Estrela da Babilônia

9 Capítulo 9 - Bagadata e Sharr-Tahm.


Notas iniciais
Eu disse que postaria em Janeiro. Bom, atrasei apenas dez dias do prazo final. Me desculpem. Enfim, aproveitem a leitura.

Minha noite foi desconfortável, mal preguei o olho por estar muito concentrado na respiração de Anath e, como sempre, me levantei e saí antes do sol aparecer inteiramente. Não direi se minha manhã foi agradável ou não porque não possuo lembranças claras dela, só borrões de cenas sobre como contei aos meus colegas que agora possuía um nome. Sargon foi o único impressionado com o fato e aparentemente foi o único que acreditou em minhas palavras. Não que “Bagadata” seja um nome raro, mas dar esse nome para uma “criança bárbara” era algo tão incomum que soava como se eu dissesse que vi uma vaca se empinar nas patas traseiras e andar alguns passos feito gente: difícil de acreditar, mas não totalmente improvável.

Quando Sargon, outros pirralhos e eu fomos para os campos de treino, fui abordado pelo velho mestre que disse que em três semanas eu engoliria meu ego. Era minha décima e eu ainda mantinha parte de meu ego forte, pelo menos para ele ver que “Hilmushen” rompe barreiras que lhe são impostas. Confesso, sou birrento o suficiente para contrariar tudo que me impõem até hoje. Sim, esse meu comportamento é gerado de pura birra particular. Mas, voltando ao velho:

— Ô “batata”, venha cá.

— É “Bagadata”, senhor.

— Bagadata é? – Ele apertou os lábios murchos e ergueu as sobrancelhas grossas. Ele não acreditou. – Enfim, já engoliu esse teu ego?

— Não sei que gosto meu ego tem, nem comecei a comer.

— Eu conversei com uns garotos dali – Apontou para os homens afastados no solo de azulejo, aqueles que rodopiavam com duas cimitarras e possuíam roupas de melhor qualidade. – e escolheram alguns dos mais novinhos para tentar por seu ego goela abaixo.

— Senhor, por que você pegaria um daqueles só para isso?

— Porque fiz uma aposta gorda e não pretendo perdê-la. – Ele me deu uma faixa de pano fina que estava convenientemente em seu colo. – Amarra esse cabelo. De preferência, penteie vez ou outra, você parece um bicho selvagem assim.

— Perdoe-me por não possuir tempo para nada além de trabalhar e estudar.

Saí de perto do velho com a vontade de dar um belo murro naquela cara de ameixa enrugada, mas no fim só amarrei meus cabelos e acabei indo conversar com Sargon. Quando contei o que o velho queria comigo, ele só torceu o rosto igual como ele faz sempre que chupa um limão: mais torcido que corda. Apoiando a mão em meu ombro ele apenas disse:

— O que eu digo para seu mestre quando eu voltar do treino?

— Quê? – Foi minha vez de perguntar. – Você não acha que vão pegar pesado comigo, acha?

— Tenho certeza que você só vai sair daqui em dez parcelas.

Devo ter dado um tapinha naquele ombro gordo dele. Bom, para mim foi um tapão forte, mas o que é o andar da formiga sobre um boi? Um leve incômodo que dá coceira ou faz cócegas. Vi uns cinco meninos daquele grupo se reunirem e envolverem lenços longos em suas faces, deixando um traço tão fino para os olhos que nem mesmo eu seria capaz de enxergar por aquela abertura. Por que faziam isso? Perguntei ao Sargon:

— Eles estão enfaixando o rosto por quê?

— É o relógio da sua hora chegando. Quando cobrirem o corpo inteiro, diz suas últimas palavras.

— Não, não. Seriamente, por quê?

— Para não machucarem, eu acho. Esses aí precisam ser perfeitos, sabe?

— ... Maricas. Nem as meninas parecem se preocupar com isso.

Sargon riu de meu comentário, um riso abafado, como se fosse errado rir disso. Bom, até o que eu disse não deveria ser dito. Sim, eles tinham lá seus motivos para não tirar a beleza de seus corpos com cicatrizes, mas nunca entendi o motivo de treinar homens para serem lutadores de elite e ainda assim serem o auge da beleza. Isso para mim nunca fez o menor sentido e ainda hoje encontro dificuldades em encontrar um. Bom, sem críticas.

— É um “mariquinha” que vai te deixar cego de um olho, isso se não fizer toda a pele do seu rosto cair!

Pensei, pensei... E no fim resolvi pedir um favor que até hoje tenho vergonha de admitir:

— ... Mearranjaumpano...

— Quê? – Sargon perguntou colocando a mão em concha no próprio ouvido.

