Esta noite
7 Esta noite
Icaro não sabia descrever a expressão no rosto de Arrietty. Ela parecia surpresa. Não. Surpresa não era a palavra. Não era como se tivesse sido apanhava desprevenida. A expressão estava muito mais próxima da total descrença. Por um segundo, ele teve medo de ser mandado embora.
— O que você está fazendo aqui? Não me lembro de tê-lo convidado.
— Eu me convidei — ele arriscou. — Você vai bater a porta na minha cara?
Arrietty virou o rosto. Estava vestindo roupas simples. Basicamente, o pijama, um casaco e as pantufas. Icaro desejou ser capaz de ouvir pensamentos.
— Pensei que fosse meu pai, seu... seu estelionatário!
— Quê? Qual é o seu problema, hein?
— Qual é o seu problema aparecendo sem aviso na casa de uma garota que está sozinha?!
Ele abriu a boca para argumentar, mas não havia argumentos. Até Yuki aparecer.
— Você não está sozinha. Tem o Eevee.
— Ah, isso é novidade!
Ela se afastou bruscamente, mas deixou a porta aberta.
— Entra logo! Vai virar um picolé se ficar aí parado.
Icaro obedeceu sem contestar. Em sua mente de menino, obtivera uma vitória. Poderia sorrir de orelha a orelha. Só havia um pequeno problema: ele não sabia o que fazer em seguida. Seu plano terminara no bater à porta.
— Onde deixo minhas botas?
— Em qualquer lugar — Arrietty retorquiu com impaciência.
Ele prensou os lábios, desconfortável. Havia um par de pantufas na entrada, uma prova gritante de que a garota estava esperando o pai. Icaro sentiu-se um intruso ao calçá-las. Deixou a mochila em um canto qualquer e caminhou até a cozinha, onde Arrietty fitava a parede com uma careta emburrada.
— Por que não acende as luzes?
— Eu gosto do escuro.
Prensou os lábios outra vez. A casa inteira tinha gosto de ausência. Não havia enfeites na sala. Não havia pratos sobre a mesa. Não havia um kotatsu quentinho para a família conversar e beber chocolate quente.
— Você está bem?
— Sim, eu estou bem. Pare de me azucrinar!
Icaro coçou a nuca. Quase desejava ter ficado em casa. Acendeu a luz da cozinha e começou a abrir os armários. Arrietty não protestou.
— Caixas de chá.
— Sim. Eu gosto de chá. Algum problema?
— Não. — Ele meneou a cabeça. — É só que é muito chá. Tipo, chá para um ano inteiro. Você não enjoa de beber isso, não?
Arrietty encarou-o com uma expressão emburrada, mas logo começou a rir.
— Francamente... você é idiota?
— Eu não sou fã de chá. Vou fazer um chocolate quente, está bem?
— Não. Eu quero chá.
— Não sei fazer chá.
Kiba e Yuki acompanhavam a conversa como se fosse uma partida de tênis. No final das contas, Icaro fez chocolate quente para os dois. Arrietty segurou sua caneca sem dizer nada e sorveu um gole. O silêncio pairava entre eles.
— Escuta, eu... eu sei que você não está a fim de comemorar o Natal. Então, o que acha de só ficarmos aqui conversando ou assistirmos a algum anime na tevê ou algo do gênero? — perguntou o garoto.
— Parece bom para mim. — Ela deu de ombros. — É melhor do que ligar para a polícia para fazer queixa de invasão domiciliar.
— Ei, eu vim te fazer companhia.
— É um idiota! — Arrietty franziu o cenho. — Você tem uma família aqui. Uma família que te ama e fica muito feliz em te acolher. Por que abrir mão disso?
Icaro balançou a cabeça.
— Não estou abrindo mão de nada. Eles sempre estarão aqui para me acolher. Mas... passar uma noite sendo sua companhia é algo que eu só posso fazer hoje.
Ele ficou esperando. Arrietty cruzou os braços, ainda emburrada. Yuki enroscou-se em suas pernas.
— Qual anime você quer assistir? — ela perguntou.
