Notas iniciais
Acabou-se o que era doce.

Epílogo

“Bem vindo à sua vida

Não há volta

É o meu próprio projeto

É o meu próprio remorso

Ajuda-me a retirar o máximo da

Liberdade e do prazer

Nada dura para sempre

Há uma sala onde a luz não vai encontrá-lo

De mãos dadas enquanto as paredes desmoronam

Quando elas caírem, estarei bem atrás de você.

Tão feliz, pois quase conseguimos.

Tão triste que tiveram que disfarçá-lo”.

–Excerto de “Everybody Wants To Rule The World” – Lorde.

–--*---

Passaram-se alguns meses desde a minha primeira ação oficial como a Dama do Caos. Até o momento atual ainda não me sinto confortável com esse apelido, mas faço o que posso para carregá-lo nas costas. Dei um nome ao meu alter-ego sádico. O nome dele é Dama, Dama do Caos. Tenho muita repulsa por esse nome. Muitas pessoas se tornaram cinzas ou foram colocadas com as mãos e os pés juntos num caixão por causa dos meus atos. Quantas vidas foram interrompidas, quantas crianças deixaram de nascer, quantos órfãos, quantas viúvas e mais uma porção de “quantos”, incluindo quantas desgraças terei que impregnar na consciência.

Para o Coringa isso não é um problema, afinal ele nunca se arrepende do que faz. Mas para mim é um fardo, um fardo quase impossível de se carregar. Felizmente quando os meus lábios se encontram com os dele tudo parece valer a pena. Todas as pessoas que eu matei, todos os meus roubos, tudo simplesmente passa a fazer sentido. Tento tirar o máximo da liberdade e do prazer que posso tirar do corpo dele. De qualquer forma nunca serei capaz de lavar a minha alma por tudo o que eu fiz. Está marcado em mim. Marcado para sempre. Por mais que eu tente limpar o meu coração, cheguei à conclusão de que há manchas que não saem. Terei que lidar com tudo. E ele não está nem um pouco disposto a ser o meu psicólogo. Ele está se importando cada vez menos comigo. Acho que não vamos durar por muito tempo. Antes nós nos amávamos, agora só transamos. Não consigo entender o que existe entre nós dois.

_Cansada, minha Dama do Caos? – perguntou.

_Não. E eu sinto saudade de quando você me chamava de Vanilla.

_Mas eu não te torturo mais. Isso foi uma promessa que eu fiz em troca de você me ajudar no mundo do crime. Se quiser abandonar a figura da Dama do Caos agora, vai ter que arcar com as consequências de que talvez você não esteja viva no dia seguinte!

_Por que você está me tratando assim? – indaguei.

_Como? – ele parecia não estar entendendo.

_Como uma peça dos seus planos, como um joguinho em que você faz todos os movimentos e eu sou obrigada a ficar parada! Eu estou cansada de ser apenas a sua parceira de crime, eu sinto que deixei de ser alguém importante pra você! Agora você só me chama de Dama ou Dama do Caos, não me chama mais de Vany, de Vanilla ou de cara de baunilha... Confessa para mim, o seu amor por mim acabou!

_Eu acho que todos esses crimes que você vem cometendo estão mexendo com a sua cabeça, pois eu estou te tratando como sempre te tratei!

_Então por que você não me chama mais de Vanilla?

_Vanilla. Pronto, te chamei de Vanilla. Feliz agora?

Virei-me de costas para ele.

Aquilo não daria certo.

Pensei em dizer algo, mas de repente senti um enjoo terrível. Um enjoo que eu já conhecia antes. Fui ao banheiro vomitar.

_Grávida novamente? – perguntou ele.

_E dessa vez você não vai me fazer perder o bebê! – gritei.

_Não, o que te faz pensar que eu faria isso? Nós temos um trato, Dama. Você me ajuda a matar as pessoas e eu não te torturo mais de maneira alguma, a menos que a senhorita veemente deseje. E eu sou um homem de palavra!

_Chega de tratos e promessas! – berrei – Seja você mesmo! E não me chame de Dama, a menos que seja em público!

_Você quer que eu te torture?

_Não. Eu quero que você faça o que tem vontade!

_Pois eu tenho vontade de ser pai, Vanilla. – ele me chamou pelo meu nome.

_O quê? – eu estava surpresa.

