Jaraguá saiu da escola acompanhada pelo namorado; despediu-se de

São Miguel e o acompanhou com os olhos até onde conseguiu; seu sorriso era

lindo, estava vestida como tantas garotas que saiam da escola assim como

ela mas sua beleza era única.

A menina começou a procurar pelo carro de seu pai, que deveria estar ali

para levá-la pra casa, mas não o encontrou:

— Oi, bom dia! — o cumprimento era de uma mulher de mais ou menos trinta

anos, que se aproximou calmamente da menina:

— Bom dia! — respondeu Jaraguá:

— Você é Jaraguá, não é?

— Sou; a gente se conhece?

— A gente ainda não conversou mas eu te conheço por foto; meu nome é

Criciúma, eu trabalho com o seu pai!

— Sério? Legal, ele falou de você outro dia lá em casa! Ele disse que

vinha me buscar, eu estou procurando mas...

— Minha querida, seu pai não veio porque acabou tendo uns problemas de

última hora lá na empresa e não conseguiu sair; eu me ofereci pra vir te

buscar e te levar pra casa!

— Ah, legal, pode ser! — Jaraguá concordou com um sorriso discreto,

tranquilo:

— Então, vamos? Você me mostra aonde você mora?

— Claro, não é longe daqui; eu te mostro!

Para uma menina de quinze anos, era difícil explicar o que ela

estava sentindo. Ela havia gostado de Criciúma logo de cara; achou legal

ela ter ido até a escola no lugar de seu pai, já que ele não pôde estar

ali.

As duas entraram no carro, e enquanto dirigia até o prédio onde o chefe

vivia com a família, Criciúma percebeu que aquela era a oportunidade

perfeita para saber mais sobre a família dele:

— Você tem mais três irmãs, não tem?

— Tenho; e minha mãe está grávida! Foi sem querer mesmo, sabe; mas todo

mundo lá em casa está curtindo a ideia de ter um bebê!

— Eu posso imaginar; criança alegra qualquer ambiente! E sua mãe, está

bem?

— Está! Minha mãe é a mulher mais linda do mundo, é muito forte; ela

está enjoando bastante agora mas acho que logo passa!

Criciúma não sabia que a esposa de São José estava grávida:

— Passa sim, minha querida! Geralmente essa fase de enjoos dura só até o

terceiro mês, depois tudo fica mais tranquilo!

— Você é casada?

— Eu fui noiva mas não me casei; hoje moro sozinha, trabalho, aliás, a

gente podia combinar de você ir lá em casa uma hora dessas!

— Eu vou; eu gostei de você!

— Eu conheço todas vocês por foto; seu pai tem um porta retrato enorme

da família toda na mesa dele!

Quando chegou no prédio, Criciúma fez questão de subir com Jaraguá

até o apartamento e deixá-la em casa. Ficou conhecendo Florianópolis,

Blumenau e Palhoça, que acabou perdendo a hora de acordar e

não foi pra escola naquele dia. Joinville não estava em casa, havia

saído pra almoçar. O maior sonho daquela mulher era uma

família como aquela; filhos, uma casa linda, um marido que lhe desse

tudo; ela viu em Florianópolis exatamente o que queria ser quando

chegasse à idade dela:

— É essa a executiva que começou a trabalhar lá na empresa? — perguntou

curiosa Palhoça, impressionada com a beleza da mulher que acabara de

deixar sua irmã em casa:

— Deve ser, ela disse que trabalha com ele! — respondeu Jaraguá:

— Bonitona ela!

— Bonita mesmo! Achei legal da parte dela ter ido na escola já que o

papai não pôde! Me convidou até pra ir na casa dela!

— Eu acho que nem almoçar em casa ele vem hoje; mandou mensagem pra

mamãe avisando!

Márcia serviu o almoço na sala e Florianópolis sentou-se à mesa com

três de suas filhas. Almoço e jantar eram sempre horas bastante

descontraídas naquela casa; era o momento em que todo mundo falava sobre

a escola, a faculdade, sobre seus planos.

— Deixei sua filha em casa com a mãe e as irmãs! — avisou calmamente

Criciúma, ao encontrar-se com o chefe na recepção da empresa:

— Ótimo — respondeu ele -, fico te devendo mais essa!

— Imagine, você não me deve nada! Aliás, Jaraguá é uma graça; ela me

contou que sua mulher está grávida!

