Estilhaça-me
8 Capítulo 7 - A Aparição
Notas iniciais
Capítulo 7
Hellen Parker! Ela estava ali, bem diante dos meus olhos, chorando abundantemente e borrando o seu lápis de olho preto. Em meio àquela chuva torrencial, não fazendo absolutamente nada, além de observar o seu ex-marido me aniquilar por completo. Por que ela não fazia nada? Aliás, porque ela estava ali? Ela não estava morta? Seria um delírio meu, ou... Ou o espírito dela estava mesmo ali?
_A sua ex-esposa, atrás de você! – gritei.
_A minha esposa é você, você é Hellen Parker! – ele respondeu num grito ainda mais alto, quando terminou de me desfigurar.
_Pela última vez, eu não sou a sua ex-esposa, ela está morta!
_E se ela está morta por que você está dizendo que ela está atrás de mim, Vany Vanilla? – questionou-me, trocando o meu nome novamente. Quanto mais eu tentava compreendê-lo, mais eu me perdia em minhas ideias, então era melhor ignorar. Ignorar geralmente é a melhor opção, mas nem sempre é a mais fácil.
_Isso é o que eu não entendo! E você? Pode vê-la? – o meu sangue ainda estava na boca, contudo procurava ignorar o sabor amargo, procurava ignorar o rosto desfigurado, procurava ignorar tudo, ignorar o mundo. Ignorar era a melhor opção, ignorar, ignorar! A questão era que se eu reclamasse das cicatrizes, talvez ele fizesse coisa pior comigo. Não havia tempo para me lamentar. Hellen Parker estava diante de nós. Nós nos levantamos e o palhaço do crime alegou que eu estava mentindo:
_Você está vendo o espírito de Hellen Parker? Pois eu não vejo nada! Vany Vanilla, você mentiu para mim? Mentiu a respeito de algo tão sério quanto a minha ex-esposa? Eu nunca pensei que você fosse capaz de algo tão repugnante! Tocando no meu passado dessa forma? Você quer me torturar?
_Bem que eu gostaria! Não é isso o que você tem feito comigo durante os últimos dias? – perguntei, enfurecendo-o por completo. Ele me segurou pelo pescoço, olhou-me com toda a sua perversidade e ameaçou me decepar ali mesmo com a sua faca – Você tornou a minha vida um inferno – àquele ponto eu já gritava – Pois me sinto no mais pleno direito de fazer o mesmo com você! Mas olhe: Agora eu juro pela minha vida que não estou mentindo para você! Eu vi o espírito dela, eu vi, eu vi!
_Você jura pela sua vida? Pois o seu juramento não vale nada. Do que adianta jurar pela sua vida se você já quer morrer mesmo? Você não pediu agora a pouco que eu te matasse?
_Por favor, solte-me, solte-me... A sua mulher está chorando... Pode ser um espírito, pode ser uma alucinação, mas está chorando, está chorando! Pare agora, pare com isso, pare, por favor! – eu gritava e chorava ao mesmo tempo. O olhar dele parecia preocupado. Ele, como um bom analista de emoções que era, provavelmente percebeu que eu não estava mentindo – Ela não quer te ver assim, ela te ama, ela te ama! Não seja um assassino, não a faça chorar, não a faça chorar!
_Eu sou um assassino porque ela me fez assim, ela que me deu essas cicatrizes!
O espírito dela não falava, apenas chorava, tão somente chorava.
_A culpa não é dela! Os seus demônios sempre estiveram dentro de você, ela apenas deu uma oportunidade para libertá-los! Pare de culpar os outros pelo mal que te assola, ninguém tem culpa pelo seu passado obscuro, ninguém tem culpa pelos seus pensamentos perturbados, ninguém tem culpa pela sua insanidade! Pare, agora, pare! – a visão do espírito de Hellen Parker se distorcia em meio à chuva, tudo parecia escurecer – Pare, pare, pare... Isso é... Real... – e desabei nos braços dele, desmaiada.
Acordei no mesmo cômodo onde ele me estuprou.
_Você me deu um susto... – disse ele, acariciando as minhas cicatrizes.
