Estilhaça-me
6 Capítulo 5 - As Chamas Da Vingança: Parte 2
Notas iniciais
Capítulo 5
–-*--
Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar.
–Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis.
–-*--
Com toda a força descomunal da minha raiva e loucura, arrebentei as frágeis cordas que me prendiam à cama e dei um salto, ficando por cima dela. Tomei-lhe sem pudores a faca das mãos e a apontei para os seus belíssimos e tentadores olhos verdes.
_Então, meu amor... Qual dos olhos você quer que eu fure primeiro? – a minha boca ainda pingava sangue. Pingava por cima do rosto dela.
_Pare... Você não consegue ver que está me sufocando? Segurando-me tão apertado todos os dias, impedindo-me de ter amigos, estapeando-me a face por tantos meses, você achou mesmo que eu suportaria toda essa humilhação pelo resto da minha vida? Pois eu não sou nenhuma bonequinha de louça, não vou me quebrar por você! Você transformou a minha vida num inferno, então me senti no direito de infernizar a sua também! Foi da sua vontade que tivéssemos um relacionamento conturbado, quando poderíamos ter sido um casal belo e feliz se não fosse pela sua paranoia estúpida, seu doente mental! Pois eu sou como um animal selvagem, você não pode me manter presa por muito tempo! Escute agora: Tudo o que você pensou que eu seria acabou de cair por terra bem na sua frente! E de amor não restou nada. Nada! Só ódio, só ódio! Estou entorpecida pelo ódio! Eu te odeio! Eu te odeio! – e desabou a chorar. Eu admito que me sensibilizei. Não consegui fazer mal algum a ela naquele momento. Cri que já havia feito o suficiente para atormentá-la ao longo dos fios da sua existência. Não era mais necessário. Eu já a havia estilhaçado. Estilhacei-a por completo. E não havia restado um só caco de vidro para recomeçar a história. Estava tudo acabado. Eu tinha que ser corajoso para admitir: Estava tudo... Acabado...
_Tudo bem... Eu sinto muito... Não te farei mais nenhum mal... Eu prometo... Eu prometo... – eu estava com vontade de chorar, mas não permiti que os meus olhos entregassem a minha fragilidade por meio de sinceras lágrimas. Eu não gostava de expor os meus sentimentos mais belos e profundos na frente dos outros, pois sentia que ninguém estava pronto para eles. A minha complexidade estava além da compreensão alheia, até mesmo a da minha própria esposa. A esposa que me torturou.
Saí do quarto.
_Aonde você vai? – questionou ela.
_Eu vou embora. E se um dia eu voltar, será para te matar – olhei-a de maneira ameaçadora, intimidando-a por completo e fazendo-a se encolher na cama, abraçando os seus próprios joelhos e chorando baixinho. Eu não tive pena dele. Não, eu não tive.
Antes de sair de casa, olhei-me no espelho do banheiro. Eu estava horrível. Estilhacei o vidro do espelho, não queria me ver nunca mais.
Levei comigo um pote com vários algodões para estancar o meu sangue. Parti. E não me despedi. Eu não disse adeus, porque soaria muito falso da minha parte. Eu não queria ver o rosto dela de novo, não, eu não queria, eu não queria de forma alguma.
–-*--
Um dia depois, fiquei pensando no que a minha esposa fez comigo e em como eu a deixei impune. Os meus demônios começaram a me atormentar novamente. Eu ouvia vozes dentro da minha mente que insistiam para que eu não deixasse Hellen Parker escapar ilesa daquela situação. Ela havia desfigurado todo o meu rosto e arruinado por completo a minha vida, como eu poderia deixá-la em paz, sem qualquer punição? Como eu poderia permitir que ela vencesse? Que Hellen Parker vencesse?
_Isso não vai ficar assim! – protestei – Estilhaçar-te-ei essa noite, Hellen Parker! E eu não terei, eu digo com toda a certeza existente na minha alma que não terei piedade de você. Estilhaçar-te-ei como tu estilhaçaste-me primeiro! E você gritará, gritará pelo fogo do demônio que há no seu coração: Estilhaça-me, estilhaça-me!
À noite, entrei na casa dela enquanto ela estava dormindo. Derramei gasolina sobre ela e sobre todo o restante da casa. Risquei um fósforo. E o resto todos sabem o que aconteceu. Ela acordou quando sentiu que estava sendo incendiada.
_O que é isso? – questionou desesperada ao ver que estava sendo queimada viva – Você disse que me deixaria em paz! Você me prometeu, seu maldito, você me prometeu! Quem você pensa que é?
_Eu não sou nada, nunca fui nada. Eu não sou nada além das chamas, das chamas da vingança – suspirei — Adeus, Hellen, eu te amo! – saí do cômodo.
Ouvi a sua voz tão amedrontada liberando gritos terríveis de dor. A sua voz também chamava pelo nome. Ela implorava para que eu voltasse e a salvasse do incêndio que eu mesmo causei. Confesso que me senti mal naquele momento, mas como todo bom criminoso, precisava me preocupar primeiramente com o meu bem e com o de mais ninguém, mesmo que fosse o da mulher que eu amava. Que eu amava copiosamente. Que eu amaria até o apagar da última fagulha da trilha sofrida da minha existência. Que eu amaria para sempre, que eu amaria para sempre.
