães no rádio ou na televisão, sentia que cada vez mais aquela sombria realidade me puxava para si. E quando meu pai me tirou das casas do meus avôs e me levou para longe, dizendo que era o "mais seguro", minha mente se moldava e se acostumava com aquilo. Com as mudanças que a guerra traziam.

Após horas e horas que pareciam nunca terminar, finalmente o avião militar aterrissou em terra firme, areia sendo mais específico. O vento marítimo estapeava meu rosto como um chicote e incomodava minha visão. Me ver em uma posição tão patética e frágil deve realmente ter incomodado meu pai, porque com a brutalidade que só ele conseguia ter, agarrou meu braço com força e me colocou dentro dentro de um jipe. Nem mesmo se incomodou quando esfreguei o antebraço, consideravelmente vermelho pelo aperto.

Meu pai nunca havia sido um homem agressivo, nem comigo ou com minha mãe, mas como disse antes, a Guerra o moldou, assim como todos. E o homem sincero e gentil de antes havia sido morto entre uma batalha e outra.

O jipe passou primeiro por uma praia, com o mar escuro e céu cinzento, cheio de rochas nas encostas e que parecia um bom local para pescar, isso é se eu ao menos soubesse como pescar. A floresta que ficava quase em frente à praia era fria, coberta no neblina e musgo verde. Os pinheiros altos e com folhas escuras não pareciam me dar boas-vindas, pelo contrário, eu conseguia sentir como aquele lugar sabia que eu era um forasteiro e me expulsava dali.

— Você está entrando no meio do ano letivo. — Meu pai resmungou ao meu lado, fazendo com que toda minha atenção se voltasse para ele. — Sua transferência já foi resolvida, mas todos os alunos estão de férias. As aulas retornam depois de amanhã. Seja obediente e não cause problemas.

As palavras dele não soavam como as palavras de um pai, mas sim de um general. E eu me sentia como um soldado que tinha que cumprir ordens, e não seu filho.

— Sim, senhor. — Foi tudo o que disse, com medo. E não a autoconfiança e certeza de um soldado, que era o que meu pai esperava, visto seu olhar de desaprovação sobre mim.

O caminho deve ter demorado pelo menos uma hora ou uma hora e meia, eu não sabia dizer sem meu relógio de pulso, que ficou para trás como muitas outras coisas no Missouri. Mas quando o sol já nascia sobre o mar, foi que o jipe parou, logo depois de passarmos pelo imenso arco de entrada que estava escrito com letras de ferro "Instituto Lavender". Enquanto ajeitava desajeitadamente a mochila em minhas costas, meu pai saltou do jipe para cumprimentar em um aperto de mão um homem alto e gordo que nos esperava pacientemente. Pelo terno marrom, os sapatos polidos e o cabelo castanhos -quase grisalho- muito bem penteado, suspeitei que aquele homem era nada e nada menos que o diretor do local.

— Capitão Park. — O homem limpou a garganta, com um sorriso que parecia pertence ao gato de Cheshire da Alice no país das maravilhas. — É um enorme prazer recebê-lo nesta escola e---

— As aulas se iniciam amanhã, estou correto?

Sempre muito direto e até rude, essa assim que o Capitão era. O diretor limpou novamente a garganta, mas dessa vez evidentemente envergonhado e tentando recuperar a fala.

— Sim. Claro. Nossos alunos no momento estão de férias, mas amanhã bem cedo todos retornarão às aulas.

— Perfeito.

Finalmente consegui sair do carro, tropeçando em alguns cascalhos quando o diretor varreu o olhar sobre mim, esboçando outro sorriso, dessa vez mais leve e sincero.

— Seja muito bem-vindo ao Instituo Lavender, jovenzinho. Qual o seu nome?

— Jimin, senhor. Jimin J. Park.

— Prazer Jimin, sou Leonhart. Dono e diretor dessa Instituto.

— Vocês oferecem aulas até o fim do ensino médio, estou correto? — Meu pai perguntou ríspido, como se interrogasse um soldado.

— Sim. Nossa escola oferece aulas e classes para de 7 a 8 anos até seus 18 anos, mais ou menos.

Meu pai apenas assentiu com a cabeça, sem dizer mais nada ou fazer perguntas, acompanhando a passos largos o diretor que começou a caminhar em direção a um enorme conjunto de edifícios feito de tijolos, que eu arrisco pensar que faziam parte do Instituto. Mas nos deslocamos para o Leste, onde um prédio um pouco menor e com uma aparência mais deprimente. os corredores forrado com carpete verde-musgo estavam frios e sombrios, sem nenhuma alma viva passando por ali, além de nós. É claro, todos estavam de férias e voltariam horas depois. Mas me arrepiava só de pensar em ter que passar uma noite inteira, sozinho naquele lugar.

