Esta noite
5 Bonecos de neve
— Arrietty!
Ela olhou por cima do ombro. Icaro estava parado na entrada do parque. Atrás dele, um pequeno grupo de crianças e adolescentes movia-se inquieto.
— O que é? — Arrietty gritou de volta.
— Vamos brincar!
— Quantos anos você acha que eu tenho?
Em menos de um minuto, todos estavam reunidos em um pequeno círculo. Makoto fitava Arrietty tão de perto que quase tocava seu corpo. Pietro exibia-se para as outras meninas. No centro do círculo, Kiba, Yuki e Penny, a Meowth da família de Makoto, interagiam.
— Vamos fazer um boneco de neve? — convidou o ruivinho.
— Não sei fazer um boneco de neve — respondeu Arrietty.
— É fácil! Eu te ensino!
Makoto puxou Arrietty pelo braço, e os outros vieram atrás. Sem que ela pudesse opinar, formaram duplas e trios, dando início a uma competição tácita.
— Posso saber o que você está fazendo?
— Juntando neve para a bola maior — disse Icaro, formando um montinho no chão.
— Você entendeu o que eu quis dizer. Por que trouxe todo mundo?
— Já disse. Para a gente brincar.
Arrietty suspirou. Yuki enroscou-se em seus pés, tentando animá-la.
— Eu trouxe a cenoura! — exclamou Makoto, saltitando. — Arie-chan, vamos ganhar a competição!
Ela espiou os amigos. Todos pareciam se divertir construindo os bonecos. Pietro em particular estava muito animado.
— Eu vou usar meus poderes psíquicos para fazer o boneco se construir sozinho.
— De novo essa história, Pietro? — Riu Sarah. — Ainda não entendeu que é um ser humano normal?
— Ah, normal ele não é, não! — comentou Edward. — Nunca foi.
Icaro tocou o ombro de Arrietty.
— Então, vamos?
Ela o empurrou de leve.
— Está fazendo errado, maroto.
Os meninos sorriram enquanto ela se agachava para juntar um pouco de neve. Yuki insistia em enfiar o focinho onde não devia, desmanchando todas as bolas que a treinadora tentava criar.
— Vou pegar gravetos para fazer os braços — disse Makoto.
— Para quê? — Icaro segurou seu pulso. — Tem um graveto bem aqui, olha. Olha que bracinho fino!
— Seu bobo!
Quando Icaro caminhava para colocar a última bola de neve na pequena torre, Arrietty esticou a perna e o fez cair. Sua expressão de raiva era muito engraçada coberta de floquinhos brancos.
— Está parecendo a Penny! — exclamou Makoto, desabando no chão de tanto rir.
— Sem graça. — Icaro limpou o rosto. — Agora tenho de fazer tudo de novo!
— Eu ajudo você — disse Arrietty, mostrando seu sorriso mais inocente.
Ele agarrou um monte de neve e atirou nela. Mas Arrietty cumpriu sua palavra. Ajudou-o a terminar a estrutura do boneco e catou as pequenas pedras que serviriam como sorriso. Makoto apareceu saltitando entre os dois.
— Gravetos! Gravetos! Gravetos!
— Cuidado, Makoto! Vai destruir o boneco! — bradou Icaro, detendo o ruivinho.
Os três capricharam na decoração. Makoto trouxera algumas pedrinhas coloridas do chafariz em miniatura de sua mãe para fazer os olhos, e Icaro, um gorro e um cachecol extras, além de um conjunto de botões que surrupiara do cesto de costura da irmã. Arrietty deu o toque final.
— Prontinho.
— ‘Tá perfeito! Obrigado, Arie-chan! — disse Makoto, abraçando-a.
Ela ficou sem graça, mas fez carinho em seus cabelos ruivos.
— De nada. Mako-chin.
Alguns minutos depois, Pietro correu como um louco pelo parque, gritando:
— Acabou o tempo! Mostrem seus bonecos!
Arrietty tinha de admitir, seus vizinhos eram muito bons. Um boneco de neve mais lindo do que o outro. Mas o dela era melhor. Pois apenas ele tinha um Dragonite prateado como emblema de seu casaco de neve.
— Que lindo! — disse Sarah. — Onde vocês conseguiram isso?
Icaro virou o rosto para Arrietty, que exibiu um molho de chaves.
— É de um chaveiro. Presente de meu pai.
— Ah! — Pietro esfregou as têmporas. — Por que não pensei em trazer os Contest Ribbons da minha mãe?
