Estranha Atração
2 Capítulo II — Estranha reviravolta
Notas iniciais
Capítulo II — Estranha reviravolta
Pela televisão o mar é lindo, mas poder vê-lo tão de perto... É maravilhoso.
O relógio digital que estava sobre a bancada da cozinha marcava seis e trinta e oito da manhã. E o sol já estava perfeito no céu. Poderia, facilmente, viver olhando para essa vista que não me cansaria.
Porém, não é bem assim que as coisas são.
Preciso de um emprego. E rápido.
Quando decidi vir para a Rosemary não imaginava ser enganada pelo meu pai, precisando ter que depender da boa vontade do filho da nova esposa dele para poder ter um lugar onde passar a noite.
James acabou com o resto do meu orgulho quando me mandou vim para essa casa, viajando essa casa logo em seguida.
Eu trago tanta dor a ele assim?
O barulho de salto batendo sobre as escadas me fez virar, minimamente, de onde eu estava tempo suficiente para ver uma garota saindo em passos furiosos em direção à porta. Não precisa ser um gênio para saber que ela foi dispensada pelo Oliver.
Na noite anterior eu consegui dormir poucos minutos, apenas. Mas o que atrapalhou o meu sono não foi o barulho alto da musica ou o som de gemidos quando todos se foram, mas sim os meus malditos pesadelos.
Reias.
Memórias reias que me veem a mente como pesadelos.
— Acordada há essa hora? — disse uma voz preguiçosa atrás de mim, fazendo-me pular de susto.
Oliver soltou uma risada rouca quando me virei. Provavelmente pela expressão assustada que deve estar estampada no meu rosto.
Eu poderia fazê-lo a mesma pergunta, porém a resposta é mais do que obvia: Ele não chegou nem a dormir, pelo jeito.
— É. Eu tenho bastante coisa para fazer hoje e prefiro começar logo — respondi, desviando meu olhar de seu torso nu.
— Bom — resmungou, jogando-se no sofá logo em seguida.
Para mim é uma situação muito estranha. Mesmo tendo vinte e um anos, nunca estive perto de homens com muita frequência... Muito menos eles estando sem camisa.
Eu tive apenas um namorado em toda minha vida. Seu nome era Jeremy. Foi por volta dos dezesseis anos. Ficamos juntos por uns dez meses. Mas então minha vida começou a virar uma bagunça total, e Jeremy fugiu, assim como todos os meus amigos.
Minha família foi titulada como perigosa. Eu fui vista por muito como a definição de perigo. Ninguém se atrevia a se aproximar.
Tudo mudou agora. Estou tendo a chance de recomeçar novamente. Mas está claro que não é aqui, em Rosemary. Não posso recomeçar em um lugar que sou tão indesejada por pessoas que nem ao menos conheço.
Como Oliver Queen.
— Eu liguei para o seu pai ontem — ele disse depois de alguns minutos no silencio. Virei meu olhar para encontrar o seu, mas não encontrei nenhuma emoção ali. —, ele não atendeu — pelo seu tom de voz no final, ele estava irritado.
Não posso culpá-lo. Eu também estava.
— Imaginei que não. — soprei.
Voltei minha atenção para a linda vista, mantendo meus pensamentos no futuro. Meu plano é simples: arrumar um emprego onde posso conseguir um bom dinheiro em poucas semanas e logo depois ir embora. Para bem longe do meu pai.
Talvez eu vá para Londres... Ou Carolina do Norte. A vários lugares que desejo conhecer.
Mas eu não posso negar que gostaria de um lugar fixo para recomeçar a minha vida. Quando falei com James ele me deu esperanças. Pensei que dessa vez ele iria tentar recompensar os horrores que me fez passar no passado, mas eu estava errada. Não tem espaço para mim na vida dele.
— Se você sabe que o seu pai não presta, assim como eu sei, por que você o procurou? — novamente a voz arrastada de Oliver me tirou de meus pensamentos.
— Eu já falei que não tenho nada e nem ninguém mais. Perdi tudo. James é o que me resta.
Não estava gostando desse tanto de perguntas. Não é só porque ele me deixou ficar um tempo na sua casa que eu deveria contar tudo sobre a minha vida. Eu disse muito ontem a noite, pensei que seria o suficiente.
— James não se importa com ninguém — garantiu com convicção, enquanto se sentava e mantinha os olhos vidrados em mim.
— Eu sei disso, tá bem? — pisquei as lagrimas que começaram a surgir. — Acho melhor eu sair agora — falei como desculpa. Não queria mais manter aquela conversa.
Não esperei por uma resposta dele. Corri para o pequeno quarto onde ficaria por um tempinho.
Prometi a mim mesma que estava mais forte, mas isso não é totalmente verdade. James ainda me afeta. Essa mudança de personalidade dele me afeta.
— Ele não pode mais me fazer nenhum mal. Eu sou adulta agora — sussurrei para mim mesma, mas minhas palavras não me trouxeram o conforto que eu esperava.
