Estilhaça-me
2 Capítulo 1 - O Rei Da Minha Loucura
Notas iniciais
Capítulo 1 — O Rei Da Minha Loucura
Aqueles sonhos me atormentavam tanto que eu já não suportava mais. Precisava urgentemente da ajuda de um especialista em loucura. E foi exatamente isso o que eu fiz: Marquei uma consulta com um dos psiquiatras do Asilo Arkham. Ele era um dos melhores no ramo e com certeza me faria entender porque eu estava tendo tantos pesadelos iguais desde a minha adolescência.
Entrei na sala dele, um pouco amedrontada.
_Tenha um bom dia, senhorita Vanilla – murmurou ele. Ele era jovem e bonito. Os seus olhos azuis transmitiam muita paz aos meus olhos negros tão vazios.
_Como você sabe o meu nome? – indaguei, surpresa.
_Está escrito na sua ficha, assim como a sua idade: 19 anos. A sua ocupação também consta aqui: Estudante de arquitetura. Você deu todos os seus dados para o meu secretário e ele os passou diretamente para mim. A sua pergunta foi meio boba, mas não se preocupe, deve ser por causa do nervosismo. É normal ficar um pouco nervoso na primeira consulta. Agora se deite no divã e me conte do que você sofre.
Deitei-me no divã como recomendado e comecei a falar:
_Eu sonho quase todas as noites com o Coringa.
O médico parecia estarrecido.
_Com o Coringa? – perguntou ele, como se não tivesse ouvido direito.
_Sim, ele mesmo, o famoso psicopata de Gotham City. E o mais estranho é que eu nunca o vi pessoalmente. Eu simplesmente não entendo porque eu sonho com ele. E são todos sonhos ruins. – eu já podia sentir algumas tímidas lágrimas inundando o meu olhar perdido — Ele me estupra e me tortura, é horrível! Depois eu digo que o amo; eu acho que ele diz que também me ama. E aí... Eu morro... – várias lágrimas já estavam escorrendo pelo meu rosto naquele momento, borrando a minha maquiagem, mas eu não fazia menção de enxugá-las. Eu havia exposto a minha alma. Agora cabia ao psiquiatra cuidar do meu caso e, quem sabe, livrar-me dos pesadelos.
Porém, ele nada disse. De repente notei algo estranho: O seu rosto estava se desfigurando aos poucos e se transformando em outro. Transformou-se no rosto do Coringa! Quando eu vi, o consultório também havia passado por uma metamorfose, tornando-se o temível quarto sujo em que o palhaço do crime me torturava e me estuprava. Eu não estava entendendo nada. Eu não conseguia saber se aquilo era real ou não, a minha cabeça girava. Contudo, independente de qualquer coisa, eu precisava lidar com o meu medo. Em pleno desespero e chorando loucamente, berrei:
_Você não vai me machucar de novo! – e voei em cima do psiquiatra, que agora era o Coringa, agarrando o seu pescoço. Ele gritava por socorro.
Quando eu me dei conta, entraram dois funcionários do Asilo Arkham. Um deles injetou um líquido estranho na minha nuca, antes que eu percebesse. Tudo começou a girar. As minhas pernas vacilaram e eu caí no chão.
_Isso não é... Real... – murmurei, antes de fechar os olhos e desmaiar por causa do líquido que injetaram em mim. Provavelmente era um calmante bem forte.
Quando acordei, estava numa cama, mas não era a cama do apartamento em que eu morava. Era uma cama branca, cercada por médicos que pareciam estar analisando cada um dos meus movimentos.
_Onde eu estou? – gritei, em completo desassossego, enquanto agitava os braços e as pernas como uma criança birrenta.
Eles me contiveram, agarrando-me.
_Acalme-se! – pronunciou um dos médicos – Você teve uma espécie de alucinação durante a sua consulta com o psiquiatra. Você começou a atacá-lo sem qualquer motivo aparente e ele gritou, implorando pela nossa ajuda. Nós viemos e te aplicamos um sonífero para que você se acalmasse e dormisse. Resolvemos te deixar sob a nossa supervisão no Asilo Arkham antes de tomarmos qualquer outra providência. Só vamos te liberar quando percebermos que a sua sanidade voltou.
_Vocês querem dizer que eu vou ficar internada aqui? Mas nem pensar! Eu não sou louca!
Um dos médicos soltou uma risadinha sarcástica:
_Todos dizem isso. Agora cale a boca que eu não estou a fim de aturar papo de maluco – aquelas palavras de deboche pareciam lâminas cravadas no meu corpo.
_Eu não vou calar a boca! Eu tenho o direito de falar, nasci livre!
_Nasceu livre – falou um dos médicos – Mas vai morrer trancafiada no sanatório. Talvez assim você aprenda a não perturbar a ordem – e me aplicou à força mais uma dose daquele sonífero pesado. A minha visão se embaçou por completo. Eu apenas vi todos os médicos saindo da sala, depois não vi mais nada.