E, apesar de tudo, Icaro sorriu.
Icaro precisou desviar dos noticiários noturnos e das programações natalinas. Já trocara suas roupas para se sentir mais confortável. Ou quase. Não dava para se sentir totalmente confortável com Arrietty sentada bem a seu lado, à distância de um toque. Growlithe e Eevee estavam deitados juntinhos em um canto do sofá.
— Deixe aí. Eu gosto desse anime — disse Arrietty.
Por um instante, Icaro pensou que estivesse brincando. Era um desenho infantil.
— Algum problema? — Ela o fitou.
— O quê? Ah, não. Nenhum. É só que a Aya gostava disso quando era criança.
Arrietty acomodou-se para assistir. Não estava mesmo brincando. Até conhecia a letra da abertura. Icaro não se importou de cantar com ela. Foi divertido. O momento mais íntimo que já tivera com uma garota além de sua irmãzinha. Enquanto assistiam aos episódios, ele se lembrou do velho truque de fingir se espreguiçar apenas para pousar o braço sobre o encosto da poltrona do cinema. Mas eles não estavam no cinema. Estavam dentro de casa, sentados no sofá. E Icaro pousou o braço no encosto porque conversava com Arrietty.
— Eu gosto das mensagens passadas. Meu pai sempre diz que a maior força de uma pessoa é a sua empatia, sua capacidade de sentir o que os outros sentem. E os personagens desse desenho fazem isso. — Ela estendeu o braço para acariciar as orelhas de Eevee. — Quando meu pai está aqui, nós às vezes assistimos a esse desenho antes de eu ir para a escola.
Icaro conteve um suspiro. Nunca fizera nada parecido com sua mãe. Ela era sempre tão seca. Parecia ter o coração de um Pokémon de pedra. Os olhos também.
— Estou ficando com fome...
— Eu trouxe um obento. Quer comer agora?
— Depois.
Ele voltou sua atenção para a tela. Por isso, quase não percebeu o toque. Arrietty estava mais próxima, e seu ombro encostava no casaco de Icaro. Conforme o episódio chegava ao fim, ela pareceu relaxar e reposou a cabeça em seu peito. Em seu canto, Kiba e Yuki não emitiam um único som.
— Quero jantar agora — anunciou Arrietty, afastando-se.
— Você não tinha jantado ainda?
Ela meneou a cabeça.
— Estava esperando meu pai. Para o caso de ele aparecer durante a noite...
— Kenshin havia prometido que viria para o Natal, não é?
Arrietty assentiu.
— Bom... — Icaro pensou em tocar sua mão, mas não teve coragem. — Deve ter ficado preso na nevasca.
— Talvez...
Os olhos dela pareciam tristes. Icaro pôs-se de pé.
— Vamos. Eu já jantei. Você pode comer tudo se quiser.
Arrietty não fez cerimônias quando viu a refeição cuidadosamente preparada por Naomi. Há dias não sabia o que era comida de verdade. Icaro percebeu isso pelos potes de macarrão instantâneo na lata de lixo.
— Você sabe cozinhar.
— Sim, eu sei. — Ela jogou um pedaço de carne para Yuki. — Mas não estava com ânimo para cozinhar.
— Precisa cuidar melhor da sua saúde. Tem dormido direito?
— Você é minha mãe agora?
Ela comeu até o último grão de arroz e lambeu os lábios. Levantou-se para lavar o pote.
— Quer que eu prepare mais alguma coisa para você comer?
— Não, eu estou bem.
— Eu posso preparar algo rápido.
Arrietty virou o rosto para ele, mas não respondeu. Icaro abriu a geladeira, selecionou alguns itens e preparou sanduíches. Growlithe e Eevee também foram contemplados e não paravam de balançar as caudas enquanto comiam. Os treinadores olhavam para eles, sorrindo.
— Acho que esses aí não desgrudam mais um do outro hoje — disse a garota.
— É... Seria maldade separá-los.
— Por que o Kiba tem um casaquinho azul? Aliás, por que você está usando esse casaco ridículo?