_Desculpa se não tenho te tratado como você realmente merece. Mas você sabe que sou um lixo em matéria de sentimentos. Eu sou prático e calculista demais para descobrir o que uma mulher está pensando. Talvez um filho me ajude a ter mais sensibilidade. Vou deixar que você o tenha. E eu não vou matá-lo, eu juro.

Sorri. Ele era surpreendente. E era por isso que eu o amava.

–--*---

Ele me prometeu que enquanto eu estivesse grávida eu não precisaria cometer nenhum crime – e não seria torturada. Era como uma licença maternidade para criminosos. Bizarro. Fiz 20 anos. Durante os 18 eu não o conhecia. Se com 20 eu fiquei diferente da Vanilla de 18? Bastante. Antes de conhecer o Coringa eu era uma garota boba de 18 anos. Quando o conheci, com 19, era uma garota estranha de 19. E agora que tenho 20 sou uma criminosa de 20. E eu estou grávida dele de seis meses. Eu mudei muito nesse ano que estive com ele. Só não consigo dizer se foi bom ou ruim.

–--*---

Nove meses se passaram...

Chegou a hora do parto.

Já pude sentir as contrações.

Após muita dor, tive o bebê.

Era uma menina.

_Já sei exatamente qual vai ser o nome dela – falei, sorrindo.

_Qual, Vany? – perguntou – Ele estava muito mais atencioso do que o normal. Parece que a gravidez conseguiu reanimar a nossa relação, que já se encontrava um pouco desgastada. Felizmente estávamos mais unidos do que nunca e prometemos superar os obstáculos tentando ouvir um pouquinho mais um ao outro, já que a paixão inicial acabou, mas podíamos manter a nossa relação, apesar dos percalços. Claro que ele não era um cara normal. Ele ainda era violento, cometia crimes e mantinha com vigor a sua psicopatia. Mas parecia que algo estava se acendendo nos seus olhos:

Esperança.

É... As pessoas podem mudar...

_O nome dela será... Vallenzel...

_Vallenzel? – questionou, amarrando a cara – Que nome é esse?

Escrevi num papel.

–--*---

Um pedaço idiota de papel:

Vanilla Foster

Hellen Parker

Harleen Quinzel

–--*---

_Você fez uma junção de excertos dos nomes de cada uma das minhas amantes? – indagou – Isso é no mínimo... Bizarro...

_Ela terá a minha beleza, a esperteza de Hellen Parker e a inocência da Arlequina – concluí o meu pensamento, com um ar de triunfo – Mas... – fiz uma ressalva – Talvez tenha a minha insanidade, o poder de manipulação da Hellen e a falsa inocência da Arlequina... Mas todos têm defeitos. Só temo que ela tenha a sua psicopatia, essa é a minha maior preocupação. Quero uma filha normal.

_Vany, eu não entendo porque você vai chamá-la de Vallenzel. As duas mulheres que você citou tentaram te matar!

_Não vou me surpreender se um dia a minha própria filha também quiser me matar. Afinal ela é filha de quem é, certo?

Ele não pôde evitar uma risada.

_É triste ser a filha de dois criminosos. – citou — Ainda mais com a avó materna morta pelo pai da criança e o avô materno na cadeia por culpa da mãe da criança.

Engoli seco.

_Ela não pode saber de todo esse passado – segurei a pequena Vallenzel, enquanto ela chorava e toquei o ombro do meu carrasco – Esse passado precisa ser apagado! Que tipo de vida daremos a essa criança? Eu não quero que ela acabe como eu... – derramei uma lágrima – Como eu acabei!

_Eu entendo perfeitamente – falou – Eu jamais serei um bom pai para a Vallenzel. Mas eu não quero que nós... Eu não quero abandoná-la!

_Eu sinto muito... – e o abracei – Mas você está certo! Nós temos que abandoná-la onde ela possa crescer feliz e sem traumas! – olhei-o nos olhos, segurando o seu rosto que parecia mergulhado numa expressão amarga. A esperança havia sumido dos seus olhos, mas não havia lágrima alguma inundando a sua pele. Ele estava apático. Apático. E eu chorava. Chorava copiosamente – Nós não somos os pais que ela merece, somos os pais de que ela precisa! E ela precisa de pais que saibam que o melhor que eles podem fazer por ela é mantê-la bem longe deles...

_Mas onde vamos deixá-la? – perguntou.

_Eu tinha uma vizinha cujo maior sonho sempre foi engravidar. Mas infelizmente o marido dela era estéril. O que você acha de...