_Isso não deveria ser... Real... – pronunciei, antes de apagar novamente.
Quando acordei, de fato não havia mais nenhum médico ali presente. Eu estava sozinha. Porém, percebi que havia algo em cima de mim. Uma folha de papel. E nela estava escrito uma mensagem... Mas a mensagem não foi feita a lápis, a caneta ou no computador. A mensagem estava escrita em... Sangue!
O sangue escorria sobre mim, mas, mesmo assim, eu consegui ler tudo:
“Todos querem dominar o mundo. Mas eu não, eu quero dominar você”.
O bilhete não estava assinado, todavia eu sabia que só podia ter sido escrita por alguém: O Coringa! Ele também não estava internado no Asilo Arkham? Então de alguma forma ele entrou no meu quarto e me deixou essa mensagem! Mas... Por que ele faria isso? Ele nem me conhecia na vida real, só me conhecia nos pesadelos!
_Quanto mais respostas eu consigo, mais perguntas surgem – falei sozinha.
Um dos médicos abriu a porta de supetão. Eu escondi a mensagem rapidamente, antes que ele visse, contudo ele me perguntou o que era o sangue na minha roupa. O sangue que havia escorrido da carta.
_Não é nada... – falei, sentindo-me apertada por algo invisível.
_Tudo bem, nem me importo com os seus problemas, provavelmente estava se cortando para ver se conseguia morrer. Eu vim aqui porque está na hora do almoço. Dirija-se ao refeitório e seja amigável com os outros malucos, isto é, se não quiser ser castigada por nós.
_Eu não quero ver ninguém! – desobedeci a ordem dele.
_Então vai ficar com fome! – o médico mantinha o olhar severo sobre mim – Vai ou não vai?
_Está bem, eu vou. – concordei, desanimada.
Adentrei o refeitório. Vi várias pessoas estranhas comendo juntas, tanto inocentes quanto criminosos. Eu estava num sanatório lotado de pessoas com passagem pela polícia. Aquele não era o meu lugar. O que eu estava fazendo lá?
Sentei-me numa mesa vazia, distante de todos. Eu esperava não ser incomodada, enquanto comia uma porcaria qualquer oferecida pelo refeitório.
Porém, alguém tinha que me incomodar.
E quem mais seria?
Um homem alto se sentou ao meu lado. O meu corpo gelou. Era ele. Era o Coringa! O psicopata mais famoso da cidade estava a poucos centímetros de mim! Eu já estava com vontade de chorar e o meu estômago se embrulhava no mesmo compasso em que o meu coração batia numa velocidade espantosa. Ele me mataria? O que eu faria a respeito? Eu estava com muito medo no meu olhar, mas se demonstrasse, provavelmente ele adoraria a situação. Eu teria que suportar e aparentar não ter medo dele, embora aquilo parecesse impossível para mim.
_Que linda... – disse ele, enquanto deslizava a sua mão áspera pelo meu braço, provocando-me arrepios tanto de medo quanto de prazer. Aquilo me fazia lembrar o pesadelo que há tanto tempo me atormentava. Eu não conseguia olhar para ele. Eu não queria olhar para ele! – Por que está tão séria? – indagou, levantando-me o rosto com certa violência, forçando-me a olhar nos olhos dele – Coloque um sorriso na cara! — Eu sorri contra a minha vontade. Teria que jogar o jogo dele – Muito melhor assim!
_Por que está falando comigo? – perguntei, desviando o olhar dele.
_Gosto de me socializar com os novos loucos que entram aqui – disse ele, dando de ombros.
_Eu não sou louca.
_Mas aposto que é louca para fugir daqui!
_Fugir? – os meus olhos brilharam naquele momento – Mas é claro que eu quero fugir!
_Então estou te dando uma chance de ouro... Fuja comigo! Eu estou pensando numa fuga bombástica! Vem comigo, senão eu te digo: Vão te manter aqui pelo resto da sua vida, mesmo quando você se curar. Se quiser sair daqui, terá que confiar nas minhas palavras.
_Confiar em você? Prefiro ficar o resto da minha vida aqui a ir com você!
_Você não tem escolha! – pronunciou, fuzilando-me com o olhar, enquanto segurava com força o meu braço, fazendo-o latejar de tanta dor – À noite eu vou te buscar no seu quarto e é bom cooperar, porque você não sabe do que eu sou capaz!
_Por que faz tanta questão de que eu vá com você?
_Digamos que eu tenho as minhas razões. Mas isso, por enquanto, a senhorita não tem a necessidade de saber. – respondeu, levantando-se da minha mesa e indo para eu não sei aonde.
O meu corpo, àquele ponto, estava gelado. Ele falou comigo. Ele me tocou. Ele... Ele queria fugir comigo!
Eu estava com a corda no pescoço.
Qual seria a minha infeliz escolha?
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