Estrela da Babilônia
8 Capítulo 8 - Dado pelos deuses
Notas iniciais
O jovem acabou sendo levado para a casa de meu mestre ao meu pedido, pois além do fato de que aquele jovem talvez não falasse nenhuma língua dali e por isso seria melhor deixá-lo com um homem letrado, eu não queria sobrecarregar a família de Sargon. Quando eu, o homem e o jovem chegamos na casa de meu mestre e o ocorrido foi explicado, Aberash me repreendeu com um cascudo relativamente mais leve que aquele homem que, quando foi embora, deu privacidade o suficiente para que a núbia me desse aquele abraço gostoso de irmã. Não sei como é receber o abraço de uma irmã com quem se convive desde cedo, mas a verdade é que Aberash virou uma figura fraterna para mim. Ela acabou por me repreender por ter ido tão longe sem um adulto, que poderiam ter feito mais que só ter me dado um cascudo e essas palavras que as mães dão aos filhos quando fazem besteiras. O garoto do deserto foi colocado no quarto que dividíamos, para ser mais exato foi posto no canto que eu normalmente dormia. Aberash tratou de ver se ele tinha alguma ferida e felizmente ele estava intacto. Como era uma questão de tempo até que ele acordasse, resolvemos descer e tomar lições de escrita. Eu estava finalizando uma lista de animais quando ouvimos o grito agudo do garoto que me fez atingir a madeira abaixo da argila com a cunha pelo susto. Devo ter xingado baixo por isso!
Sabe o significado da palavra “medo”? Aquele ali parecia que ia se atirar pela janela e esperar que a altura o matasse para que nenhum de nós fizéssemos algum mal. Ele balbuciava palavras ininteligíveis para mim, mas Aberash foi capaz de acalmá-lo. Sério, quantos idiomas essa mulher sabe? Ela o tratou quase da mesma forma que me tratou quando cheguei, só que com mais doçura. Vamos dizer que eu acho que ela me tratou minimamente bem porque eu seria um novo inquilino, diferente daquele garoto recebendo um tratamento de realeza. Ela ofereceu água, provando do mesmo pote para garantir que não tinha veneno algum, e deu um limão partido que ele só não recusou por educação. A feição de desgosto pela fruta não mentiu.
— Nuru, Hilmushen. – Tentei abordar o jovem indicando Aberash e eu, logo indiquei ele mesmo e, com olhos desconfiados ele falou com voz fraca:
— Anath. – Ele pareceu que ia dizer mais coisas além de “Anath”, mas... – ...Anath.
Levou um tempo até que ele entendesse que falávamos acadiano. Aparentemente é uma língua ainda muito usada como um meio de comunicação quando não há outros. É visto, o dele era diferente, cheio de outras palavras e sons que desconheço, mas ainda entendível. Me sentei para ouvi-lo conversar com Aberash, algo que perdi no começo, mas lembro-me que ele falou algo sobre ter se perdido depois de uma tempestade.
— Menino ajudou quando achei que morrer fosse. – Anath falou indicando-me. – Ele vi, dormi depois.
— Achei que fosse menos altruísta, “batatinha”.
— Não sou essa coisa não. Só fui ver o que era e mostrar para o Sargon.
Eu menti, mas acho que Aberash fingiu não perceber minha mentira, ela é muito boa em detectá-las para ser enganada por mim. Nunca tive a intenção de mostrar ao Sargon, fui movido apenas por mera curiosidade e talvez porque eu quisesse fugir da cidade.
— Estou onde? – Anath perguntou ao olhar para Aberash e eu como se nos comparasse. – Mizraim?
— Mizraim? – Perguntei em tom quase tão afirmativo que o jovem tremeu dos pés à cabeça. Não sei o motivo, mas Aberash riu dessa observação antes que eu voltasse a perguntar: – O que é Mizraim?
— Mudrâya. A gente dele chama assim. – Aberash disse diretamente para mim. – Não, você está bem longe, Anath. Ainda está perto de sua casa.
— ... “Morada dos deuses”? – Anath disse algo em seu idioma, mas eu apenas entendi “morada dos deuses”, logo não vejo outros meios de dizer o que ele disse sem esse termo. – “Morada dos deuses”?
— Ah, o portão é de Ishtar! – Exclamei apontando para fora. – Aqui onde moram os deuses!
— “Batatinha”, os seus deuses não moram aqui. – Aberash me disse. Devo ter mostrado a língua para ela por essa, mas que se dane. Eu não ia ceder às práticas daqueles persas tão cedo. – Sim, Anath. Está exatamente onde pensa que está.