_O quê? – indagou – Deixar a pequena Vallenzel num cesto próximo à porta dessa mulher? Você perdeu a cabeça, Vanilla? A sua ideia pode até ser nobre, mas na prática não é assim que funciona! Nós não podemos simplesmente abandoná-la por aí como se fosse um saco de lixo! Não acredito que aguardei tão ansiosamente o dia em que você entraria em trabalho de parto para chegar à conclusão de que não teremos condições de criar o bebê!

_Eu... Eu não sabia que você queria tanto um filho... – ele estava falando sério. Pela primeira vez ele parecia demonstrar... Sentimentos... Aquilo era bizarro até para mim, Vanilla Foster, a sádica e cruel Dama do Caos.

_Eu nunca quis um filho, Vany, você sabe disso. Olhe só para mim, você acha mesmo que eu tenho cara de ”papai”? Mas eu não sei como, essa criança me mudou – segurou o bebê no colo – Eu sei que ainda sou um criminoso procurado pela polícia, que ainda mato sem qualquer indício de dó, que ainda sou odiado pela grande maioria da cidade, que já te maltratei, que já te torturei, que já te estuprei, que enfim te destruí... – ele fez uma pausa – Mas eu posso viver um pouquinho o lado bom da vida... Posso amar sem ser obsessivo, sem essa minha merda de loucura! – esbravejou – Eu pensei que esses olhos negros... Ela tem os seus olhos negros... Eu pensei que esses olhos pudessem me salvar... E veja o cabelo dela... O cabelo dela é vermelho e encaracolado como o seu... Eu pensei que esses cachinhos de sangue pudessem me salvar de quem eu me tornei... Desculpe se isso está soando forçado demais, mas... Essa garotinha mais do que ninguém me ensinou o que é amar... Amar de verdade!

Lacrimejei.

_Se você realmente a ama, precisa compreender o que eu estou dizendo -acariciei os cabelos dele – Ela não merece crescer em meio a todo esse caos... Eu não quero que ela saiba que os pais dela são criminosos... Eu quero que ela seja feliz!

_E por que ela não pode ser feliz conosco?

_Porque nenhum ser humano normal seria feliz sabendo que os seus pais são dois criminosos psicopatas procurados pela cidade toda. Ela será feliz se crescer numa família normal, numa família de amor.

_Nós somos uma família de amor! – berrou.

_Não, não somos. Tudo o que construímos foi baseado em dor, não em amor. E ela não merece saber disso. Talvez ninguém mereça. É sujo, é vergonhoso, é repulsivo!

­_Você tem razão... – murmurou, entregando-me o bebê – Mas posso deixar uma marca na omoplata dela? Idêntica à nossa marca de amor? Só para mostrar que eu a amo de verdade...

_Que jeito estranho de amar... – ele sorriu com a minha provocação, pois já tinha ouvido essa frase uma série de vezes – Seja breve, não a machuque tanto.

_Você tem que me ajudar a fazer a marca.

_Tudo bem.

E fizemos. Juntos.

Aquilo foi uma prova. Uma prova de que nós a amávamos de verdade.

–--*---

Deixamo-la num cestinho próximo à porta da mulher sobre a qual falei anteriormente. Aquela mulher era um doce. Com certeza ela amaria muito a pequena Vallenzel de uma forma que eu nunca saberia amá-la. Seria impossível alguém como eu voltar a aprender a amar. Era melhor que alguém especialista no assunto cuidasse disso. Alguém especialista em amar; em amar incondicionalmente.

Dentro do cestinho em que estava a Vallenzel, havia uma mensagem minha:

–--*---

Uma mensagem:

Querida senhora,

Sei o quanto você quer um filho.

Aqui te ofereço a minha filha.

O nome dela é Vallenzel.

Por favor, não a chame por outro nome.

Eu te imploro.

Ela ficará melhor com você

Do que comigo.

Ass: Uma mãe insana demais.

–--*---

O Coringa e eu voltamos para o nosso esconderijo com os corações em chamas e as almas completamente vazias. Mas nós sabíamos que tínhamos feito a coisa certa.

_Eu te amo tanto... – abracei-o – Amo-te acima da própria loucura... Sei que ela também um dia vai amar... E vai ser muito, muito, muito feliz...

_Mais feliz do que nós somos, eu espero – e sorriu.

_Obrigada por ter me dado mais emoções do que eu poderia ter. Por ter me dado uma nova identidade, por ter me dado as suas lágrimas, por ter me dado uma filha... Sei que você é... Você é perfeito...