— Você achou ridículo? Eu achei fofo.
— Que tipo de garoto fica andando por aí chamando as coisas de fofas?
— O Mako-chin faz isso e você não diz nada.
— O Mako-chin é o Mako-chin. Você é você.
Icaro não conseguiu evitar o riso.
— Ah, a sua lógica.
Ela lhe mostrou a língua, mas estava rindo também.
— Nossa — disse de súbito, fitando o relógio de parede. — Já é uma e pouca da manhã.
— Você quer dormir agora?
Arrietty esfregou as pálpebras.
— Estou cansada. Você pode ficar com o quarto de hóspedes. É aqui no primeiro andar. Vou pegar um cobertor para você.
— Certo.
Kiba e Yuki seguiram Arrietty. Icaro ficou a sós na cozinha. Aproveitou para lavar a louça e guardar o que sobrara dos sanduíches na geladeira. O sono começava a pesar, mas ele não desejava dormir ainda.
— Icaro? — chamou Arrietty, parada na porta. — Já deixei tudo lá. Quer escovar os dentes agora?
— Sim.
Subiram as escadas. Havia um único banheiro na casa e ficava no segundo andar. Enquanto escovavam os dentes juntos, Icaro espiava os detalhes da forma mais discreta possível. Uma banheira rosada, uma escova com fios de cabelo negros, duas toalhas.
— Boa-noite, Icaro.
Ele se assustou.
— Ah, boa-noite, Arrietty.
Ela entrou no quarto, seguida de perto por Kiba e Yuki. Conforme Icaro previra, os dois amigos não queriam se separar. Acomodaram-se no pequeno cesto e dormiram juntinhos, um enroscado no outro.
Icaro revirou-se na cama diversas vezes. Acordou suado e com a respiração descompassada. Tivera aquele sonho de novo. Ele criança na casa de sua mãe. Chorando. E ela de pé olhando para ele como se não soubesse o que fazer. Esfregou as pálpebras e sentiu as pontas dos dedos ficarem levemente úmidas. Levantou-se para jogar uma água no rosto.
A porta do quarto de Arrietty estava aberta. Com a luz do banheiro acesa, Icaro conseguia enxergar parte do interior. Kiba e Yuki dormiam profundamente. E Arrietty... parecia franzir o cenho, como se tivesse um sonho ruim.
Ele entrou no cômodo sem fazer barulho. Olhando para ela assim, quase parecia uma garotinha inocente e inofensiva. Mas Arrietty era forte. Guardava as mesmas forças e as mesmas tristezas que Icaro. Ele beijou sua testa antes de sair.
Icaro acordou com os latidos de Kiba. Eram onze e pouca da manhã. A nevasca já havia cessado. Ele se arrastou até a cozinha e encontrou Arrietty esquentando a água. Seus cabelos estavam soltos.
— Bom-dia.
— Bom-dia, Icaro. Já dei ração para o Kiba.
Em um canto da sala, Growlithe e Eevee tomavam o café da manhã. Icaro sorriu. Fez menção de abrir a geladeira para pegar os sanduíches da noite passada, mas Arrietty disse por cima do ombro:
— Você já escovou os dentes, não é?
Ele subiu e desceu as escadas resmungando. Arrietty preparara xícaras de chá para ambos. Tinha de admitir que a bebida não era de todo ruim. Mas chocolate quente caía melhor com os sanduíches!
— Ah — fez Icaro, levantando-se da cadeira. — Me espere aqui. Eu já volto.
— Não. Eu vou sair de casa de pijama e rolar pela neve.
Em menos de um minuto, ele já estava de volta. Escondia alguma coisa às suas costas. Yuki aproximou-se, tentando cheirar.
— O que é? — perguntou Arrietty.
— Um presente.
— Eu disse que não queria comemorar o Natal.
Icaro hesitou por dois segundos.
— É um suvenir.
Ela revirou os olhos, mas estendeu a mão. Não pareceu muito surpresa diante da pequenez do embrulho.
— Não me diga que é um chaveiro.
Ele sentiu o rosto corar.
— É um chaveiro, não é?
