Estava Escrito - Cobrade
27 Capítulo 27 - Por você eu mudarei
Notas iniciais
(Narração Jade)
Ódio. Essa era a palavra que definia completamente o que eu estava sentindo pelo Cobra. Como aquele vagabundo tinha coragem de falar comigo daquele jeito?
***
Era sábado, e eu não falava com o Cobra desde o acontecido do dia anterior. Hoje graças a Deus não tinha Ribalta, então eu não precisava me preocupar em dar de cara com aquele vagabundo.
Eu já havia tomado meu café da manhã, minha mãe tinha sido arrastada por Ed para ir fazer compras no shopping e depois assistir uma peça no teatro. Eu certamente ficaria só em casa até a noite. O silêncio reinava dentro de minha casa até que ele foi quebrado pelo toque do meu celular.
– alô?
– Jade? Aqui é o Tawik. — a voz do outro lado da linha disse.
– oi. — eu disse surpresa. — você me ligando. Aconteceu algo?
– pra falar a verdade aconteceu.
– ai meu Deus. Desembucha
– é que um amigo do Cobra morreu, e parece que ele estava junto. O Cobra está arrasado, só que do jeito dele claro.
– que amigo? Quando foi isso?
– o Luiz, conhece?
– sim eu conheço, é um bonitão.
– ele foi baleado ontem em uma discursão, o Cobra ajudou a socorrer, mas ele acabou falecendo.
– que horror. E como o vaga... O Cobra está ? — eu disse me corrigindo.
– ele está bem fisicamente, porém está meio chateado. Eu estou te ligando porque você é única pessoa que faz realmente bem a ele, acho que você e o Luiz são, ou melhor, eram os únicos amigos do Cobra.
Eu parei por uns segundos e fiquei apenas refletindo sobre o que Tawik havia dito.
– Jade, você está aí?
– estou sim. Eu vou me trocar e logo logo estou ai. — eu disse já desligando a ligação.
Corri para o meu quarto imaginando toda aquela situação. Passou pela minha cabeça o Luiz em uma briga e logo ele sendo baleado, o Cobra tentando o socorrer porém vendo que o amigo já estava morto.
Eu passei a noite toda amaldiçoando meu vagabundo, enquanto ele passava por uma coisa dessas.
Vesti a primeira roupa que encontrei. Uma saia cinza e uma blusa preta. Calcei minha sandália e peguei minha bolsa. Enquanto esperava pelo elevador eu já estava ligando para o táxi.
***
Em exatos 15 minutos eu cheguei ao QG, a loja estava com alguns clientes e Tawik estava no balcão atendendo uma moça. Olhei para ele com aquele olhar "cadê ele pelo amor de Deus?" E ele apontou para os fundos.
Em passos rápidos, porém elegantes, fui para os fundos do QG onde Cobra estava deitado sobre um colchão.
– Vagabundo? — eu disse baixinho.
Como resposta apenas recebi um olhar, um olhar vago, triste, frio. Não haviam lágrimas nos olhos de Cobra, e seus olhos não estavam inchados. Porém sua aparência era horrível, era de tristeza, de medo, de perda.
– posso me sentar? — eu perguntei.
– claro.
– o Tawik me disse o que aconteceu. Quer conversar sobre isso? — eu falei passando as mãos em seus negros e bagunçados cabelos.
– não. — ele disse olhando para o nada.
– Cobra, você não precisa guardar tudo para você. Eu estou aqui, deixa eu cuidar de você. Eu quero cuidar de você. — falei enquanto deslizava sobre o colchão na tentativa de ficar mais próxima dele. — quando eu estou triste você é meu porto seguro, é você que me da força e amparo. Deixa eu fazer o mesmo por você?
– você já tem problemas demais, não precisa se preocupar com os meus.
– não estou me preocupando com os seus problemas, estou me preocupando com você. Deixa eu cuidar de você, deixa.