O diretor deixou eu e meu pai em frente à uma porta de madeira cor mogno, trocando umas poucas palavras e dizendo que esperaria meu pai no hall de entrada para falar um pouco mais sobre a escola e que garantiria meu bem-estar. Quando entramos no quarto, não pude deixar de soltar um suspiro de alívio.

Havia apenas uma beliche de metal e uma janela na parede de frente a porta, onde só podia ver as montanhas ao longe e cobertas pela neblina. O aquecedor colado na parede ao lado parecia levemente enferrujado, mas pelo menos não passaria as noites frias tremendo de frio. O único móvel ali era uma cômodo pequena e de madeira clara.

Quando souberam que me levaria para um internado, meu primo Johnny -filho da irmã da minha mãe- disse que me colocariam em um quarto pior que de uma prisão, e que eu nem teria janelas para ver a luz do dia. No final, ele estava errado e aquele quarto era melhor do que eu podia imaginar.

Meu pai colocou minhas duas maletas sobre a cama de baixo, limpando a garganta e me encarando rispidamente, enquanto eu ainda estava parado na entrada e segurando com força as alças da mochila. Ele caminhou até mim e colocou uma das mãos sobre meu ombro.

— Filho. — Disse ele. — Lamento que em um período tão... complicado, como este, não possamos permanecer um ao lado do outro. Mas não é seguro para um menino da sua idade, com treze anos--

— Quatorze.

— O que disse?

— Completei quatorze anos três dias antes de você chegar na casa dos meus avôs e me levar.

Ele limpou a garganta novamente, parecia que eu tinha abalado ele. O que era algo extremamente incomum ele perder sua pose.

— Como disse, a guerra não é um lugar seguro para você, com quatorze anos. — Ele acentuou a palavra coma atenção. — Precisei te trazer aqui para te proteger, é um lugar mais isolado e sem os bombardeios.

— E o vovô e a vovó? Eles ficarão bem?

— Assim que te deixar aqui, vou fazer o possível para levar eles para uma cidade do campo, também isolada. Eles estarão mais seguros do que nunca.

O peso em meus ombros finalmente parecia se tornar mais leve, pelo menos eu não seria o único que estaria seguro. Não suportaria a ideia de meus avós ficarem na cidade, expostos ao perigo e as bombas.

Senti que meu pais prensava os lábios e cerrava os olhos em minha direção, como se estivesse recapitulando todas as palavras em sua mente, como se estivesse tentando conseguir tempo comigo. O tempo que ele não teve quando partiu para a guerra. Mas não dava para preencher anos em poucos minutos.

— Cuide-se bem. — Foi tudo o que ele disse, antes de retirar a mão do meu ombro. — Volto nas próximas férias para te ver.

Ele passou pela porta e fechou, sem cerimônia. Sem um "eu te amo" como minha mãe costumava dizer antes de me deixar em meu quarto, toda noite, depois te ter me cobertor e beijado minha testa. Aquele quarto pareceu me atingir com uma camada fria e solitária, aquele ambiente parecia me rodopiar com sua melancolia e tomar conta de mim, me colando naquele lugar e me fazendo perceber que era ali que eu ia passar o resto dos meus anos escolares. Era ali que eu estava preso.

Balancei a cabeça e comecei a desfazer minhas malas, com um pouco de irritação. E quando já deveria ser lá para o meio-dia, observei pela janela quando ouvi o som do jipe saindo, retornando para a floresta. Meu pai estava sentado no banco de trás, e mesmo que seu ombros e cabeça tenham tremido em hesitação, ele não olhou para trás. Não olhou para mim por um mísero segundo.

Passei o resto do dia e da tarde arrumando minhas coisas e enjaulado naquele quarto, não queria caminhar por aqueles corredores assustadores e também recusei quando o diretor me chamou para comer no refeitório. Quando a noite caiu, troquei os lençóis da cama e me deitei, cobrindo-me até o pescoço com um coberto xadrez e fino, que não esquentava nada.

Foi só na manhã seguinte, quando o sol ainda não havia nascido e estava tudo num cinza escuro lá fora, que quando escutei milhares de passos e vozes nos corredores. Pessoas rindo, pessoas resmungando, malas sendo arrastadas e portas sendo abertas e fechadas.

Os alunos haviam retornado de suas férias. E eu havia iniciado meu primeiro dia de aula. Havia começado o primeiro dia, de muitos outros que viriam, naquele lugar.

Notas finais
Muito obrigada por ter chegado à este capítulo. Por favor, digam-me o que acharem da história ou do capítulo. Gostaram? Deixem comentários de suas opiniões, isso me ajuda muito! Um abraço!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.