Conversamos mais um pouco sobre a vida dele, coisas que não levei a sério, fiquei prestando atenção naquele nariz adunco dele. Aposto que meus colegas o apelidariam de “falcão”, mesmo que nossas fuças não fossem tão diferentes. Cocei a ponte de meu nariz, procurando onde estava a “batata” que rendeu o meu apelido, acredito que foi a ponte... Tanto faz! Eu não vejo onde eu era tão diferente. Ouvi diversas palavras sendo repetidas, uma delas anotei no chão com meu dedo sem deixar marcas como achei que deveria se escrever. Acabei por perguntar, interrompendo-os:
— Por que usa “Morada dos Deuses” e não “Porta dos Deuses”?
Aberash coçou o queixo, como se procurasse um modo de me explicar até que Anath tomou a frente e disse-me com o que eu gosto de chamar de “sorriso de vendedor”:
— Só há um deus.
Arregalei os olhos e observei Aberash incrédulo, quase como se pedindo permissão para começar um tipo de briga verbal, mas ela não me deu essa liberdade.
— Ele disse “Babel”, não “Babili”. – Aberash me corrigiu.
— Para mim é a mesma coisa... É como Kadingir-ra.
— Sem palavras nesse idioma. – Revirei os olhos para a repreensão de Aberash. – Ele quer dizer “barulho”, “grito”. “Desordem”.
— Pau na boca! – Gritei. – Desordem?!
Aberash me deu um daqueles cascudos que doem, doem muito, desses que deixam qualquer um zonzo. Sim, esse era o tipo de tratamento que eu recebia ao soltar uma ofensa.
— Menino bom. – Anath pareceu me defender. – Presente de deus ele é. Não machuque.
— Presente... – Aberash coçou o próprio queixo novamente. – Presente... Graça... Dado... Deuses...
De repente ela saiu murmurando aquelas palavras para fazer algo que até hoje me pergunto o que poderia ser, deixando eu e o estrangeiro sozinhos. Não falamos nada, só ficamos um olhando para a cara do outro até que, depois de minutos longos, ele resolveu fazer perguntas que respondi quase imediatamente:
— Quantos anos?
— Dez.
— Trabalha?
— Corto trigo.
— Sua irmã?
— Trabalha para meu mestre.
— Seu mestre?
— Dilshad.
— Amigos?
— Dois.
Depois disto acredito que ele desistiu de vez de manter uma conversa comigo. Confesso, sempre fui bastante monossilábico com pessoas novas, elas me incomodam. Além disso, naquela época eu estava aceitando que não podia dizer tudo que queria, tinha de ser comportado se quisesse ainda viver sob aquele teto. Vamos dizer que meu ego estava passando pouco a pouco pela minha garganta e arranhando tudo que encontrava no caminho. Talvez pensem que eu era uma criança desprovida de tal coisa no passado antes disto, mas eu não era. Eu simplesmente respeitava quem estava acima de mim ou por quem eu tinha um carinho especial como Gemenanna. E claro, como toda criança que vive quase como um tipo de segundo príncipe ou coisa parecida, eu tinha com quem extravasar minha raiva sem ser punido, diferente do que ocorria na Pérsia. Na Pérsia eu era baixo, substituível, sem muito valor e se eu me atrevesse a tentar descontar minha birra em outros que podiam estar igualmente baixos ou mais, certamente iria apanhar por ser magro e fraco.
Não sei quanto tempo ficamos sem fazer mais nada, só percebi que Aberash saiu da casa porque o silêncio estava grande demais. Eu quis que Aziza estivesse ali, pelo menos ela saberia como nos animar um pouco, mas Aziza era uma concubina, não tinha sequer permissão para sair e quando saía vinha ás escondidas durante as festas. Aquela noite só não estava chata a ponto de me fazer dormir porque sou uma criatura desconfiada, nunca me deixaria pegar no sono estando sozinho com Anath.
Depois de uma eternidade ou duas Aberash retornou com a ordem de que eu descesse para o andar que eu quase nunca visitava, onde o mestre Dilshad dormia. Ela definitivamente não me queria lá com Anath. Posso dizer que havia muitas coisas interessantes lá: poemas, badulaques, cartelas de vitória e derrotas de jogos que só me deram a certeza que o mestre era um péssimo jogador e dívidas. Dilshad vivia endividado com impostos atrasados e as datas mais antigas eram de dois anos antes de minha chegada. Um mês antes que eu viesse as datas ficavam mais apertadas e existia uma quantidade imensa de ultimatos. Na época nem me passou pela cabeça que eu teria de lidar com essas coisas quando crescesse. Meu mestre não era dos melhores! Acabei caindo no sono ali mesmo e acredito que não dormi a noite toda porque fui acordado por Aberash em um tempo que achei próximo de ser quinze minutos desde que preguei o olho.
— O que acha de “Bagadata”? – Ela me perguntou.
— Quem? – Indaguei coçando os olhos.