Cobra me olhou com aqueles seus olhos escuros, no canto de sua boca se formou um leve sorriso. E com os dedos ele colocou uma mecha de meu cabelo atrás da orelha.
– obrigado minha dama. Você tinha todos os motivos para não está aqui, ainda mais depois de ontem. Obrigado por não desistir desse vagabundo.
– eu nunca vou desistir de você, juntos nos somos mais fortes. Um sempre vai apoiar e amparar o outro.
– sempre. — ele disse pegando minha mão e dando um beijo na mesma. — promete que não vai me julgar pelos meus erros? — ele perguntou meio sem jeito.
– se você prometer não repeti-los.
Cobra afirmou com a cabeça e logo continuou.
– você estava certa ontem. Eu estava mentindo pra você.
– sabia. — eu disse fazendo uma cara de vitoriosa.
– a umas semanas eu estou participando de um campeonato ilegal de luta, da pra tirar uma grana legal. Por isso eu estava chegando machucado direto.
– todos os seus machucados eram por causa disso? — eu perguntei.
– na verdade não. Lembra de quando eu machuquei minha sobrancelha e na mesma época fui expulso da equipe Gael. — fiz que sim com a cabeça. — então, eu recebi uma grana para bater em um cara. O amigo dele acabou batendo um pedaço de ferro na minha cabeça o que ocasionou o corte. A ruiva descobriu, contou para o mestre e ele acabou me expulsando, porém ninguém deles conseguiram provar nada.
– meu Deus. — eu disse perplexa.
– eu sei que é horrível tudo isso Jade, mas se eu estou te falando é por que eu realmente estou arrependido. Não quero mais isso pra minha vida, não quero acabar como o Luiz.
– e onde a morte do Luiz entre nisso tudo?
– no início da semana teve uma luta, o Luiz nocauteou um cara, e ele se lesionou seriamente.
– seriamente como? — eu perguntei o interrompendo.
– perdeu o movimento das pernas. — ele disse já esperando minha reação de completo horror.
– mas essas lutas não tem regras, meu Deus como isso foi acontecer? — eu disse indignada.
– é luta ilegal Jade, não tem regras. Ali vale tudo, matar e ser morto.
– isso é loucura. — eu disse ainda perplexa.
– o pai do cara apareceu lá ontem no final da luta, ele discutiu com o Luiz e acabou atirando nele pelas costas. O final você já sabe.
– e a família do Luiz? Já estão sabendo?
– o Luiz morava sozinho aqui no Rio, tinha ódio pela mãe e o pai tinha ódio por ele. Parece que o Lobão falou com os dois mas nenhum deu importância. Acho que tudo que ele tinha estava dentro daquela academia.
– e como você está? Vocês estavam bem próximos ultimamente. — eu disse passando a mão em seu rosto.
– é estranho perder um amigo, sei lá, foi tudo tão rápido. Eu não imaginava que isso iria acontecer, ainda mais com ele.
– Cobra. — eu disse o olhando, eu sabia que ele queria dizer muito mais, porém sua pose de badboy não permitia.
– Ta doendo, muito pra falar a verdade. E é uma dor estranha, sabe Jade eu não tenho ninguém além de você e o pessoal da Khan.
– não fala isso, sua família te ama.
– podem até amar, mas se eu morresse todo mundo ia falar "final de bandido é tudo igual". É isso que todo mundo de Goiânia acha que eu sou. — Cobra disse abaixando a cabeça.
– então prova que eles estão errados, joga na cara de todo mundo que você é Ricardo Cobreloa, um campeão. E um campeão honesto, digno.
– você estão falando igual a minha mãe. — ele disse sorrindo.
– é por que tanto eu quanto ela queremos apenas o seu bem. — eu disse enquanto minha mão estava em sua nuca.
– eu prometo que vou provar que todos eles estavam errados.
– isso ai. — eu disse o dando um beijo. — meu badboy está mudando.
– por você minha dama, por você.
Fale com o autor