— Me arranja um pano.

— ... Ô, Bagadata, você levou a sério mesmo sobre o olho?

— Primeiro não. – Engoli em seco. – Mas, se os soldados comuns cortaram fora “a flauta” de meu príncipe no meio do nada como se fizessem isso antes de comer pra abrir o apetite... Quero nem pensar o que pode acontecer vindo desses maricas.

— Vem cá, Bagadata, vem cá. – Sargon me puxou pelos ombros e colocou a boca perto de meu ouvido. – Você é complexado com esse negócio de perder o pênis ou o quê?

Em minha irritação o empurrei e acabei sem responder, irritado pela naturalidade dele quanto a isso. Depois que eu soube que algumas famílias davam seus filhos para se tornarem eunucos eu entendi bem e mal toquei mais no assunto. Pelo menos não falei mais disso com Sargon.

Como pedi, Sargon me arranjou um pano grande e o amarrou em minha cabeça, só me deixando os olhos expostos.

— Como se sente, Bagadata?

— Essa coisa esquenta pra caralho.

— Ah, pára de reclamar! – Sargon falou apontando na direção em que estava minhas costas, indicando cinco garotos que, pasmem, nem mesmo a pele de suas mãos estava exposta. – Tá com calor sem motivo, olha eles ali! Eles devem estar com umas sete camadas de roupa!

— Será que dá tempo de ir em casa e pegar mais umas cinco pra mim?

— Deixa de ser covardão! – Ele me deu um tapa na nuca que só fiquei impedido de reclamar porque fiquei momentaneamente zonzo. Não de dor, foi mais pela rapidez que minha cabeça se moveu para frente. – Acha mesmo que vão te matar? Tava só te zoando!

— ... Sargon... Já te mandaram ir tomar no cu hoje?

— Por que alguém me mandaria ir tomar no cu?

— Considere-se mandado.

Sargon deu ombros e me deixou ir para meu destino. Minha vontade atual não era de fazer um dos mariquinhas cair com tudo na ponta de minha cimitarra, mas de fazer o Sargon engoli-la com areia!

Todos os garotos eram mais altos que eu e certamente mais velhos. Em fila eles ficaram enquanto a multidão se juntava ao redor, dando um pequeno espaço circular para formar uma arena e perto deles estava o velho instrutor sentado em uma banqueta. Antes de eu ir até o centro e fingir que estava pronto para ficar cheio de hematomas, o velho me olhou com estranhamento por conta do pano em minha cabeça, ficou sem dizer nada e depois chamou os meus cinco futuros oponentes. De cara eu descartei o mais alto e o mais parrudo, ainda que o parrudo não fosse muito diferente dos outros, depois descartei o que parecia ser o mais enfezadinho.

Sobraram um garoto de olhar triste e outro com olhos de falcão. Resolvi pegar o mais cabisbaixo, afinal, ele certamente teria mais pena de mim. Estendi a cimitarra para o garoto, mas quem cruzou a lâmina com a minha foi o menino com olhos de falcão. Ele foi tão rápido que até estremeci ao ir para trás. Ele nem ao menos esperou o outro garoto sair da arena e começar a tirar aquelas rouponas que veio para cima de mim com aparentemente tudo que tinha. Se eu não estivesse acostumado com corridas, não duvido que a brincadeira de Sargon sobre eu sair dali em dez parcelas não tivesse se tornado uma praga que se tornaria realidade.

Guardei a cimitarra na bainha e resolvi cansá-lo e vi que minha decisão foi um desperdício de tempo e da minha própria energia, pois o pirralho tinha boa mira e força o suficiente para fazer suas espadas curvas atingiram o solo onde eu estava ou pretendia estar, sem nunca acertar um único lugar perto da platéia. Bom, talvez ele não tenha acertado ninguém porque os homens sempre recuavam um pouco quando um de nós se aproximava demais. Fiquei por alguns segundos fugindo das duas cimitarras que ele sempre atirava e voltava para apanhar. Até me passou pela cabeça catar as cimitarras que eram atiradas no solo, mas se eu parasse para isso... Ah, não. Ele certamente conseguiria me alcançar.

E ele conseguiu.

Foi um corte direto no meu ombro esquerdo e acho que foi perigosamente perto demais de meu pescoço. Não foi profundo, mas doeu. Doeu bastante. Resolvi então encará-lo pra valer, mas não por ele ter me machucado, só porque vi o sorriso no rosto do homem velho que parecia muito satisfeito com minha situação. Respirei fundo ao segurar a espada com minhas duas mãos e nesse intervalo vi o garoto empunhar duas cimitarras ao mesmo tempo.