Saí correndo pela casa, fugindo das chamas crescentes que ousavam me queimar vivo lá também. Eu saltava sobre o fogo que estava cada vez mais próximo da minha pele, arriscando-me por completo. Corria, corria contra o tempo, corria contra a minha vontade, corria contra tudo, corria contra o mundo.
_Eu te amo, Hellen Parker, eu te amo! – pronunciava, mesmo sabendo que ela possivelmente já estava morta, afinal os gritos cessaram após um tempo.
Talvez fosse melhor morrer ali mesmo. Eu pensava assim porque não havia mais nada pelo o que eu devesse lutar. Tudo o que eu mais amava no mundo estava desabando sobre os meus ombros tão frágeis. Qual seria a razão em continuar? Qual seria? Eu, então, pensei: Não, eu não preciso de uma razão!
E saí da casa.
Pensei em voltar para salvar a minha esposa, mas já era tarde demais.
O pilar central da casa desabou junto com todo o resto.
Assisti ao sangrar de uma alma.
Ao sangrar da alma de quem eu amava.
Ao sangrar da alma de Hellen Parker.
Arrependi-me completamente do que tinha acabado de fazer. Assassinei a pessoa mais importante na minha vida por ciúme, mesmo no fundo sabendo que ela era uma pessoa fiel. Eu sentia que ela era. Mas o meu lado perverso insistia em afirmar e em reafirmar o contrário. Eu escutei o meu lado perverso. E agora, eu que tinha tudo, não tinha mais nada, estava mudo, estava mudado. E nada poderia reverter isso. Nada. Não havia como voltar no tempo. O que eu fiz já estava feito. Matei pela primeira vez. Eu, então, teria que me conformar com o meu novo eu, teria que me conformar com as vozes perversas que gritavam na minha mente, teria que me conformar com a minha alma em ebulição, teria que me conformar com o Coringa.
Em meio aos destroços da casa, encontrei um corpo. Era o corpo de Hellen Parker. Estava todo queimado e desfigurado pelas chamas da minha vingança sem qualquer fundamento. Aquilo era tudo culpa minha. Ela estava certa. Nós podíamos ter ficado juntos para sempre, quem sabe tivéssemos filhos. Podíamos ter construído um futuro juntos, mas eu desconstruí tudo o que conseguimos a muito custo colocar de pé. Arrebentei os alicerces da nossa relação, asfixiei Hellen Parker com as minhas restrições, destruí todo e qualquer vestígio de amor que existia dentro dela por mim, estilhacei a minha e a sua felicidade. Estilhacei toda a nossa história juntos como vidro no chão. Estilhacei e agora via o corpo morto da minha esposa. Ela não merecia pagar pelos males que me atormentavam. Ninguém merecia. Eu era egoísta. Muito egoísta. E agora me lamentava por isso, pois a pessoa que eu havia me tornado só era merecedora de ódio, do pior ódio e mais nada. Absolutamente mais nada.
Chorei enquanto segurava em meus braços o seu corpo chamuscado. Dessa vez não reprimi o meu sentimento, permiti que as lágrimas escapassem pelos meus olhos, permiti que toda a minha dor fosse projetada no mundo exterior, permiti que o meu lado bom se manifestasse, apesar de o meu lado mal ter prevalecido anteriormente. Observei o rosto desfigurado dela. Mesmo daquele jeito ela continuava bonita, bonita como uma flor. Ela era linda. Hellen Parker era a mulher mais bonita que eu já havia conhecido. Eu nunca encontraria alguém tão valioso quanto ela, nem mesmo se eu tivesse vida eterna. Ela me estendeu a mão quando a minha vontade era chorar, ofereceu-me conselhos sem preço, amou-me como se fosse a primeira vez e me odiou como se fosse a última vez. E eu destruí tudo isso. Assassinei o nosso infinito. O nosso doce, belo e melancólico infinito. O nosso estranhamente maravilhoso finito infinito.
Beijei a sua boca com força, como se aquilo pudesse trazê-la de volta à vida. Obviamente nada aconteceu. Aquilo não era um conto de fadas. Nunca foi.
Ouvi sirenes. Provavelmente alguém chamou o corpo de bombeiros ou a polícia. Eu precisava ir, não havia mais escolha.
_Adeus, Hellen – segurei a sua mão tão fina e delicada contra o meu rosto – Eu te amo... – uma das minhas lágrimas caiu sobre a mão dela – E eu nunca vou amar novamente...
Saí correndo e me escondi em meio às sombras da floresta que havia nas proximidades da nossa casa. Olhei para as estrelas e perguntei a elas se eu realmente merecia todo o sofrimento pelo qual eu estava passando.
Desabei dolorosamente quando elas responderam que sim.
–-*--
Jurei pela minha vida que carregaria aquelas cicatrizes no meu rosto como se fossem um pedaço dela em mim.
Hellen Parker havia encontrado a sua morada em mim.
Hellen Parker estava viva em mim.
–-*--
Fale com o autor