_Pare! – tirei a mão dele do meu rosto – Eu era uma pessoa bonita, eu sabia que era! E agora você acabou com o meu rosto, deixou-me horrível, igual a você! Procurei não me importar no momento, mas agora quero te dizer umas verdades, nem ligo mais se você me matar agora! Será que não suporta o fato de que você é o demônio e por isso quer que todos sejam como você? Quer que todos tenham cicatrizes como você? Pois eu tenho uma novidade para você: Praticamente ninguém é como você! As pessoas são boas, as pessoas são mais do que você imagina na sua cabeça virada, as pessoas sabem amar, você não! E porque você não acreditou em mim quando eu falei em Hellen Parker? Era verdade, era verdade, era tudo verdade! Eu sempre tenho que acatar as suas regras, estou cansada disso, estou entorpecida pelo ódio! Você me estupra, me tortura, me desfigura, nunca acredita em mim, nunca me respeita e depois diz que me ama! Que jeito estranho de amar!
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
_Você disse que jeito estranho de amar? – ele tocou a própria cicatriz, estarrecido — Foi exatamente isso o que a Hellen Parker me disse alguns anos atrás...
_E eu tenho certeza de que todas as mulheres com quem você se envolveu pensavam isso de você! Você não me ama; você tem uma obsessão por mim, você é doente por mim e eu digo, digo que isso não é amor, isso não é amor! — eu chorava e chorava, pois precisava botar para fora de uma vez – O que você sente por mim, isso é... Isso é... Isso é, ah eu nem sei o que isso é, e eu nem quero saber, tenho medo de tentar descobrir o que se passa na sua cabeça e acabar tão louca quanto você!
Ele tocou os meus lábios levemente e falou:
_Tão louca quanto eu? Apesar de ser um tanto impossível alguém conseguir enlouquecer tanto quanto eu, bem que eu gostaria que você ficasse assim, louca, louquinha... Esse é o meu sonho... Quero uma louca bonita para chamar de minha...
_Eu não sou mais bonita! Você me deu essas cicatrizes horríveis! – exclamei.
Ele acariciou o meu rosto.
_E você continua bonita, você é linda... – aproximou-se de mim.
_Afaste-se, afaste-se de mim! – empurrei-o – Eu não consigo parar de pensar no espírito da Hellen Parker... Não pode ter sido outra alucinação como a que eu tive no consultório do psiquiatra! Dessa vez foi real, eu tenho certeza, eu tenho certeza!
_Eu não quero saber! Eu não quero Hellen Parker, eu quero você! – ele me agarrou com força – Eu estou louco por você, Vanilla, estou louco!
_Você sempre foi louco!
_Contigo fico ainda mais! E você sabe por quê? Porque eu te amo! – e me beijou profundamente, entorpecendo-me completamente pela sua doce paixão doentia.
Olhei nos olhos dele.
Cansei de negar.
_Eu também te amo! – era a primeira vez que eu dizia isso a ele. Ele sorriu. Amá-lo era como uma roleta russa, nunca se sabia o que podia acontecer. Talvez no dia seguinte eu estivesse morta ou talvez estivesse nos braços dele, talvez os dois. Contudo não importavam as circunstâncias, nada mais importava, nada mesmo.
Abracei-o e fechei os olhos.
Eu estava numa paixão tóxica e sabia disso, mas não queria partir, no fundo eu sabia que partir era um erro, esquecê-lo era um erro, não amá-lo era um erro. Esqueci-me dos meus pesadelos com ele, esqueci-me da minha alucinação no consultório psiquiátrico, esqueci-me do bilhete com sangue que ele me deixou, esqueci-me de quando ele ameaçou me esfaquear, esqueci-me de quando ele explodiu o Asilo Arkham, esqueci-me de quando ele me violou, esqueci-me das histórias do passado dele, esqueci-me das cicatrizes que ele me deixou no rosto, esqueci-me do espírito de Hellen Parker que eu supostamente vi; esqueci-me de tudo, esqueci-me do mundo.
Só me lembrei de que ele era um homem. E eu era a sua mulher.
Eu o amaria para sempre, eu o amaria para sempre!
_Eu sou incapaz de te deixar sozinha... – ele acariciou os meus cabelos e segurou a minha mão.
_Então não me deixe... – e senti novamente os seus lábios nos meus, senti e amei. Os beijos dele tinham gosto de morte. Mas eu amava o sabor da morte, eu sabia que amava, que era apaixonada pela ultraviolência dele, que era ele, era ele o meu primeiro e único. Era ele, era ele, era ele, tão somente ele e ninguém, ninguém mais...
O nosso amor era doentio? Era.
Todavia era maravilhoso.
Estranhamente maravilhoso.
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