Se eu tinha ideia de como isso poderia piorar? Não.

Corri com o que tinha para pegá-lo de estoque e a defesa do garoto foi dar um giro para minha direita usando as lâminas como um tipo de escudo no caso de eu virar a minha cimitarra para pegá-lo. Terrível. Não lembro como se chamam os ventos que rodopiam, mas o garoto parecia um desses. Começou a me fechar mais e mais com esses movimentos dançantes e volta e meia conseguia me atingir superficialmente. Eu? Eu só gritava e tentava revidar sem êxito.

Eventualmente minha paciência e minha razão foram para longe, deixando apenas meu medo comigo.

E esse medo me moveu para as paredes de pessoas, ganhando distância, distância... E com essa distância obtida graças à minha velocidade nas pernas, voltei contra o garoto, protegendo apenas meu pescoço e costas com a cimitarra. Se eu o atingi? Sim, com a cabeça em seu estômago, exatamente como as cabras fazem. Claro, fiquei um pouco tonto pelo baque, mas o derrubei por um tempo. Ele se levantou me usando de apoio, justamente no lenço que cobria meu rosto com um puxão em uma das pontas soltas. Só nesse momento percebi que estava suado o suficiente para sufocar ali dentro. O puxão dele tirou o lenço do lugar, impedindo minha visão por uns momentos, então o removi da cabeça. Devo tê-lo deixado tonto com a cabeçada, pois ele passou a ficar lento, lento... Ele estava pegando leve comigo! Talvez fosse porque agora ele conseguia ver o quanto eu estava com medo, o quanto eu não queria participar disso. Bom, pelo canto do olho eu vi Shahin falar com o velho, acredito que pedindo para parar a diversão da tarde, o que não aconteceu. Tinha muito dinheiro correndo entre os mais velhos para aquele duelo de mentira parar. Por falar em parar, foi isso o que meu adversário fez: parou. Ainda parado relaxou os ombros e jogou uma das cimitarras no chão, sem intenção de me atingir.

Se “o eu de agora” estivesse assistindo uma briga como essas e ainda apostando, acho que teria vaiado e reclamado que “falta bolas” nessa criançada durante uma semana inteira sem parar. Mas, voltando ao “eu de antes”:

Aproveitei a chance para derrubá-lo, sem muita piedade, sem muito do meu medo inicial. Não é porque superei o medo, o motivo era que o garoto estava intencionalmente desarmado! Não existe superação rápida de medo! Apenas aconteceu um desejo de terminar tudo junto do vômito de meu orgulho engolido há algum tempo. Notei que o garoto não ia deixar-se cair, ele tentou desviar um pouco da direção da minha corrida cedo demais, e isso deu-me tempo para mudar minha direção e pegá-lo no pulo. Literalmente.

Caí sobre ele com meus joelhos para prensar suas laterais e minhas mãos para prender as dele no chão. Estava tão cansado, tão cansado, que meu peso deve ter ajudado a mantê-lo ali, pois minha força não era nada. Ele deve ter mantido as mãos tensas, quase como se preparando para me empurrar, durante uns dez segundos antes de relaxar de vez. Vaias e assovios vieram de todas as direções, juro que ouvi Sargon comemorando e o velho xingando no meio das muitas vozes. Mais por curiosidade que pena, soltei as mãos do garoto e puxei o pano de seu rosto com uma dificuldade menor do que eu esperava.

Vamos dizer que desde o dia em que fiquei pendurado pelos pés em uma janela, essa era a primeira vez que ficava surpreso a ponto de achar que fosse morrer e ainda virar motivo de piada para os presentes.

Conhecia aqueles olhos negros com um fundinho de azul, tal qual um deus, conhecia aquele conjunto de lábios finos e até aquelas bochechas magras em pele de areia grossa. O espadachim era ninguém menos que meu príncipe, meu antigo mestre, meu irmão Tammuz.

Ele não estava irritado a julgar pelo rosto sereno que nunca o vi usar. Estava levemente diferente, eu diria que com uma pele mais bem tratada que antes, sem rachadura alguma nos lábios e até um pouco mais gordo. Aparentemente, ele estava tendo uma vida melhor que a minha. Não me lembro se a picuinha que tinha acumulada ao longo dos meus dez anos se fez presente naquele instante e nem faço questão de me lembrar dessa negatividade, no entanto me lembro de Tammuz abraçando-me pela primeira vez. Foi algo de momento, pois eu o abracei de volta e até ouvi que o alto barulho da multidão foi morrendo ao ponto que consegui perceber que Tammuz estava balbuciando algo que não entendi. Não, ele jamais me disse o que falou para mim naquele instante, porém tenho quase certeza que foi algo no espectro de “me desculpe” e “é bom te ver vivo”.

