Estilhaça-me
7 Capítulo 6 - O Toque Da Morte
Notas iniciais
Capítulo 6
Eu não sei bem por que motivo, mas chorei. Era uma história sofrida e traumática. Eu estava em choque, pois nunca tinha ouvido algo tão horrível. Percebi que ele tinha um bom motivo para ser tão revoltado com a vida e com as pessoas. Ou talvez não tivesse, porque talvez aquela história não fosse verdadeira. E se ele estivesse me contando aquilo só para me sensibilizar, quando na verdade ele se tornou um assassino simplesmente por que quis? E se as histórias que ele diz às pessoas forem só contos para justificar os seus atos brutais? E... Será que ele mesmo sabe de fato a sua história? Ou será que ele se perdeu tanto em seu mundo inventado que se esqueceu do que realmente aconteceu com ele? Tenho medo dessa possibilidade.
_Por que você está chorando? – questionou.
_A história é triste.
_Triste? Você está muito séria, vamos botar um sorriso nessa cara! – ele me mostrou uma faca.
_Como assim? Eu não fiz nada!
_Acontece que o formato da sua boca me lembra o de Hellen Parker... A partir de agora nunca vou conseguir beijar a sua boca sem me lembrar da boca dela, a não ser é claro, que eu desfigure a sua boca.
_Eu não tenho culpa se o formato da minha boca é parecido com o da sua ex-esposa. Eu sou diferente dela, nós não somos a mesma pessoa! – gritei.
A lâmina da faca dele brilhava e me ameaçava ardentemente.
_Eu não vou te fazer nada. Nada que eu não faria com a Hellen Parker.
_Mas eu não sou a Hellen! Pare de confundir as pessoas, isso é loucura!
_Cale-se, só eu falo agora, meu amor... – ele acariciou os meus lábios – Só vai doer um pouco, minha Hellen, mas vai ser bom, você vai ver...
_Pare de me chamar de Hellen! O meu nome é Vanilla! Pare de querer vingar em mim um passado que nada tem a ver comigo! Será que você não consegue ser menos... Doentio?
_Não, eu não consigo. Eu sei, eu sou doentio em tudo o que eu faço, em tudo o que eu digo, em tudo o que eu sinto. E o que eu sinto é amor, eu sei que é amor!
_Pare! Solte-me, solte-me! – dei-lhe um chute no rosto e saí correndo, conseguindo escapar da casa. Porém, no meio do caminho ele me encontrou e se jogou em cima de mim. Nós estávamos no meio do mato agora. Estava chovendo torrencialmente naquele momento, portanto o mato estava muito molhado. Eu gostava do cheiro de mato molhado, mas nem poderia apreciá-lo naquele momento, pois um assassino em série estava bem em cima de mim, desejando sem qualquer motivo plausível desfigurar o meu rosto. Infelizmente eu não tinha como escapar.
_Você tirou a minha virgindade à força ontem e hoje já quer rasgar os meus lábios? Eu não posso ter pelo menos um segundo de paz? – eu chorava copiosamente, mesmo que aquilo não pudesse resolver nada, absolutamente nada. E as palavras que eu lançava ao ar para tentar convencê-lo a me deixar livre eram inúteis. Tão inúteis quanto lágrimas na chuva.
_Hellen Parker, Hellen Parker... Pare de fazer escândalo! – ele ordenou — Foi você que me desfigurou primeiro, portanto eu me sinto no mais pleno direito de te desfigurar também. Você não acha isso justo?
_Isso não é nem um pouco justo, até porque eu não sou a Hellen Parker! Eu sou a Vanilla! A Vany Vanilla, lembra-se? A garota dos cachos de sangue e dos olhos negros como as trevas! Eu não tenho cabelos pretos nem olhos verdes. Eu não me chamo Hellen, chamo-me Vanilla, aceite isso, por favor! A Hellen está morta, MORTA!
_Não, ela não está morta! Hellen Parker está viva em mim!
_Não, ela está morta, ela está morta! – e comecei a me debater.
_Mexa-se mais um pouco e será você a morta! Cale-se se quiser viver!
Eu tentei, eu juro que tentei, entretanto não tive escolha. Na verdade eu acho que nunca tive escolha de nada, pois sempre tive que aceitar o que ele decidia, por bem ou por mal. Era esse o meu dever, o meu sangrento dever.
Eu olhava para o céu e perguntava a ele se eu merecia isso.
Eu sentia os pingos d’água caindo sobre mim; era a chuva.
E a chuva continuava a cair. A chuva caía, tão somente caía.
E a minha alma sucumbia, tão somente sucumbia.
O inferno começou. E não terminaria tão cedo.