Os outros riram. Pietro era dramático demais.
— O time do Icaro ganhou! — exclamou Edward, erguendo os punhos.
— Ehem! — fez Arrietty, um pouco mais alto do que o necessário.
— O time da Arrietty ganhou! — corrigiu Edward.
— Fala sério — murmurou Icaro. — Eu era o líder.
Ela o empurrou, e o rosto dele ficou coberto de neve pela segunda vez.
— E agora? — perguntou Sarah, olhando para seus amigos.
Makoto tinha a resposta na ponta da língua. Atirou uma bola de neve em seu casaco.
— Guerra de bola de neve! — gritou, agitando os gravetos, ou melhor, seus bracinhos.
Seguiu-se o caos. Cada um por si. Alguns se escondiam atrás dos brinquedos do parque. Outros, dos bonecos de neve. Apenas Arrietty, Icaro e Pietro eram corajosos o bastante para correr e saltar de um lado para o outro. Mas, no caso de Pietro, ele talvez fosse apenas muito tolo. E Kiba, Yuki e Penny observavam tudo com sorrisos ferinos.
Já estavam há quase uma hora nessa brincadeira, quando Aya surgiu, esbaforida.
— O-o... o que eu perdi?
Sete bolas de neve atingiram-na em cheio.
No final da tarde, cansados e tiritando de frio, os amigos dirigiram-se ao café mais próximo para tomar chocolate quente. Aya estava enfezada por ter sido alvo de quase todo mundo. Queria ter participado da construção dos bonecos de neve, mas passara muito tempo no laboratório, ajudando Paul a editar as gravações do Pidgey Pg002.
— Onii-chan, eu esqueci minha carteira. Paga meu chocolate? — pediu, puxando de leve a manga do casaco de Icaro.
— Ok, tudo bem.
Ele se assustou ao sentir alguém puxar a outra manga. Era Arrietty.
— Paga o meu também, onii-chan?
— Você não cansa de ser abusada, não? — ele bradou, corando. — E que história de “onii-chan” é essa? Está me chamando de velho, é?
Antes tivesse ficado quieto. Todos os seus amigos ouviram e fizeram questão de atazaná-lo pelo resto da tarde. Enquanto bebiam o chocolate quente, compartilhavam histórias de como fora o último semestre. Tiveram a consciência de não mencionar o que fariam no Natal.
— Eu me afundei em matemática — disse Pietro, erguendo o dedão.
— Isso é motivo de orgulho? — zombou Sarah.
— Só em matemática? — perguntou Edward.
— Eu me afundei em tudo! — corrigiu Pietro.
Riso geral.
— Ei, Aya-chan, como estão as pesquisas no laboratório?
Ela desviou a atenção de seu bolinho. Insistira muito para o irmão comprá-lo.
— ‘Tá tudo ótimo. O Paul talvez busque novos assistentes no ano que vem para juntar dados mais rápido.
— Eu! Eu! Eu! — Pietro balançou o braço.
— Para ser assistente do professor, precisa ter notas boas, Pietro — Sarah repreendeu-o.
— Ah, poxa...
Até Arrietty ria despreocupada.
— Vamos comer curry! Vamos comer curry! — cantarolava Aya, saltitando o caminho de volta para casa. Kiba saltitava com ela.
Alguns metros atrás, Icaro e Arrietty seguiam a passos lentos, conversando em voz baixa. Yuki estava dormindo no ombro da treinadora.
— Obrigada por pagar meu chocolate. Eu te devolvo o dinheiro amanhã.
Icaro sentiu o rosto corar.
— Não precisa.
Arrietty franziu o cenho.
— Não seria certo deixar assim. Você já me deu biscoitos e agora me pagou um chocolate. Eu não deveria ter esquecido a carteira...
— Eu insisto. Não precisa.
Ela prensou os lábios. Ergueu o rosto, fitando as estrelas. Não estava nevando naquela noite.
— Obrigada também por... chamar o pessoal.
Icaro sorriu.
— Eles estavam reclamando porque eu vou embora daqui a algumas semanas e não estou passando tempo suficiente com eles. Foi divertido, não acha?
Arrietty sorriu também.
— Muito divertido.
Ele estendeu o braço, mas justo nesse instante Arrietty decidiu esfregar as mãos.
— Está frio... — Ela o fitou. — O que foi?
— Nada. — Icaro ajeitou o gorro para disfarçar. — O que vai fazer amanhã?
