Estilhaça-me

19 Capítulo 18 - Ilícita


Notas iniciais
Esse é o último capítulo... Mas... Ainda tem o epílogo! E a propósito, o epílogo é bem grandinho, vocês vão gostar!

Capítulo 18

Eu estava no banheiro. Foi lá que eu abortei. O Coringa já tinha, de alguma forma, se livrado do feto. Eu nem quis perguntar como foi que ele se livrou daquela coisa. Mas havia se livrado. E eu não queria saber, não queria mais falar sobre o meu aborto, ele também prometeu que evitaria tocar no assunto. Peguei o pote de tinta branca e comecei a me maquiar. Eu esfregava as minhas mãos pela tinta até que elas ficassem mais brancas do que as de um espírito. A tinta escorria sobre os cortes que se espalhavam e se bifurcavam pelas minhas mãos. Felizmente essa mesma tinta por algum tempo ocultou os cortes em minhas palmas. Senti-me normal por alguns segundos. Fiquei em estado de torpor até que me lembrasse do que eu tinha que fazer. Passei a tinta no rosto. Por mais que eu usasse a tinta, ela nunca era o suficiente para ocultar as minhas cicatrizes na face. Elas não eram como as das minhas mãos; eram profundas demais. Não havia como escondê-las. Não havia como. Olhei para o espelho. Eu estava estilhaçada. E daquela vez era para sempre. Para sempre.

Peguei o delineador preto. Antes de usá-lo nos meus olhos, contornei os cortes do meu braço esquerdo com ele. Cada linha vermelha de cicatriz se tornava uma linha preta de delineador. Era doentio, porém me fazia chorar menos. Fazia-me sofrer menos. Bem menos. Não resisti e também usei o delineador para contornar a minha marca de amor. Ela ficou linda com aquele toque preto da maquiagem. Resolvi deixá-la daquele jeito. Percebi que estava divagando e resolvi pular logo para o que eu deveria fazer: Contornar os olhos. Felizmente eles não tinham cicatrizes. O meu rosto foi poupado durante a tortura de três dias. Ele disse que o meu rosto era uma joia, que não poderia feri-lo mais do que já tinha ferido anteriormente. Senti-me especial quando ele me disse isso, embora devesse sentir repulsa pela figura dele, já que eu havia me tornado uma colcha de retalhos graças à crueldade e à insanidade dele.

Quando terminei de contornar os meus olhos com o delineador, passei as minhas mãos sobre o contorno, manchando levemente a maquiagem, deixando-a ainda mais doentia. As minhas mãos ficaram pretas com o delineador. Lavei-as cuidadosamente para tirar as manchas pretas das minhas palmas. Os meus olhos naquele momento pareciam dois borrões pretos. Felizmente o delineador combinava bastante com os meus olhos negros como as trevas. Era impressionante como eu me casava completamente com a escuridão, como tudo o que era relacionado ao lado mais perverso da vida se encaixava perfeitamente ao meu coração. Eu antigamente me imaginava doce, meiga e gentil, mas a verdade era que o mal estava o tempo todo escondido dentro de mim. Só costumo me sentir a última das últimas por ter sido obrigada a descobrir o meu lado cruel da pior maneira possível. Como eu pude ser tão tola? O mal estava nos meus olhos. Todo aquele tempo o mal estava nos meus olhos. Bastava penetrar na profundidade dos meus olhos negros para constatar a verdade: Eu nasci para o mal. Nasci para matar. Nasci para pertencer a ele. Tão somente a ele.

Só faltava o batom vermelho. Peguei-o no fundo da gaveta. Analisei a cor. Era da cor dos meus cabelos, era cor de sangue. Era a minha cor. Combinava maravilhosamente com toda a poesia dos meus cachos de sangue. Definitivamente o vermelho exercia uma grande influência sobre mim. Eu amava aquela cor, pois sabia que os lábios do homem que eu amava eram vermelhos, vermelhos como o sangue que corria rápido em minhas veias quando ele me abraçava; vermelhos como o meu coração em chamas; vermelhos como o sabor de uma morte lenta, de uma morte dolorosa, de uma morte poética. Tão vermelhos quanto o amor patológico. O amor que me capturou como uma flecha captura a sua presa, o amor da vítima pelo seu carrasco, o amor de uma vida que se entregou, o amor de uma vida que se perdeu.

Passei o batom no lábio inferior. Analisei-me no espelho quebrado. Passei o batom no lábio superior. Eu também estava quebrada, sempre estive. Prolonguei o traço do batom para fora dos lábios, contornando as minhas cicatrizes. Eu estava estilhaçada. Perdi o controle. Fiz um borrão enorme com o batom, sem nem pensar no que eu estava fazendo, esfregando aquele colorido vermelho pelo meu sorriso desfigurado. Quando parei, notei que eu estava sorrindo. Sorrindo no mais puro deleite, no mais puro prazer. Pela primeira vez eu senti o sangue correndo de verdade pelas minhas veias. Eu estava morta até conhecê-lo. Mas depois que tive a chance de pôr as minhas mãos em seu corpo e de sentir as dele no meu, tornei-me viva. Eu estava viva. Estilhaçada, porém viva. E mais viva do que nunca um dia estive. Verdadeiramente viva. E ninguém poderia me tirar o presente que ele me deu: O presente da felicidade insana, da felicidade sádica, da felicidade mortal. Éramos nós, nós contra o mundo. Estávamos quebrados, estávamos vivos, estávamos apaixonados.

_Terminou? – perguntou – Eu tenho um presente para você, minha Vany Vanilla, cara de baunilha...

_E o que poderia ser? – olhei-o, incrédula.

_Uma roupa para a sua estreia no mundo do crime...

