Estilhaça-me
13 Capítulo 12 - Matar É Fazer Uma Escolha: Parte 2
Notas iniciais
Capítulo 12
De repente eu vi um clarão e tudo pareceu congelado no tempo. O Coringa parou de falar, a chuva cessou e a arma sumiu das minhas mãos. Tudo simplesmente parou. Eu estava num completo vazio. Aquilo era bizarro demais para mim.
Hellen Parker.
—O que você faz aqui? – questionei.
—Eu vim lhe dizer qual a decisão certa a tomar.
—Em relação a que? – perguntei.
—Você sabe muito bem do que eu estou falando. Você não sabe se vai ou não matar o Coringa. E eu te digo a resposta: Mate-o!
—Matá-lo? Por quê? Dê-me uma razão plausível!
—Ele precisa ser morto para que pare de assassinar inocentes na Terra e também para que o espírito saia do seu corpo, mude de plano e seja purificado. Os espíritos do mais alto escalão estão te ordenando, Vanilla! Mate-o e faça um bem à humanidade! É essa a sua missão neste mundo, minha cara: Enviá-lo ao outro plano!
—Não! Nada disso! Não é assim que as coisas funcionam! – gritei – Não existe um alto escalão de espíritos que ordena quem deve ou não ser morto! Nós somos todos iguais, portanto ninguém decide qual espírito partirá e porque partirá! As coisas dependem das nossas atitudes e não do desejo de um grupo de espíritos! E eu duvido que matá-lo seja a minha missão nesse mundo! A missão é feita de luz, não de trevas! E você está me ordenando que eu faça algo das trevas: Matar! Hellen Parker, você não é quem diz ser! Você esteve mentindo esse tempo todo! Você é um espírito das trevas! E muito provavelmente você quer que eu mate o Coringa para que ele fique com você, já que ele muito provavelmente vai para as trevas se for morto! O seu coração está cheio de revolta, você é uma farsa e esteve me conduzindo para que eu intercedesse a seu favor. Pois sabe o que eu vou fazer? Eu não vou matá-lo!
—Hum, mas como você é esperta... Sim, é esse o plano! Eu o quero de volta! Só assim nós poderemos ficar juntos... Por toda a eternidade! – Naquele momento o seu rosto desfigurou e se transformou numa sombra negra, completamente disforme e nem um pouco semelhante à figura humana – E você não vai impedir isso, não vai! – e voou na minha direção, ameaçando acabar com a minha existência.
Eu apenas ergui a minha mão esquerda e esperei que a sombra viesse até mim. Quando ela tocou a minha mão, desfez-se por completo. O espírito de Hellen Parker havia se perdido para sempre.
—Eu sabia... As trevas se mostram engenhosas... Mas a luz é sempre superior!
O vazio desapareceu.
Quando eu vi, estava na chuva, com a arma na mão, apontada para o Coringa. Atirar ou não atirar? Eis a questão.
Não. Eu não atiraria. Eu não podia atirar. Eu não conseguiria atirar!
Larguei a arma no chão e o libertei.
—Por quê? – questionou ele.
—Porque eu te amo! – e o beijei profundamente, como se aquele fosse o último dos meus dias.
Contudo, de repente senti um braço me puxando das mãos do Coringa e apertando o meu pescoço com uma força incrível.
A Arlequina.
—Você achou mesmo que eu fugiria sem a minha vingança? – questionou ela – Eu só fugi para o matinho e fiquei escondida, esperando para ver se você o mataria. Já que você amarelou, senti-me na obrigação de pegar a arma e terminar a vingança eu mesma. Agora eu sei o quanto ele é importante pra você e vice-versa. E você sabe qual é a melhor? – ela me afastou do Coringa e encostou o cano gelado da arma no meu ouvido – Você é a minha refém! A minha querida refém...
—Me solta, Arlequina! – implorei.
—É! Solta ela, Arlequina! É a mim que você quer! – berrou o Coringa, em desespero – Só eu tenho o direito de ameaçá-la dessa forma!
—Oh, meu pudinzinho... – disse ela, chorosa – Eu só queria que você me amasse... Isso era pedir demais? Mas como você ama essa aqui e eu preciso me vingar, vou me vingar através dela. Ela vai morrer! E se você não ficar comigo imediatamente, o próximo a morrer, será você!
—Pare de brincar comigo, Arlequina! – gritou ele – Você não pode manipular o manipulador! Solte-a agora!
A única coisa que eu sabia fazer no momento era chorar. As lágrimas eram inúteis, obviamente. E a chuva caía, tão somente caía...
—Eu não solto. Eu vou destruí-la! Estilhaçá-la por completo! É essa a minha vingança, meu pudinzinho... E melhor do que uma vingança bem sucedida é um amor bem sucedido!
—Você não pode me obrigar a te amar!