Gostaria de ter evitado, mas precisava fazer a pergunta. Os olhos de Arrietty tornaram-se frios.
— Ficar em casa.
— Sozinha?
— Na rua eu não vou ficar, não acha? E eu não estarei sozinha. Tenho o Yuki comigo.
— Posso encontrar você.
— Não quero.
— Arrietty...
— Você veio passar o Natal com sua família. — Ela parou, encarando-o. Eevee abriu os olhinhos de leve. — Não pode deixá-los de lado agora!
— Eles vão entender! Na verdade, nem se importariam se você fosse lá em casa.
Arrietty ergueu o queixo.
— Recuso.
— Você é tão teimosa...
— Me deixe em paz! — Ela fez menção de ir embora. Eevee piscou, completamente desperto, e olhou da treinadora para o garoto.
— Eu estarei no parque.
Arrietty estancou. Mas não olhou por cima do ombro.
— Eu estarei no parque. Amanhã. No mesmo horário.
Ela não respondeu. Seguiu caminho por uma das ruas.
— Arrietty!
— Minha casa é para lá!
— Deixe-me acompanhá-la, então.
Icaro tentou segurar seu pulso, mas ela se desvencilhou. Não saiu correndo. Não era de seu feitio. Apenas caminhou tranquila até sumir do campo de visão dele.
— Onii-chan? — murmurou Aya ao vê-lo se aproximar. — Vocês brigaram?
Ele suspirou. Não sabia como explicar a situação para sua irmãzinha. Afagou seus cabelos.
— A Arrietty estava cansada e quis ir para casa logo.
— Mas vocês brigaram?
Prensou os lábios. Não era fácil enganar a menina. Aya era madura demais para sua idade.
— É. Nós brigamos.
Aya fez um som de desgosto.
— Culpa do onii-chan por bancar o sabe-tudo.
— Ei...
— Garotas não gostam de meninos mandões. Você não deve ficar dizendo a ela o que fazer e o que não fazer, onii-chan.
— Mas eu não...
— Leve em conta os sentimentos dela. Não é isso que você sempre diz para eu fazer quando estou com as outras pessoas?
Icaro não soube responder. Ficou parado como idiota, a boca aberta. Encarava os olhos âmbares da irmã, perguntando-se quando ela mudara tanto. De um dia para o outro, parecia outra pessoa.
— Eu sei que disse isso, Aya-chan. Mas... — Ele suspirou, buscando as palavras. Demorou a encontrá-las. — Mas, às vezes, nós temos de insistir um pouco. Para fazer as outras pessoas se abrirem para sempre.
— Mas forçar esse tipo de coisa não é legal. A pessoa tem que se sentir confortável para contar por iniciativa própria o que está incomodando. O Paul sempre disse: confiança não se pede; é conquistada.
Onde estavam os Pokémons psíquicos responsáveis pela abdução de sua irmã? Icaro pensou um pouco. E sorriu. Afagou os cabelos dela.
— É. Acho que tem razão.
De pé na pequena sala, Arrietty esperava, ouvindo uma música natalina irritante. Yuki enroscou-se em suas pernas, preocupado. Fazia horas que ela digitava os números no telefone, mas ninguém nunca atendia.
— Não deveria ter algum infeliz de plantão? — resmungou a garota. — E ainda põem essa música estúpida de espera...
Do outro lado da linha, alguém finalmente atendeu. A julgar pela voz embargada, estivera dormindo.
— Boa-noite! Equipe de plantão da Zona Safari. Em que podemos ajudar?
— Boa-noite. Eu preciso falar com uma pessoa que está trabalhando aí.
— Como ela se chama?
— Kenshin Nakamura.
— Um momento, por favor.
Arrietty esperou durante uma eternidade. Preferia ligar para o celular do pai, mas só dava fora de área. No mínimo, Kenshin se esquecera de carregá-lo de novo.
— Senhorita?
— Sim?
— Nakamura-san não se encontra nos aposentos dos funcionários.
— Você sabe onde ele está? No Centro Pokémon, talvez?
— Sinto muito. Não sei informar.
— Tsc, mas que droga...
— Algo mais?
— Não. É só isso. Obrigada.
— Desejamos uma boa-noite e um feliz Natal.
Arrietty pôs o telefone no gancho. Deixou-se cair no sofá, exausta. Disse a si mesma que não iria chorar. Mas os móveis deviam estar cobertos de pó, pois uma alergia irritante decidiu importuná-la.
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