Apresentou-me a roupa dos sonhos – ou dos pesadelos. Era um lindíssimo vestido roxo na altura das coxas. Não era um tecido justo, pois se abria na altura da cintura. Era lindo. O roxo era num tom escuro, semelhante ao do terno dele. Na parte de baixo dele havia babados verde escuro que eu simplesmente amei. O modelo era tomara que caia, com um lindo laço verde escuro cobrindo um pedaço dos seios. Também ganhei uma meia calça listrada. As listras eram verde e roxo. A meia calça era bem delicada, dando-me um aspecto um tanto infantil, o que de certa forma ressaltava a minha falsa inocência. Ganhei lindas luvas roxas que iam até o cotovelo, apaixonei-me pela delicadeza do tecido que as compunha. Havia também babados verdes como arremates nas luvas. Além disso ganhei um par de botas roxas sem salto. O look era perfeito, pois me deixava feminina e ao mesmo tempo assustadora. Junto com a maquiagem, eu me tornava o ícone da perversidade. Coloquei todas as roupas e me senti a garota mais perfeita do mundo. O presente dele me elevou de uma maneira fantástica. Mas o seu maior presente foi com certeza o despejo de lágrimas que ele me deu naquele dia em que ele quase me matou. Aquele presente seria imbatível, pois nada do mundo poderia comprá-lo. Não era qualquer um que tinha o grande privilégio de ver o magnânimo vilão de Gotham City se desabando em lágrimas. E eu tive aquele privilégio, tive, porque dei a ele todo o meu amor, todo o meu... Amor...

_Onde você conseguiu essas roupas? – indaguei.

_Bom, eu tenho os meus contatos. Tirei as suas medidas enquanto você estava dormindo e mandei para um cara fazer todas essas roupas. Gostou?

_Amei — e tentei tomar os seus lábios, mas ele me impediu.

_Acalme-se, minha baunilha... – falou, num tom infantil – Você não quer borrar a sua maquiagem antes do show, certo? Vamos cometer o crime, depois vamos mostrar ao mundo o quanto o nosso amor nos fortalece!

_Certo – falei, um pouco chateada. Resolvi falar o que eu estava pensando – Você só me manteve viva esse tempo todo porque queria uma parceira de crime, não é? – provoquei-o, com a boca bem próxima da dele e a mão no seu pescoço – Você nunca me amou, certo? Só queria uma garota bonitinha pra te dar cobertura nas suas arruaças e realizar os seus desejos sexuais, não é? Você nunca quis me perder porque queria que eu fizesse parte dos seus esquemas, não é? A verdade é que você nunca me amou e eu sou só um peão no seu enorme tabuleiro de xadrez, não sou?

_Confesso que antes você era só um peão, Vanilla... Mas você deixou de ser só isso, minha querida... Você deixou de ser um peão, pois agora você é a minha dama! E todos vão te reconhecer como a dama... Essa será o seu alter ego: A Dama! – e me puxou pelo braço, para que cumpríssemos logo o crime que tínhamos planejado. Planejado? Não, nós não fazíamos planos, só elaborávamos loucuras. É, aceitei o que ele disse sobre eu ser a dama dele. Era plausível o bastante. Estava tudo explicado. Ele me amava de verdade, eu sentia, eu sentia aquilo. Ele era meu. E eu era dele, simples assim. Mas aquilo não importava mais, pois tínhamos um crime a cometer. Tínhamos.

–-*--

Um pequeno e mísero parêntese:

Então o meu alter-ego se chamava Dama...

Dama de que, afinal?

Dama do Caos. Isso.

–-*--

Fomos até uma festa da alta sociedade. Entramos com as nossas armas em punho. Eu pedi que ele me apresentasse como a Dama do Caos. Ele concordou com o nome que eu inventei e já veio me apresentando:

_Esta é a Dama... Chamem-na de Dama do Caos, pois ela está sedenta por sangue... E quer brincar um pouco com vocês... Brincar com as suas almas!

Eu me vingaria das minhas desgraças em cima de pessoas inocentes.

Pouco me importava.

O calor do momento estava me guiando.

E era tarde demais para a sanidade voltar.

Agarrei o pescoço de uma moça da minha idade. Apontei a arma para ela.

_Olá, senhorita da alta sociedade... Tão feliz com uma mansão, bebericando o seu champanhe... Deve estar tão catatônica de felicidade com o seu dinheiro, as suas viagens para o Caribe e os seus milhões de pretendentes que nem mesmo notou que existem garotas que não tiveram a mesma sorte que você! – a minha boca tremia – Garotas que sofreram! Garotas que ganharam cicatrizes! Garotas que... – uma lágrima borrou a minha maquiagem, todo o meu corpo tremia – Garotas como eu! Garotas que estão mortas por dentro! Mortas como você estará daqui a alguns minutos! – a insanidade tomou conta de mim. Eu já estava morrendo de raiva da moça, sem nem mesmo saber o nome dela. Eu transferi todos os meus traumas para alguém que não tinha culpa de nada. Mas aquilo de certa forma aliviava a minha dor. Então era por isso que o Coringa tanto gostava de matar e torturar. O crime fazia a sua dor, seja lá qual fosse, diminuir, o que o permitia viver melhor, por mais doentio que aquilo parecesse – Hora do show, estúpidos! – e atirei na moça sem o menor pudor, porque, em minha mente distorcida eu sabia: Eu vinguei o meu passado de trevas! Eu fiz a coisa certa!

O Coringa pegou a minha mão.

Nós finalmente nos beijamos.

E fugimos.

Seria sempre assim...

Sempre assim...

Eu ilícita. Ilícita com ele. Tão somente com ele...

THE END (quase).

Notas finais
Esse é o último capítulo. Mas não chore, ainda tem o epílogo!