Esta noite
6 Véspera de Natal
Icaro abriu as pálpebras de leve e tomou o maior susto quando se deparou com os grandes orbes âmbares de sua irmã. Gritaram juntos, mas ela estava alegre. Antes que ele pudesse se sentar direito na cama, Aya puxou-o pelo braço e debandou pela escada. Na cozinha, serviu os biscoitos que havia preparado mais cedo.
— Pelas penas do Articuno, Aya! Que alvoroço todo é esse?
— Amanhã é Natal! — disse ela, saltitando. — Eu estou ansiosa. Você não está ansioso?
— Sim, mas, menos, né? Por favor!
Naomi entrou na cozinha bocejando.
— Já estão de pé, seus madrugadores?
— Aya me acordou. — Icaro fez uma careta emburrada.
— Ela sempre acorda todo mundo.
— Mentira!
Growlithe também apareceu no cômodo. A julgar pelos passos cansados, acabara de despertar.
— Vocês vão sair hoje? — perguntou Naomi, pegando um biscoito.
— Talvez. Estava pensando em levar a Aya-chan para ver a árvore.
— Iei! Eu iria adorar!
— Certo. Certo. Depois do almoço, ok?
— Ok! — Ela assentiu com vigor.
Após almoçarem, chamaram Kiba para o passeio. Encontraram alguns de seus amigos pelo caminho. Pietro estava particularmente animado, pois acreditava que ganharia dos pais o vídeo game que pedira o ano inteiro.
— Você vai lá em casa jogar comigo, não é, Icaro?
— Se eu estiver por aqui.
— Eu quero jogar também — disse Aya.
— Ninguém te chamou, baixinha — provocou Pietro. — Ai! Por que você me chutou?
Os quatro acabaram indo juntos até o centro comercial. A árvore não era tão bonita de tarde quanto era à noite, mas Aya alegrou-se mesmo assim. Compraram chocolate quente e sentaram-se em um banco, apreciando a paisagem. Havia muitas pessoas comprando presentes de última hora.
— Que bom que eu me adiantei quando passei por Celadon. A decoração de lá ficou muito bonita este ano, e as promoções têm sido ótimas — comentou Icaro.
— Meu sonho ir à Celadon e ver a apresentação da Erika. — Os olhos de Aya brilharam sonhadores.
— Você gosta de Pokémons de planta, né, baixinha?
— Acho muito bonito quando eles dançam em meio às pétalas e folhas. — Ela suspirou. — Algum dia serei uma treinadora Pokémon e viajarei por Kanto inteira!
— Ou eu posso te levar — propôs Icaro, puxando a irmã para um abraço. — É mais divertido quando se tem companhia.
— Com certeza!
Pietro e Aya continuaram conversando sobre as atrações de Celadon, e Icaro perdeu-se por alguns minutos. A conversa da noite anterior ainda parecia recente, e ele não conseguia evitar pensar no que Arrietty estaria fazendo. Ela dissera que não queria comemorar o Natal. Passaria a noite toda sozinha? Apenas ela e Yuki?
— Está ficando tarde — murmurou Pietro, fitando o relógio. — Melhor eu voltar para casa, ou minha mãe briga comigo.
— Nós vamos voltar também — disse Icaro. — Kiba?
O cachorro sacudiu o corpo e seguiu seus mestres.
— Feliz Natal, gente — desejou Pietro quando passaram pela rua de sua casa.
— Feliz Natal! — responderam Icaro e Aya.
Começava a nevar. Uma visão encantadora feita de floquinhos brilhantes. Eles deram as mãos e caminharam juntos de volta para casa.
No parque, não havia ninguém.
— Muito bem, quem vai ser o primeiro? — perguntou Naomi, puxando Kiba para seu colo.
— Eu! Eu! Eu! — Aya balançou os braços. — Eu começo!
— Muito bem. Vamos lá.
Estavam todos sentados ao redor da árvore. Ainda eram seis horas da noite, mas Aya queria abrir os presentes logo. Paul chegara mais cedo do laboratório e também estava ansioso. Icaro apenas balançava a cabeça e sorria.
— O primeiro presente... — Aya retirou um embrulho colorido da pilha sob a árvore. — É para o melhor irmão do mundo! O meu onii-chan!
Naomi e Paul bateram palmas. Icaro recebeu o presente de bom grado.
— Que legal! Um casaco de crochê! — Ele ergueu a peça vermelha, admirando-a. — E tem uma estampa do Kiba.
— Ieeei! — fez Aya, batendo palmas também.
— Ela passou dois meses tricotando — denunciou Paul. — Não sabia se sentia pena ou inveja.
— Paul! — repreendeu a menina.
— Verdade. Não queria sair do quarto nem para tomar banho.
— Mãe!
— Bom, minha vez agora — disse Icaro, pegando outro embrulho. — Meu primeiro presente é para a garota mais linda da minha vida.
— Eu! — Aya ergueu os braços. — Obrigada, onii-chan!
Ela rasgou o papel com ferocidade e quase estourou os tímpanos de todo mundo com seu gritinho agudo.
— Um Pikachu de pelúcia! — Abraçou-o com força e tomou um susto ao ouvir um ruído. — E ele faz “Pika pi”! Ah, Icaro! Eu amei, amei, amei!
Os demais presentes foram entregues com o mesmo entusiasmo. Aya ganhou um fichário acadêmico de Paul para que um dia pudesse realizar suas próprias pesquisas sobre Pokémons, além de um vestido rosado de sua mãe. Icaro ganhou um celular novo de ambos. Havia muito mais funções do que seu antigo, inclusive um mapa que indicava todas as áreas interessantes de Kanto.