Ele deslizou lentamente o lado não cortante da faca sobre a minha boca, apenas para me deixar nervosa, pois ainda não havia acontecido nada. Ao sentir a lâmina gelada tão próxima de mim, soltei um suspiro, um suspiro de puro medo. O medo estava me entorpecendo, entorpecendo-me por completo.
_Você é tão linda... – ele acariciou os meus cabelos – Esses cachos de sangue me levam ao delírio, fazem-me viajar. Quero morrer no seu cabelo, Vany Vanilla...
Eu não entendi. Ele estava me chamando pelo meu nome verdadeiro. Mas ele não achava que eu era a Hellen? Será que a cada hora ele me via de um jeito? Só podia ser. Ele era um esquizofrênico. Eu queria sentir raiva dele, mas só conseguia sentir dó. Ele não merecia ser tão perturbado assim, talvez fosse uma boa pessoa, talvez fosse capaz de amar, porém foi contaminado por uma sociedade que desaprendeu a amar.
Dessa vez ele usou o lado cortante da faca e o deslizou sobre a minha boca, causando pequenos cortes, que me proporcionaram dores mínimas, mas o suficiente para que eu liberasse mais e mais suspiros de dor.
_Para... – implorei, chorosa.
_Shhh... – ele pôs o dedo nos meus lábios sangrentos e depois o levou à própria boca, provando do meu sangue — Eu nem comecei direito ainda...
Ele, então, deslizou a sua faca em torno da minha boca, fazendo-me sangrar ainda mais. Prosseguiu passando-a do lado de dentro dos meus lábios e rasgando-os de dentro para fora. Eu já chorava loucamente de dor. Não suportaria mais.
_Não chore, meu amor, tão somente não chore... Vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem... Sim, vai... Vai sim... – ele parecia preocupado com o que ele mesmo tinha feito. Ele me tratava como se eu fosse a Hellen, pois queria o meu bem e o meu mal ao mesmo tempo. Com isso ele só me confundia, assim como também se confundia.
_Você não precisa ser mau... Você pode ser amado pelo o que você é; não pelo o que os seus demônios interiores dizem que você deve ser... – eu não entendia porque estava dizendo aquilo, todavia não suportava ficar calada.
_Eu sei, Hellen... Porém como eu poderia proteger alguém tão incrível quanto você, sem o mal? – procurei não me importar com o fato de que ele trocava o meu nome o tempo todo.
_Eu acredito que existam outras maneiras de proteger alguém, você não?
_ Eu não. – e continuou rasgando o meu sorriso de orelha a orelha, fazendo-me gritar, gritar como uma louca. Eu não aguentava sentir o gosto do meu sangue, aquilo era insuportável. Era humilhante, era perturbador, era destrutivo. O sangue inundava tanto a minha boca que eu já estava me engasgando com ele. Eu estava provando três sabores ao mesmo tempo: O das minhas lágrimas, o do meu sangue e o da chuva. O gosto da chuva era o mais doce, o gosto das lágrimas era o mais salgado e o gosto do sangue era o mais amargo. A dor que me permeava naquele momento parecia que nunca iria embora, deixando-me desesperada. Eu pensei que ia morrer ali mesmo, o que não era lá uma ideia tão ruim assim. Morrer parecia uma boa opção naquele momento. Eu pensei seriamente em pedir para que ele me matasse. Acabei pedindo:
_Estilhaça-me... – eu fiz aquele pedido desesperado da mesma forma que eu fiz no sonho. Ele entendeu o recado, contudo não me obedeceu.
_De forma alguma vou te matar, nós ainda temos muito a viver. Você quer partir logo agora que as cortinas se abriram e o show de mágica começou? Não, minha querida, não seja covarde. Talvez um dia eu te mate, talvez um dia você me mate. Mas hoje não, hoje não. Ainda não, minha bela, ainda não... – e me beijou profundamente.
O beijo dele tinha gosto de morte.
E a minha alma cheirava a morte.
Tudo era morte.
Tão somente morte...
Morte artística...
Morte poética...
Morte simbólica...
Morte...
–-*--
Enquanto ele me desfigurava o rosto, notei algo estranho. Eu não sei se era uma alucinação ou se era real. Eu só sabia que era uma mulher; uma mulher bonita. Ela usava um longo, rodado e belíssimo vestido preto, um enorme chapéu preto preso a um véu de renda preta, um carregado lápis de olho preto que escorria pelos olhos em meio à chuva e às suas lágrimas. Ela segurava um guarda-chuva preto e ostentava os seus lábios vermelhos como sangue. Os seus lábios; eles tinham o mesmo formato dos meus.
Hellen Parker!
–-*--
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