Silimma hemmen, sheshĝu! – Eu disse em voz alta. Acredito que ele ficou surpreso em ouvir alguém que podia entendê-lo, mas não retornou nada em voz alta. Ele apenas repetiu aquilo em voz baixa antes de me empurrar para que pudesse se erguer.

Pelo olhar dos outros garotos creio que coisas ruins aconteceriam com ele naquele dia, ainda que a arrogância e a autoconfiança extrema dele fizessem parecer que ele não se importava com essas coisas.

Fui erguido do meio do anel de pessoas por Shahin que acabou nos acompanhando de volta para os campos, curioso sobre o que tinha acabado de acontecer. Acredite ou não, mesmo que Shahin fosse uma boa pessoa, dedicado à ser o palhaço para crianças como eu e Sargon, ele só o fazia quando queria ouvir alguma conversa.

— Ele é o meu príncipe. – Contei aos dois, arrancando uma risada de Sargon pelo modo que coloquei as palavras naquela sentença. – Ele não era assim quando éramos mais novos, sabe?

— Você ainda é novo para mim, ô pivete menor. – Shahin falou com seu sorriso característico.

— Como ele era? – Sargon perguntou. – Ele era mais forte e menos maricas?

— Não fale assim. – Disse eu, todo hipócrita. É claro que sempre achei Tammuz um grande maricas, mas não ouso deixar esse meu pensamento sair na frente de outras pessoas, principalmente quando elas dizem isto dele. Ora, eu o conheço desde criança, eu posso chamá-lo assim, ninguém mais. – Ele era... Muito forte. Forte como aquele cara que você nem chega perto porque é morte certa.

— Exagerado... – Shahin virou os olhos com aquela interrupção. – Não tem como um magrelinho daqueles ser um... “Outro Sargon”, nem no passado nem no futuro.

— Sargon é um boi, não pessoa.

Adivinhe só, foi um peteleco daqueles que tomei no pé da orelha vindo de Sargon. Eu sei que ele só me acertou por acidente, mas doeu.

— Eu tenho cascos?! – Ele me falou exibindo as mãos. – Eu tenho cascos pra você?

— Pau na mão, Sargon. É jeito de falar, ô.

Foi então que Shahin fez a pergunta mais fácil de responder:

— Você tinha medo dele, por acaso?

— Como não? Ele é, era, um príncipe. Eu sou só um pivete sem pai.

Olhaí, isso é coisa do passado, “pirralho número dois”. – Shahin me ergueu em seus ombros, exatamente como se eu fosse feito apenas de ar, e pareceu tentar me alegrar. Admito, sinto falta desse rapaz. – Esquece o passado. Ele é só mais um eunuco em treinamento e você é um futuro escriba. Seus pais meio que não são importantes aqui e agora, mas seus tutores sim. Principalmente porque são eles que te engordam.

— É, pensa nesse lado bom! – Sargon exclamou. – Ia ser muito chato precisar puxar o saco dele o tempo todo! Agora você não precisa mais disso!

— Até porque ele não tem mais saco.

O último comentário de Shahin nos fez gargalhar. Devo ter tentado dizer que não era bem assim, mas as risadas me impediram.

Vale comentar que cinco pessoas ficaram ricas com minha “vitória” e estas cinco apenas apostaram em mim porque se consideravam azaradas, em suma, torcendo por um ao apostar em outro.

Somente quando fui me deitar naquela noite é que tive a realização que minha vida ali não era o pior pesadelo que poderia me ocorrer. Vale lembrar que Anath ainda estava em casa, mas já não era um incômodo gigante dessa vez. Incômodo mesmo foi o sermão que Aberash me deu enquanto tratava de meu corte no ombro. A frase que ela mais repetiu foi que eu deveria ter tratado daquilo logo que o fiz ao invés de esperar horas. Enfim, sobre pesadelos, creio que o filho da sacerdotisa e o príncipe não mais tiveram sonhos ruins sobre suas novas vidas.

Afinal, Hilmushen e Tammuz morreram no deserto e seus fantasmas já não podiam mais atormentar Bagadata e Sharr-Tahm.

Notas finais
A frase "Silimma hemmen, sheshĝu" (ou sheshngu) é um cumprimento formal comum com significado similar à "tenha boa saúde". "Shesh" é o mesmo que "irmão" enquanto "ngu" é um pronome possessivo. Creio que eu deva explicar isto: como ambos foram criados sob o mesmo teto e pelas mesmas pessoas, mesmo que em condições diferentes, isto os faz "irmãos de criação".
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.