— Quase isso.
Arrietty abriu o embrulho. Parecia ser um colar com um lindo pingente de madeira em formato de Eevee.
— Um colar?
— Me venderam como um marcador de página em Ecruteak. Você sempre gostou de ler, não é?
— Hum... — fez ela, analisando cada centímetro do pingente.
— Não gostou?
— Sei lá...
— Bom, nesse caso... — Com um movimento rápido, Icaro recuperou o marcador. — Acho que vou devolver.
— Você não pode pegar um presente de volta!
— Mas você não gostou. — Ele recuou alguns passos.
— Não falei que podia devolver pra loja.
Icaro sorriu.
— Então eu posso devolver?
Arrietty deu alguns passos para frente.
— Devolve. Para mim.
Ela tentou pegar o marcador, mas Icaro recuou de novo, esticando o braço para além de seu alcance. Kiba e Yuki acompanhavam, concentrados.
— Devolve, Icaro! — dizia Arrietty, rindo.
— Eu, não! — Ele recuava, rindo também.
Até que Icaro bateu contra a parede da cozinha, e Arrietty conseguiu segurar o pingente. Eles trocaram um olhar, e os risos congelaram por um instante. Havia apenas os olhos cinzentos, os olhos castanhos, e a lembrança tênue do presente.
A campainha tocou. Arrietty saiu correndo, deixando Icaro na cozinha. Ele ouviu o som dos passos e da porta sendo aberta. Então:
— Pai!
— Olá, Arrietty — disse Kenshin no tom calmo de sempre. — Como está a minha filhota?
— Eu estou bem, pai. — A voz dela parecia mais feliz. — Por que demorou tanto? Eu te esperei a noite inteira!
— Desculpe por isso. Eu acabei ficando preso em Viridian por causa da nevasca. Hoje de manhã, um amigo me trouxe a Pallet em seu Fearow.
— Por que não atendeu minhas ligações? Por que não ligou de volta?
— Desculpe. Meu celular apagou do nada, e eu não sabia o que fazer.
— Era só carregar, pai. Qual é o seu problema? Eu fiquei preocupada!
— Desculpe... Eu não sabia como carregar.
— E por que não perguntou para ninguém?
Icaro parou de ouvir a conversa. Estava nervoso. Tremia da cabeça aos pés. Mal reparou que ainda segurava o marcador de página. Yuki havia seguido sua mestra, e Kiba pelo visto fora atrás. Ele só conseguia pensar na reação de Kenshin quando descobrisse que a filha passara a noite sozinha com um garoto. Sobreviveria àquele dia? Conseguiria voltar a Johto? Ou perderia seu pescoço para sempre?
— Vocês ficaram sozinhos esse tempo todo?
A pergunta perigosa. Icaro gelou.
— Não. — A voz de Arrietty parecia calma. — Um amigo meu dormiu aqui no quarto de hóspedes.
— Um amigo? É o treinador daquele Growlithe ali?
Icaro engoliu em seco. Não havia como escapar. Saltar pelo basculante da cozinha não era uma opção. Por isso, pé ante pé, ele caminhou até a sala. Lembrou-se de erguer o rosto, sustentando o olhar também cinzento de Kenshin. O homem fitava-o com uma expressão séria, os lábios levemente abertos.
— Pai, este é Icaro. Irmão da Aya-chan, a enteada do Professor Paul. Lembra dele?
— Sim... Eu lembro.
Não podia recuar agora. Icaro continuou sustentando aquele olhar.
— Icaro, não é? Então, você fez companhia para minha filha durante o Natal?
Arrietty estava bem ali, mas ele não conseguia olhá-la. Apenas assentiu.
— S-sim. Nós passamos o Natal juntos.
— Entendo. Bem, neste caso... — Kenshin abriu um sorriso. — Obrigado por fazer companhia à Arrietty.
Icaro ainda tremia da cabeça aos pés. Não sabia se havia escutado direito. Mas Arrietty sorria, e Kiba e Yuki estavam tranquilos.
— É... Não há de quê! — Ele sorriu também.
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