— “Ba-ga-da-ta”. O que acha?
— Quem é esse?
Aberash revirou os olhos em uma proporção que acho que ela acabou enxergando o lado de dentro da própria cabeça. Só não foi assustador porque eu estava tonto de sono.
— Vou falar devagar: você gosta do nome “Bagadata”?
— ... É meio esquisito. Nunca ouvi...
Aberash colocou as mãos na cintura e respirou fundo. Não a culpo por achar meu comportamento lento demais, era só meu terceiro mês ali.
— Quer dizer “dado pelos deuses”.
Abri um sorriso de orelha a orelha.
— Gostei! “Baghavadata” parece bom!
— É “Bagadata”. – Aberash me corrigiu. – Mas, se quiser que eu te chame de Hilmushen, não vejo problema algum.
— Bagadata está bom.
Aberash estreitou os olhos por um instante e sorriu. Por quê?
— O que “Hilmushen” quer dizer mesmo?
— É... – Estava envergonhado, mas respondi sorrindo: – Pássaro bonito.
— “Bagadata” é melhor.
Quando resolvi rolar para o sono novamente e Aberash se dirigiu para o cômodo onde estava Anath, ela voltou e disse-me:
— Não durma aí, o mestre não vai gostar. E por favor, vá comer algo, te vejo lá embaixo em poucos instantes.
Foi difícil me erguer. Foi mesmo. Ainda assim eu fui capaz de chegar até o térreo antes que ela viesse com a notícia que Anath adormeceu e que eu dormiria com ela naquela noite. Conversamos um pouco sobre o povo de Anath enquanto eu me servia de leite e limão com alguns pedaços de pão melecados de mel. Mel não era algo barato, me lembro de ter comido muito pouco disto em minha vida, por isso prefiro até hoje encher o pão com mel do que misturá-lo no leite. Aberash era do tipo que não fazia misturas com comidas, geralmente as comia separadamente, ainda que intercalando uma com a outra. Não sei como ela ainda aguenta fazer isso, eu nunca consegui chupar limões separados ou comer pão sem nada. Há um poema que me lembro de quando tinha meus quatro anos, algo como “pão, sem sal, sem manteiga, sem ovo, não dá”. Na minha opinião isso parecia uma nota de reclamação sobre como pães não devem ser comidos sozinhos.
— Bagadata. – Aberash me chamou, quase não dei atenção por esquecer de meu novo nome temporariamente. – Você quer voltar para sua casa?
— Quero. – Respondi rapidamente. – Mas, todo mundo... Deve ter morrido, não é?
Aberash apenas assentiu com a cabeça.
— Por que a pergunta?
— ... Foi só um pensamento... – Ela fitou o teto com um olhar sonhador no rosto, um olhar muito raro. – Faz tantos anos que vim para cá que não me lembro bem de minha casa.
— E de onde você é?
— Sou de Kush. Fica ao sul de Mudrâya.
— ... “Nuru” é um nome de lá?
— Não. “Nuru” era o nome de uma senhora que veio comigo. Ela era de outro lugar ainda mais ao sul de onde vim e não falava nenhuma língua que eu entenda hoje.
— Por que te chamam de Nuru, então?
— Trabalhávamos juntas, eu era “sem família”, não falava nenhum idioma e quando ela morreu todos me chamaram pelo nome dela.– Ela deu uma pequena risada curta. Preciso dizer o quanto aquela risada me encantava a ponto de eu achar que estava vendo a mais linda princesa do mundo? – Toda vez que a chamavam eu vinha junto, então pensavam que tínhamos o mesmo nome.
— Por que não os corrigiu?
— Não valia a pena. Dilshad sabe meu nome, mas o hábito de me chamar de “Nuru” não morre. Mas, um dia, Bagadata... Um dia todos os que me conheceram quando criança morrerão e os que sobrarem serão os jovens que me chamam só de “Aberash”.
— Como eu?
— Exatamente. Como você.
— ... Tem alguma chance de eu voltar a ser “Hilmushen”?
Aberash suspirou pesadamente antes de pegar uma de minhas mãos e dar um aperto que só me transmitiu segurança.
— Seu caso é diferente. Você veio na condição de criança bárbara e existe para mostrar submissão, eu vim para procurar uma vida melhor. Talvez você seja Bagadata para sempre, até quando ninguém mais esteja aqui para chamá-lo por este nome.
Engoli o nó que se formou em minha garganta e olhei fundo naqueles olhos escuros. Eu lembro o quanto eles eram bonitos, o quanto eu gostava de olhar para eles, o quanto eu os encarava com a mesma naturalidade que via o céu. Aberash até hoje tem esse olhar calmante para mim, um olhar que me encanta, que me faz pensar o quanto remoí pensamentos em minha adolescência sobre ela. Confesso, eu realmente quis cruzar a fronteira da fraternidade, quis até pedir que ela se casasse comigo, mas Aberash sempre foi um sonho muito alto para mim. Ela soltou da minha mão, me dirigi para as escadas e ela me impediu de subir ao indagar:
— Está indo para onde, Bagadata?