— É, pegou todo mundo de surpresa! Mas a gente está muito feliz, minhas

filhas estão radiantes com a ideia de ter um bebê em casa! E falando

nisso, você viu se elas estavam lá?

— Joinville não estava; de resto conheci todo mundo! Você não vai almoçar?

— Eu consegui resolver o problema lá no escritório, estava justamente

saindo pra comer alguma coisa! Você almoça comigo?

— Bem... de qualquer forma eu também ia comer alguma coisa mais tarde;

pode ser! Eu vou na minha sala ver se tem algum recado e já volto!

— Eu te espero no estacionamento, vou pegar o carro!

Durante todos aqueles anos, São José sempre teve o cuidado de não

misturar sua vida pessoal com os assuntos profissionais; não costumava

levar os problemas de casa para o trabalho, e muito menos chegar em casa

de cara amarrada no fim do dia por algum motivo relacionado a os

negócios. Naquele dia ele acabou pedindo que Criciúma fosse até a escola

e levasse sua caçula até em casa, coisa que jamais havia acontecido

antes; os dois estavam muito próximos, a jovem executiva estava a cada

dia mais encantada por aquele homem que, com mais alguns anos de

diferença, poderia ser seu pai.

O restaurante que Chapecó e Joinville escolheram naquele dia ficava

bem próximo a o flat e a universidade; um lugar aconchegante, comida

caseira, atendimento familiar. As duas se sentaram em uma mesa bem

próxima à porta, e enquanto almoçavam, conversavam sobre tudo.

Quis o destino que, naquele exato momento, Joinville se virasse e

olhasse para a porta; não teve dúvidas, aquele homem era seu pai, que

entrava no restaurante ao lado de uma mulher; a conversa dos dois

parecia descontraída:

— O que foi? — quis saber Chapecó ao notar a expressão no rosto da

namorada:

— Chapecó, é o meu pai!

São José, por sua vez, quase caiu pra trás ao dar de cara com sua filha

no restaurante; não estava fazendo nada de errado, mas alguma coisa

fazia com que ele se sentisse mal com aquela situação. Aquela seria a

primeira vez que Joinville o veria ao lado de uma mulher que não era sua

mãe:

— Aquela ali é minha filha! — São José apontou orgulhoso para sua

menina; não tinha vergonha de assumir que era um verdadeiro pai coruja,

achava suas quatro filhas lindas:

— Vamos cumprimentá-la! — decidiu Criciúma com um leve sorriso.

Os dois andaram até a mesa onde estavam Joinville e Chapecó; São José

apresentou a filha e a nora para sua colega de trabalho. Por educação,

Joinville os convidou para que se sentassem com elas:

— Nós não queremos atrapalhar, meu amor — respondeu o pai -, nós não

temos muito tempo, o dia está difícil lá na empresa hoje! Eu entrei no

restaurante, te vi, vim só te dar um beijo!

— Tudo bem, pai! A gente logo vai também; daqui a gente vai lá pro flat,

vamos dar um pulo no shopping...

— Eu preciso fazer super mercado hoje! — completou bem humorada Chapecó:

São José e Criciúma se despediram das duas e foram se sentar; Chapecó

conhecia Joinville o suficiente, sabia que alguma coisa havia mudado

desde o momento em que seu pai esteve na mesa:

— O que foi, minha querida? — perguntou ela calmamente ao pousar uma das

mãos sobre a mão da namorada:

— Sabe quando você vê uma pessoa pela primeira vez e não tem uma boa

impressão? Eu senti isso agora quando olhei pra essa mulher!

— Será que você não se impressionou porque ela estava do lado do seu

pai?

— Não, Chapecó, não é isso; eu sei que meu pai vira e mexe almoça com

o pessoal lá da empresa, mas essa mulher, eu não sei!

As duas terminaram o almoço e deixaram o restaurante em seguida:

— Será que Jaraguá e Palhoça não quer ir no shopping com a gente? — sugeriu

Chapecó; Joinville sorriu, a ideia era boa:

— É uma ótima ideia; eu chego no seu apartamento e ligo lá pra casa!

— Liga sim; se elas quiserem ir a gente passa na sua casa!

E uma hora depois, elas estavam em frente a o prédio onde Joinville

morava; suas irmãs mais novas desceram radiantes e entraram no carro.