Estilhaça-me

3 Capítulo 2 - Cachos De Sangue


Notas iniciais
Olá, pessoal, sentiram a minha falta? "Everybody wants to rule the world" da Lorde faz parte da trilha sonora. Ok, agora mais uma música liberada para a trilha sonora: "Bring me to life" da banda Evanescence. Eu só gostaria de agradecer infinitamente a quem está acompanhando e principalmente a quem deixou comentários, pois vocês são a minha maior inspiração para escrever!

Capítulo 2

Já era noite. Eu estava tremendo, com muito medo do momento em que ele aparecesse. Eu não sabia ao certo se o acompanharia, mas não queria ficar presa no Asilo Arkham pelo resto da minha vida. Não, eu não podia ir atrás dele, seria como vender o meu sangue ao diabo. Ele era o meu inimigo, assombrava-me quase todas as noites naqueles pesadelos terríveis que estampavam a minha mente como se fossem tatuagens permanentes. Eu não podia compactuar com ele, teria que dar um jeito de me livrar dele. Era mais plausível apodrecer no hospício pelo resto da minha vida a ir com aquele sujeito que causava assombrosos arrepios na minha pele tão pálida.

No entanto, uma voz gritava e queimava dentro de mim:

“Vá!”.

Era a voz do meu coração.

Eu iria, eu teria que ir.

Era melhor me arrepender de ter ido do que ficar pensando pelo resto da minha vida como poderia ter sido. Arriscar era o meu lema. Trocar o certo pelo duvidoso era algo que eu amava e ainda amo fazer. Então, por que não? O que eu tinha a perder, afinal? Se os pesadelos já me roubaram o brilho nos olhos, qual seria a razão em tentar me preservar, se eu já não tinha mais uma alma para preservar?

Enquanto me perdia em pensamentos, ouvi um som. Era ele.

Abriu a porta, não sei como.

_Como abriu a porta? – indaguei.

_Eu tenho as minhas ferramentas. Usei-as também para abrir hoje antes do almoço e te deixar aquele bilhete com sangue. Você gostou?

_Não... – lembrei-me do bilhete, aquilo me deu arrepios.

_Ah, mas que pena... Pois eu acharia tão excitante um bilhete lotado de sangue bem em cima da minha cama... – Ele parecia estar falando sério. Ele realmente se excitava com bizarrices – Agora vamos, não perca tempo! Peguei disfarçadamente uma faca no refeitório e se você ousar me desobedecer, morrerá agora mesmo!

Bem que ele me disse que eu não tinha escolha. E eu não tinha mesmo.

_Qual é o plano? – perguntei, acompanhando-o em direção a um rumo totalmente desconhecido. O palhaço tinha um cheiro pútrido, cheirava a sangue.

Ele sorriu sem qualquer motivo aparente.

_Plano? Mas, ora essa, que plano? Eu não faço planos. Estou improvisando tudo agora. O que você acha de explodirmos isso aqui?

_E por que explodiríamos o Asilo Arkham? – perguntei.

_Shhh! Você está falando alto demais – ele tampou a minha boca com violência – Ninguém prepara uma matança em voz alta! Eu vou explodir essa droga só pelo prazer. E você vai assistir bem quietinha a essa droga de sanatório explodindo, a não ser que você queira morrer aqui dentro junto com os outros malucos!

Calei-me. Notei que havia sangue seco na sua mão esquerda. Mas por quê? Será que ele tentou se cortar?

_O que é... Esse sangue na sua mão? – a minha voz saía trêmula.

_Com que sangue você acha que eu escrevi aquela carta?

_Com o seu próprio?

_Sim, fiz um corte na minha mão e escrevi a carta com o meu sangue. Eu meio que achei isso... – ele estava tentando encontrar uma palavra adequada – Romântico!

Eu nada disse. Não sabia o que dizer ou o que fazer, pois estava bem ao lado do terrível carrasco dos meus pesadelos e preferia não fazer muitas perguntas, senão ele acabaria se irritando comigo e quem sabe desistisse de me salvar daquele sanatório.

_Escute! – sussurrou ele no meu ouvido, provocando-me arrepios – Tenho no meu bolso cartas de baralho, mas o que os idiotas do sanatório não sabem é que elas são bombas disfarçadas. Eu sabia que precisaria delas um dia. Bastam algumas cartas sobre esse chão e tudo vai pelos ares. Em cada uma delas, existe um contador que eu ativarei agora. A contagem regressiva terminará em dez minutos. Isso quer dizer que se nós não dermos o fora logo, todo esse hospício vai se estilhaçar conosco aqui dentro! – ele colocou as cartas no chão e as ativou – Tomara que ninguém perceba. Bom, de qualquer forma ninguém vai desconfiar que essas inocentes cartas sejam armas de destruição em massa – ele me olhou irritado – Nós temos dez minutos, o que você está esperando? Corra!

_Mas correr para onde?

_Nós vamos fugir pelo duto do ar condicionado – ele lambeu os lábios, agarrou o meu pulso de maneira brusca, fincando as suas unhas na minha pele branca e saiu correndo comigo – Eu sei onde é, vamos! Você quer viver ou não?

_E se não der tempo de nós fugirmos? E se o prédio explodir antes que nós saiamos? Você ficou maluco?