Puxei minha mala e coloquei-a sobre a cama. Peguei uma calça jeans e uma camiseta vermelha. Estava fazendo muito calor, mas eu iria procurar emprego e não posso fazer isso usando os shorts minúsculos que tenho na mala.
Mais cedo, Tommy veio buscar seu carro, e trouxe também um litro de gasolina para abastecer o meu carro. Havia insistido que não precisava, ele colocou mesmo assim – e não posso negar que me ajudou muito.
Fui a alguns pontos comerciais da cidade, como bares, lanchonetes, restaurantes e pousadas... Todos eles disseram a mesma coisa “Aguarde nossa ligação”. Sei que eles não vão ligar coisa nenhuma. Minha ultima tentativa foi um ginásio bem no centro da cidade. É uma academia enorme. Pelo folheto que me deram na porta, aqui contém aulas de natação, restaurantes, aulas de ioga e, obvio uma academia enorme.
Sentei em uma das mesas da elegante lanchonete ao lado de fora e esperei até que a simpática moça terminasse de orientar os garçons e me atendesse.
Kohl é um grande lugar. E a maioria das pessoas aqui parece ser da classe alta. Pela quantidade de sorrisos falsos, não me surpreende se fossem.
— Pronta querida? Eu posso atendê-la agora — a mulher que eu esperava disse, com um aceno gentil.
— Tudo bem — murmurei com um pequeno sorriso, levantando-me e seguindo-a.
Passamos por vários corredores e ela parecia conhecer todos por aqui.
Minhas mãos começaram a tremer em ansiedade. Esse realmente é um lugar que eu gostaria de trabalhar. Parece bem divertido, além de ser um lugar bastante animado.
Chegamos a um corredor que havia varias portas e um elevador. A senhora entrou na terceira porta a direita e indicou para que eu entrasse também. É um lugar confortável. Paredes brancas e moveis de vidros. Tudo nesse lugar é tão moderno e elegante.
— Sente-se — pediu, contornando a mesa e sentando-se em uma cadeira de couro. — E então? No que posso ajuda-la?
Coloquei a folha de jornal, que estava marcada no centro de azul, encima da mesa.
— Ainda estão contratando? — indaguei, tentando ao máximo esconder minhas expectativas.
— Sim, estamos — confirmou, sorrindo de canto. Tive que morder meu lábio inferior para impedir de suspirar de alivio. — Na verdade estamos precisando com urgência e você é perfeita. Com este corpo, tenho certeza que ganhará muitas gorjetas — comentou e pegou um papel que estava dentro de uma pasta azul. — Já trabalhou como garçonete alguma vez? — ergueu as sobrancelhas escuras em minha direção.
— Bem, não. — Confessei. — Mas eu aprendo rápido — apressei em dizer.
— Tenho certeza que sim — novamente ela sorriu para mim. — Vamos fazer um teste e se você se sair bem, está contratada — colocou um papel e uma caneta na minha frente. — Pode começar hoje?
— Sim, sim.
Preenchi a ficha que ela guardou novamente na pasta azul e, em seguida, me levou até a sala ao lado. Entregou um uniforme que mesmo eu achando um pouco curto, ela garantiu que estava perfeito. Enquanto me trocava e voltávamos para o enorme salão a mulher, que logo descobri que se chama Jenna, me explicou rapidamente como funciona as coisas.
Eu estava animada. Pela primeira vez em meses realmente estava animada.
— Não se preocupe. Você se sairá bem — Jenna me confortou, quando chegamos à cozinha. — Luca! — abordou um homem que passava por nós. — Essa é Felicty, ela está em treinamento hoje para ocupar nossa vaga. Ajude ela no que for necessário okay?
— Claro! Será um prazer — sorriu.
— Boa sorte, querida — Jenna desejou, tocando levemente no meu ombro.
— Obrigada — agradeci sincera.
Maneando com a cabeça, ela se virou e saiu.
Voltei a olhar para Luca, que ainda sorria para mim. Entretanto não era um sorriso malicioso e perverso, sim de tranquilidade.
— Menina, espero que você consiga mesmo lidar com isso, porque estou necessitado de por aqui — pegou em meus ombros e me virou de costas, começando a me arrastar pela enorme cozinha. — Esses riquinhos suados gostam de atenção, então seja gentil mesmo que o cliente não valha a pena. — continuou a dizer e me entregou um bloco e uma caneta. — Vou te dar poucas mesas... De cinco a dez são as suas. Certifique-se de que eles estejam sempre satisfeitos, se forem homens ainda mais, porque gostosa desse jeito suas gorjetas serão altíssimas.
Ele falava rápido. Muito rápido. Porém, consegui acompanhar tudo. E mais uma vez não parecia ser malicioso quando ele me chamou de gostosa. Só pareceu... Casual?
Não sei bem e não tive tempo para me importar.
Luca me jogou para fora da cozinha e foi em direção à mesa dois. Eu, como ele havia me instruído, fui para a mesa cinco.