— Dormir, ué. Estou cansado.
— Pode ir dormir, mas antes você precisa terminar sua lição.
— Hein? Que lição?
Dali de cima da mesa ela pegou a tábua na qual eu estava escrevendo antes de Anath acordar, estava meio mole a ponto de deixar as marcas dos dedos daquela moça na argila, mas não mole o suficiente para se deformar pelo próprio peso. O furo que fiz com a cunha parecia bem maior agora.
— Vai ter que fazer de novo.
— De novo?! – Perguntei incrédulo. – Não dá pra amassar a partezinha ali e continuar?
— Até dá, mas quanto mais você praticar, mais rápido você aprende.
— Ah... Não! – Reclamei ao me colocar ali, puxar argila nova, molhá-la, estendê-la na madeira, amassá-la, estender de novo... A parte mais chata da minha profissão é preparar a argila, minha única sorte é que essas tábuas em que escrevo minha vida são preparadas por outra pessoa, caso contrário eu morreria como um anônimo. Não, eu jamais escreverei no papel no resto de minha vida! – Tô começando a perder a vontade de virar escriba! Pra que tanta pressa?!
— Porque você pertence a um escriba, não fala direito nosso idioma e só começou a vida de um garoto como os nossos aos dez anos. Você precisa se esforçar em dobro se quiser uma vida razoável aqui.
Dito isto ela se despediu e subiu. Me lembro de ter xingado-a entre dentes. Não de fato xingá-la, mas xingado a mãe dela, seja lá quem quer que tenha sido.
Quando terminei de fazer aquela estúpida lista o mestre Dilshad apareceu na porta. Ele me olhou, olhou em volta e só depois de um longo suspiro ele me perguntou:
— Nuru já foi dormir?
— ... Sim, mestre. – Respondi um pouco trêmulo.
— Escrevendo?
— Sim, mestre. São animais.
Ele soltou um som gutural baixo ao ponto que correu os olhos pela tábua falha, certamente desgostoso pelo buraco que fiz na argila.
— Almas e sua mulher disseram ter visto um guarda carregando um homem junto de você.
Travei. O senhor Almas era um homem rico que mexia com pedras brilhantes, volta e meia andava pelo caminho da procissão para fazer propagandas e sempre emitia recibos com o mestre Dilshad. Não me lembro de ter um grande afeto por este gordo bigodudo, mas aquele momento me colocou em um choque que não consegui articular palavras.
— Gul disse que o guarda entrou aqui com o homem e saiu sozinho.
— A senhora Gul deveria se importar mais com a vida dela que com a nossa. – Respondi com leves gaguejares. – Mestre, você mesmo diz isso.
— Concordo sobre Gul, garoto. Mas, o que fez com o homem que trouxe?
Tremi da cabeça aos pés. Como eu já disse, o mestre evitava me ver, agora que me confrontava eu sentia como se ele procurasse oportunidade para me vender, para me jogar com alguém que não seria paciente comigo. Além disso, eu não queria me separar de Aberash, eu a adorava como uma pequena deusa titular.
— Lá no alto. Ele se perdeu e... Só vai ficar um tempo, até... Até melhorar.
— Está ferido?
— Não, mestre. Só com sede.
— ... Por acaso... O encontrou fora do muro externo?
Não disse nada.
— Tudo bem, sei que se disser algo será mentira. – Dilshad disse ao passar por mim, fazendo pouco caso de minha existência por hora. – São todas iguais, essas crianças estrangeiras.
Engoli minha resposta com meu ego. Foi difícil, mas o medo serve como água para comidas amargas. O mestre observou meu trabalho antes de vir com mais perguntas:
— Nuru tem te ensinado bem?
— Sim, mestre.
Ele soltou outro daqueles sons prolongados formados na garganta antes de soltar uma frase que me deixou apenas surpreso, não assustado:
— Você afunda o suficiente. Não tem sinais de que cometeu muitos erros, tem poucas marcas de dedos. – De novo aquele som. – Acho que posso começar a te ensinar. Vamos pensar em um nome.
— Mestre... Eu já possuo um nome.
— O nome “Hi-alguma-coisa” não tem espaço aqui.
— Mestre, é “Bagadata”.
Ele se engasgou com o vento e moveu a mão para que eu me retirasse, do jeito que se espanta moscas.
— Vai, vai, leve esse seu ego gigante lá para cima. “Bagadata”, só me faltava essa...
É desnecessário citar que subi as escadas correndo.
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