Estrelas

1 Estrelas


Um conto de Enola e Sherlock Holmes.

A noite estava clara e fria. Cobertores aqueciam a mim e meu irmão. Era raro Sherlock sentar-se comigo na varanda do 221B. A rua se encontrava completamente vazia, e as luminárias a gás daquela velha Londres estavam fracas. Mas eu não prestava atenção nisso, hoje era um dia especialmente diferente, o céu, que costumeiramente não passava de um borrão negro, que acentuava a escuridão daquela cidade suja, hoje se encontrava iluminado. Havia estrelas no céu, estrelas que brilhavam de modo diferente. Como se estivessem ali há muito tempo, só que presas. Presas a uma imensidão ignorada e inundada de substancias que certamente ali não pertenciam.

Esfreguei as mãos, tentando afugentar o frio, e falei:

-O que você acha delas Sherlock?

-Achar? Isso é realmente relevante, se tratando de estrelas?

-Não é para ser relevante. Só apenas o que você acha, ou sente.

Agora ele me olhava. E certamente tentava entender o que havia proposto a ele responder. Ele logo chegaria a uma conclusão, disso não tinha duvidas.

-Sentimentos, Enola, algo difícil para mim.

-Sei que são. Mas não significa que são inexistentes.

Ele ficou em silencio. Continuei, admirando os astros que agora pareciam piscar para mim.

-Quando eu era pequena, costumava sentar na varanda de casa, assim como agora, e olhar as estrelas. Claro, na fazenda elas costumavam ter uma aparência mais leve, como se estivessem soltas no céu. Eram mais brilhantes, mais bonitas... Eu as admirava intensamente, e sempre o sentimento de solidão desaparecia dentro de mim. Eu as observava e durante esses ínfimos minutos, eu esquecia o meu redor. Do mundo que se encontrava fora de minha consciência. O frio não me incomodava, o medo, a insegurança parecia deixar meu coração e minha mente inebriada com a beleza do que meus olhos absorviam. Meu coração se aquecia de uma forma diferente, inexplicável. Provável que nunca serei capaz de entender o porquê desses sentimentos... E a verdade é que, não quero entender. E é isso que te pergunto: algo já te fez querer não entender, não saber, deixar o conhecimento de lado e apenas sentir? E seja sincero. Estamos apenas eu, você e elas.

Gesticulei em direção as estrelas.

-Talvez. É provável que sim.

Surpreendi-me com sua resposta. De certa forma era algo positivo.

-Poderia apostar que algo envolve um certo par de olhos verdes, mas isso não é, de forma alguma, uma aposta.

-Não, de fato, não é.

Passamos o restante da noite em silêncio. A família Holmes era famosa por não se comunicar, não fazia mal, pois o silêncio nos caia bem. Sherlock encarava as estrelas de um modo estranho, e inevitavelmente peguei-me pensando e ponderando o que ele estava a pensar. Quem sabe imaginando onde os olhos esmeraldas estivessem, e se ele pudesse, como seria realmente amá-los... Ou talvez ele estivesse de alguma forma, sobre seu conhecimento nulo sobre astrologia, tentando imaginar se aquelas estrelas um dia viriam a contar a alguém que ele ‘’talvez’’ tivesse alguém em seu coração. Alguém que nunca chegaria a sentir, e nem ao menos admitir que o que seu corpo (e coração) incansavelmente pedia era a mulher para amar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!