_Eu? Maluco? Não, eu não sou maluco, só vejo as coisas de uma forma diferente da maioria. E, bom, eu não me importo muito se o prédio explodir e eu ainda estiver aqui dentro. Olhe bem para mim, garota, você acha mesmo que eu tenho algo a perder?

_Não. Mas eu tenho.

_Você perdeu a sanidade ao me seguir. Você vendeu a sua alma para mim. Você não tem mais nada a perder.

Calei-me novamente.

Chegamos ao local de entrada do duto do ar condicionado. Era muito alto, portanto arrastamos uma cadeira para subir nela e alcançarmos o duto. Tínhamos que ser silenciosos para não acordar os doentes mentais que ali estavam internados. Naquele horário não havia funcionários, portanto seria mais fácil, contudo se um dos malucos despertasse, nós estaríamos perdidos.

Entramos no duto.

_Você sabe onde isso vai dar? – questionei.

_Claro que sim, eu já passei por aqui várias vezes com o objetivo de fugir. Eu sempre fujo por aqui e curiosamente ninguém nota que é sempre por esse duto que eu fujo.

_Mas está escuro, como pretende passar por aqui?

_Eu não preciso de lanternas ou algo do tipo, já disse que sei o caminho de cor.

_Você tem certeza disso?

_Como você é desconfiada! Eu já disse que vai dar certo, para de falar idiotice! – ele estava muito tenso – Agora me diga, ruivinha, qual o seu nome?

_Diga primeiro você. Qual o seu nome?

_Eu sou o Coringa.

_Não, o seu nome de verdade.

_Esse é o meu nome de verdade.

_Tudo bem, deixa pra lá! – resolvi não insistir, senão ele acabaria me matando ali mesmo. Ele tinha uma faca, eu não me esquecia desse detalhe – Eu me chamo Vanilla.

_Hum, Vany Vanilla, cara de baunilha! Que tal?

Eu soltei uma risadinha. Ele me dava medo, mas não deixava de ser divertido.

_Pelos meus cálculos, falta pouco para a explosão do Asilo Arkham. Precisamos nos apressar. Menos conversa e mais ação! – ordenou, parecendo preocupado.

Por um segundo pensei que fosse morrer ali.

Mas ele encontrou a saída.

Sinceramente, preferia que ele nunca tivesse encontrado, afinal ele estava com a razão. O que eu tinha a perder?

Escapamos daquela espécie de prisão e nos afastamos o bastante para que a explosão não nos atingisse. Ele colocou o braço ao redor da minha nuca e falou:

_Hora do show!

Confesso que gostei de ver o local explodindo. Eu acho que só por ter conversado um pouco com ele, já estava me tornando um pouco psicopata. Senti medo de mim mesma quando os meus olhos reluziram ao ver aquela explosão. Aquela não era eu. Será que eu estava me tornando mais como ele e menos como eu?

_Agora, vamos, pois a polícia vai ficar no nosso encalço a partir de agora! – puxou-me com violência e começou a correr.

_Para onde nós estamos indo? – eu não conseguia disfarçar o medo. O que ele faria comigo?

_Oh, ruivinha... Eu não vou estragar a surpresa... Mas me diga, esse seu cabelo é natural? Nunca vi um vermelho tão forte assim. E um cabelo vermelho em longos cachos ainda por cima... Acho que me encantei porque o seu cabelo me desperta desejo. Esses cachos vermelhos parecem sangue escorrendo pelas suas costas...

Fiquei em silêncio por alguns segundos. O meu cabelo era como sangue?

_O meu cabelo é natural – respondi.

_Seria uma pena se alguém os cortasse... – nós ainda corríamos, eu já estava ficando ofegante.

_Você não cortaria o meu cabelo, cortaria? – questionei.

_Não, eu seria incapaz disso, pois sou apaixonado pelo seu cabelo sangrento. Mas posso fazer coisas piores. Coisas que não envolvem o seu cabelo...

_Que coisas?

Ele não respondeu à minha pergunta.

_Chegamos! É aqui que nós ficaremos, minha cara! – ele me mostrou um casarão abandonado — Eu me escondo aqui já faz um tempo, ainda não me encontraram. Eu espero que você aproveite as instalações, porque essa noite, bom... Eu quero me aproveitar de você!

Gelei quando entramos no quarto do casarão. Era idêntico ao do meu pesadelo.

_Isso é familiar para você, não é? – indagou – Você já percebeu que esse quarto é o mesmo em que eu e você fizemos sexo no sonho.

Assustei-me.

_Como você sabe do meu pesadelo?

_Digamos que eu tenha os meus truques. Dei um jeito de escutar a sua conversa com o psiquiatra. E gostaria de te dizer uma coisa: Eu também tenho esse pesadelo todas as noites. Mas há uma diferença: Para mim, não é um pesadelo. É um sonho. E há muito tempo que eu não satisfaço os meus desejos que todos os dias só crescem. Essa noite eu quero realizar as minhas fantasias com você. Todas elas, todas elas... – ele lambia os lábios repetidamente enquanto falava e àquele ponto os seus olhos já me miravam como se eu fosse uma presa e ele o caçador.

_Afaste-se de mim! Eu não vou perder a minha virgindade com você! – gritei.

_Não se preocupe, eu juro que você vai amar... – aproximou-se de mim.

Era o fim.

Notas finais
Não se esqueçam de comentar, adoro vocês, seus lindos :3.