_Uma nova identidade? – perguntou – Não, a Dama do Caos sempre esteve dentro de você, Vany... Não se engane... Não fui eu que te transformei... Você já era assim há muito tempo, eu apenas te libertei...

_Pois obrigada por me libertar. Nunca poderei pagar essa dívida...

_Então, Vany, você está feliz ao meu lado? – perguntou.

_Não...

_Eu sei que não está...

_Mas eu juro que estaria bem pior se você não tivesse aparecido na minha vida... Eu sei que você me transformou numa colcha de retalhos, me deu cicatrizes horríveis, me estuprou, me passou para o mundo do crime, me fez ter um aborto, mas... Eu te amo! Eu nasci para ser sua, eu sei disso! Eu nasci... – toquei a cicatriz dele – Eu nasci para te desejar, para te amar, para ser sua... Completamente sua... – eu estava muito próxima do rosto dele, pude sentir a sua respiração – Nunca se esqueça de que eu sou sua... Eu quero a sua tortura, a sua vingança, a sua loucura, quero-te do jeito que você é... Pode me torturar se quiser, pode fazer o que quiser comigo... – acariciei os seus lábios com as pontas dos meus dedos, pude sentir toda a umidade da sua boca, implorando pela minha – Eu farei tudo o que você quiser, serei a sua escrava, a sua louca, a sua princesa, a sua rainha, a sua destruída, serei o seu tudo e o seu nada – senti os seus lábios beijando os meus dedos – Serei sua, tão somente sua! Tudo isso porque simplesmente não consigo viver sem você, sem a sua faca nos meus lábios, sem a sua marca de amor na minha omoplata, sem a sua tortura por três dias seguidos, sem o seu estupro, sem o modo frio como você assassinou a minha mãe, sem a maneira como você conseguiu me destruir... Você me estilhaçou... – beijei a bochecha dele bem devagar, seguindo para perto da sua boca, beijando cada ponto da sua cicatriz pelo caminho. Ele arfava pelo sabor dos meus lábios – Você me estilhaçou por completo... E agora você me tem... Você me tem em suas mãos... E sempre terá, sempre que quiser... – beijei o canto da sua boca – Eu serei a sua estilhaçada, para sempre estilhaçada, não tenha medo, estilhaça-me quando a minha voz te perturbar... Ama-me se for capaz! – e o beijei profundamente, sentindo o molhado dos seus lábios se misturar ao sabor dos meus na mais vil insanidade de belos criminosos apaixonados.

Ele era meu.

E eu era dele.

O resto dispensava explicações...

Quase nunca precisávamos de explicações.

Precisávamos de amor.

Da maneira mais doentia e desesperada possível.

Precisávamos sim... Sempre precisaríamos... Tão somente precisaríamos...

THE END (ou talvez um novo começo).

EXTRA: UMA POESIA PARA ENCERRAR A HISTÓRIA.

Estilhaça-me

Sou a princesa de vidro, toque-me.

Sinto o frio do inverno russo nas pernas

Cubra-me com os seus lábios, ressuscita-me.

Os meus olhos são esmeraldas falsificadas

E as cicatrizes que se estendem por minh 'alma

São a mais pura arte esculpida em cristais

Grita pelo meu nome

Salva-me!

O meu rosto se mantém imóvel sob o frio

A minha silhueta brilha sob a luz da lua

Os meus demônios me estapeiam a face

E quando sinto o seu punhal me perfurando

Reconheço que nada na existência é eterno

Mata-me!

O meu coração é uma poça de gelo derretido

A minha esperança se foi como areia ao vento

O meu sangue já se coagulou em minhas veias

Não consigo sentir o último foco de luz em mim

A ilusão está me sugando a cada sopro de vida

Posso sentir a minha alma se separando da carne

Destrua-me!

Tornei-me entorpecida por completo pelo ódio devastador

Degustei do veneno que agora me escorre pelas mandíbulas

Eu sou o céu nublado, a metralhadora empunhada

Eu sou todo o trejeito de pesadelo na sua forma mais avançada

Não sinto remorso, não tracejo amor em meus olhos

Quero que a minha pele branca se rasgue em meio ao vento

Sou feita de vidro, delicada e frágil, porém destrutiva

Beija-me, abraça-me, ama-me, mata-me, eu te amo, estilhaça-me!

Notas finais
Tchau e até a minha próxima história. Obrigada, Matry, por tudo ^.^
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!