Notas iniciais
Obrigada por lerem!!

☆☆☆

Verão de 1988

☆☆☆ ACAMPAMENTO INTERESTELAR ☆☆☆

16 anos

Naquele verão eu dormi com uma garota. Mesmo que Scar não se encaixasse completamente no conceito garotas.

O Acampamento tinha uma política clara em relação às barracas. Sem confraternização entre os sexos.

Só que aquela regra foi quebrada quando o Sr.Piper fitou a sua prancheta reluzente e me encarou por baixo de grossas sobrancelhas. Ao que parecia minha inscrição não havia sido registrada. E sem registro, sem barraca. Estava prestes a sacar o meu celular e mandar uma mensagem para o meu pai, quando Scarlet intrometeu aquele nariz sardento onde não era chamada e anunciou que eu poderia ficar na sua barraca.

E, por mais inacreditável que fosse a ideia, o Sr.Piper concordou, depois de dar uma boa olhada para as minhas pernas inertes e considerar que eu não era uma ameaça para virtude de Scar.

O que foi uma verdadeira paulada para meu ego masculino.

Foi assim que naquele verão quente como inferno, eu acabei em sua barraca bagunçada e apertada. Respirando o seu cheiro invasor de morangos e compartilhando da sua obsessão por estrelas e constelações.

Em uma noite mais quente que o normal, ela demorou a pegar no sono porque, segundo ela, os mosquitos gostavam de festejar em sua pele e ela gostava de estar bem acordada quando eles atacavam.

Estávamos deitados, fitando o teto caído da sua barraca, ouvindo o acasalamento dos grilos, quando ela rolou de lado e me fitou. Encarei o depósito de estrelas douradas que se refletiam em seu nariz e nas suas bochechas afiladas.

— Queria te fazer uma pergunta. E quero que responda com sinceridade. – Acenei. – Você me acha feia?

Porra.

Suguei o ar de forma suspeita. Ela me encarou sem hesitar. Senti dificuldades de elaborar uma resposta sem magoá-la, porque, no fim, Scar não era… bonita. Cruel e seco assim.

Era duro falar aquilo, ainda mais para uma garota que te olhava como se você fosse o sol do sistema solar dela, mas eu não podia mentir. Não quando ela me olhava daquele jeito, exigindo uma resposta sincera.

— Você não precisa responder. Seus olhos já disseram o bastante.

Ela girou de costas para mim. E, aquilo, foi como socar o ar para fora dos meus pulmões.

— Scar. Espera. Olha pra mim.

— Não.

Me arrastei até ela, até que o meu peito grudassem em suas costas trêmulas.

— Olha pra mim, cachinhos. – Sussurrei em seu ouvido.

Ela espremeu os olhos com ainda mais força. Uma lágrima solitária escorreu até a ponta do seu nariz.

— Scarlet. Você não é feia.

— Os espelhos discordam de você. – Ela exalou e comprimiu as mãos em baixo do queixo. – Sei que sou feia. Que pareço uma pata desengonçada com pernas demais e pele de menos. É só que, por uma única vez, eu queria que alguém me achasse bonita. Ingenuamente, achei que poderia ser você.

A voz instável dela me envolveu como um manto de espinhos e eu me senti realmente um monte de esterco humano.

Olhei para os seus cílios levemente curvos e para as constelações das suas bochechas, quando um pensamento irrompeu na minha cabeça.

Umedeci os lábios e me inclinei sobre ela, inspirando o cheiro do seu shampoo.

— Lembra-se daquelas estrelas que você me mostrou no acampamento, ano passado?

Ela acenou.

— Você é como elas. Linda, brilhante, tão perfeita que é difícil até mesmo de olhar. – Ela conteve o fôlego, os cílios piscando freneticamente. – Mas, nem todos conseguem enxergar isso, porque nem todos têm binóculos. Mas, eu tenho, e eu enxergo você. E confia em mim quando digo que não há nada feio em você.

Lentamente, ela girou a cabeça e me fitou através de cílios molhados. Rubor iluminou a sua face e eu senti uma vontade insana de sentir a pele quente sobre meus dedos.

— Isso foi muito doce.

— Sei ser doce às vezes.

Nós dois sorrimos e a harmonia do mundo pareceu voltar ao normal de novo.

Ela fungou e me avaliou como se eu fosse um grande quebra-cabeça que ela estava desesperada para pôr as mãos.

— Você vai chorar de novo? – Perguntei suavemente.

Ela fez que não com a cabeça, os olhos brilhando.

— Que bom porque os meus braços estão me matando.

Cai de costas e exalei fundo, sentindo a ardência nos braços e nos ombros. Uma mão pequena e macia envolveu a minha e eu pisquei surpreso para o teto da barraca.

— Obrigada. – Ela sussurrou, aconchegando-se contra mim. – Você também é lindo, caso esteja se perguntando.

Eu não estava, mas foi bom ouvir aquilo.

— Bons sonhos, Charlie.

Naquela noite, Scar dormiu embolada em mim, a mão pequena no meu coração e a boca pressionada contra o meu pescoço, sem saber que estava roubando meu ar e marcando o meu coração a fogo.

Notas finais
Bjss e xoxoxo