—Se você não vai ser meu, não vai ser de mais ninguém! – ela parecia ameaçadora naquele momento. Não era possível que tracejasse amor em seus olhos. Tudo o que havia ali era apenas ódio. Tão somente ódio. Mas não um ódio qualquer. Era o ódio proveniente da paixão. Da paixão que nunca se perdeu, apesar de todas as decepções. Da paixão que beirava a insanidade, da paixão doentia, da paixão obsessiva. Da doce e perigosíssima paixão obsessiva.
O gatilho já estava sendo puxado.
As lágrimas desciam pelo meu rosto.
Eu ia morrer de qualquer forma, então resolvi arriscar. Dei um chute na Arlequina. A bala foi disparada em direção ao céu, não na minha cabeça, graças ao chute que fez com que ela me soltasse. Eu rapidamente peguei a arma e apontei para ela, tentando parecer ameaçadora, mantendo os meus olhos negros como as trevas de Hellen Parker fixos na falsa inocência dos seus belíssimos e sedutores olhos azuis.
—Não se mexa, vadia! – gritei.
O Coringa parecia impressionado. Eu realmente tinha conseguido escapar da morte. Foi sem querer, eu juro que foi. Eu nem sabia o que tinha feito para conseguir. Eu acho que aquele foi um puro golpe de sorte, só podia ser. Bom, se a sorte estava a meu favor, ótimo, porque eu estava perdida naquele momento. Eu não queria matar a Arlequina. Eu nunca matei. Nunca! E nunca quis matar. Nunca!
—Deixa que eu cuido dela! – ele roubou a arma da minha mão e atirou na barriga dela, fazendo-a desabar no chão. Ele foi em direção a ela e colocou o próprio pé justamente onde a bala se alojou, fazendo-a gemer de dor – Então, Arlequina... O que você tem a dizer sobre a sua vingança? A vingança que não se concretizou?
—Nada, seu estúpido! – e cuspiu no rosto dele.
—Obrigado. E essas foram as suas últimas palavras! – e deu um tiro certeiro na cabeça dela, fazendo-a desfalecer bem na minha frente. Ele se virou para mim e disse, como se não tivesse feito nada demais – Ela está morta!
—Percebe-se! – falei, amedrontada. Não era nada agradável ver aquela quantidade enorme de sangue bem na minha frente. Um cadáver, sim, um cadáver.
—Ora, meu amor... Não fique assim... – ele me envolveu em seus braços, dando-me arrepios – Agora me diga, sua vadia! – ele me apertou violentamente contra o seu corpo e segurou o meu queixo com força – Diga-me que plano você tinha com a Arlequina! Ela estava escondida no arbusto, enquanto você estava me usando! Você estava envolvida no esquema de vingança dela!
—Sim, eu estava! – falei, sem medo – O Batman me levou até a minha casa, mas eu não queria voltar para os meus pais! Eu queria me vingar de tudo o que você fez comigo! E a Arlequina me ajudou, já que ela também queria se vingar! Nós elaboramos um plano, mas não deu certo, porque ela riu na floresta e você a descobriu!
—Se você queria se vingar de mim, sua puta – ele lambeu os lábios, enquanto me olhava com todo o seu ódio – Porque não disparou a arma quando eu estava todo amarrado? – ele puxou os meus cabelos com toda a sua força, fazendo-me lacrimejar de dor – Por que, sua estúpida? Por que não me matou de uma vez? Por quê? Por quê? Ele fincou as unhas no meu rosto, enquanto eu chorava como uma louca – Por quê?
—Por que... – engasguei-me com o choro — Porque eu não podia! Eu simplesmente não podia! Apesar de todo o ódio que eu tinha de você, de toda a dor, apesar das cicatrizes, do desejo de vingança... – as lágrimas me inundavam completamente, sentia-me tomada pela insanidade daquele amor cativo – Eu não podia! Você me torturou, destruiu a minha vida, fez coisas horríveis comigo, mas eu não podia... Eu não podia! Eu seria incapaz de te matar! Você é muito mais do que o meu carrasco, do que o rei da minha dor, o senhor da minha loucura! Você é o homem que eu amo! Eu te amo, eu te amo! – eu o olhei nos olhos, deslizei os meus dedos pelo seu rosto, sentindo a loucura me invadir – Eu não posso te matar... Você me completa!
Nada mais precisava ser dito.
Ele levou os seus lábios até os meus e me beijou profundamente.
—-*--
Hellen Parker me disse uma vez que eu teria que quebrar a minha principal regra para salvá-lo de si mesmo.
E eu quebrei a regra.
A regra de que eu deveria continuar sana, apesar de tudo.
Naquele momento eu soube:
Para salvá-lo, teria que me tornar insana.
E eu me tornei, tornei-me insana.
Mas, de qualquer maneira, ele não foi salvo.
Descobri uma verdade que me acompanharia para sempre:
Algumas pessoas não podem, não devem ser salvas.
E eu sou uma delas.
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