* * * * * * *
O dia passou rápido. Entre anotar pedidos, pegar pedidos e servir pedidos, nem vi a hora passar. Mas sei que a noite chegou.
Agora é o turno da noite e eu esperava por Jenna para me dizer se fui ou não contratada. Luca diz que me sai muito bem.
E, bem, consegui duzentos dólares só de gorjetas. Esse povo distribui dinheiro como se fosse água. Mas não posso reclamar porque se for mesmo contratada e continuar nesse ritmo, não vai ser necessário um mês para que eu saia da casa do Oliver. Em duas semanas já poderei partir.
Afastei meus pensamentos esperançosos quando vi Jenna se aproximar.
— Estou aliviada em dizer que você está contratada! — ela disse, soando animada. — Não imagina o tanto de garotas que tive que reprovar nessa semana.
— Não imagina o quanto estou feliz por ter conseguido esse emprego — contei, sorrindo grande.
— Isso é bom — balançou a cabeça e também sorriu. — Chegue amanha aqui ás nove em ponto para que possamos arrumar a papelada toda.
— Certo.
Como já estava tarde eu me apressei para ir embora logo. Mas antes comprei comida pronta para que eu pudesse comer mais tarde.
Mesmo estando cansada, não sei se serei capaz de ter uma boa noite de sono. Os pesadelos sempre atrapalham. Eu gostaria de ter adquirido mais forças diante de todo o inferno que eu passei. Mas a verdade é que estou apenas esperando para desmoronar de vez.
Quando cheguei a casa – mansão – do Oliver, estava tudo escuro. De certo modo eu fiquei aliviada por não vê-lo agora... Não quero ter que lidar com suas perguntas novamente.
Deixei a caixinha de comida chinesa sobre a pequena cômoda que havia ali e peguei uma regata azul e um dos meus shorts de pijama. Ele, assim como todos os outros, já não servia mais. A ultima vez que comprei roupas novas foi quando tinha dezessete anos. Depois disso todo o dinheiro que entrava era para os medicamentos da minha mãe e da vovó.
Meus shorts e calça jeans estavam velhos e pequenos, chegando a apertar nas coxas que tinham ficado maiores. E na cintura que ficou uns três centímetros mais largam.
Com minhas roupas e uma toalha em mãos, fui para um banheiro que havia do lado de fora. Ele é pequeno; todo de vidro. Deve ter sido feito para se levar quando sair do mar. Mas, como eu não quero incomodar ninguém, uso esse aqui mesmo. Esta escuro e não tenho certeza se tem alguém em casa. Ainda sim, prefiro ser rápida, pois não gosto de ficar sozinha do lado de fora.
A mansão do Queen é afastada de todas as outras. Mas, em compensação, é mais bonita também.
Fico imaginando como que James chegou até essas pessoas. Sempre soube que ele é ambicioso, mas jamais imaginei que ele conseguiria morar em um lugar como esse. Encaixar em uma família assim... Tão diferente do que éramos.
Desliguei o chuveiro e me sequei rapidamente, colocando minhas roupas logo em seguida. Quando sai o vento gelado me fez estremecer, fazendo-me praticamente correr até meu pequeno quartinho.
Olhei para a embalagem de comida chinesa e meu estomago revirou, lembrando-me que não como nada desde ontem. Estava tão eufórica com o novo trabalho que nem ao menos almocei.
Sentei sobre a cama e trouxe junto comigo a comida. Devorei tudo em menos de cinco minutos.
O vento, novamente, me fez estremecer quando voltei ao lado de fora. Dessa vez para escovar os dentes. Não demorei muito, queria tentar dormir um pouco.
Como de manhã, agora a vista também está linda. A lua ilumina grande parte do mar.
Um barulho veio da sala enquanto eu admirava esse lugar mágico. Olhei por cima do meu ombro, confusa. Estava tarde. Pensei que Oliver estava dormindo... Ou que nem em casa estava.
Mais uma vez veio um barulho e, agora, consegui identificar como gemidos. Eram finos e irritantes. E mesmo sabendo o porque deles, não consegui conter minha curiosidade e me vi no pequeno corredor que dava da cozinha para a sala.
A princípio eu não vi nada, mas depois de um grito feminino consegui vê-los. E queria simplesmente não ter visto.
Os dois estavam na escada. Nus. O cabelo ruivo escuro dela caindo sobre o rosto de Oliver, então não conseguiu ver a expressão dele. Não queria ver.
— Deus... — surrei em silencio, girando os calcanhares e saindo as pressas.
Assim como sai, rapidamente eu estava no meu quarto. Minha respiração estava rápida e pesada depois de ver aquilo.
Ele sabia que eu estaria aqui. Mas, pelo visto, isso não era um problema para ele. Não parecia se incomodar em saber que eu podia ver aquela cena a qualquer momento.
Não tinha que me importar. Afinal, esta é sua casa.
Mas, merda... Ver isso acabou com qualquer chance que eu tinha em ter um pouco de sono essa noite.
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