— Nossa, que legal! Eu nunca mais vou me perder assim.
Paul gargalhou.
— E também vai poder tirar fotos dos Pokémons que encontrar. Fiz questão de comprar um modelo com uma excelente câmera.
— Quero que você tire fotos minhas também — intrometeu-se Aya.
— Nossa, um Pokémon fantasma.
— Cala a boca!
Icaro balançou a cabeça, rindo, e pegou mais um embrulho.
— Bem, meu segundo presente é para a segunda garota mais linda do mundo.
Naomi levou as mãos aos lábios, lisonjeada. Gostou bastante da pulseira.
— Obrigada, Icaro-kun. É muito bonita.
— E para o Paul... — Icaro estendeu um pequeno envelope. — Foi difícil guardar segredo até agora. Espero que tenham ficado boas. Pedi para um amigo meu revelar.
Paul abriu o envelope e admirou as fotos.
— Pokémons de Johto! Não acredito que conseguiu esconder o jogo por todos esses dias!
Icaro deu de ombros.
— Eu quase mordi a língua uma ou duas vezes com vontade de contar.
Paul afagou seus cabelos, ainda rindo.
— Olhe essas fotos... O pessoal do laboratório vai enlouquecer. Nossa! Este é o Umbreon?
— Sim. Tem um Espeon também em algum lugar.
— Fascinante. Fascinante.
Aya pigarreou, chamando a atenção dos outros.
— Bom, sei que o Paul e a mamãe ficaram judiando de mim, mas eles ainda merecem meus presentes.
— Você fez um casaco para mim também? — Os olhos de Paul brilharam.
— Não, seu bobo. Para você, eu fiz um cachecol.
— Ah... Mas que lástima!
Naomi riu até seus olhos lacrimejarem.
— Para a mamãe, eu fiz um gorro bem bonito. E, para o Kiba... — O cachorro ergueu as orelhas ao ouvir seu nome. — Um casaquinho!
— Por que ele ganhou um casaco e eu não? — protestou Paul, enquanto Aya lutava para vestir o casaco azul em Growlithe.
— Querido, não seja tão infantil — repreendeu Naomi, experimentando o gorro. — Aliás, você está muito glamouroso com esse cachecol.
— Obrigado. — Paul jogou a ponta do cachecol por cima do ombro. — Já posso ser capa de revista.
Naomi revirou os olhos.
— Vamos comer agora? — disse Aya.
— Você só pensa em comida, Aya-chan — provocou Icaro.
Péssima ideia. Seu estômago roncou justo ao final da frase. Naomi não foi a única a rir até os olhos lacrimejarem.
Todos pareciam tão felizes ao redor do kotatsu. Uma felicidade plena e acolhedora que ele sempre julgara não merecer. Mas, naquela noite, era como se tivesse tudo. Sim, ele tinha tudo. Ao contrário dela...
— Icaro-kun, está tudo bem?
Ele piscou, distraído. Naomi fitava-o com preocupação. De repente, todos os sons pareceram minguar, e Aya e Paul também aguardavam uma resposta.
— Eu... — Icaro pousou o copo sobre a mesa. — Desculpem...
Naomi prensou os lábios. Aya fez menção de tocar seu pulso.
— Você quer visitá-la, não quer?
Ele ergueu o rosto. Sentia o rubor dominá-lo, sentia a vergonha. Mas não queria desistir tão fácil.
— Sim...
Então, tudo era silêncio. Aya afastou o braço.
— Bem, nesse caso, eu acho melhor você se agasalhar bem. Está nevando muito lá fora.
— Naomi-san...
Ela balançou a cabeça.
— Não se incomode conosco. Nós entendemos.
— É... nós entendemos — murmurou Paul. — Ninguém gosta de ficar sozinho no Natal, não é?
Icaro olhou para Naomi. E depois para Paul. Então, Aya.
— Eu... Bom, eu posso curtir com você amanhã, não é mesmo?
Se tinha algo mais a dizer, Aya não conseguiu. Icaro abraçava a irmãzinha com força. Até ela se desmanchar em lágrimas.
— Tudo bem, tudo bem, eu vou voltar. — Ele beijou sua testa. — Espere aqui está bem?
Subiu as escadas às pressas para trocar de roupa e arrumar sua mochila. Kiba veio atrás. Era um companheiro fiel. Até ajudou, trazendo o casaco de crochê.
— Obrigado, amigão. — Icaro afagou suas orelhas. — Vai ser uma viagem árdua, e talvez sejamos expulsos. Quer ir mesmo assim?
Growlithe latiu.
— Ótimo. — Icaro jogou a mochila nas costas. — Vamos!
Quando voltou à sala, Naomi segurava uma bolsinha térmica com o obento.
— Para o caso de ela estar com fome.
Icaro pegou a bolsinha.
— Obrigado, Naomi-san. — Virou-se para os outros dois. — Obrigado, Paul. Obrigado, Aya-chan.
A menina ainda chorava, mas era consolada pelo padrasto.
— Cuide-se, Icaro.
— Até mais, onii-chan.
O vento frio cortou seu rosto quando ele saiu de casa. Kiba grunhiu um pouco. Nevava muito. Mal dava para enxergar alguns metros a frente. Icaro apertou a alça da mochila.
— Vamos!
Enquanto caminhavam, ele tentava não pensar no que aconteceria. Estava habituado a não pensar, pois tivera uma infância repleta de lamúrias. Melhor não criar expectativas. O que vier está bom. Se for bom de verdade, é lucro. E assim, um passo de cada vez, Icaro enfrentou a tempestade de neve até chegar à pequena rua. Parou em frente à casa repleta de escuridão. E bateu à porta.
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